Escolhas
2 1- Segunda-feira perfeita!
Janeiro de 2010
O som está alto de mais e minha cabeça parece que vai explodir, têm luzes piscando por todos os lados, esbarro em alguém que derrama sua cerveja em mim e sai me xingando, desaforado. Ele derruba cerveja em cima de mim e fica reclamando, quem ele pensa que é?
— Molhou minha sapatilha de camurça, seu MERDA! — Gritei, obviu que não me ouviu, com esse com alto ninguém ouviria.
Fui andando na direção da porta de saída, esbarrando nas pessoas que estavam dificultando a minha passagem, de onde surgiu tanta gente? . Dei de cara com alguém, olho para frente e para cima, é um homem alto bonito e sensual, tá bom não era tão sensual assim, ele estava usando uma camisa xadrez bem fora de moda, daquelas que só se usa em festas junina. Ficamos olhando um pra cara do outro, ele bloqueando minha saída, esse cara não vai sair da minha frente? Pensei em empurra-lo mas como adulta e boa moça, pedi educadamente para que ele saísse logo da minha frente.
— MIAU- foi o que ouvi em resposta
— Cara, da pra parar de palhaçada e sai logo, tá bloqueando a saída! – falei gesticulando.
— MIAU, MIAU... prrru
O cara tá até ronronando agora, era só o que me faltava, além de bloquear a saída tá imitando um gato. Irritada comecei a empurra-lo, mas como ele é maior e mais pesado que eu não saiu do lugar, olho para a cara dele que de repente ficou como um borrão, ainda sim ouvi sons de gato miando, gato não gatos, olho para trás e todas as pessoas estão com rostos do meu gato, como híbridos de pessoas com cabeça de gato, volto a olhar pro homem que bloqueava a minha saída e ele também tem cara de gato. O que é isso, quero sair daqui, quando ele me pega pelos braços e começa a me sacudir, acordei!
Nossa, que sonho mais estranho, percebo que Bichano, meu gato, estava em cima de mim miando e puxando meu cobertor, me acordando antes da hora de ir trabalhar, deve estar com fome ou com vontade de ir pra rua fazer suas necessidades diárias. To tão cansada da noite passada, foi dia de trabalho no pub e foi “puxado”, e ele vem me acordar cedo.
— Bichano?! Isso é jeito de me acordar? Vem que vou te dar comida – falei passando a mão pelo seu pelo macio.
Levantei preguiçosamente, fui me espreguiçando e esbarrando nos moveis, até chegar à despensa onde fica a ração dele. Tem tanta tralha aqui, acho que é por isso que se chama despensa, por que é onde ficam as “coisas” que não merecem lugar especial nos outros cômodos do apartamento. Peguei o pote de ração do gato que ficou rodeando meus pés e miando sem parar, passo pela cozinha, que fica ao lado da despensa, e ignoro completamente o relógio que tiquetaqueava 8:15 da manhã.
Me abaixo e coloco a ração no pote do gato e fico acariciando seu pelo enquanto ele come desesperadamente, até parece que faz anos que não come, esfomeado. Levanto-me e olho para trás na direção do micro-ondas, o relógio marca 8:17, dou de ombros, volto a olhar para o gato. O que?!
— 8:17! – exclamei alto – Mas, que cacete, estou atrasada, espero que de tempo de chegar na hora de bater o primeiro ponto das 8:45.
Deixei o bichano ali comendo e ao me virar com pressa para me arrumar derrubo o pode grande de ração que deixei ali na cozinha, droga! Ignoro e vou voando para o quarto, pego meu uniforme, calça e camisas sociais, coloco o uniforme o mais rápido que posso, com as calças sem abotoar vou correndo para o banheiro pego minha escova de dente e começo a escovar, enquanto escovo com uma das mãos dento me ajeitar com a outra. Taquei a escova dentro da pia, joguei uma água no rosto – literalmente joguei a água, quase ensopei a minha roupa — coloquei minha sapatilha de camurça, acho que foi por isso que sonhei com ela, estou sempre a usando, qual é o problema? Ela é super confortável e combina com meu uniforme. Dou uma olhada do espelho para ver se estou apresentável.
Vou correndo pela porta, dou tchau para o gato – que se diverte com a ração espalhada pelo chão – desço o mais rápido possível pelas escadas do meu prédio, de dois em dois degraus, o prédio tem elevador mas está sempre enguiçado ou demora de mais para subir, então ir de escadas é a melhor opção, é um prediozinho meia boca na cidade, mas dá para sobreviver. Cheguei no terreo, olho a hora no meu celular 8:25, nossa senhora tenho que correr.
— Bom dia Maya! – me cumprimentou o porteiro, sorridente.
— Ah, oi, Seu João! – falei, não consigo ser tão simpática antes das 10h da manhã, quem dirá atrasada.
— Hoje o dia vai ser bem bonito, esta fazendo um sol quente lá fora, pena que temos que trabalhar. – Disse ele, querendo puxar assunto e ser simpático.
— Seu João, estou tão atrasada que nem vou perceber como esta essa manhã, eu só quero a chave do cadeado de uma das bicicletas. – falei com um sorriso quadrado, para não parecer rude.
Ele me entregou a chave e fui para garagem pegar a bicicleta, no meu prédio usamos o sistema de bicicleta solidaria, não, não tenho carro, pelo menos não mais, tive que vender pra ajudar nas despesas do apartamento, foi difícil no inicio, mas já me acostumei. O esquema de bicicletas ajuda bastante, os moradores deixam as suas bicicletas na garagem para quem precisar usa-las, desde que as devolvendo no estado em que pegou, o porteiro é quem faz o controle das chaves dos cadeados.
Hoje, Graças a Deus, tinha uma boa bicicleta me esperando, uma Caloi, semana passada peguei uma de garupeira antiga que pertencia a um antigo morador, ele foi embora e deixou sua bicicleta enferrujada. Com essa bicicleta boa vou chegar mais rápido, tem até amortecedores, saindo da garagem subo na bicicleta e vou pela calçada pedalo rapidamente. Andar de bicicleta me garante alguns minutos para chegar ao trabalho, de carro teria transito de mais e eu teria que acordar mais cedo, porém hoje estou muito atrasada não terei vantagem de tempo.
Passei voando por uma senhora que passeava na calçada com o seu cachorro, ouvi ela resmungar alguma coisa, ela passeia com esse cachorro todos os dias,sinto um pouco de inveja dela por ter esse tempo. Passo por uma lanchonete e sinto aquele cheiro gostoso de café novo sendo feito, meu estomago ronca, não pude nem tomar uma xícara. Algumas pessoas estão pela calçada indo para seus compromissos e outras já estão trabalhando, me desvencilho de um grupo de crianças que estavam, esperando para atravessar a rua no cruzamento, passo correndo não posso esperar vou chegar atrasada no meu emprego, ouço uma buzina. Olho para saber quem buzinou, é uma moto que passou a centímetros de mim.
— Filho da mãe, não olha por ande anda não?!– gritei enquanto estava quase chegando ao outro lado da rua.
— Moça, cuidado com o carro – ouvi uma senhora falando do outro lado da rua.
Cuidado com o carro? Mas foi uma moto que quase me atropelou. Olho em direção a senhora dona da voz e ela esta apontando para o meio do cruzamento, corro com os olhos na direção que ela aponta, um clarão chega até mim e sinto uma dor aguda na minha cabeça, vejo o pneu da minha bicicleta voando acima de mim, fico entre claro e escuro, claro e escuro... consigo ouvi as vozes das pessoas e aproximando, ouço buzinas. Uma voz gritando ao longe “Alguém chama uma ambulância” .
Claro, escuro... claro.. um rosto não familiar acima de mim.. escuro... claro...olho pro lado e a bicicleta está amassada.. escuro.. claro..a pessoa fala comigo.
— Moça? Você está me ouvindo? Moça – falou uma voz estranha.
— E..Eu.. o que? – tento falar alguma coisa, mas a minha cabeça está doendo tanto, sinto gosto de sangue e os rostos ao meu redor estão ficando embaçados.
— Não se preocupe nós já chamamos a ambulância, vai ficar tudo bem. – ouvi aquela voz de novo.
Esta tudo girando ao redor, os rostos estão sumindo e aparecendo na minha frente, ouço algumas vozes e sons de motores de carros, sangue gelando na minha perna, uma dor na cabeça horrível. Tento me levantar mas uma mão está me segurando e falando comigo, mas não ouço o que ela diz, parece que meus ouvidos foram tapados com algodão, rostos sumindo e aparecendo, sumindo, sumindo, sumindo, escuridão.
***
Abro os olhos e estou deitada, assustada. Olho ao meu redor e vejo uma mulher com macacão azul e um homem também. Tem alguma coisa na minha boca, tento levantar a mão para tirar e sinto que alguém toca em mim. Esta tudo balançando e ouço sirenes, tem um tubo no meu braço e minha perna está presa em algum lugar, não consigo me mexer.
— Oi querida, estamos indo para o hospital está bem? – falou a mulher – vai ficar tudo bem.
Olho para ela e abro a boca, mas as palavras não saem, minha perna ta doendo muito, minha cabeça ta latejando. A mulher de macacão fica olhando para mim, eu olhando atônita para ela, meus olhos estão ficando pesados, ela está sumindo do meu foco. Apago.
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