Parte 1

Localizado na região oeste, o Reino de Ímpeto é protegido por cadeias de montanhas gélidas ao norte e vastas planícies que se estendem ao sul. Seu clima temperado se revela em verões intensamente quentes e invernos rigorosos, moldando não apenas a vida cotidiana de seu povo, mas também sua disciplina e resistência.

Com o passar dos anos, no reino de Ímpeto, a adoração a um novo deus começou a ganhar força entre o povo. O festival em honra a essa divindade — conhecido como o Festival do Novo Deus — transforma Bugres, a capital de Ímpeto, em um cenário misterioso e eufórico. Envolto em mitos e sussurros, passou a atrair olhares dos reinos vizinhos.

Realizada apenas uma vez por ano, a celebração transforma completamente a capital do reino de Ímpeto: Bugres. Mais do que uma capital, Bugres é o coração pulsante do reino, onde tradição, fé e poder se entrelaçam em um só corpo.

Vista de longe, a cidade parece um mosaico de contrastes. Muralhas de pedra cinzenta a cercam como guardiãs ancestrais, marcadas por séculos de intempéries e batalhas. De dentro delas, torres pontiagudas e telhados de ardósia negra irrompem contra o céu, formando uma silhueta imponente, quase religiosa. É como se a própria cidade tivesse sido moldada para inspirar reverência — ou medo.

O traçado urbano segue um padrão rigoroso: as ruas principais foram construídas em forma de cruz, alinhadas aos pontos cardeais. Todas elas convergem para o ponto mais elevado da cidade, onde se ergue a Mansão de August Heaven. Ao redor dessa fortaleza luxuosa concentram-se os maiores edifícios: templos de colunas monumentais, mercados fervilhantes e palácios decorados com vitrais que parecem capturar a luz apenas para transformá-la em símbolos. Cada pedra e cada fachada refletem tanto a riqueza de Ímpeto quanto a obsessão de Bugres pelos rituais e pelas tradições que sustentam o culto ao Novo Deus.

Durante o festival, as ruas se tornam um espetáculo vivo. Bandeiras de cores vibrantes tremulam entre janelas e varandas, o som dos tambores ecoa por becos estreitos e até os forasteiros são engolidos pelo fluxo da multidão. Ninguém está sem máscara. Essas máscaras, cuidadosamente confeccionadas, variam entre figuras de animais, formas geométricas abstratas e representações de rostos que parecem pertencer a sonhos — ou pesadelos — de um mundo distante.

Apesar de o festival estar prestes a acontecer — com danças sendo ensaiadas nas praças e gritos de celebração ecoando pelas ruas — havia algo de inquietante no ar. Por trás dos sorrisos e dos brindes, paira uma sensação incômoda, quase palpável. É como se a própria cidade segurasse a respiração, à espera de algo que não se pode ver, mas se sente profundamente. Mesmo havendo alegria ela carrega um peso estranho, uma sombra que nem a luz das tochas consegue dissipar.

Mesmo com o desejo de aproveitar o festival, Astralion partiu para Bugres com segundas intenções. Sob a aparência de um viajante curioso, escondia-se um propósito mais sombrio— e pessoal. Movido não apenas por curiosidades, mas também por desconfiança, seu instinto alarmava que havia algo mais nesse espetáculo. Estava determinado a ver com os próprios olhos e sentir na pele o que tanto encantava — ou iludia — o povo de Ímpeto.

Havia hostilidades silenciosas naquela cidade e com isso não podia se deixar seduzir.

Astralion ficou atônito diante das imponentes construções que se erguiam à sua frente — estruturas que, até então, conhecia apenas pelas páginas de livros de ficção. Arranha-céus de janelas espelhadas rasgavam o céu com arrogância, refletindo o brilho das tochas e da lua como se fossem feitos de cristal. Ao redor, prédios monumentais de linhas perfeitas sustentavam a aura de uma cidade que parecia existir em outro tempo, muito além de tudo o que ele conhecia.

A infraestrutura de Bugres destoava radicalmente do que se esperaria de uma nação isolada e, em muitos aspectos, ainda subdesenvolvida. Era como se, no coração de Ímpeto, tivesse florescido um poder oculto, capaz de elevar o padrão de vida a algo superior a qualquer outro reino conhecido — inclusive Valor, sua própria terra natal.

Astralion não podia se dar ao luxo de baixar a guarda.

Deteve-se diante de um estabelecimento qualquer, mas seus olhos estavam voltados para além das vitrines e fachadas: acompanhavam o fluxo acelerado da cidade, o ritmo incessante de Bugres. Não sabia ao certo há quanto tempo permanecia ali, imóvel, como uma peça estranha fora do tabuleiro. Mas tinha plena consciência de que não poderia se manter por muito mais. Sua presença, cedo ou tarde, seria notada — e quando isso acontecesse, as “visitas” que viriam poderiam selar não apenas seu disfarce, mas também o seu destino.

Com o rosto oculto por uma máscara branca sem adornos, Astralion permanecia imóvel, um forasteiro anônimo em meio ao mar de celebração. Seus olhos, porém, percorriam cada detalhe ao redor: o vaivém incessante das pessoas mascaradas, os estandartes coloridos balançando ao vento, o burburinho da multidão que ocultava segredos sob o verniz da euforia. Aguardava a chegada de seu acompanhante — e, mais importante, o verdadeiro motivo de sua presença em Ímpeto.

Por dentro, o deslumbre era inevitável; Bugres era mais grandiosa e mais ameaçadora do que qualquer relato em livros poderia transmitir. Mas em sua postura e semblante não havia qualquer indício de fascínio. Sua expressão permanecia fria, impenetrável, como se a máscara não escondesse apenas seu rosto, mas também a própria alma.

— Você poderia ter ido direto para a mansão... — disse uma voz rude, carregada de impaciência.

Astralion virou-se lentamente, o olhar fixo na figura que lhe dirigira a palavra. Em um gesto contido de respeito, retirou a máscara que escondia seu rosto — uma expressão firme, calculada, moldada por anos de disciplina. Ele sabia com quem estava lidando.

À sua frente, erguia-se o Grão-duque August Heaven, um dos nomes mais poderosos da aristocracia Ímpeto. A influência daquele homem se estendia por conselhos, exércitos e cultos. Seu domínio não era apenas político — era também simbólico. Para muitos, ele representava o próprio espírito enigmático de Ímpeto.

August trajava um conjunto azul profundo, de corte impecável, feito sob medida para exalar autoridade e elegância. O blazer ajustava-se com perfeição sobre seus ombros largos, e os botões de prata reluziam discretamente sob a luz pálida da manhã. Seu rosto permanecia parcialmente oculto sob uma máscara branca de porcelana, simples, porém estranhamente ameaçadora.

Seus olhos azuis cortante e quase etéreo que mais chamavam atenção pareciam atravessar a alma, como se enxergassem pensamentos antes mesmo que fossem formados.

Os cabelos longos e negros de August caíam com naturalidade sobre os ombros, contrastando com sua pele absurdamente pálida. Tão delicada que ele se via forçado a usar uma sombrinha de haste prateada, que segurava com uma leveza quase teatral. O acessório, por mais inusitado, apenas reforçava sua imagem: refinado, intocável, e levemente inquietante.

Astralion sustentou o olhar do aristocrata por um instante mais longo do que seria considerado cortês. O silêncio entre os dois era denso, como se cada palavra não dita carregasse o peso de antigos acordos e desconfianças mútuas.

— Queria ver com meus próprios olhos a beleza da cidade — respondeu Astralion, guardando a máscara branca.

O jovem mago mantinha o semblante sério, os olhos fixos no Grão-duque, tentando antecipar o rumo daquela conversa. Homens como ele, cada palavra era cuidadosamente escolhida — e cada silêncio, ainda mais revelador.

— Venha comigo — ordenou, virando-se sem esperar resposta.

As botas de August ressoaram contra o calçamento, cada passo firme ecoando como uma sentença. Astralion hesitou por um instante. Não era de sua natureza seguir ordens tão facilmente. O talento excepcional de Astralion havia atraído a atenção da nobreza de Ímpeto. Muitos haviam tentado recrutar o estrangeiro, oferecendo riquezas, títulos ou influência. Porém, ninguém, nem mesmo os generais mais respeitados, havia conseguido dobrá-lo. Ninguém, exceto a rainha de Valor, a Elizabeth III.

August sabia que a tarefa não seria simples. Não lidava com um homem comum, mas com alguém cuja reputação corria em sussurros nos corredores mais sombrios do reino. Ainda assim, caminhava com a confiança de quem detém a peça-chave do tabuleiro. Em suas mãos, guardava meios capazes de despertar tanto a curiosidade quanto a ambição de Astralion

Apesar de sua aparência jovem, um adolescente, Astralion detinha um conhecimento mágico imenso, capaz de rivalizar com os poderosos membros da Rosa-Cruz. Contudo, mesmo com esse talento extraordinário, ele continuava sendo temido e odiado pela nobreza de Valor.

A mansão era digna de um grão-duque. Erguida no coração de Bugres, não era apenas uma residência, mas o próprio emblema do domínio de August Heaven sobre o reino. Sua posição central, no ponto exato onde as quatro grandes avenidas convergiam, simbolizava mais do que prestígio: era a representação física de controle absoluto. A mansão se erguia como uma fortaleza mascarada de luxo: muralhas externas adornadas com brasões da família Heaven, janelas altas de vitrais coloridos que refletiam a luz das tochas durante a noite e jardins internos protegidos por grades de ferro forjado que mais lembravam correntes.

Para os habitantes de Bugres, a mansão não era apenas um marco arquitetônico, mas um lembrete constante de quem detinha a verdadeira autoridade. Alguns a viam como símbolo de estabilidade, outros como prisão dourada que mantinha a cidade sob vigilância.

Assim que se cruzava o portão principal, a primeira impressão era de desorientação. O espaço parecia maior por dentro do que as muralhas externas sugeriam, como se a mansão desafiasse a própria lógica de proporções. Logo atrás do portão, um vasto quintal se revelava — mas não era um simples jardim. Árvores altas, trilhas sinuosas e até pequenos lagos compunham o que parecia uma floresta particular, cultivada e moldada para transmitir tanto beleza quanto poder. O vento que soprava por entre as folhas carregava um silêncio pesado, como se até a natureza ali obedecesse a August Heaven.

O coração da mansão recebia os visitantes com imponência. O piso de mármore negro, polido como um espelho, refletia cada passo dado, fazendo com que quem adentrasse tivesse a sensação de ser observado por sua própria sombra. No teto, um vitral circular projetava feixes de luz colorida que dançavam pelo salão conforme o sol se movia, pintando as paredes de tons vermelhos, verdes e dourados.

À frente, duas escadarias curvas se erguiam em lados opostos, abraçando o salão como braços de pedra. Ambas se uniam em uma sacada elevada, conduzindo ao interior profundo da mansão — para onde apenas os convidados de maior importância ousavam seguir.

Quando Astralion atravessou o labirinto verde e adentrou o salão principal, o contraste foi avassalador. O caminho o levou até uma imensa porta de madeira, onde se destacava o brasão do Grão-Duque August Heaven: um lagarto envolto por espadas entrecruzadas, símbolo de força e vigilância. Aquele emblema parecia observar quem ousasse cruzar seus limites, como um aviso silencioso de que dali em diante nada seria trivial. Ali, entendeu que seria o ponto final da caminhada — ou, talvez, o verdadeiro início da conversa. A porta se abriu, revelando o escritório particular de August Heaven — um espaço reservado a pouquíssimos convidados. Estantes repletas de livros antigos cobriam as paredes, e o ar parecia mais denso, impregnado de incenso suave e de autoridade. Estar ali já era, por si só, um privilégio raro. E Astralion estava entre os poucos que tinham acesso a esse recinto.

Outros, na presença de Grão-duque August Heaven, talvez demonstrassem nervosismo ou reverência. Astralion, porém, permanecia calado, apenas observando o ambiente com atenção

Enquanto o analisava com discrição, August sabia que o mago de Valor não estava ali por mera curiosidade. Havia um propósito mais profundo por trás daquela visita. Há tempos ele tentava recrutar Astralion para seu esquadrão de elite, e agora parecia que, finalmente, os ventos sopravam a seu favor.

— As hostilidades contra vocês aumentaram. É apenas uma questão de tempo até que os membros da Rosa-Cruz atentem contra sua vida — disse August, com franqueza. — Por mais promissor que seja, essa será uma batalha árdua. E sozinho... você perecerá. Diga-me, o que pensa? Qual é sua resposta ao meu convite?

Em silêncio, Astralion repousou a xícara sobre a mesa, os olhos cravados nos de Grão-duque August Heaven. Seu rosto permanecia inexpressivo, mas algo em seu olhar indicava que aquela decisão poderia mudar o curso de muitos destinos.

De fato, o nobre de Ímpeto não tinha tempo a perder. Sem rodeios, foi direto ao ponto — talvez para deixar claro a gravidade da situação em que se encontrava, ou, quem sabe, para mostrar que, mesmo sendo de outro reino, Astralion estava sendo observado de perto.

A frase no plural revela certos segredos sobre ele, pois, mesmo parecendo estar sozinho, ele não estava. Em seu interior havia algo cuja existência até os membros da Rosa-Cruz reconheciam, embora ninguém soubesse explicar o que realmente era. Uns chamavam aquilo de demônio, anjo, ou qualquer outra blasfêmia, mas uma coisa era certa: todos temiam por suas vidas quando aquilo surgia.

— Oh... —

Um leve sorriso se formou no canto da boca no mago de Valor ao perceber que o aristocrata August havia cumprido o dever de casa. Em consequência disso, ele decidiu revelar informações confidenciais que são conhecidas por pouquíssimas pessoas.

— O mago primordial já não é mais o mesmo. Sua imponência está desaparecendo aos poucos. É apenas questão de tempo até que os membros comecem a lutar entre si, disputando o título de mais forte no reino de Valor. E no meio de tudo isso…—

A intenção era clara: assegurar a confiança daquele homem cuja influência poderia decidir alianças, mover exércitos e moldar o futuro de todo um reino. Por mais que Ímpeto e Valor se mantivessem como aliados, uma força contrária começava a emergir nas sombras de Ímpeto, silenciosa, mas cada vez mais impossível de ignorar.

— O que isso quer dizer? — perguntou August, franzindo levemente a testa.

— O futuro de Valor é sombrio. Tempestades como nunca vistas antes estão se formando, como uma bomba-relógio prestes a explodir. Você deseja se aliar a nós? Pois que assim seja.

O mago de Ímpeto sorriu.

A Rosa-Cruz — um grupo de magos poderosos subordinados diretamente à rainha — representava uma ameaça real. Se vissem Astralion como um perigo, sua vida correria sério risco. Embora ele contasse com certas proteções no reino de Valor, elas não garantiriam sua segurança diante do que estava por vir.

— Fico feliz por sua escolha — disse August Heaven, com um sorriso que se transformou lentamente em algo mais sombrio. — Agora, deve estar cansado da longa viagem. Que tal passar a noite aqui? Há alguém que você precisa conhecer.

Astralion olhou ao redor, intrigado. Acreditava que estavam a sós. Seria difícil que alguém passasse despercebido por sua percepção mágica.

Percebendo a mudança em sua expressão, August sorriu novamente.

— Ah, não se preocupe. Ele não está aqui. Neste momento, deve estar jantando.

Bugres guardava segredos que transcendiam a lógica e até mesmo a magia. Um arrepio sutil percorreu Astralion, mas ele conteve qualquer reação, mantendo o silêncio. Tinha certeza da aliança entre ele e o Grão-Duque de Ímpeto, ainda assim, não conseguia afastar a sensação de que algo estava fora do lugar — como uma sombra oculta.

Acompanhando a criada até o quarto de hóspedes, Astralion não pôde deixar de notar um detalhe perturbador: apesar da grandiosidade da mansão, não havia sinal de outras pessoas. Os corredores ecoavam silenciosos, como se os passos dele e da serva fossem os únicos a existir ali dentro. O silêncio entre os dois era quase reverente, carregado de significados ocultos. A garota que o guiava, trajando o uniforme de empregada, caminhava com passos firmes, embora seu corpo traísse outra intenção — havia uma pressa contida em seus gestos, como se a qualquer momento fosse ceder ao impulso de correr… ou fugir.

— Este é o quarto reservado para o senhor — disse ela, abrindo a porta com leveza. — Espero que seja do seu agrado.

Astralion esperava algo simples, mas o interior do quarto o surpreendeu. Mesmo sendo um cômodo de hóspedes, era claramente de primeira classe. Luxuoso e bem decorado, destoava do que ele considerava necessário. Questionou-se, por um momento, se aquilo fazia parte de uma estratégia.

A empregada afastou-se da porta, permitindo sua entrada. No instante em que ele passou por ela, sentiu algo segurar discretamente a borda de sua camisa.

Imediatamente, parou.

— Me desculpe… foi sem intenção — murmurou a empregada, soltando-o com um leve tremor na voz, antes de seguir em frente com passos cautelosos.

Por um instante, o mago de Valor sentiu hesitação em seus próprios passos. Havia algo na mansão — algo invisível, mas pulsante — que lhe causava desconforto. Talvez os segredos ali guardados estivessem além de sua compreensão, envoltos em camadas de mistério que nem mesmo sua magia poderia decifrar.

Ainda assim, uma certeza silenciosa permanecia firme dentro de si. Uma confiança inabalável, nascida da convicção ou talvez da necessidade, lhe dizia que, independentemente dos riscos, tudo seguiria como deveria.

*

Em algum lugar, uma mulher nua estava deitada sobre a mesa. Seus olhos estavam vendados, e mãos e pés, firmemente amarrados. Ela permanecia desacordada. Ao seu redor, um grupo de pessoas trajando mantos negros que ocultavam completamente suas vestes, segurava porta-velas com velas acesas.

— Irmãos... — a voz soou ao longe, aproximando-se.

Os olhares por trás das máscaras brancas se voltaram para Eminence, que avançava. Ele era a única criança entre eles; os demais eram adultos.

Eminence, o líder, segurava uma faca em suas mãos. Aproximou-se da garota e fitou seu rosto delicado — uma bela turista vinda de um reino distante. Ele deslizou lentamente a ponta da faca entre os seios da garota, pressionando até que uma pequena gota de sangue surgisse. Estranhamente, ela não reagiu; estava viva, mas completamente inconsciente.

— Nosso banquete hoje terá um sabor especial, pois em breve teremos nosso próprio deus! Aproveitem cada gole de sangue, cada pedaço de carne. Com sangue de Precursor correndo em nossas veias, como seres superiores, nossa glória está ao alcance. —

Ele enfiou a faca vindo a abrir a barriga da garota. O sangue escorria pela mesa, deslizando lentamente até o cálice posicionado logo abaixo.

— Apreciem! — disse Eminence, levando o cálice aos lábios para provar o sangue.

Enquanto observava seus súditos, uma fina camada de escamas surgiu sobre seu globo ocular, transformando momentaneamente seus olhos. Pupilas verticais — afiadas como as de um lagarto— apareceram, revelando algo que ele ainda não permitia que o mundo visse por completo.

O Império de Ímpeto havia roubado antigos segredos sobre os magos puros e nutria a convicção de que o sangue dos chamados “magos puros” corria em suas veias — um legado sagrado que os distinguia dos demais povos. Essa crença era profundamente enraizada em mitos transmitidos de geração em geração, que falavam de uma época em que os Precursores, seres de poder incomensurável e sabedoria ancestral, desceram do plano celestial para caminhar entre os mortais.

Com as próprias mãos, os súditos rasgavam a carne da garota e bebiam seu sangue. Eles acreditavam que o sangue dos magos puros corria em suas veias, mas Eminence sabia que tudo não passava de uma mentira.

Enquanto manipulava a ignorância humana a seu bel-prazer, Eminence se aproximava cada vez mais da concretização de seu objetivo. O festival desempenhava um papel crucial nesse ritual. Toda vida, sem exceção, deveria ser sacrificada para garantir um bem maior — um preço necessário.

*

No quarto de hóspedes, Astralion sentou-se à beira da cama. Apesar de ser apenas um aposento destinado a visitas, a sensação que o dominava era outra: cada detalhe parecia moldado para ele. Havia ornamentos e símbolos discretos que remetiam ao seu antigo reino, como se alguém tivesse estudado sua história a fundo — ou como se o próprio quarto o aguardasse desde muito antes de sua chegada.

Na pequena cômoda, repousavam materiais cuidadosamente dispostos para a prática da magia — como se alguém quisesse que ele continuasse a evoluir mesmo longe de sua terra natal. A escolha dos objetos não parecia aleatória; era como se cada um tivesse sido colocado ali de propósito, preparado especialmente para ele.

Ele sentiu, por um breve instante, a inquietação pulsar em sua companheira — aquela presença silenciosa que permanecia oculta dentro de si, aguardando apenas o momento certo para se desprender do véu da espera e emergir na realidade. Não havia necessidade de formalidades, de invocações ou de longas citações mágicas — bastava a própria vontade.

Lentamente, como se a própria realidade fosse sendo desfiada, a figura translúcida da garota começou a emergir no mundo físico. Seu corpo etéreo ganhou forma pouco a pouco, até flutuar com leveza pelo quarto. Movia-se de um lado para o outro, quase sem tocar o ar, enquanto seus olhos atentos percorriam cada detalhe do ambiente, absorvendo tudo com uma curiosidade silenciosa, fria e inquietante.

No meio da testa, possuía uma pedra triangular que mudava de cor conforme suas emoções. Estava descalça, e suas asas, que mais pareciam galhos secos, tornavam impossível imaginar que pudesse voar. Tinha uma estrutura pequena, com curvas e traços individualmente atraentes, mas com proporções desequilibradas. Seus cabelos lisos, em cores de arco-íris, se abriam para fora antes de enrolar nas pontas, lembrando tentáculos ou um guarda-chuva. Sua boca ostentava um sorriso largo e amedrontador.

— Mestre, eu não gosto daqui. Está cheio de gente morta, me sinto em um cemitério... — disse Onoken, enquanto a pedra em sua testa mudava para um tom azul.

Vestia um vestido branco, sem ombros, salpicado por manchas vermelhas que lembravam sangue fresco. Contudo, quem ousasse olhar de perto descobriria que aquela veste não era tecido, mas pele. Ela também usava um grande chapéu translúcido, curvo e elegante.

— Tem razão... — Astralion respondeu com empatia.

Desde sua chegada, sentira a inquietante convivência entre mortos e vivos, ambos ocultos atrás de máscaras.

Uma presença sobrenatural pairava sobre Bugres — uma magia antiga, um ritual desconhecido. Ele não conseguia distinguir ainda, mas pressentia que algo estava prestes a se revelar. Talvez o novo deus fosse a chave para esse mistério.

Abrindo a palma da mão direita, Astralion fez surgir um pequeno casulo elétrico, que aos poucos cresceu até alcançar cerca de 30 centímetros. No auge de seu ciclo, uma mariposa feita de pura energia emergiu, esvoaçando pelo ambiente antes de se dissipar suavemente no ar.

— Mestre, você acha que os desaparecimentos têm ligação com o festival? — perguntou Onoken.

Astralion caminhou até a janela e parou diante dela, observando ao longe o pouco que conseguia distinguir da cidade. Mesmo à distância, era capaz de perceber a diferença sutil entre os vivos e os mortos — um brilho estranho no olhar, uma leveza antinatural nos movimentos.

No entanto, a origem daquele fenômeno permanecia incerta. Algo profundo e sombrio estava agindo em Bugres, e nem mesmo sua magia era capaz de explicar completamente o que via.

Se existisse um necromante na cidade, ele deveria ser extremamente habilidoso, pois não há sequer vestígios de magias lançadas. Além disso, os mortos agem de forma perfeita — como se fossem humanos comuns. Eles brincam, às vezes brigam entre si, mas se ajudam e até mantêm uma vida social.

Ainda assim, Astralion não podia julgá-los por tentarem viver como se fossem humanos, pois ele próprio não era tão diferente dos mortos-vivos de Bugres. Ele havia voltado à vida por acaso.

Embora alguns nobres o tivessem concedido perdão, seu fracasso havia custado a vida do rei. E, desde então, “Astralion” não era apenas um nome — era um símbolo de queda. A hostilidade em torno de sua figura era compreensível. Nem mesmo o perdão da rainha amenizava o peso em seus ombros. Ele sabia: por mais que ela tentasse, ainda era difícil encará-lo sem lembrar do que havia sido perdido.

— Onoken, você está autorizada a investigar. Faça o que for preciso para não ser descoberta... mas, se for —

Ela sorriu.

Onoken não tinha misericórdia. Sentia prazer em torturar suas vítimas e não demonstrava empatia pelos mortos. O que a incomodava era apenas não ter sido ela a causar aquelas mortes.

A brisa do lado de fora fez a janela se escancarar e, no mesmo instante, a figura translúcida desapareceu — sumindo tão abruptamente quanto o vento gelado que a trouxe.

Astralion lançou um último olhar sobre a cidade. Havia libertado uma criatura sombria e doentia, cujo prazer estava em matar. Embora tivesse ordenado que investigasse sem ser descoberta, era inevitável que deixasse vítimas em seu caminho.

Astralion sentou-se à beira da cama, unindo as mãos em silêncio. O mago de Valor fechou os olhos, e pequenos estalos elétricos começaram a crepitar ao seu redor. Lentamente, ele afastou as palmas, revelando entre elas o surgimento de uma esfera luminosa, uma pequena bola elétrica que pulsava como se tivesse vida própria. A esfera expandiu-se até alcançar cerca de trinta centímetros e, de repente, começou a se moldar. Faíscas dançavam em sua superfície enquanto sua forma se alongava e se afinava, revelando asas frágeis que batiam suavemente no ar. Em poucos instantes, a esfera havia se transformado em uma mariposa elétrica, com veios luminosos percorrendo suas asas translúcidas e o corpo pulsando em descargas cintilantes

— Vai! — Astralion ordenou.

A pequena mariposa alçou voo e, em seguida, mergulhou em direção ao chão. No instante que antecedeu o impacto, sua forma se desfez suavemente, dissipando-se em fragmentos de luz que desapareceram no ar como um sussurro.

Onoken esgueirava-se pelas sombras como um espectro, atenta a cada passo para não ser notada. Seus olhos analisavam em silêncio o comportamento dos cidadãos de Bugres, registrando cada gesto e murmúrio.

De fato, os cidadãos não eram vítimas de simples necromancia, mas de algo muito mais complexo. Nos corpos dos mortos-vivos habitavam não apenas uma, mas duas almas em constante conflito. De maneira perturbadora, nenhuma delas estava em sintonia com o hospedeiro que ocupavam.

Havia uma hipótese para o que se desenrolava em Bugres — não apenas magia, mas um ritual obscuro que pesava sobre a cidade. Onoken murmurou algo quase inaudível, enquanto seu corpo se desfazia na escuridão.

A garota translúcida deixou-se envolver pelo luar, camuflando-se em seu brilho etéreo enquanto observava a cidade do alto.

As almas em conflito disputavam os corpos de seus hospedeiros em busca do renascimento. Alguém, em algum momento, havia implantado essas almas nos cidadãos de Bugres, com o sinistro intuito de trazê-las de volta.

Nenhum ser deveria conhecer um ritual tão profano, mas alguém em Bugres guardava esse segredo. Onoken, porém, não apenas compreendia sua essência — ela conhecia também o seu verdadeiro nome, um nome velado que jamais deveria ser pronunciado.

Sob a noite estrelada, ela deixou escapar uma gargalhada sombria, como se celebrasse a própria profanação.

Distante do palco central, nas profundezas de um beco escuro, ressoava o som repugnante de carne sendo rasgada, acompanhado por estalos e respingos que manchavam o silêncio da noite. Duas máscaras caídas, manchadas de sangue, haviam se tornado apenas uma lembrança distante, uma história perdida nas sombras. Oculta nas sombras, a garota translúcida acompanhava em silêncio, e não restava dúvida: a alma vencedora havia se imposto de forma brutal e irreversível.

A criatura que um dia fora humana agora estava irreconhecível. Seu corpo transmutado exibia camadas de escamas que reluziam à penumbra, enquanto múltiplos olhos de lagarto se abriam e fechavam em inquieta vigília. A boca, dividida em quatro partes, escancarava o horror da metamorfose — não restava qualquer traço de humanidade.

A criatura devorava a carne humana com avidez, saboreando os órgãos enquanto seus dentes e garras rasgavam a carne em estalos nauseantes. Por um breve instante, a criatura ergueu a cabeça, como se tivesse percebido estar sendo observada. Farejou o ar em busca de algo, mas seus esforços mostraram-se em vão. Onoken poderia abatê-la com facilidade, mas permaneceu imóvel, escolhendo apenas observar.

Ela conhecia o ritual, mas sabia que a metamorfose ultrapassava em muito o alcance da magia formal. Havia algo de profano em sua origem, como se mãos invisíveis tivessem manipulado carne e espírito em um tempo esquecido, moldando o corpo para carregar traços quase reptilianos. Não era apenas transformação — era corrupção.

Parte 2

No café da manhã, o aristocrata August Heaven já estava à mesa, aguardando seu mais novo aliado. Ergueu os olhos e viu o mago se aproximar timidamente, tentando disfarçar o rosto ainda marcado pelo sono.

— Bom dia — murmurou o mago de Valor, sua voz carregando tanto timidez quanto o peso da ocasião.

— Eu sei que a viagem foi exaustiva, então a fadiga em algum momento há de falar mais alto. —

Comentou August, levando o copo de suco aos lábios. Talvez fosse apenas impressão, mas parecia que a ansiedade começava a pesar sobre o mago de Valor.

A empregada permanecia ao lado de seu mestre, séria e levemente cabisbaixa, em postura de prontidão para obedecer a qualquer ordem. Ainda assim, havia algo de estranho em sua presença. Apesar da imensidão da mansão, Astralion notou que ela era a única.

Por um instante, a empregada lançou um olhar na direção do mago de Valor, e ele sentiu um arrepio desconfortável percorrer lhe a espinha. Só então percebeu a coleira apertada em seu pescoço — um artefato de magia restritiva, criado para subjugar escravos e prisioneiros. O objeto exalava uma aura macabra, proibida em Valor há séculos, mas que em Ímpeto ainda era usada sem pudor, como uma cicatriz viva da crueldade.

— Você mencionou ter interesse no festival, não é mesmo? — disse August, a voz carregada de autoridade serena. — Pedirei a esta empregada que o acompanhe pela cidade durante os preparativos. Assim terá uma visão mais clara do que Bugres realmente é.

— Considero uma boa ideia — respondeu Astralion, com um leve aceno de cabeça.

Ao lado da empregada, Astralion percorreu um longo caminho, observando os moradores que já se deixavam levar pelo ritmo do festival. No rosto, trazia a máscara branca que o integrava à celebração. A empregada, por sua vez, mesmo em sua condição servil, não escapava às regras da ocasião: usava uma máscara vermelha, moldada na face de um lobo.

Era costume que a logística das cidades seguisse padrões semelhantes, com vias principais alinhadas aos pontos cardeais, todas convergindo para um centro de destaque. Em Bugres não era diferente: o ponto mais importante da cidade era a mansão de August Heaven — talvez uma forma de reafirmar sua autoridade sobre todos. Na via sul, em um ponto estrategicamente escolhido, erguia-se um grandioso palco de madeira, projetado para dominar a paisagem. Dele, cada detalhe do evento poderia ser contemplado diretamente da mansão, como se toda a celebração estivesse ao alcance do olhar de August Heaven.

Embora tivesse se aliado a August, Astralion trajava um manto que ocultava por completo suas vestes — talvez para deixar claro que, apesar da aliança, continuava sendo um forasteiro.

Era difícil decidir qual prédio se destacava em beleza, pois a cidade inteira parecia deslumbrar com seus imponentes arranha-céus que rasgavam o céu.

Na cidade movimentada, Astralion deteve-se em um cruzamento para observar o fluxo intenso. Pessoas e carruagens se acotovelavam em ritmo acelerado — e não era para menos, afinal, faltavam poucos dias para o aguardado festival.

A empregada o acompanhava em silêncio absoluto, sem ousar pronunciar uma única palavra.

— Já que estamos aqui… que tal comprarmos sorvete? — disse, como se a sugestão trivial pudesse apagar o peso do momento.

Ela permaneceu em silêncio, fitando o vazio por alguns instantes, como se não compreendesse — ou simplesmente ignorasse — a intenção do mago forasteiro.

A pergunta foi repetida, mas desta vez o mago se aproximou, parando diante dela. A empregada ergueu o olhar lentamente, como se só então tivesse percebido sua presença. Antes que qualquer resposta fosse dada, ele ergueu a mão e, com um gesto lento e deliberado, retirou a máscara da empregada, surpreendendo-a por completo.

Os olhos dela se recusaram a encontrar os dele, mas isso pouco importava. O olhar de Astralion desceu até o pescoço da garota, onde a fria coleira de restrição ainda a marcava como propriedade.

— Talvez suas atitudes anteriores tenham sido um pedido de socorro. Mas agora que compreende minha posição diante de seu senhorio, as coisas tendem a se tornar ainda mais estranhas. Não deve confiar em mim… na verdade, é provável que deva temer-me — disse Astralion, enquanto recolocava lentamente a máscara no rosto, como se o gesto fosse um lembrete de que, por trás dela, nada poderia ser realmente lido ou confiado.

Em resposta, ela recuou alguns passos, afastando-se do mago com um movimento hesitante, como se a simples proximidade dele fosse uma ameaça.

Por um breve instante, ele retirou a máscara, revelando parte do rosto e os olhos negros que cintilavam à luz, intensos e enigmáticos. Fitou a garota vestida de empregada em silêncio absoluto e, sem pronunciar uma única palavra, deixou escapar um sorriso que mais parecia uma ameaça velada. Nesse breve instante, ela sentiu em seu íntimo que algo estava errado — instintivamente compreendeu que ele não era quem aparentava ser.

Mesmo próximo ao pôr do sol, algo inquietante chamou a atenção da garota, como se sua própria imaginação lhe pregasse uma peça. A sombra do mago era anormalmente densa, estendendo-se muito além das outras, como se tivesse vida própria e ousasse desafiar a luz. Era como se um presságio silencioso se projetasse no chão, revelando que ele não viera a Bugres para seguir o ritmo da cidade, mas para destruí-la.

Enquanto recolocava a máscara no rosto, o sorriso se desfez lentamente, como o fim de uma encenação macabra. Cada gesto parecia um aviso claro: ele não viera como aliado de Bugres, mas como sua inevitável desgraça.

Ela não precisava perguntar por que ele revelava tais coisas — não era ingênua. Em um passado não tão distante, fora uma aventureira, dona do próprio destino. Agora, pela crueldade da sorte e de sua própria desventura, encontrava-se acorrentada à condição de escrava, como a mais amarga das quedas.

Ela não pertencia àquele reino. No íntimo, desejava apenas que a cidade caísse, perecesse, fosse apagada do mapa — não importando o preço, nem quantas vidas fossem ceifadas para isso. Se tivesse poder, faria com as próprias mãos; mas, se ele era capaz, aguardaria ansiosamente pelo momento em que tudo ruiria. Se pudesse colocar em palavras o que sabia sobre as ações de August Heaven, o faria sem hesitar. Mas a coleira de restrição a silenciava. E se um dia fosse removida...

Mesmo com o barulho incessante da cidade, por um breve instante pareceu que tudo se calara. O som das rodas das carroças, das vozes nas ruas e até das músicas distantes foi engolido por um silêncio estranho e pesado.

Astralion voltou o olhar para um dos becos próximos ao palco, onde, de forma estranha, se formava uma aglomeração. Entre a multidão inquieta, guardas lutavam para afastar as pessoas.

Ele se aproximou, tentando entender o que acontecia. Esgueirando-se pela multidão, conseguiu alcançar o ponto mais próximo do beco. O espaço estreito exibia as paredes manchadas de sangue, onde se acumulavam fragmentos de carne, como restos de um banquete macabro.

Aquilo poderia ter sido obra de um animal de grande porte — talvez um urso, talvez um leão. Mas no coração da cidade, a simples ideia era impossível. O horror tinha outra origem. Ao procurar mais detalhes, Astralion notou na parede da entrada marcas profundas de garras, a pouco mais de um metro e setenta de altura. Era algo anormal, e talvez por isso tivesse passado despercebido pelos guardas… ou, pior, estavam deliberadamente ignorando.

Entre os murmúrios da multidão, ouviu que não era a primeira vez que algo assim acontecia. A revelação só aumentou sua preocupação, como se um padrão de horrores estivesse se repetindo em silêncio na cidade.

Observando ao redor, a sombra de Valor concluiu que, além dos mortos-vivos, poderia haver entre eles uma criatura metamorfoseada. Eram dois eventos distintos — e igualmente ameaçadores. Ainda assim, uma dúvida persistia em sua mente: por mais diferentes que parecessem, talvez houvesse uma ligação oculta entre eles.

Ele não podia se dar ao luxo de investigar a fundo, por isso precisaria que Onoken o fizesse nas sombras, confiando que seu disfarce resistisse até lá.

Por mais habilidoso que fosse, no íntimo temia que o festival do novo deus não fosse apenas um nome vazio. Havia tantas ameaças em jogo que se tornava difícil até mesmo decidir qual delas deveria ser tratada como prioridade.

Mesmo sem ser visível, ele sorriu. Não era um sorriso de nervosismo — pelo contrário. As coisas estavam se tornando cada vez mais interessantes: o que começara como uma missão para resgatar os livros roubados de Valor e eliminar ameaças assumia proporções inimagináveis.

Estava cercado por um inimigo silencioso, cuja força parecia crescer a cada instante, espalhando-se como uma sombra invisível. No entanto, ele não era a luz que a cidade precisava; pelo contrário, era a própria escuridão.

Mesmo diante de uma cena horrível, a empregada permaneceu imóvel — como se, para ela, aquilo fosse tão natural quanto respirar. Não era indiferença; pelo contrário, havia em seus olhos o reflexo de quem já conhecia de perto a morte, quase como uma velha conhecida.

As máscaras ocultavam os medos da multidão, mas era impossível disfarçar o nervosismo. A preocupação transbordava em cada gesto, em cada olhar contido. Por mais que tentassem esconder o que sentiam, era evidente: todos pareciam pressentir que havia algo errado naquele festival.

Diziam que, na noite do festival, quando o relógio marcasse a meia-noite, uma colossal estátua emergiria no palco principal, erguendo-se em direção ao céu como se buscasse atravessá-lo. Nesse instante, uma miragem se formaria acima dela — um falso portal cintilante, prometendo fortuna e boa sorte àqueles que participassem da celebração.

Mas antes da ascensão da estátua, um sacrifício deveria ser feito. Um cordeiro seria entregue ao altar, o sangue derramado em nome do novo deus. Por mais que pudesse soar macabro aos olhos dos visitantes, para o povo de Bugres aquilo não passava de um antigo ritual de prosperidade — uma tradição tão naturalizada que poucos ousavam questionar.

O mago forasteiro caminhou em direção à mansão — talvez deixando o convite de lado, talvez por já ter visto tudo o que precisava.

Enquanto acompanhava o mago de Valor, a empregada levou a mão à coleira fria que marcava seu pescoço. Apertou-a com tanta força que seus dedos chegaram a tremer, como se quisesse arrancá-la com as próprias mãos, mesmo que isso lhe custasse a pele e o sangue. No silêncio de seus pensamentos, amaldiçoava não apenas o objeto, mas também aquele que a prendera a tal destino. Cada passo que ela dava era voltando ao confinamento.

Antes de atravessar os portões da mansão, Astralion deteve-se. Seus olhos percorreram cada detalhe da imponente construção, como se buscassem decifrar o enigma que ela representava. A máscara repousava em sua mão direita. Havia em seu olhar algo oculto, um desejo silencioso, como se esperasse que aquelas paredes revelassem respostas.

Faltavam poucos dias para o início do festival, mas a resposta sobre a verdadeira natureza do chamado “novo deus” ainda lhe escapava. Não era uma simples lenda, disso tinha certeza. Havia um ritual em andamento — um ritual que crescia em força.

— Não precisa falar… apenas direcione o olhar, e eu encontrarei o que busco. Diga-me, onde repousa a estátua do novo deus? —

A empregada permaneceu em silêncio, como se pesasse cada palavra antes de pronunciá-la. Não era que estivesse proibida de falar — longe disso —, mas sabia que, em um lugar como aquele, até a menor das respostas poderia trazer consequências severas para ela… ou para os que viessem depois. Por isso, manteve-se calada, os lábios selados, sustentando o silêncio como sua única forma de proteção.

Ela deglutiu e fechou os punhos com força, como se buscasse coragem em si mesma. Queria acreditar que ele seria capaz de pôr fim em tudo aquilo, de quebrar as correntes invisíveis que sufocavam Bugres. O mecanismo da coleira monitorava cada um de seus movimentos, e, por isso, até mesmo suas palavras precisavam ser medidas. Não era apenas um adorno de controle — era um lembrete constante de que qualquer deslize poderia custar caro.

Ela conseguiu soltar um leve sorriso, frágil e breve, como se escapasse contra sua própria vontade. Não era um gesto de alegria, mas de resistência silenciosa — um lampejo humano diante do peso da coleira e de tudo o que ela representava.

Ela lançou um olhar rápido para o palco, tão explícito que denunciava sem palavras onde a estátua estaria. Mas, em segundos, desviou de volta para ele, recuperando o silêncio como se nada tivesse sido revelado.

— A estátua é uma grande magia que será revelado apenas meia noite. —

Sua voz saiu suave, quase inaudível — poucas palavras ditas com a esperança de que não lhe trariam problemas. Afinal, não eram segredo: eram apenas os mesmos murmúrios que já corriam entre os próprios habitantes.

O mago forasteiro inclinou a cabeça, surpreso por ouvir a voz da garota tão suave e hesitante. Não tentou disfarçar a reação.

Ao voltar a si, suspirou ao escutá-la. Aquelas palavras já haviam sido repetidas inúmeras vezes, vazias, inúteis — ecos de uma verdade que não lhe servia.

— Voltarei à cidade sozinho. Quero explorar os bares e criar minhas próprias conexões. Caminhar com uma empregada ao lado apenas mancharia minha imagem. — Declarou, afastando-se sem sequer olhar para trás.

A empregada permaneceu imóvel, observando ao longe enquanto o mago se afastava. Um vazio tomou-lhe o peito — suas palavras haviam se perdido no vento, sem alcançar o destino que desejava. Naquele instante, compreendeu que não havia esperança alguma de que as coisas em Bugres mudassem.

Enquanto caminhava, Astralion lançou um olhar distante em direção ao palco. Em sua mão direita repousava a máscara que antes ocultara seu rosto, agora girando lentamente entre seus dedos. A cada passo, as palavras da empregada ecoavam em sua mente. Seria possível que o grão-duque August Heaven tivesse algum tipo de acesso àquele colar? A ideia era incômoda demais para ser ignorada. Para evitar consequências, escolheu agir com arrogância ignorante.

Ele havia compreendido que a estátua colossal repousava sob o palco de madeira — o mesmo que receberia a atração principal do festival. Ainda assim, era quase inconcebível imaginar que uma obra de tamanha magnitude permanecesse oculta ali embaixo. Talvez, ao final do festival, o chão se rompesse em uma fissura capaz de revelar tal presença monumental.

— Não... espere... — murmurou para si mesmo, interrompendo os passos de repente. Seu corpo permaneceu imóvel, como se o peso da própria revelação o tivesse ancorado ao chão.

Ele compreendeu que não seria uma fissura a rasgar o chão, tampouco uma magia de compactação a ocultar tamanha obra. Não... era algo mais simples, porém infinitamente mais enigmático. A própria estátua colossal não passaria de magia em si — talvez um holograma, uma ilusão de luz, ou algo ainda mais sombrio, projetado para enganar os olhos e seduzir as almas. E se a estátua realmente fosse projetada em direção aos céus, então precisaria de um ponto de partida. Um palco simples não sustentaria tal façanha. Seria necessário um foco, um núcleo, talvez um altar oculto sob a praça principal — um espaço preparado não para sustentar peso físico, mas para canalizar a energia do próprio ritual.

À noite, apenas os vigilantes mantinham-se atentos ao palco de madeira. A estrutura era imensa, feita para ser o verdadeiro coração das festividades. Construído em madeira escura, erguia-se alguns metros acima do solo, sustentado por colunas firmes. Seu formato retangular era simples, mas a amplitude deixava claro que ali caberiam danças, músicos e rituais de grande porte. As bordas eram adornadas com tecidos vermelhos e dourados que, ao balançar suavemente com o vento da noite, davam ao palco uma imponência solene, apesar da simplicidade de sua estrutura.

Não havia nada de visivelmente suspeito no palco, mas o mago forasteiro sentia algo além da aparência comum. Uma energia pulsava sob o solo, discreta, quase imperceptível, mas inconfundível para quem conhecia os ecos da magia. Era a mesma sensação sufocante que o atingira quando pisara em Prière pela primeira vez.

Impulsivamente, seu corpo recuou alguns passos, movido por um instinto que antecedia qualquer pensamento racional. Não era apenas a lembrança de Prière que o perturbava, mas sim o resquício daquela mesma energia sombria que agora emergia do solo. Um sinal inconfundível, o mesmo resquício de magia que um dia havia conhecido da pior forma — intenso, corrosivo, capaz de marcar não apenas o corpo, mas também sua alma.

Por um breve momento, ele se lembrou do dia em que conheceu Onoken.

A criatura colossal, semelhante a um beija-flor, sobrevoava os céus de Valor. Seu corpo se estendia por um comprimento equivalente a duas cidades inteiras — e ainda assim continuava a crescer, alimentando-se vorazmente das magículas suspensas no ar. Em desespero, o rei ordenara que todo o exército fosse mobilizado para contê-la. Contudo, logo ficou evidente: armas tradicionais atravessavam seu corpo intangível sem causar qualquer dano, e até mesmo as magias mais poderosas mostravam-se ineficazes diante daquele ser descomunal.

O mago insano, em sua ânsia desesperada, tentou invocar os chamados magos puros, utilizando os fragmentos de conhecimento contidos nos livros antigos que estavam guardados na biblioteca proibida. Porém, seu ritual não trouxe à tona a salvação que buscava. O que emergiu de seu chamado foi algo muito diferente do objetivo original — uma força distorcida, incompleta, que parecia carregar mais maldição do que poder. Essas entidades, nascidas do erro e da imprudência, ficaram conhecidas como deuses amaldiçoados imortais. Não eram deuses no sentido puro, mas aberrações que se alimentavam do desequilíbrio, presos entre o divino e o profano. Sua mera presença corrompia a terra ao redor, e a promessa de imortalidade vinha acompanhada de um preço terrível: a ruína de tudo que tocavam.

Naquela época, ainda jovem e ingênuo, Astralion — que então atendia por outro nome — acreditava de coração que poderia se tornar o herói de Valor. Com a coragem imprudente da juventude, abandonou seu posto sem permissão e lançou-se na batalha, certo de que sua magia e sua determinação seriam suficientes para enfrentar o impossível. Entretanto, o que aconteceu foi muito diferente do que ele sonhava: sua ousadia resultou na morte do rei — e na sua própria, selando um destino amargo que marcaria para sempre sua existência.

O mago frio deixou transparecer um raro lampejo de remorso diante daquela lembrança. Se o verdadeiro intuito do festival fosse invocar um mago puro, então o destino já estava selado: cedo ou tarde, todos se autodestruiriam.

Por um breve momento, o mago de Valor sentiu-se observado. Não era uma sensação simples de explicar — havia algo carregado de hostilidade naquilo.

Ele percorreu os arredores com o olhar, mas nada parecia fora do comum. Àquela tarde, poucas pessoas cruzavam as ruas, e apenas de tempos em tempos uma carruagem passava. Os estabelecimentos abertos se resumiam a bares noturnos, cujo propósito era apenas saciar os desejos dos homens.

Foi breve, mas intenso o bastante para ser inconfundível: uma energia tão poderosa que parecia capaz de superar até mesmo a do próprio Grão-Duque August Heaven. Talvez fosse apenas um aceno hostil, um aviso silencioso de que cada passo do forasteiro estava sendo vigiado. Ou, pior, uma revelação velada — a de que ele próprio poderia ser o causador de tudo aquilo.

Ao tempo que Astralion permanecia imóvel, absorvendo a estranha sensação que o rondava, um garoto caminhava entre as sombras dos becos da cidade. Levava consigo uma presença quase sufocante, reforçada pelo uniforme militar de corte rígido. O tecido negro parecia absorver a pouca luz ao redor, tornando-o ainda mais intimidador. A jaqueta, pesada e impecavelmente ajustada, exibia fileiras de botões metálicos escurecidos, sem qualquer brilho — feitos não para enfeitar, mas para impor respeito.

As calças, igualmente escuras e firmes, moldavam-se ao corpo com precisão, permitindo movimentos ágeis e calculados. Um cinto largo, preso por uma fivela ornamentada, completava o conjunto. Já as botas de couro, polidas até adquirirem a frieza do aço, ecoavam a cada passo como tambores de guerra, anunciando a aproximação de alguém que não precisava de palavras para impor autoridade.

O olhar do garoto era o detalhe mais perturbador. Não havia ali nada que lembrasse humanidade — apenas um vazio profundo, frio e inabalável, como se carregasse dentro de si algo mais antigo e sombrio que a própria cidade de Bugres. Era um olhar que não precisava de palavras, pois por si só já transmitia medo, impondo silêncio e submissão a qualquer um que ousasse encará-lo por mais de alguns segundos.

À distância, sua visão captou algo que desafiava a lógica: uma figura humanoide erguida a quase dois metros de altura. As mãos eram terminadas em garras longas e metálicas, prontas para rasgar carne e pedra com a mesma facilidade. A mandíbula, dividida em quatro partes, abria-se de forma antinatural, revelando presas pontiagudas que mais pareciam como lâminas ao se mover. Atrás dela, arrastava-se uma cauda disforme, mas viva — lembrava uma corrente, os elos tilintando a cada movimento, como se fossem parte do próprio corpo. A criatura parecia estar em espera, imóvel, mas seu simples existir era uma ameaça constante, como um predador à espreita.

Da mesma forma, a criatura o avistou à distância. Seus olhos fixaram-se no garoto de longos cabelos negros com uma intensidade predatória, selvagem, como a de um animal que enxerga presa. Mas, em vez de avançar para o ataque, o colosso curvou-se lentamente, a mandíbula dividida abrindo-se num estalo grotesco, como se fosse uma saudação macabra. A cauda em forma de corrente arrastou-se pelo chão, produzindo um som metálico que reverberou pelos becos silenciosos. Não havia dúvida: diante dela, o garoto não era um inimigo… mas um rei.

Astralion fechou os punhos, contendo a inquietação que lhe corroía por dentro. Um leve suspiro escapou de seus lábios antes que ele se virasse. Por mais que desejasse extrair mais informações dali, sabia que o mais sensato era recuar. Era certo que precisaria retornar.

Ao longe, pela janela da mansão, podia-se distinguir a silhueta marcante do Grão-Duque. Em sua mão, uma taça de vinho captava os reflexos da noite, cintilando em tons rubros. Seu olhar, distante e impenetrável, parecia contemplar a cidade… ou talvez algo muito mais específico. Era impossível saber se ele observava a todos, a ninguém — ou apenas ao forasteiro.

A missão de Astralion era clara: recuperar os livros e eliminar aqueles que ameaçassem Valor. Se Bugres realmente planejava invocar um “deus amaldiçoado imortal”, a cidade selaria o próprio destino sem que ele precisasse intervir. No entanto, ainda havia peças fora do tabuleiro. Seria o Grão-Duque August Heaven a verdadeira ameaça… ou apenas mais um jogador à mercê de forças muito maiores?

O Grão-Duque possuía poder, influência e acesso a segredos que a maioria sequer ousaria mencionar em voz alta. Era difícil acreditar que um homem como August Heaven fosse apenas mais uma peça a ser manipulada. E, ainda assim, a pergunta permanecia, incômoda como uma lâmina encostada à pele: o que o movia? Qual era o verdadeiro objetivo por trás de tudo aquilo?

Era certo dizer que, como autoridade maior de Bugres, o Grão-Duque deveria estar ciente dos estranhos acontecimentos que assolavam a cidade. Contudo, nenhuma ação fora tomada. Seria para não comprometer o festival? Para evitar pânico entre a população? Ou, talvez, por que tudo aquilo já fazia parte de seus próprios planos?

Qual ligação havia entre os mortos-vivos que surgiam nos arredores, a criatura que caminhava entre os becos como um presságio de ruína, e o “novo deus” aguardado no festival? Seriam apenas eventos separados, meras coincidências orquestradas pelo destino? Ou, no fundo, todos eles faziam parte de uma mesma engrenagem, movida por mãos invisíveis?

Parte 3

Em algum lugar, a figura masculina permanecia de pé diante de um imenso quadro. Seu olhar oscilava entre o desprezo e a admiração, como se a pintura carregasse tanto a memória de algo que ele repelia quanto a lembrança de algo que, no fundo, reverenciava.

A pintura, com mais de dois metros de altura, erguia-se como um monumento à glória e ao terror. Nela, Aleister Crowley — O mago primordial — era retratado no auge de sua fúria, enfrentando os temidos magos puros. Nas mãos, empunhava o lendário livro de encantamentos, reluzindo como o ápice de sua supremacia, enquanto seus inimigos se armavam com criações que jamais poderiam pertencer a Valor ou a qualquer outro reino conhecido. Três deles vestiam exoesqueletos, armaduras que transformavam homens em máquinas de guerra vivas. Mais ao fundo, duas figuras borradas se erguiam na penumbra, segurando engenhos que cuspiam morte à distância — armas de projéteis profanas, como se fossem arrancadas de um futuro impossível. Todos conheciam a lenda de Aleister Crowley e o impacto de sua existência. Ele fora o primeiro humano a receber o dom da magia diretamente das mãos dos próprios magos puros — um marco que transformara para sempre a história dos reinos. Mas em algum ponto, entre honras e segredos, veio o conflito. Do conflito nasceu Prière, um lugar onde a vida não ousa florescer. Conhecido até hoje como o território amaldiçoado pelos céus, é um solo estéril, marcado por cinzas, gases tóxicos e silêncio, onde nem mesmo o canto dos pássaros se atreve a ecoar. Um lembrete eterno da ruptura entre Aleister Crowley e os magos puros.

Por mais que os humanos os chamassem de magos puros, aquele garoto conhecia a verdade. Sabia de sua origem, de suas intenções ocultas e daquilo que, no âmago de sua essência, almejavam. Para ele, não passavam de usurpadores mascarados, movidos por dogmas tão profanos quanto as armas que empunhavam.

Mesmo sendo um humano, com longos cabelos negros e a juventude marcada pela adolescência, sua fisionomia carregava algo além do natural. Havia nele traços sutis, mas inegáveis, que remetiam a um réptil — um olhar frio, impassível, e uma presença que evocava mais instinto predatório do que humanidade.

Ele trajava um uniforme militar de corte rígido, feito em tecido negro reforçado, que absorvia a luz ao invés de refletir. A jaqueta era adornada por fileiras de botões metálicos escurecidos, sem brilho, como se fossem feitos para intimidar e não para enfeitar. As calças, também escuras, eram ajustadas para permitir movimentos ágeis, presas por um cinto largo com fivela ornamentada.

O quarto estava mergulhado em trevas, exceto pela luz direcionada à pintura, como se todo o espaço existisse apenas para exaltá-la. No entanto, na escuridão que a cercava, pares de olhos predatórios se moviam silenciosamente, faiscando como brasas vivas, observando com uma fome oculta e inquietante.

— Meu rei... qual será... o próximo passo? — a voz ecoou na escuridão, cada palavra arrastada como se carregasse o peso de séculos.

Assim como o aristocrata, tinha longos cabelos negros, mas eram seus olhos que impunham silêncio: tão profundamente negros que não refletiam a luz, transmitindo a sensação de um abismo capaz de devorar quem ousasse encará-los. Muitos desviavam o olhar instintivamente, tomados por um desconforto primal; outros, diante daquele olhar, sentiam apenas medo.

Para os répteis humanoides, ele era o rei absoluto, aquele cuja presença exigia reverência e obediência incondicional. Para os humanos, porém, era algo diferente — uma criança de olhar enigmático, cercada por rumores e mistérios, incapazes de compreender a verdadeira extensão do que se ocultava em sua essência. Ele carregava o sangue dos Heaven, uma linhagem que moldava tanto sua autoridade quanto o abismo que o separava dos demais.

— Eu pude ver... mesmo que por um breve deslumbrar, nosso objetivo. A vitória está cada vez mais próxima! —

O garoto se virou e olhou em direção a figura humanoide escondida na escuridão.

O garoto se virou lentamente, seus olhos negros faiscando sob a tênue iluminação da pintura. Encarou a figura humanoide que se ocultava na escuridão, como se entre eles não houvesse distinção entre predador e presa.

A penumbra revelou parte de sua forma: escamas esverdeadas recobriam-lhe o peito, as garras negras reluziam como lâminas e a mandíbula deslocada deixava entrever presas longas, prontas para dilacerar. Os olhos reptilianos brilharam, mas não de ameaça. Fixaram-se apenas no garoto, como se não existisse nada além dele.

Então, a criatura emergiu parcialmente da sombra, exibindo sua imponência monstruosa. Poderia destruir qualquer inimigo em um único golpe. Mas não avançou. Pelo contrário — inclinou-se, reverente, como um súdito diante de seu soberano.

O garoto manteve-se imóvel, o olhar inabalável. Não havia orgulho em sua expressão, tampouco surpresa; apenas a frieza de quem aceitava a reverência como algo natural, inevitável.

Seus olhos deslizaram pela criatura curvada, sem pressa, como se não passasse de mais uma peça em seu tabuleiro. Nenhuma palavra de aprovação, nenhum gesto de comando. Apenas silêncio.

A criatura, contudo, não ousou erguer-se. Permanecia prostrada, como se aquela indiferença fosse, por si só, o maior reconhecimento que poderia receber de seu rei.

O quadro, aos poucos, começou a se distorcer. As linhas que antes formavam uma pintura majestosa se retorceram, desfazendo-se em contornos caóticos, como se a própria tela fosse incapaz de conter aquilo. Não era apenas uma pintura em mutação, mas uma lembrança vívida do garoto, um fragmento de horror gravado em sua mente.

Na cena emergente, via-se o mago puro: longos cabelos loiros, olhos verdes que brilhavam como lâminas e orelhas pontiagudas que o marcavam como algo além de humano. À sua volta, um exército de guerreiros de exoesqueleto avançava em formação implacável, marchando contra figuras reptilianas humanoides. O choque entre as duas forças parecia prestes a despedaçar não apenas o campo de batalha, mas a própria essência do mundo.

Com o canto dos olhos, o rei lançou um olhar para o quadro em mutação. Não havia surpresa em sua expressão, apenas a frieza de quem já conhecia aquele destino. Era como se o próprio quadro fosse um aviso — um prenúncio de que o segundo round estava prestes a começar. Um prelúdio de uma nova guerra, uma nova batalha inevitável.

— Chamem todos. O momento se aproxima… Aquela que nos levará à glória caminha entre nós. —

— Como ordenar, meu rei. —

O rei deixou o quarto em silêncio, seus passos ecoando pelos corredores sombrios da mansão. Seguiu pelos becos largos e mal iluminados, onde as sombras pareciam se alongar ao seu redor. Ao longe, seus olhos predatórios encontraram a figura frágil e indefesa da humana que lhe servia como empregada.

A empregada, ao avistá-lo, arregalou os olhos e foi tomada por um medo avassalador. Era pura infelicidade cruzar seu caminho dentro da mansão. Ela sabia seu nome, sabia de sua importância — afinal, aquele garoto era o filho do Grão-Duque August Heaven. Contudo, havia algo de profundamente estranho em sua presença. Ele não se movia como alguém comum, nem mesmo como herdeiro de uma grande autoridade. Sua postura, seu olhar e até o silêncio ao seu redor carregavam uma supremacia inquietante — como se fosse mais do que o filho de um aristocrata, como se fosse superior até mesmo ao próprio pai.

Ela não ousou cruzar seu caminho, tampouco erguer os olhos para fitá-lo. Permaneceu cabisbaixa, desejando com todas as forças que ele desaparecesse. No entanto, sua infelicidade se tornou palpável quando a figura do garoto deteve os passos bem diante dela.

Ela não soube dizer se estava sendo observada, mas o desconforto era sufocante. Uma presença que não precisava de palavras a envolvia, trazendo consigo a ameaça silenciosa de um predador diante de sua presa.

Em consequência da pouca iluminação do corredor e da lua cheia no céu, a sombra projetada parecia deformada, como se, em vez de mãos, ele carregasse garras prontas para dilacerar.

— Diga ao meu pai que, em quinze minutos, irei vê-lo. —

A voz que saiu de seus lábios não era a de um adolescente. Não havia nela a ingenuidade de uma criança, mas a firmeza de um rei acostumado a ser obedecido. Cada palavra soava como uma ordem incontestável.

Ela não sabia dizer se ele havia, de fato, direcionado os olhos a ela. No fundo, intuía que não. Para ele, sua presença não passava de um detalhe irrelevante, um ser indigno até mesmo de ser notado.

Ao ouvir os passos que ecoavam como tambores de guerra, percebeu que ele se afastava. Tentou manter a postura até o último instante, mas, assim que a distância se impôs, suas pernas fraquejaram. Os joelhos tocaram o chão, e um violento enjoo tomou conta de seu corpo, arrancando-lhe vômitos entrecortados pela respiração trêmula.

*

O rei repousava sentado, experimentando calmamente de um líquido espesso em uma taça de vidro. Seu tom rubro deixava dúvidas — poderia ser apenas chá… ou sangue. Enquanto o jovem sorvia com a tranquilidade de quem dita o ritmo da sala, a figura paterna, o grão-duque August Heaven, permanecia de pé. Imóvel, erguia-se próximo à ampla janela, de onde a luz da lua cheia entrava, banhando seu perfil aristocrático com um brilho frio. Ao fundo, o céu estrelado parecia indiferente, contrastando com a tensão silenciosa que se acumulava entre pai e filho.

Em respeito àquela presença, a imponente figura aristocrata de Ímpeto mantinha-se imóvel, observando em silêncio. O Grão-Duque August Heaven não se enganava mais: a criança diante dele já não era apenas Eminence, seu herdeiro. Diante de si estava uma autoridade maior, um “rei” cuja influência se erguia acima até mesmo da sua própria. Naquele instante, não era o pai quem observava o filho — mas o vassalo quem reconhecia o soberano.

— Então? — indagou o rei, levando calmamente o cálice aos lábios e provando mais uma vez o líquido vermelho, cuja densidade lembrava sangue.

O Grão-Duque demorou a responder, como se pesasse cada palavra. Por fim, sua voz ecoou firme, mas carregada de cautela:

— Creio que Astralion desconfie de algo..., mas não a ponto de representar uma ameaça imediata. — Fez uma breve pausa, o olhar perdido na lua cheia além da janela. — Contudo, mesmo com sua presença aqui, ainda não consegui localizar Onoken.

— Creio que Astralion desconfie de algo..., mas não a ponto de representar uma ameaça imediata. — Fez uma breve pausa, o olhar perdido na lua cheia além da janela. — Contudo, mesmo com sua presença aqui, ainda não consegui localizar Onoken.

O rei não esboçou reação alguma. Apenas apoiou o cálice sobre o braço da cadeira, seus olhos negros refletindo a chama bruxuleante das velas. Não havia surpresa, nem frustração, tampouco interesse. O nome de Onoken, para ele, soava como uma lembrança distante, irrelevante no momento diante de seus próprios planos

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— Bom, por mais que não tenha conseguido localizá-la, o fato de tê-la trazido até mim é digno de orgulho. No final, você será recompensado. —

As palavras do rei saíram firmes, mas sem emoção, como se falasse de algo inevitável.

O Grão-Duque curvou levemente a cabeça em sinal de gratidão. Ainda assim, a dúvida latejava em sua mente, impossível de conter.

— Se me permite perguntar... — disse com cuidado, escolhendo cada sílaba como se pisasse sobre vidro. — Qual a necessidade dela? Ou melhor... o que ela é?

O silêncio que se seguiu foi tão denso quanto a escuridão do quarto, como se a própria pergunta tivesse ousado atravessar um limite proibido.

De cabeça baixa, ele sentiu o olhar hostil cravar-se sobre si, esmagador, como se aquelas palavras tivessem ousado questionar não apenas os planos do rei, mas a própria ordem estabelecida. Por um instante, o Grão-Duque temeu pela própria vida.

— O que ela é... — A voz do rei soou, arrastada, quase nostálgica, como se estivesse resgatando algo distante e inominável.

O Grão-Duque engoliu seco, a garganta ardendo com o gesto. Não sabia se a resposta viria como uma revelação ou como uma sentença de morte.

— Não sei dizer se ela é algo natural... ou antinatural. Se foi criada por magia ou moldada pela ciência. — A voz do rei ecoou, pausada, quase solene. — A existência daquela coisa permanece suspensa no desconhecido. Contudo, uma verdade é certa: ela está ligada, de forma indissolúvel, aos que vocês chamam de magos puros.

O Grão-Duque conteve a respiração. Sentiu que cada palavra arrancava um pedaço de sua coragem, deixando-o imóvel, como se questionar novamente fosse selar sua morte.

O rei apertou a taça com tanta força que o cristal não resistiu, estilhaçando-se em sua mão. O líquido vermelho escorreu pelos dedos, pingando no chão como se fosse sangue. No entanto, não havia corte algum, nenhum vestígio de ferimento.

O estalo seco fez o Grão-Duque erguer a cabeça, instintivamente buscando entender o que acontecera. Arrependeu-se no mesmo instante. O olhar do rei não trazia ira passageira, mas um vazio absoluto, frio e inescapável. Ele exalava morte.

Tudo o que era sábio admitir era que Onoken tinha um papel crucial nos planos de Eminence, o rei. O Grão-Duque, embora tomado pelo temor, encontrava um alívio amargo naquela revelação: o festival em curso seria o último. Após seu desfecho, não haveria mais máscaras ou celebrações — apenas a marcha inevitável rumo à conquista de Ímpeto e Valor.

— Meu rei… quais passos devo seguir? — indagou a figura de maior prestígio em Ímpeto, sua voz carregada de respeito, mas também de receio.

— Reúna todos os humanos e faça que os gear tenha sucesso. — Ordenou o rei.

— Sim, meu rei. — respondeu o aristocrata se retirando.

Pelo pedido do rei, era notável que, apesar de já comandar um número considerável de lacertílias, ele almejava mais. Havia algo oculto por trás de suas palavras, algo que ia além de simples reforço militar. O que parecia, à primeira vista, um pedido banal, escondia raízes em algo muito mais fantasioso — um propósito que o próprio grão-duque sequer ousaria imaginar.

Gear não era algo simples de explicar. Sua essência ia muito além da mera condição de duas almas dividindo o mesmo corpo. Tratava-se de um ritual implantado em um organismo, moldado para obedecer a comandos gravados em seu subconsciente — ordens enraizadas na memória e na personalidade de outras pessoas. A alma renascia pouco a pouco, consciente de sua própria existência, capaz até de dialogar dentro da prisão da mente. Mas, com o passar do tempo, deixava de ser apenas uma voz. Tornava-se dominante, assumindo o controle do corpo até que o hospedeiro original fosse apagado por completo.

O festival não passava de uma isca, um artifício cuidadosamente preparado para atrair multidões para dentro de Bugres. Em outras palavras, o aristocrata havia traído o próprio reino, oferecendo sua cidade como sacrifício. Cada música, cada luz e cada sorriso festivo não passavam de ornamentos em um altar de engano.

Se lhe perguntassem o motivo, ele responderia: por desejo de conquistar o inimaginável. Décadas de espera culminavam naquela noite. Não foi apenas o reino que ele traiu, mas também a própria esposa, no dia em que ofereceu o próprio filho. Desde então, tudo não passava de uma sinfonia dissonante orquestrada pela alma que habitava o corpo de Eminence — o verdadeiro maestro por trás da ruína.

Os reinos conheciam bem a história oficial: os magos puros desceram do céu, e Aleister Crowley foi proclamado o primordial da magia. Livros foram escritos em reverência, transformando aquele acontecimento em um marco imortal da história. Valor herdou a glória desse evento, tornando-se símbolo de supremacia mágica perante os demais reinos.

Mas havia um detalhe que poucos conheciam. Em algum lugar esquecido de Ímpeto, em uma cidade pequena, cercada por planícies e montanhas, outro contato havia acontecido. Um mago puro — não um mito, mas carne e sangue — surgira ferido, pedindo ajuda aos habitantes de Bugres.

Naquela época, o Grão-Duque ainda era apenas uma criança. E foi ali, diante daquela figura que nada se parecia com as descrições sagradas dos livros, que sua fascinação nasceu.

A figura reptiliana, com seus dois metros e meio de altura, não sobreviveu por muito tempo. Suas escamas, outrora cintilantes, já perdiam o brilho, e a respiração soava como um lamento preso entre mundos. Ainda assim, antes de perecer, ela falou. Prometeu à criança algo impossível: a dádiva de todo o mundo, em troca da chance de regressar à vida.

O garoto não hesitou. Como um contrato ancestral, selado não por pergaminhos, mas por sangue, ele cravou seus dentes na carne fria da criatura. O gosto metálico e amargo percorreu sua boca enquanto ele bebia o sangue reptiliano, gravando em si uma promessa proibida. A criatura, por sua vez, fechou os olhos, como se descansasse com a certeza de que, um dia, regressaria.

Não houve mudanças aparentes. O segredo permaneceu guardado apenas dentro dele, enterrado como uma cicatriz invisível. Cresceu, tornou-se homem, casou-se e seguiu sua vida.

Mas, quando Eminence completou cinco anos, algo começou a se transformar. A criança que um dia fora alegre e cheia de vitalidade passou a definhar. Seu olhar, antes vibrante, tornara-se vazio; sua presença, fria. Era como se vivesse sem viver, caminhando à beira da morte — um cadáver que respirava.

Médicos foram chamados de todos os cantos, mas nenhum deles conseguia explicar ou curar aquilo. Uns diziam ser maldição, outros, uma doença sem nome. Eminence, porém, murmurava sempre a mesma coisa: que vozes o chamavam na escuridão. Vozes que o impediam de dormir, que lhe roubavam o apetite, que o consumiam lentamente até deixá-lo frágil como um fantasma.

A voz crescia a cada dia, tornando-se mais nítida, mais imperativa, até que já não era apenas um sussurro, mas uma presença que moldava cada gesto da criança. Aos poucos, Eminence desapareceu. Se, em algum momento, duas almas dividiram o mesmo corpo, agora só restava uma.

Quando ergueu o olhar para o pai, já não era a criança frágil que conhecia. Um sorriso sombrio rasgava-lhe o rosto, e de seus olhos emanava apenas morte. Naquele instante, Eminence falou — não como filho, mas como herdeiro de algo maior, mais antigo.

Suas palavras foram um lembrete cruel, trazendo à tona o que estava acontecendo: a promessa que fizera ainda criança, ao beber o sangue da criatura reptiliana.

Não houve espanto, tampouco medo. Apenas um alívio profundo tomou conta do grão-duque, como se finalmente tivesse reencontrado algo que esperava desde a infância. O desejo que alimentara em segredo, por anos, agora pulsava diante dele. Chegara a acreditar que o momento jamais viria, mas as engrenagens do destino, enfim, estavam em movimento — girando implacáveis a seu favor.

O gear havia sido concretizado.

O início de algo maior estava prestes a se concretizar. Eminence não se contentaria apenas com o que possuía — ele queria mais. Desejava regressar plenamente, elevar-se acima de sua condição atual. Pelo gear, planejava invocar não apenas poder, mas o renascimento de seu exército de lacertílias, uma horda destinada a pavimentar o caminho de sua ascensão.


Notas finais
decidi não postar essa parte na historia principal, mais por questão de gosto mesmo. Creio que por está quase finalizada era melhor eu posta-la por fora. Obs: creio que deu pra perceber, estou usando ajuda de inteligência para melhorar na ortografia.