Escolhas
2 2 - Aqueles Olhos.
Notas iniciais

Narr — Leonardo M.
— Eu toco a campainha e você fala.
— Por quê eu? – protestei.
— Porque sim – ela apertou o botão na parede e me empurrou. – Vai, anda!
Quis protestar novamente, mas a porta se abriu. Meu sorriso amarelo logo se formou quando vi aquela mesma mulher de mais cedo na minha frente.
— É... Hm... Olá.
— Oi crianças. Como vão?
— Bem – A Juliana passou por mim e sorriu também. – Dona Susana, esse é o meu amigo Leo. Nós viemos ver a Elisa.
— Ah claro, podem entrar! – ela deu passagem, e a Ju me puxou pelo braço. Eu estava bastante sem graça, não sabia por que.
— Só um minutinho que eu vou chama-la – a mulher subiu as escadas e quando ela sumiu olhei furioso para Juliana.
— Por quê você sempre me obriga a pagar pelas suas burradas? Eu não tinha nada que ter vindo aqui!
— Porque você é meu melhor amigo! E para de reclamar!
Estava prestes a argumentar novamente, quando Dona Susana apareceu na sala. Atrás dela vinha alguém.
Tudo aconteceu rápido, mas foi como se os movimentos tivessem ficado em câmera lenta. A garotinha que a Juliana tinha mencionado era Elisa. Em seus braços pequenos ela segurava algum brinquedo rosa. Seus cabelos eram castanhos, longos e cacheados no final das pontas. Os olhos dela... Eram fascinantes. Aqueles olhos verdes parecia iluminar todo o ambiente. Eu nunca vi uma menina tão bonita na minha frente antes.
— Elisa, chegou mais um coleguinha pra você conhecer – a mãe dela apontou para mim e eu sem perceber, sorri.
— Oi Elisa, tudo bem?
Ela continuou séria, sua expressão era indescritível, e eu não consegui constatar se ela tinha gostado ou não da minha presença.
— Viu? Ela não responde nada que a gente pergunta— Juliana sussurrou em meu ouvido.
Não dei importância e me aproximei da garota, que aparentava ser um pouco mais alta que a Ju.
— Meu nome é Leonardo, mas pode me chamar de Leo se quiser.
Eu não fazia ideia de como lidar com um autista, mas ouvi meu pai dizer algumas vezes que jamais devíamos trata-los como se fossem esquisitos. Eram apenas crianças diferentes das demais.
A única coisa que tinha certeza, era que precisava passar uma certa confiança para ela.
— Que boneca linda... – olhei para seus braços. – Eu também tenho vários brinquedos lá em casa.
— Talvez ela prefira ver os meus.
— Se quiser, eu posso te mostrar – ignorei o comentário da Juliana. Será que ela não estava vendo que eu estava tentando interagir com a garota?
Elisa continuou olhando pra mim sem nenhuma reação. Por vários segundos. Eu continuei sorrindo, pois não queria que ela se sentisse assutada, ou coisa do tipo. Mesmo com doze anos eu já tinha muita consciência das coisas. A Juliana precisava aprender muito comigo.
Dona Susana estava parada segurando a mão dela dês de que chegaram na sala, por algum motivo ela parecia não querer soltar a mãe.
— Posso ver?
Ela me encarou com aquele mesmo olhar. Piscou devagar e... Para minha surpresa, ergueu o brinquedo para mim. Parece que aquilo não só surpreendeu a mim, como a mãe dela e a Ju também.
— Ela quase não deixa ninguém tocar nessa boneca – disse a mulher.
Eu não sabia o grau de importância que aquilo tinha, mas pela cara que a Dona Susana fez, com certeza foi algo realmente extraordinário.
Elisa não tirava os olhos de mim, e nem eu conseguia tirar os meus dela. Tinha alguma coisa curiosa sobre aquela garota que eu não podia explicar.
— Ela tem nome? – perguntei, mesmo não esperando que ela fosse me dar uma resposta.
Sim, ela continuou calada. Mas percebi um pequeno sorriso brotar no seu rosto. Não precisava de resposta, aquela sem dúvida foi a melhor.
— Dona Susana – Juliana começou, – tudo bem se a Elisa for lá em casa amanhã para brincar com a gente?
— Bem... – a mãe coçou a cabeça. – Eu não tenho certeza se é uma boa ideia, crianças... Nós acabamos de nos mudar, e a Elisa ainda não se acostumou com a vizinhança.
— Não se preocupe com isso, nós vamos cuidar bem dela. E meus pais vão adorar a visita.
— Se ela tiver disposta, por mim tudo bem. Vou falar com meu marido e acertamos depois.
— Certo – Juliana concordou indo até mim. – Melhor a gente ir, Leo. Meus pais devem estar me procurando.
— Já? – perguntei, ainda hipnotizado naqueles profundos olhos verdes.
— Sim, vamos – ela tirou a boneca da Elisa com cuidado de minhas mãos e a devolveu.
Dona Susana acompanhou a gente até a porta, e logo na saída eu pude escutar em alto e bom som uma voz incrivelmente doce;
— Lola.
Quando virei de costas, Elisa estava parada no mesmo lugar, sorrindo. Juliana parece não ter escutado, pois continuou me puxando e eu não tive tempo de responder nada.
Ela tinha falado.
Ela tinha falado comigo.
— Lola – repeti, quando já estavamos do lado de fora. – Então é esse o nome dela...
— Nome de quem? – Juliana perguntou, me tirando dos pensamentos.
— Ninguém... – suspirei, abrindo um sorriso de canto.
[...]
Eu nunca me interessei tanto por uma coisa só, dês de que comecei a assistir Dragon Ball pela primeira vez.
Depois de ter saído da casa da Elisa naquele noite, passei a encher o meu pai de perguntas sobre o autismo. Eu queria saber tudo sobre essa doença. Quais eram as formas de aproximação, o que falar, o que não falar. O que fazer, o que não fazer.
Meu pai era psiquiatra, e sabia tudo sobre esses assuntos. Confesso que cheguei a encher o saco dele por várias semanas perguntando só sobre essas coisas. Minha mãe até achou que eu estivesse com algum problema psicologico também.
Mas a verdade era que... A Elisa me fascinou. Não só a aparência dela, como o jeito curioso que ela tinha. Cada vez que olhava aqueles olhos verdes, ela parecia estar querendo me dizer mil coisas, e eu estava ansioso para começar a decifrar cada uma delas.
Aos doze anos... Eu apaixonei por uma garota.
Uma garota autista.
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