Escolhas
1 1 - Vizinhos.
Notas iniciais

25 de Março, 2004 – SP
O barulho do caminhão de mudanças que estacionou bem na frente da minha casa foi alto o suficiente para me desconcentrar. Quando me dei conta, a bolinha de gude já estava rolando em direção ao outro lado da rua.
— Lá vai outra! Quer prestar atenção, Leo?! – a voz da Juliana me trouxe de volta a terra.
Nós estávamos brincando no passeio durante o final daquela tarde.
— Ah... Foi mal.
— É a sua vez de buscar – ela me lançou aquele mesmo olhar de desaprovação, toda vez que eu ficava distraído quando resolvíamos jogar alguma coisa.
— Tudo bem – não protestei e me levantei para ir procurar.
Dois homens saíram do caminhão quando atravessei a rua, e de lá começaram a tirar várias caixas e alguns moveis. Um homem de bigode abriu a porta da casa e sorriu quando viu que eles estavam lá.
Fingi estar procurando a bola de gude da Ju, mas na verdade estava mais curioso em saber quem seriam os novos moradores. Fazia poucas semanas que os antigos vizinhos tinham vendido aquela casa, e geralmente demorava para aparecer novas pessoas que quisessem comprar, mas desta vez foi rápido, pois eles já estavam lá.
Uma moça de cabelos curtos e castanhos apareceu logo após o homem baixinho. Deduzi que fosse a esposa dele. Será que eles tinham filhos? Estava mesmo precisando fazer novos amigos, já que a Juliana era a única que morava no mesmo bairro que eu.
— Leo! – ouvi ela me chamar.
— Já estou indo! – gritei de volta e dessa vez realmente comecei a procurar pelo objeto.
— Cuidado com essa caixa Luiz! – a mulher disse em voz alta. – São os brinquedos da Elisa.
Elisa.
Então eles tinham uma filha.
Torci a boca meio desapontado. Não ia ser dessa vez que teria algum amigo por aqui. Pelo menos a Juliana ia ter outra companhia além da minha. O jeito era me contentar em jogar bola somente no colégio.
Não demorei muito pra achar a bolinha de gude, e voltei pro passeio esperando pelas reclamações dela.
— Que demora!
— Não tava achando – disse ao entregar.
— Você já perdeu quatro bolinhas minhas, a próxima eu pego uma das suas.
— Como se você já não tivesse feito isso... – revirei os olhos.
— Os novos vizinhos já chegaram? – ela finalmente pareceu perceber o caminhão de mudanças ali na nossa frente.
— Já.
— Será que eles tem filhos?
— Filha.
— Sério? – os olhos dela brilharam com a noticia. – Como você sabe?
— Ouvi a mulher comentando – dei de ombros. – Só espero que não seja chata que nem você.
— Ah, cala boca! – ela tentou me empurrar, mas desviei rindo. – Quantos anos ela deve ter?
— Sei lá, Juliana. Podemos continuar?
— Tá chateado porque não é um garoto? – ela perguntou, rindo.
— Já tá na hora de aparecer um. Não aguento mais ter só meninas nesse bairro.
— Deixa de besteira, talvez ela tenha algum irmão.
— Duvido muito. Eu sou azarado pra essas coisas.
— Então vamos perguntar – ela se levantou e puxou meu braço, mas continuei sentado – Vem Leo!
— Eu não. Vai você.
Sem olhar, deduzi que ela tinha colocado as mãos na cintura, o que fazia toda vez que era contrariada por mim. Sabia que ela não iria insistir, pois nunca conseguia me obrigar a nada.
— Tudo bem, eu vou. Fica aí brincando sozinho.
— Vou mesmo.
Ela saiu andando em direção a casa da frente e eu continuei onde estava. Por um lado seria até bom saber se essa tal de Elisa tinha ou não um irmão. Se eu tivesse sorte, da mesma idade que eu.
[..]
Anoiteceu e eu resolvi ficar em casa jogando. A Juliana ainda não tinha aparecido aqui, provavelmente fez amizade com Elisa, e com certeza estavam brincando de boneca. Hunf... Garotas.
A campainha tocou e minha mãe me gritou para pode ir atender. Fui resmungando, pois a porta ficava bem ao lado da cozinha, onde ela estava. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Juliana entrou passando direto para a sala. Pegou meu controle remoto e se jogou no sofá.
— Que invasão é essa? – perguntei, tirando o controle de suas mãos.
— Leo, aquela garota é insuportável!
— Que garota?
— A Elisa! A filha dos novos vizinhos!
— Ué... Insuportável por que?
— Não falou uma palavra dês de que me viu. Ficou lá brincando com as milhões e milhões de Barbies que tinha no quarto. Eu fui super simpática com ela, falei várias coisas, perguntei várias coisas, mas a garota só ficava calada fazendo de conta que eu não estava ali.
— Será que ela já percebeu o quão chata você é? – brinquei, levando um beliscão em seguida.
— Não tem graça! Estou com raiva até agora! Ninguém nunca me ignorou assim!
— Vai ver ela não queria conversar. Custava você respeitar a menina?
— A mãe dela ainda veio se desculpar comigo, dizendo que ela era autista. O fato dela saber desenhar não quer dizer que...
— Autista? – parei de jogar um segundo para analisar aquela frase.
— Sim. E daí?
— Nossa Juliana como você é burra! – bati a mão na testa, sem acreditar. – Não é artista, é autista!
— Qual a diferença?
— É uma doença! Por isso ela não interagiu com você!
— Doença? – a testa dela se franziu, e pude ver que ela realmente estava por fora.
— É, não sei explicar direito. Depois você pergunta pro meu pai. O caso é que você não deveria ficar chateada com ela, porque esses comportamentos não são de próposito.
— Puxa... – ela tocou nos lábios, parecendo bastante chocada. – Eu não sabia.
— Novidade. Você nunca sabe de nada – dei de ombros, voltando a jogar.
— Seu idiota! – ela me atacou com uma almofada, mas não tirei os olhos da TV. – Você devia ter vindo comigo! Essas coisas só acontecem quando você me deixa sozinha!
— Eu não tinha como adivinhar.
— Mas tinha como evitar. Indo até lá comigo!
— Amanhã você vai lá de novo e pede desculpas, pronto. Pra que tanto drama?
— Amanhã?! Amanhã não! Eu preciso ir agora até lá!
— Boa sorte, então.
— Você vai vim comigo.
— Ah Juliana, não inventa. Quem fez besteira foi você e não eu.
— Leonardo... Se você não vier comigo agora, eu juro pelo Nidoking, que nunca mais falo com você!
— Sério? Mas meu aniversário já passou – brinquei. Adorava irritar ela.
A Juliana sabia que com ameaças e chantagens eu não cedia nada do que ela pedia pra mim, porém eu tinha meus pontos fracos. E o lado ruim de te-la como melhor amiga, é que ela conhecia todos eles.
— Tudo bem então. Estava pensando em te dar emprestar o Halo dois, que o meu pai comprou, mas já que você não...
— Eu vou! – larguei o controle rapidamente e me levantei. – Eu vou com você.
Poucas foram as vezes que vi a Juliana abrir um sorriso tão grande. Talvez eu me arrependesse depois de ir até lá, mas o jogo que ela iria me dar, compensaria muitas coisas, afinal.
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