Escolhas
3 3 - Nada Como Antigamente.
Notas iniciais

Narr — Juliana A.
Um ano depois...
04 de Maio, 2006 – SP
— Leo! Anda logo, estamos atrasados! – chamei pela terceira vez.
A porta se abriu no mesmo minuto e me deparei com Leo pulando de um pé só, enquanto terminava de colocar o outro par de tênis. Sua boca estava ocupada segurando um pedaço de pão. Pelo visto alguém tinha dormido bastante aquela manhã.
— Devia tirar uma foto dessa cena... – brinquei abrindo o portão para ele passar. – Não vai me dizer que madrugou ontem de novo?
— Não vou dizer então – ele respondeu após engolir o pedaço do seu sanduíche.
— Você vai acabar ficando doente desse jeito, Leo.
— Eu tô ótimo.
— Aham... As provas começam na próxima semana, quero ver como vai fazer pra passar.
— Não é por causa de noites mal dormidas que eu vou ficar burro.
Revirei os olhos com aquele comentário idiota e ele me puxou pelo braço para andar mais rápido.
— Agora cala a boca que a Elisa já deve estar esperando a gente.
A ‘Elisa’. Claro.
Tudo bem que ela é a nossa amiga, mas por que temos que ir com ela todos os dias pra escola? Virou quase uma obrigação. Um dever. Pelo menos para mim.
A casa dela ficava logo em frente a dele, então a companhia de Elisa para ir ao colégio passou a ser bem frequente dês do dia em que ela se mudou para cá. Isso não deveria me incomodar, afinal de contas nós eramos praticamente os únicos amigos que ela tinha. O problema é que quando estamos os três juntos, me sinto um pouco excluída. O Leo dava sempre mais atenção a Elisa do que a mim. Sempre íamos para o colégio juntos, mas acredito que se um dia eu não aparecesse, ele talvez nem notaria, já que ele não nota nem quando estou presente.
Não deu tempo nem de tocar a campainha, pois a Elisa já havia aberto a porta. Como sempre, ao ver Leo em sua frente, seu sorriso encantador se abriu. Uma coisa bastante curiosa sobre ela; a Elisa nunca sorria se o Leo não estivesse. Nem mesmo pra mim.
— Dormiu bem? – foi a primeira coisa que ele perguntou, também com aquele sorriso bobo na cara.
— Mais ou menos. Fui dormir bastante tarde.
Ah, agora estava explicado. Provavelmente eles passaram a madrugada conversando pelo celular, como sempre.
— É, acho que exageramos um pouco dessa vez... – Leo disse passando a mão por trás da cabeça.
— Oi Ju – ela finalmente percebeu a minha presença ali.
— Oi Lisa – respondi e me virei. – E aí, vamos?
Tentei não demonstrar nenhum tipo de incomodo aquela manhã. Já estava começando a ficar meio obvio os meus ciúmes pelo Leo, mas graças a Deus ele era lerdo demais para notar essas coisas.
Por sorte, encontramos o Caio no caminho, e eu teria alguém pra conversar.
— E aí pessoal! – exclamou ele indo em nossa direção, e abraçando Elisa logo em seguida.
Aquilo pareceu aborrecer o Leo, pois o abraço não durou nem meio segundo, e Caio já tinha sido empurrado por ele.
— Sem grude hoje Caio.
— Calma Leozinho, só estou cumprimentando a garota – riu ele, colocando o braço em torno dos nossos ombros.
A nossa trajetória até o colégio se resumiu basicamente na Elisa e o Leo conversando atrás de nós. As vezes achava que eles andavam devagar de propósito, só para não ouvirmos o que diziam.
Caio, mais do que ninguém percebia minha frustração quando o assunto eram eles dois.
— Se estivéssemos em um gibi com certeza estaria vendo a fumacinha saindo em cima da sua cabeça – ele disse apenas para eu ouvir. Por mim ele poderia ter falado alto, afinal o Leo nunca iria escutar.
— Não começa, Caio.
— Começar o que? Só falo o que vejo – ele deu de ombros.
— Pois está vendo coisas. Eu não estou com raiva de ninguém, se é isso que está insinuando.
— Eu não disse nada... – ele riu dessa vez, e me puxou pra perto me abraçando de lado. Queria muito que o Leo se sentisse incomodado quando o Caio me abraçava também, mas infelizmente só parecia funcionar quando era com a Elisa.
Entramos no colégio, e fui direto para sala.
Meu lugar de costume antes da Elisa entrar na escola, sempre foi ao lado do Leonardo, agora tenho que me contentar em sentar atrás dele e ficar observando os dois trocarem bilhetinhos em todas as aulas.
Isso é que dá ter um amigo homem como seu melhor amigo. Tudo seria diferente se eu tivesse uma melhor amiga.
— Espero que não tenham esquecido do trabalho de hoje – o professor de português disse ao entrar na sala. – Todo mundo arrastando as cadeiras que vai ser em dupla.
Ai não... Trabalho em dupla. Taí uma das coisas que eu mais gostava na escola que passei a detestar com toda intensidade. Trabalho em dupla antigamente significava Leonardo e Juliana juntos durante toda a aula. Agora, passou a ser Leo e Elisa juntos durante toda a aula. Eu odiava me sentir excluída.
— Ju, dessa vez eu vou fazer com a Elisa, tudo bem?
“Dessa vez”? Sério, Leonardo?
Não respondi, mas balancei a cabeça fingindo um sorriso. Ele sorriu de volta como forma de agradecimento e em um piscar de olhos já tinha jogado sua mesa para perto da Elisa.
Suspirei e fechei os olhos, esperando alguém ficar sozinho para sobrar comigo.
— Seu ciúmes é tão evidente que nem sei como ele ainda não notou.
Caio apareceu do meu lado, arrastando sua mesa.
— Quem disse que eu estou com ciúmes? – me irritei, mesmo sabendo que já não era novidade mais pra nenhum ser-humano.
Estava mesmo, mas ia morrer negando.
— Qual é Ju? Dês de que a Elisa se mudou pra cá que o Leo não anda mais tão grudado em você como antes. E eu te conheço, sei que sente ciúmes deles.
— Não sei do que está falando...
— Pode falar, Ju! É normal sentir ciúmes dos amigos... Não devia sentir vergonha disso.
Negar até a morte. Negar até a morte. Negar até a...
— Tudo bem, você venceu! Eu tô com ciúmes sim, ok?! – exclamei, e coloquei as mãos no rosto para esconder qualquer vermelhidão que começasse a aparecer nas minhas bochechas.
— Sabia – ele soltou uma risadinha e puxou o meu braço. – Já disse que é normal, Juliana. Não precisa ficar com vergonha.
— É que... Eu não gosto de sentir essas coisas. O Leo sempre foi assim legal com todo mundo, mas...
— Com a Elisa ele é legal até demais.
— É... – suspirei olhando pra baixo.
— Ele tem motivos pra isso, Ju.
— Sim, eu sei que ela é autista, e precisa de mais atenção do que os outros.
— Não é só por isso.
— Eu admiro ele por ser assim, só que eu me sinto muito sozinha quando eles estão juntos. É como se eu estivesse invisível.
— Não exagera...
— Não é exagero, Caio. Nada é como antes, e você sabe. Nós três sempre andamos juntos, agora ele só prefere passar os intervalos com a Elisa. Fazer os trabalhos com a Elisa. Ir e voltar do colégio com a Elisa... Sinto que não ocupo mais o posto de melhor amiga dele — desabafei.
— Ju... Você continua sendo a melhor amiga do Leo. Ele só trata a Elisa desse jeito porque...
Nunca consegui saber o resto daquela frase, já que o professor parou bem na frente da nossa mesa.
— O papo está bom por aqui, não é?
Rimos, mas ao ver a expressão séria dele paramos rapidamente.
— Se eu ouvi a voz de algum de vocês, será trabalho individual para os dois.
Concordamos com a cabeça e ele seguiu o caminho para o fundo, reclamar com os outros alunos.
— É impressão minha ou você vai fazer dupla comigo? – sorri quando me dei conta que ele tinha pego suas coisas para sentar do meu lado.
— Impressão sua... – ele começou a folear as páginas do livro, com uma expressão engraçada no rosto.
Sorri contente, é claro que ele iria.
O Caio era maravilhoso. Ele só tinha um defeito.
Ele não era o Leo...
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