Erased- Astralion e o culto misterioso.
2 Entre a Espada e a Guerra.
Parte 4
Alguns dias atras...
Onoken movia-se através das sombras, recusando-se a ser vista. Mesmo sob a luz do dia, sua forma translúcida deslizava pelos becos e salões silenciosos, como um reflexo que não pertencia àquele mundo. Observava os mortos-vivos em silêncio, estudando cada passo, cada gesto. Sua presença não era percebida, mas sentida — um arrepio súbito na espinha, o sopro gélido que denunciava que algo invisível rondava por perto.
Enquanto investigava as entradas da cidade, percebeu que Bugres estava recebendo presenças ilustres: figuras de grande importância para o reino de Ímpeto. Da entrada principal, sua visão aguçada captava os brasões gravados nas carruagens que desfilavam em fila solene. Entre eles, reconheceu símbolos de famílias de prestígio e poder, a prova de que algo grandioso estava prestes a se desenrolar.
Seu corpo translúcido pairava nos céus, analisando com precisão cada detalhe. Abaixo, o número de mortos-vivos se erguia em massa — mais de dez mil. No entanto, Onoken sabia que aquilo era apenas o prelúdio. O verdadeiro espetáculo ainda não havia começado. O gear permanecia estagnado no corpo, aguardando o momento certo.
Aos poucos, as almas em conflito eram consumidas pela alma dominante, aquela que se erguia como vencedora. No entanto, por mais ferozes que fossem em essência, os corpos que carregavam essa fusão agiam de forma estranhamente dócil, camuflando-se entre a multidão sem levantar suspeitas.
Onoken, conhecedora do funcionamento do gear, percebeu a discrepância. Algo não estava certo naquele ritual. O processo de fusão não era estável. Apenas os Precursores, em sua origem, possuíam controle pleno sobre a simbiose de almas e corpos. Talvez fosse exatamente por isso que o mecanismo diante de seus olhos parecia completo… mas não perfeito.
À primeira vista, eles se misturavam com naturalidade entre os cidadãos — riam, bebiam, acenavam como se fossem parte viva da celebração. Mas Onoken sabia observar além da superfície.
Havia pequenos detalhes que os denunciavam: um sorriso que permanecia congelado tempo demais, olhos que piscavam em descompasso, movimentos corporais que, por vezes, lembravam mais engrenagens do que carne. Alguns deixavam escapar um brilho esverdeado nas írises, quase invisível para olhos comuns. Outros, ao caminhar, produziam um som seco, como madeira rangendo. Sinais discretos, quase imperceptíveis, mas que para Onoken gritavam uma única verdade: o gear estava funcionando… de forma imperfeita.
Ao tempo que observava as criaturas, Onoken notou uma carruagem distinta se aproximando. Ela não era como as outras: robusta, protegida por detalhes metálicos reluzentes, e puxada por quatro cavalos brancos de porte imponente.
No centro da lateral da carruagem, cintilava o emblema de uma das casas mais antigas e temidas de Ímpeto: um dragão alado de duas cabeças, uma voltada para o céu e a outra para a terra. À sua volta, erguia-se uma coroa flamejante, símbolo de autoridade divina e inquestionável. O brasão se impunha sobre todos os demais, irradiando soberania — fosse na luz do dia ou nas sombras da noite.
Onoken deteve-se naquele símbolo com um interesse silencioso. Já havia visto aquele brasão em Valor, e isso bastava para que soubesse quem viajava dentro da carruagem. Por um instante, considerou relatar ao mestre, mas permaneceu imóvel, hesitante. Talvez a dúvida não fosse sobre a lealdade, mas sobre se era realmente sábio revelar tal presença.
A princesa, por sua vez, espiava discretamente através de uma pequena brecha na carruagem. Seus olhos atentos captaram, de relance, uma mancha translúcida no céu, uma forma distorcida da luz que parecia deslocar-se com intenção própria. Curiosa e cautelosa, ela abriu a cortina com cuidado, tentando entender melhor o que chamava sua atenção.
Do alto, Onoken também havia notado a mesma presença etérea. Seus sentidos aguçados detectaram movimentos sutis, quase imperceptíveis, mas que carregavam um propósito. Por um instante, suas visões se encontraram de maneira indireta: a princesa observando o céu, Onoken pairando acima da cidade.
Ambas permaneciam imóveis, silenciosas, cada uma absorvendo fragmentos do que se aproximava. Havia um elo invisível, sutil e inquietante, conectando a mancha translúcida, a princesa e Onoken.
Quando finalmente compreenderam a natureza do que observavam, os sorrisos surgiram quase que instantaneamente. Um, carregado de desconforto e mistério; o outro, impregnado de sadismo e travessuras. Dois mundos distintos, unindo-se por um instante, cada expressão revelando intenções tão diferentes quanto complementares.
Ao notar a figura que subia lentamente aos céus, a princesa fechou a janela com um gesto suave, abafando a visão perturbadora. Virou-se em seguida para o interior da carruagem, onde seus servos a aguardavam em silêncio. Entre eles, destacava-se o guarda real, responsável direto por sua segurança.
Ela manteve a postura altiva, o semblante sereno — como se nada a tivesse abalado. Mas o guarda, treinado para observar cada detalhe, percebeu as mudanças sutis em seu comportamento: o ritmo levemente acelerado da respiração, a rigidez quase imperceptível de suas mãos e o brilho estranho em seus olhos. Pequenos sinais de que, por trás da calma, algo havia mexido profundamente com a princesa.
O silêncio perdurou por alguns minutos, até ser encerrado no instante em que a carruagem cruzou o grande portão de madeira, com mais de quatro metros de altura. Nesse momento, a princesa Seliora d’Ímpeto ergueu os olhos e se surpreendeu com a imponência que se revelava diante dela. As construções de Bugres se erguiam como gigantes de pedra e madeira, exibindo uma arquitetura sólida e austera.
Ela compreendeu, então, que entre todas as cidades do reino de Ímpeto, nenhuma poderia se comparar a Bugres. Havia ali algo além da grandeza física: uma presença silenciosa, quase sufocante, que pesava sobre cada rua e cada muralha.
Ao mesmo tempo, o guarda real deixou sua postura relaxada de lado. Seu olhar crítico varria cada detalhe da cidade, e em instantes percebeu algo que os outros ignoravam: uma pressão invisível pairava no ar, sublime e pesada, exalando morte. Era uma hostilidade discreta, mas tão penetrante que o fez estremecer assim que cruzaram o portão. Poderia tentar convencer-se de que era apenas uma impressão passageira — fruto da viagem ou do ambiente desconhecido —, mas seu corpo gritava outra verdade: havia perigos ocultos em Bugres.
Já as duas empregadas acompanhantes reagiram de forma distinta. Seus olhos se arregalaram diante da paisagem urbana, como se estivessem diante de um mundo completamente novo. Àquela hora, o sol poente tingia de vermelho e dourado as torres e arranha-céus de pedra negra, fazendo-os parecer ainda mais imponentes e ameaçadores. Os vitrais coloridos refletiam a luz em fragmentos cintilantes, projetando manchas de cor sobre as fachadas escuras. Gárgulas entalhadas nos telhados e nos arcos ogivais surgiam meio vivas à meia-luz, como se a própria cidade despertasse com o cair da tarde. Até mesmo as ruas, pavimentadas em pedras irregulares, pareciam mais estreitas e tortuosas sob as longas sombras que se estendiam pelo chão.
Era um espetáculo fascinante e perturbador: Bugres não se escondia sob a noite, mas revelava sua imponência gótica ainda no entardecer, como se aguardasse a escuridão para mostrar sua verdadeira face.
Havia uma intriga quase palpável entre o toque suave do festival e o que Bugres realmente era. As ruas estavam enfeitadas com bandeirolas coloridas, música e risos ecoavam de diferentes cantos, e o cheiro de especiarias doces e vinho barato pairava no ar. À primeira vista, parecia uma cidade entregue à celebração, viva e acolhedora. Mas bastava olhar com mais atenção para que a ilusão se quebrasse. Entre as cores vibrantes, erguiam-se construções de pedra escura, austeras e pesadas, que pareciam observar em silêncio cada passo dos visitantes. As torres pontiagudas e os vitrais refletindo o vermelho do pôr do sol davam um ar quase funerário à paisagem. Até mesmo as sombras projetadas pelo entardecer tornavam as ruas estreitas e tortuosas, lembrando mais um labirinto de predadores do que um local de festa.
Era como se a própria cidade zombasse da alegria temporária, permitindo que o festival fosse apenas um véu frágil sobre sua verdadeira essência — sombria, fria e faminta.
— Princesa!? — a voz do guarda real ecoou, firme, como se a puxasse de volta ao propósito da viagem.
Seliora compreendeu de imediato. Não estava em Bugres para festejar, mas sim por motivos muito mais sérios — políticos e investigativos. Por obrigação, não podia negar o convite do festival; ainda assim, mantinha consigo batalhões de emergência, sempre em prontidão, aguardando suas ordens caso a situação exigisse intervenção imediata.
Ela tinha plena consciência de que as facções estavam se fortalecendo contra a coroa. Era apenas questão de tempo até que um golpe de Estado viesse à tona. E o mais perturbador: o principal articulador não era um inimigo distante, mas o homem de maior confiança do rei — o próprio grão-duque.
— Eu sei… — disse Seliora, restaurando a postura, enquanto percorria com olhos atentos cada rua da cidade. Inicialmente, nada parecia fora do comum, mas um olhar mais crítico revelou algo perturbador: estavam sendo observados.
Apesar da percepção, preferiu manter silêncio sobre a figura translúcida que pairava sobre o céu, consciente de que qualquer palavra poderia levantar suspeitas ou revelar informações prematuras.
— Até que ponto sabemos? — questionou, mantendo os olhos baixos, evitando direcioná-los diretamente ao guarda.
— Grande parte da nobreza acredita que o Grão-Duque August Heaven seja o escolhido para trazer glória a Ímpeto. —
— Humm… — Seliora ponderou sobre as palavras, franzindo levemente o cenho. — Lavagem cerebral ou algo do tipo? —
— Diz a lenda que o próprio mago puro desceu em Bugres e o abençoou. Foi mantido em segredo por anos, mas, aos poucos, a história veio à tona. — disse o guarda real.
— Depois de tanto tempo, conseguimos nos aliar a Valor, e agora ele traz à luz os livros sobre os magos puros. — Seliora murmurou, pensativa. — Talvez o festival do “novo deus” seja apenas uma metáfora… para algo, ou alguém.
A princesa analisou com calma as informações adquiridas até o momento e, em seguida, reforçou algo.
— Você se lembra quando o rei de Valor morreu? —
O guarda real ficou pensativo. De fato, poucas pessoas conheciam os detalhes do ocorrido. Segundo os relatos, o monarca enfrentou uma criatura imune à magia comum, com corpo intangível, capaz de absorver magículas para se manter. Na grande batalha, vários soldados e magos pereceram, levando cidades inteiras consigo. Ainda assim, a figura desapareceu sem deixar rastro. Ficou conhecida como o “deus amaldiçoados imortais”.
Ele não compreendia qual seria a ligação disso com os acontecimentos atuais, mas aguardou a continuação.
— Acredita-se que os livros possuam meios de invocar um mago-puro — disse a princesa —, mas o que ocorreu no reino de Valor mostra que, ao usar tais conhecimentos, os resultados podem ser totalmente imprevisíveis.
— Então você acredita que ele esteja querendo invocar um mago-puro? — perguntou o guarda, ainda sem ligar os pontos.
A princesa sorriu levemente, percebendo sua falta de percepção.
Sua intuição dizia que Grão-Duque August Heaven não desejava invocar um mago-puro, nem nada que escapasse de seu controle. Ele pretendia, sim, usar os mesmos métodos, mas para trazer algo diferente — algo que pudesse dominar totalmente e implantar em Bugres.
A princesa permaneceu em silêncio, analisando as ruas de Bugres com atenção. Cada movimento, cada carruagem, cada figura parecia carregar um peso maior do que aparentava. Algo estava acontecendo naquela cidade, algo que não se mostrava abertamente, mas podia ser sentido no ar.
— Desde que entramos em Bugres, há uma sensação… como se a própria cidade estivesse sendo preparada para algo — murmurou ela, mais para si mesma do que para o guarda. — Não sei exatamente o que, mas… isso não é natural.
O guarda real permaneceu atento, percebendo a tensão na voz da princesa. Ela ergueu os olhos para observar o festival que se aproximava, com suas luzes, música e multidão, e ainda assim havia uma estranha dissonância: uma aura de manipulação e alerta que pairava sobre tudo.
— Dizem que a criptografia do livro é tão complexa que nem mesmo os especialistas conseguem decifrar com precisão do que se trata — disse a princesa, franzindo levemente o cenho —. Mas acreditam que haja alguma ligação com os magos-puros. Me pergunto até que ponto isso é verdade.
O clima carregado, a atmosfera tensa… desde que entramos em Bugres, sinto que estamos dentro de um ritual camuflado. Talvez tenha levado anos para ser construído, mas tudo indica que envolve a cidade inteira. Um grande círculo de magia foi traçado aqui, e cada detalhe parece ter sido planejado com extremo cuidado. —.
Do alto, Onoken pairava sobre os telhados de Bugres, sua forma translúcida quase se confundindo com a luz que caía do sol poente. Cada detalhe da cidade passava por seus olhos atentos: as carruagens que entravam, os guardas que patrulhavam e os cidadãos que seguiam suas rotinas, alheios à trama que se desenrolava sobre eles.
Ela sentia a pulsação da cidade, um ritmo sutil, quase imperceptível, mas carregado de intenção.
Onoken observou a princesa Seliora d’Ímpeto pela janela de sua carruagem. A jovem analisava a cidade com cuidado, absorvendo cada detalhe, e Onoken percebeu a atenção dela. Não era apenas curiosidade: havia instinto, pressentimento. A princesa ainda não sabia o que realmente se escondia em Bugres, mas Onoken podia sentir que ela estava perto de perceber algo, mesmo sem compreender totalmente. A princesa Seliora d’Ímpeto parecia calma, mas havia uma tensão sutil em sua postura, um alerta silencioso que apenas alguém atento conseguiria perceber.
Onoken riu baixinho, um som quase imperceptível que se perdeu no vento.
— Parece que você está me observando...— murmurou Seliora, inclinando-se ligeiramente para fora da janela, como se conseguisse sentir a presença da criatura translúcida no céu.
A princesa riu baixinho, um som que misturava charme e travessura. — Você me subestima, Onoken. Mas talvez eu devesse me preocupar com você também.
O ar entre elas carregava uma estranha tensão, mas também familiaridade. Não havia medo verdadeiro, apenas aquele jogo silencioso de quem sabia demais e de quem podia ver demais. Enquanto a carruagem avançava, Onoken permaneceu ao lado, observando, protegendo, mas também testando os limites da princesa, como se ambas compartilhassem um segredo que apenas elas entendiam.
Seu mestre poderia não compreender o ocorrido, mas Onoken sabia que aquilo que entrou em contato com o Grão-Duque não era um mago puro. Estava longe disso. Tratava-se de algo que assumira a identidade do mago apenas para ganhar credibilidade. Porém, quando se tratava do gear, até mesmo Onoken admitia a incerteza: somente os verdadeiros criadores de vida possuíam tal capacidade.
Sua investigação havia rendido revelações valiosas. Os chamados precursores — ou, como os humanos preferiam chamá-los, magos puros — carregavam dogmas rígidos, princípios inquebráveis que sustentavam sua existência. Por se verem como entidades superiores, jamais compartilhariam voluntariamente qualquer conhecimento sobre o gear.
Essa constatação, contudo, levantava mais perguntas do que respostas: se não foram os magos puros a fornecer tais segredos, quem ousaria atravessar o limite proibido e manipular algo reservado apenas aos criadores da própria vida?
*
Eminence avançava pelos corredores da mansão com passos calmos, mas cada passo parecia ressoar como um tambor de comando. Um sorriso largo, quase cruel, desenhava-se em seu rosto, revelando a confiança absoluta de quem já conhecia o jogo.
Ao chegar diante da porta, bateu três vezes, de forma calculada, como se cada toque marcasse não apenas respeito, mas também lembrasse ao mago forasteiro que a próxima interação não seria comum. Sem esperar por resposta, empurrou a porta e entrou.
Astralion o esperava próximo à janela, seus olhos negros fixos e calculistas. A luz do fim de tarde refletia em seu semblante, mas não havia traço de receio — apenas avaliação. Ainda assim, a presença de Eminence enchia o ar com uma tensão, como se cada molécula da sala reverenciasse a figura que agora se colocava diante dele.
Astralion conhecia pouco sobre a figura à sua frente, mas isso não diminuía a sensação de perigo que emanava dele. Apesar da aparência juvenil, Eminence possuía uma aura mágica esmagadora, uma força sombria que parecia sugar o ar ao redor, capaz de provocar náuseas e vertigens nos mais fracos. Sua fama, crescente como o do festival, não era exagero — e ainda assim, por um estranho capricho do destino ou intenção deliberada, eles nunca haviam se encontrado até aquele momento.
A criança avançava com um sorriso frio, quase predatório, como se cada passo fosse calculado para impor respeito e medo ao mesmo tempo.
Estranhamente, havia algo no garoto à sua frente que destoava do comum. Sua aparência lembrava a de um humano, mas apenas na superfície. Nos detalhes — no olhar que parecia antigo demais para aquela idade, no modo como se movia como se estivesse fora de sincronia com o mundo, na aura densa que fazia o ar pesar — ficava claro que não era um ser comum.
Era como se a carne fosse apenas uma máscara, uma fachada para esconder algo muito mais profundo e distorcido. Astralion não conseguia identificar de imediato, mas cada instinto em seu corpo o alertava: aquela criança não era humana.
— Oh, desculpe por não ter dado as boas-vindas antes — disse Eminence, a voz suave, mas carregada de autoridade, ressoando com ecos que pareciam reverberar na própria mente de Astralion. — Papai disse que queria um momento especial, quando você já estivesse… familiarizado com a cidade.
O silêncio que se seguiu era pesado, sufocante. Cada respiração parecia ecoar como um aviso: aquilo que estava diante dele não era apenas uma criança, mas uma presença ameaçadora.
— Como posso te chamar? — reverenciou Astralion.
Ele não percebeu, mas a pergunta havia irritado o garoto, que tentou disfarçar com um sorriso forçado e congelado.
— Me chame de Eminence, não precisa de formalidades ou títulos — respondeu ele, a voz firme, carregada de uma autoridade que parecia pesar no ar.
— Como desejar, senhor Eminence — disse Astralion, mantendo a postura respeitosa.
Eminence observou o mago curvar-se, cabeça baixa, e uma faísca de desdém surgiu em seus olhos. Imediatamente, trocou a expressão, tentando disfarçar a afronta. Ainda assim, precisava manter o papel.
— Então, onde está sua parceira? — Eminence perguntou, mantendo o olhar sério e fixo no mago Astralion.
A pergunta direta deixou Astralion em alerta, como se testasse sua lealdade ao Grão-Duque August Heaven. Lentamente, ergueu a cabeça e encarou o garoto impaciente à sua frente.
Era evidente o motivo da solicitação repentina para encontrá-lo. Astralion compreendeu, de imediato, que seria melhor evitar que Eminence e Onoken se cruzassem. O que quer que aquele garoto desejasse, não era algo simples ou desprovido de intenções ocultas.
Ele não sabia ao certo quais seriam os planos de Eminence, mas havia uma certeza incômoda: se Onoken o visse, ela o tomaria como uma ameaça imediata. O choque entre eles seria inevitável — e possivelmente devastador.
— Se você deseja vê-la, verá — respondeu com cautela. — No entanto, será necessário algum tempo, pois ela é muito teimosa. Posso, entretanto, conversar com ela para que se apresente a ti.
Eminence não gostou da resposta. Seus punhos se fecharam com força, denunciando a irritação que tentava esconder. Um suspiro, carregado de desdém, escapou de seus lábios antes que voltasse a forçar um sorriso artificial.
— Ah, ótimo. Assim espero. — A voz soava doce, mas havia um peso que não condizia com a aparente cordialidade. — Enquanto isso… por que não vamos para outro lugar?
Sem esperar resposta, virou-se e começou a caminhar em passos firmes, como se já tivesse a certeza de que Astralion o seguiria — não como convidado, mas como alguém arrastado pela inevitabilidade de sua vontade.
Ainda que silencioso, Astralion sentiu que deveria acompanhá-lo, como se já tivesse assumido o papel de seu mais novo subordinado.
Enquanto caminhavam pelos corredores da mansão, Astralion se sentiu sufocado, como se o ar rareasse a cada passo. Os vitrais coloridos e os candelabros dourados nada faziam para suavizar a sensação de mergulhar em algo proibido. Havia um silêncio que pesava mais que o som, carregado de presságios.
Então, seus olhos se fixaram na grande porta de ferro adiante. Não era apenas uma entrada — era um limite. Astralion estacou por um instante, sentindo o corpo reagir antes mesmo da mente compreender. Um frio latejou em sua espinha, como se algo o tivesse reconhecido antes mesmo de ser visto.
O emblema cravado na porta, Astralion logo percebeu que não se tratava de nenhum dos brasões conhecidos de Ímpeto, tampouco de Valor. Nenhuma heráldica registrada carregava tal símbolo. Por um instante, pensou se poderia vir de outro reino, mas a intuição lhe dizia que não — aquilo era algo diferente, um sinal que não pertencia ao mundo das coroas e linhagens.
Astralion estreitou os olhos. O brasão transmitia uma energia antiga, crua, algo que não pertencia ao domínio humano. Era como se o próprio emblema fosse uma extensão de Eminence, um reflexo gravado em ferro e madeira daquilo que realmente habitava dentro dele.
O metal da porta parecia pulsar, como se respirasse em silêncio, exalando uma pressão que fazia o ar pesar nos pulmões de Astralion. Não eram símbolos de coroas, espadas ou dragões. Não eram símbolos de coroas, espadas ou dragões. Eram linhas orgânicas, irregulares, que lembravam veias latejantes, convergindo para uma figura central de um lagarto que o encarava fixamente com olhos penetrantes possuindo como plano de fundo garras. Quanto mais tempo o mago fitava o emblema, mais sentia que estava sendo fitado de volta.
Um frio percorreu sua espinha. A energia que jorrava daquela porta era a mesma que irradiava de Eminence, disfarçada sob sua aparência juvenil. Astralion compreendeu, sem que ninguém precisasse dizer: aquela criança e aquele emblema pertenciam à mesma origem. E tal origem não era humana.
O silêncio do corredor pareceu se aprofundar, como se toda a mansão tivesse prendido a respiração diante daquela porta. Astralion não queria avançar, mas também não conseguia se afastar. Cada fibra do seu corpo gritava perigo, e ainda assim, havia algo que o impelia a seguir.
Afinal, se aquela era a origem de Eminence, virar as costas significaria ignorar a verdade que já o havia engolido.
Não foi dita nenhuma palavra, mas por algum motivo os olhos do lagarto brilharam, como se despertassem de um sono profundo. Então, sua boca se abriu, dividindo-se em quatro partes, expondo fileiras de dentes curtos e serrilhados que não deveriam estar ali.
O som que se seguiu não foi o de metal se movendo, mas de carne sendo rasgada, como se a porta tivesse vida própria. Lentamente, ela cedeu, rangendo e revelando uma fenda estreita.
Do outro lado, as luzes de velas tremulavam, lançando sombras alongadas que dançavam nas paredes. A sala cheirava a ferro oxidado e incenso queimado, uma mistura que fazia o estômago revirar.
Astralion, de todos os sentimentos que já havia experimentado, o mais próximo naquele instante era a impotência. O peso do ambiente esmagava sua alma, e suas palavras, quando escaparam, foram apenas um sussurro inaudível, perdido no ar sufocante.
— O que tenho aqui vai fazer você se entregar de corpo e alma a mim — disse Eminence, erguendo a mão em direção à passagem, o sorriso juvenil contrastando com a aura de morte que exalava.
Astralion fechou os punhos, tentando conter o tremor, e deglutiu com esforço. Seus pés avançaram, um após o outro, em passos pesados, até que ultrapassou o limiar da porta.
O ambiente diante dele mais lembrava um laboratório do que um quarto. Estantes abarrotadas de livros e cadernos estavam organizadas com precisão obsessiva, cobertas de anotações rabiscadas em símbolos incompreensíveis. Vidrarias de diferentes tamanhos repousavam sobre mesas de madeira, algumas com líquidos densos que oscilavam em tons de verde e vermelho, pulsando como se estivessem vivos.
E, no entanto, nada se comparava ao que dominava o fundo do aposento: um quadro de Aleister Crowley. O retrato parecia respirar, as linhas do pincel pulsando como carne. A cada olhar, as feições do homem se distorciam, ora um sábio, ora um demônio, como se Crowley jamais tivesse sido um, mas sim muitos.
Astralion prendeu o ar. Tinha a nítida impressão de que aquele quadro não estava apenas exposto — ele o observava de volta.
Poderia ser apenas uma pegadinha. Aleister Crowley, o mago primordial, tinha sido seu mestre em magia, e ainda assim o quadro parecia lutar contra si mesmo. As cores, os traços e as sombras se moviam sutilmente, como se estivessem vivos, contestando a própria essência do retrato. Estranho de se pensar, mas era exatamente isso que Astralion sentia.
Os livros que ele procurava estavam ali, espalhados pelo quarto, mas algo neles parecia… irrelevante. A verdadeira importância não residia nas páginas, mas no que o ambiente, o quadro e a própria presença de Eminence sugeriam. Tudo indicava que aquilo era um teste, um jogo de paciência e percepção — e que o real poder escondido naquela sala ia muito além do que se podia ler ou tocar.
Astralion avançou pelo quarto, cada passo ressoando levemente entre as estantes abarrotadas de livros, vidrarias e anotações alquímicas. O ar era denso, impregnado de magia antiga, e mesmo os líquidos verde e vermelhos nas bancadas pareciam pulsar com vida própria. No fundo do aposento, o quadro de Aleister Crowley dominava tudo.
Com sua túnica mágica branca, cabelos longos e negros, e um livro de magia dourado firmemente segurado, a figura parecia capturada na juventude, mas irradiava autoridade e sabedoria de eras. Os olhos da pintura pareciam seguir Astralion, carregados de segredos e conhecimento ancestral, quase desafiando-o a compreender o que estava diante de si. Era impossível não sentir o peso da história, da magia e do legado que emanava daquele retrato.
Eminence estava ali, não como uma criança, mas como um rei em toda a sua presença. Seu olhar fixava Astralion com intensidade calculada, cada gesto silencioso transmitindo poder e expectativa.
Astralion engoliu em seco, sentindo a impotência crescer diante da combinação da autoridade do jovem rei e da aura de Crowley que preenchia o ambiente. Com passos cautelosos, aproximou-se, consciente de que cada detalhe daquele quarto, cada livro e cada sombra, estava ligado a forças que ele ainda mal compreendia.
— Aleister Crowley... — Sussurrou a si mesmo.
Havia um enigma naquele quadro que Astralion podia decifrar. Mais do que uma simples pintura, ele carregava um significado oculto, uma lembrança cifrada de uma era de ouro para o mago primordial. Cada traço, cada nuance das cores e das formas parecia carregar códigos que apenas alguém com conhecimento profundo poderia compreender.
Astralion sabia, sem sombra de dúvida, quem havia pintado aquela obra: ele estivera presente. Cada detalhe remetia a momentos específicos, experiências vividas e lições gravadas não apenas na tela, mas na própria essência do mago primordial. Era mais do que arte; era um registro vivo, um enigma que exigia atenção e percepção aguçada para ser verdadeiramente compreendido.
— O antigo rei de Valor pintou esse quadro. Eu nunca entendi o porquê da pintura, mas me senti fascinado ao observá-la — disse Astralion, relembrando os dias passados, sua voz carregada de nostalgia e respeito.
Ao voltar sua atenção, percebeu os livros espalhados sobre a mesa e no chão — aqueles que um dia pertenceram a Valor. Por mais que sua missão fosse resgatá-los, naquele instante tudo parecia insignificante diante da cena à sua frente. Havia perguntas que precisavam ser respondidas, enigmas que não poderiam ser ignorados, e uma sensação de que o passado e o presente se entrelaçavam ali, naquele quarto carregado de história e mistério.
— Confesso que sofri bastante para conseguir este quadro — comentou Eminence, aproximando-se da pintura e examinando cada detalhe com atenção. — Sem ele, teria falhado novamente. — Sua voz calma, mas carregada de desdém, chamou a atenção do mago de Valor.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Astralion, cauteloso.
— O quadro foi imbuído de uma magia capaz de reagir aos livros sagrados daqueles que vocês chamam de magos puros — explicou Eminence, fazendo uma pausa dramática. — Se o mago louco tivesse conseguido decifrar o que estava escrito no livro, teria alcançado seu objetivo. Coitado… estava tão perto…—
A verdade era clara: ele não sentia nada. Via-se acima de tudo, especialmente dos humanos.
— Você está dizendo que milhares de pessoas morreram por causa de uma precipitação? — questionou Astralion, fitando a figura masculina de Ímpeto.
Algo crescia dentro dele, uma mistura confusa de tristeza e raiva, impossível de decifrar.
— Exatamente. — respondeu Eminence, com a frieza habitual.
— Por mais que você queira se aliar a nós, ainda há algo ligado a Valor em você. Talvez uma busca por redenção ou aceitação — continuou Astralion, a voz carregada de desdém. — Mas isso nunca ocorrerá. Você sempre será apenas um álibi, um Martin para encobrir as falhas da própria nobreza de Valor. Você sabe que é apenas questão de tempo até que o vejam como inimigo. O desconhecido é temido. O que não pode ser dominado precisa ser destruído. —
Astralion permaneceu em silêncio, mas cada fibra de seu corpo estava em alerta. Ele conhecia os segredos sombrios de Valor, sabia que nem mesmo a Rosa-Cruz podia ser confiável. Quando o mago primordial finalmente caísse, o reino não apenas cambaleava — ele poderia ruir completamente, a menos que alguém com poder suficiente ocupasse seu trono de força.
Como líder dos promissores, Astralion percebia que as peças do tabuleiro estavam se movendo de forma silenciosa, mas inevitável. Fenômenos anormais surgiam em Valor, sinais de um desequilíbrio profundo em poder e magia, e além de suas fronteiras, o império de Kurayame começava a agir. A instabilidade se espalhava como uma sombra que cresce ao entardecer, silenciosa, constante, inevitável.
O relógio do destino batia, e cada tique-taque era um aviso sombrio: o colapso se aproximava. E Astralion, por mais preparado que estivesse, sabia que não haveria tempo para hesitar. O mundo, ou pelo menos aquele fragmento de reino e magias, estava prestes a virar de ponta-cabeça.
— Então, o que está por trás do festival é você, não é, Marquês de Bugres? — disse Astralion, afastando-se do quadro e apoiando-se na mesa de madeira.
Astralion percebeu algo inevitável: a mente do Grão-Duque August Heaven sequer se comparava à de seu filho. Tudo que havia sido criado até então parecia obra de uma inteligência muito superior. No entanto, coincidências demais saltavam aos olhos: os livros surgindo após o roubo, o quadro reaparecendo depois do desaparecimento… coincidências demais, talvez até suspeitas demais.
O sorriso frio de Eminence desapareceu ao ser chamado de Marquês. Não era a desconfiança de Astralion que o irritava, mas o título usado — como se diminuísse sua importância. Um pequeno deslize, mas suficiente para ofender alguém que se considerava rei.
O silêncio preencheu o quarto. Eminence não respondeu imediatamente; apenas ergueu o queixo, como se o peso da própria presença pudesse dobrar o ar ao redor. Cada movimento seu era medido, quase teatral, e mesmo jovem, carregava a aura de alguém que não aceitava desafios — ele era superior, dominador, e Astralion sentiu isso em cada centímetro da sala.
— Exatamente! — O sorriso gélido se desfez, e Eminence ergueu a mão direita como se regesse uma sinfonia invisível. — Demorou anos para alinhar cada peça neste tabuleiro.
Ele se colocou diante do quadro e, virando-se lentamente para Astralion, estendeu a mão em sua direção. O sorriso que surgiu era largo demais, perturbador, como se seu rosto fosse incapaz de conter tamanha satisfação.
No mesmo instante, o quadro de Aleister Crowley se distorceu. A expressão serena da juventude do mago primordial se contorceu em algo sombrio, como se até a pintura fosse arrastada pela presença daquele garoto.
Astralion sentiu o peito apertar. A cada gesto, a cada palavra, era impossível acreditar que aquela figura à sua frente fosse apenas uma criança. Havia algo errado, um segredo profundo, oculto sob aquela pele juvenil.
Engolindo em seco, deixou escapar:
— Marquês… o que você realmente é?
— Há oitenta anos, o mago puro desceu em Ímpeto. Estava ferido, exausto, depois de uma batalha contra horrores que a mente humana sequer ousaria nomear. No seu último suspiro, estendeu a mão aos nobres de Bugres, buscando um meio de retornar. E eu… sou os resquícios desse contato.
Não é apenas o sangue da nobreza de Bugres que corre em minhas veias, mas também a essência dos próprios magos puros. Este é o tamanho da minha grandeza. —
O surgimento do mago puro em bugres se alinha com a época que os livros foram roubados. Talvez coincidência… ou talvez tudo tivesse sido orquestrado desde o princípio.
— Então você orquestrou os roubos dos livros. Qual o seu verdadeiro desejo? — questionou Astralion, sua voz firme, mas carregada de desconfiança.
Eminence abriu um sorriso lento, quase solene, como se tivesse esperado exatamente por essa pergunta.
— O meu desejo é o mesmo de Aleister Crowley, o seu mestre. — Seus olhos brilharam com intensidade febril — Desejo reencontrar os magos puros… ou melhor, os Precursores. Desejo trazer de volta o Árbitro.
Ele estendeu a mão direita, oferecendo-a a Astralion como se selasse um pacto inevitável.
— Meu objetivo é nobre… mas toda grande obra exige sacrifícios. —
Astralion permaneceu em silêncio. A palavra “Árbitro” não era estranha para ele — mas também não era comum. Poucos, muito poucos, conheciam seu verdadeiro significado.
Como discípulo de Aleister Crowley, braço direito da Rainha e líder dos Promissores, Astralion tivera acesso a informações proibidas sobre os magos puros. E sabia bem: a Grande Batalha do Mago Primordial contra os Precursores não havia começado por acaso. No centro de tudo, estava o Árbitro.
O precursor que desceu em Valor há trezentos anos… era um Árbitro. Foi ele quem ensinou Aleister Crowley os fundamentos da magia, o caminho para compreender o que nenhum humano ousaria tocar. Durante algum tempo, existiu harmonia. O equilíbrio parecia real, quase natural. Mas em determinado ponto da história, quando o Árbitro foi chamado a retornar para o lugar de onde viera, o mago primordial questionou o motivo.
E essa pergunta — esse simples ato de desafiar — foi o estopim que incendiou uma guerra. O início da grande batalha que deixou cicatrizes eternas e culminou na tragédia de Prière.
Por ser um evento antigo, muitas informações haviam se perdido no tempo, dissolvidas em fragmentos de manuscritos, relatos contraditórios e memórias corrompidas. Sequer nos registros da Rosa-cruz havia algo concreto. Apenas aqueles que presenciaram os acontecimentos poderiam afirmar a verdade. E, entre todos, apenas duas figuras sobreviveram após trezentos anos: o mago primordial e seu eterno companheiro, fundador da grande escola de magia em Valor.
O que restava ao mundo eram rumores e interpretações. Diziam que o Árbitro havia cometido um erro, algo tão grave que rompeu com os próprios dogmas dos Precursores. Por isso, teria sido forçado a retornar. Contudo, eram apenas sussurros vazios, ecos sem corpo. Não havia prova, nem testemunho confiável. Apenas a sensação de que um segredo imenso havia sido enterrado com o tempo.
Eminence, em sua postura de rei, compreendia algo que poucos ousariam admitir: nem mesmo os próprios humanos sabiam quem eram, de fato, os Precursores ou o que realmente significava o Árbitro. Para o rei, a humanidade havia apenas recebido a bênção de uma salvação imposta, vinda de seres que se autoproclamavam donos da verdade.
Aos seus olhos, a ignorância da humanidade era um presente. Uma bênção que ele mesmo moldaria em uma arma. O desejo verdadeiro não estava nas palavras, mas no modo como Eminence estendia a mão, quase suplicando, quase ordenando.
Eminence manipulava a verdade como quem tece uma teia. Cada palavra, cada gesto, era calculado para atrair Astralion, ativando gatilhos que tocavam em segredos que poucos ousariam desafiar. A mentira mais convincente é sempre aquela que carrega um fundo de verdade.
De fato, ele chegara a Bugres há oitenta anos — mas não como um precursor. Antes de sua queda, havia alterado o próprio DNA, moldando-se com traços de um Criador de Vida, adquirindo assim a capacidade de manipular o Gear. Dessa forma, poderia usar o Gear. Porém, por não ser puro, a magia nunca funcionaria plenamente — imperfeita e falha. E para corrigir essa imperfeição, precisava de um ritual.
O destino conspirara ao seu favor: os livros proibidos sobre os magos puros estavam justamente em Ímpeto, o que tornara mais fácil orquestrar seu plano. A engrenagem da sorte girava em sua direção.
Mas a verdadeira chave não era ele próprio. Era Onoken — um ser que não pertencia a este mundo, ligado diretamente aos precursores. E para tê-la sob seu comando, precisava primeiro conquistar Astralion. Um passo de cada vez, uma mente de cada vez, até que todos se curvassem à sua vontade.
— Basta pegar na minha mão, Astralion — disse Eminence, a voz baixa e cadenciada, como se cada sílaba pesasse sobre o ar. — Juntos, abriremos as portas de um novo mundo. Ímpeto, Valor, Kodomo, Kurayami… nenhum reino, nenhum império, será capaz de se colocar acima de nós. —
Ele avançou um passo, deixando a aura de autoridade envolver o espaço ao redor, cada gesto calculado, quase magnético.
— Imagine o que será ter o Arbitro ao nosso lado… Aquele que ensinou magia ao mago primordial. Por mais poderosos que sejam seus inimigos, eles sentirão o verdadeiro medo. Não apenas por nossas forças, mas pelo que representaremos. Aquilo que poucos ousaram sonhar, nós faremos realidade.
Eminence estendeu a mão com suavidade, mas havia uma pressão invisível, um convite irresistível, como se aceitar significasse mais do que aliança — significasse pertencer a algo maior, algo que poderia mudar tudo.
Um pequeno rinchado foi ao pouco substituindo por uma grande gargalhada, pegando de surpresa o rei. Astralion estava gargalhando com a possibilidade de ter ao seu lado um ser tão majestoso quanto um precursor, indo além, o próprio arbitro.
— De fato, não há nada a temer! Quais suas ordens? —
Ainda assim, Astralion não ousou tocar na mão do marques — ou melhor, de seu novo líder. Em sinal de respeito e reconhecimento da autoridade, ajoelhou-se diante da figura que, mesmo jovem em aparência, irradiava poder e imponência dignos de um rei.
Ainda ajoelhado, Astralion desabotoou os botões internos do manto negro, deixando-o deslizar pelos ombros até revelar por completo sua verdadeira veste. Era como se, naquele gesto, quebrasse as últimas barreiras que o separavam da submissão, entregando corpo e alma ao novo líder.
Ele trajava um blazer ajustado, de corte impecável, confeccionado em um tecido negro profundo que parecia beber a própria luz ao redor. As costuras quase imperceptíveis formavam padrões geométricos discretos, lembrando constelações ocultas — sinais de mistérios gravados em silêncio. A gola levemente alta reforçava sua imponência, enquanto os ombros estruturados transmitiam a aura de alguém moldado para a autoridade.
Por baixo, uma camisa de seda roxa-escura — tão profunda que quase se confundia com o negro — revelava sua verdadeira cor apenas sob certas luzes, como se escondesse segredos à espera do momento certo para se mostrarem. Na gola, um broche prateado em forma de estrela de cinco pontas cintilava, discreto, mas imponente, carregando consigo o peso do simbolismo.
As calças, de brilho acetinado, acompanhavam a sobriedade do conjunto, enquanto as botas de couro escuro, elegantes e sem cadarços visíveis, reforçavam o rigor e a disciplina de sua postura. Cada detalhe de sua indumentária parecia pensado para impor respeito, como se até mesmo o silêncio da sala se curvasse diante dele.
— É exatamente isso que desejo! Quando o festival tiver início, marcharemos em direção ao novo mundo! — declarou o lorde Eminence, abrindo os braços em triunfo logo após a resposta de Astralion. Sua gargalhada ecoou pelas paredes do salão, reverberando como uma sentença inevitável.
Naquele instante, Astralion havia rompido suas últimas barreiras. Não era apenas um aliado: era agora uma peça essencial no tabuleiro de Eminence, alguém que carregava em si a sombra de Onoken. O jogo havia mudado, e Eminence sabia disso.
Faltava menos de um dia para o festival começar, e com ele, as correntes que ainda o prendiam seriam quebradas. O riso de Eminence não era apenas de vitória, mas de antecipação. O que se aproximava não era uma simples celebração — era o prenúncio do colapso que daria origem a um novo mundo.
Permanecendo de cabeça baixa, Astralion colocou um sorriso no rosto.
Parte 5
No refinado quarto, a princesa Seliora d’Ímpeto sentia a impaciência crescer junto com os calafrios que lhe percorriam a pele. O dia do festival havia chegado, trazendo a certeza de que algo imenso se aproximava. Ao mesmo tempo, um detalhe aparentemente simples a incomodava profundamente: o assento reservado para ela.
Tudo ao redor transbordava luxo em excesso. O lustre de cristal lançava reflexos dourados que dançavam nas paredes; o leito era vasto, coberto por lençóis de seda bordados à mão; as roupas, dobradas com precisão quase cerimonial, aguardavam sobre o aparador. Cada detalhe parecia calculado para agradar uma soberana, mas para Seliora, tudo aquilo era apenas um cárcere adornado.
Ainda assim, diante do espelho, vestindo apenas um conjunto vermelho de roupas íntimas, Seliora não sentia conforto algum. O luxo ao redor não lhe parecia familiar, mas imposto. Uma encenação.
Ela estava acostumada à mordomia — crescera entre joias, tecidos raros e banquetes. Mas aquilo era diferente: não carregava a identidade de seu reino, de sua casa, e sim o gosto forçado de quem queria moldá-la a outro papel.
— Por mais que essas roupas sejam belas, ainda me sinto desconfortável em usá-las… — murmurou Seliora, com desdém, mais para o reflexo do que para qualquer ouvinte. — Ser princesa não deveria me privar do direito de escolher o que vestir.
Seus olhos deslizaram pela própria silhueta refletida. Tocou de leve o ventre e suspirou, deixando escapar um sorriso amargo. Havia algo ali que a incomodava mais do que as roupas ou o luxo sufocante ao redor.
— Hm… parece que vou ter que cortar as batatas fritas… e me controlar durante o festival. —
Do lado de fora do quarto, Darian Veynor deixou escapar um breve suspiro. Discreto, quase inaudível, mas suficiente para alcançar os ouvidos atentos da princesa.
Seliora fechou os punhos com força, sentindo o calor da irritação subir como fogo em seu peito.
— EU SEI QUE NÃO VOU TER TEMPO, MAS POSSO PELO MENOS SONHAR EM APROVEITAR O FESTIVAL! — bradou, sua voz cortando o silêncio como uma lâmina.
Num gesto impulsivo, Seliora agarrou o pente sobre a penteadeira e o lançou contra a porta. O estalo seco ecoou pelo quarto, logo seguido por uma leve gargalhada de Darian do outro lado — debochada, quase provocativa, mas carregada de uma afeição velada.
O guarda real sabia muito bem: se tivesse a chance, a princesa aproveitaria o festival como qualquer jovem de sua idade, gastando fortuna em quitutes, especialmente nas comidas que ela tanto gostava — isso, claro, se não resolvesse sair disfarçada para comprá-las escondida.
Por mais que desejasse vê-la feliz, Darian reconhecia que, nas circunstâncias atuais, aquilo era quase impossível. Ainda assim, deixou escapar um tom mais suave:
— Não se preocupe, alteza. Farei o possível para que aproveite ao menos um pouco do festival… mesmo que seja apenas em espírito. —
Em seguida, sua voz voltou a carregar a seriedade habitual, como se lembrasse a si mesmo da responsabilidade que carregava.
Seliora suspirou, mas não pôde conter um pequeno sorriso. Por mais que tentasse se mostrar irritada, sabia que podia confiar em Darian. As provocações entre eles, por mais afiadas que soassem, carregavam uma segurança silenciosa que só ele podia oferecer. Entre todos que permaneciam ao seu lado, Darian Veynor era o mais firme. Confiável, inabalável, com uma mentalidade moldada pelo dever. Um homem disposto a proteger até o fim — mesmo que isso significasse sacrificar a própria vida.
A princesa suspirou e sentou-se à beira da cama. Com os dedos entrelaçados, fixou o olhar no grande espelho à sua frente. Cada detalhe refletido parecia encará-la de volta: os cabelos negros, pesados de sombras que lembravam cinza ou neve, caíam com uma leveza quase desafiadora; a pele, branca como mármore polido, ostentava uma beleza que poderia ter sido arrancada das lendas de Ímpeto; e os olhos… azuis e profundos como o mar em tempestade, transmitiam autoridade e elegância sem que precisasse mover uma sobrancelha.
Filha única, Seliora estava em plena ascensão. Ainda assim, por ser mulher, a nobreza teimava em vê-la como incapaz de comandar Ímpeto — mesmo sendo a única herdeira legítima do trono. Era notório que a insatisfação da nobreza nascia do simples fato de a única herdeira de Ímpeto ser mulher, pesando ainda mais em um momento delicado, com o rei debilitado. O reino, já fragmentado em disputas internas, parecia oscilar à beira do caos. Ainda assim, Seliora acreditava que, com o tempo, poderia reunir as partes dispersas e restaurar a unidade de Ímpeto.
Havia tantas preocupações em sua mente que era difícil decidir qual exigia maior atenção. Ainda assim, dado o momento, o festival parecia merecer prioridade. Até então, tudo o que Seliora sabia era que os livros proibidos pertencentes à biblioteca de Ímpeto estavam em Bugres. Porém, não apenas isso: oitenta anos atrás, um mago puro havia estabelecido contato direto com a nobreza da cidade — um segredo guardado a sete chaves e que apenas agora começava a emergir em sussurros.
Para completar sua inquietação, corriam rumores de que, durante o festival do “novo deus”, seria invocado um ser puro, portador de bênçãos, boa sorte e vida longa aos habitantes.
Era certo, contudo, que o grão-duque tramava algo maior. Havia um resquício de magia encobrindo Bugres, como véus cintilantes que subiam aos céus, invisíveis aos olhos comuns, mas sensíveis a quem detinha percepção mágica. Seria esse o verdadeiro indício da invocação? A grande estátua erguida no centro da cidade era apenas um enfeite… ou um mecanismo oculto, uma peça indispensável ao ritual?
Enquanto caminhava pelo quarto, vestindo apenas sua roupa íntima, os olhos de Seliora se fixaram no vestido cuidadosamente dobrado sobre a cama. Uma leve brisa, entrando pela janela entreaberta, fez a cortina ondular como se fosse um aviso silencioso. Um arrepio percorreu seu corpo, trazendo consigo a sensação de que algo ruim se aproximava.
O longo vestido verde, impecavelmente bordado, jazia sobre a cama, lembrando-a de que, ao vesti-lo, cederia às mãos do Grão-Duque, mesmo sendo herdeira do trono. Talvez, ao vesti-lo, mostraria aos aliados do grão-duque que a princesa estaria em suas mãos.
Ela fitou o horizonte através da janela, voltada para o sul, onde as vastas planícies se estendiam. A poucos quilômetros de Bugres, sua cavalaria aguardava suas ordens, mas Seliora temia que não chegassem a tempo. A única proteção em quem realmente podia confiar era seu guarda real, Darian Veynor, que a acompanhara fielmente durante toda a viagem.
Por um instante, Seliora respirou fundo, sentindo a imponência e a vulnerabilidade se misturarem. O festival começaria, mas, naquele instante, era apenas ela, o reflexo no espelho e o peso de um mundo prestes a girar em torno de segredos e intrigas que nem mesmo a realeza poderia controlar.
Seliora tinha plena consciência de que Onoken pairava sobre a cidade; em outras palavras, Astralion — o mago renegado — também estava presente. Ela conhecia sua fama e, mesmo sendo princesa, sabia que não poderia esperar nenhuma obrigação de ajuda vinda dele. Nos piores cenários, chegava a imaginar que Astralion poderia ser justamente o reforço que o Grão-Duque tanto desejava conquistar.
À primeira vista, ao se deparar com o mago renegado, Seliora percebeu que ele não era alguém que se revelasse facilmente. Por trás dos sorrisos calculados, havia uma sombra que parecia envolver todo o seu ser. O medo se misturava à admiração, criando um sentimento ambíguo e intenso.
Não havia dúvidas: ele era um mago de elite, daqueles que qualquer pessoa, sem exceção, desejaria como aliado. Seliora sabia que precisaria de muitos anos de treino apenas para se aproximar de seu nível. Apesar de ser uma maga, ainda não possuía a experiência ou o domínio necessário para ser considerada de primeira classe. Em uma luta de vida ou morte, cada decisão, cada movimento seria um risco, capaz de expor sua vulnerabilidade.
Mesmo tendo um aliado forte como Darian Veynor, a possibilidade de perdê-lo seria um pesadelo cruel, pois, além de ser seu guarda real, ele era seu amigo. Por sorte, era certo que, graças ao festival, os traidores dispostos a usurpar o trono estavam reunidos. Ela precisaria se revelar, mostrando a todos que, como princesa de Ímpeto e possuidora do sangue real, jamais abaixaria a cabeça diante das adversidades.
A princesa estava perdida em seus pensamentos; talvez por isso sequer percebesse a criatura oculta movendo-se pelo quarto. Ou, mesmo atenta, dificilmente teria capacidade de notá-la.
A hostilidade que emanava de Onoken era sutil, quase imperceptível, e seu desejo de sangue demorou a se manifestar. Com um sorriso enigmático mesclado à sombra, avançou rapidamente em direção à princesa. Rompendo o silêncio, uma gargalhada ecoou pelo quarto — fria, cruel — atraindo imediatamente a atenção tanto da princesa quanto de Darian Veynor, o guarda real.
— Princesa! — rugiu Darian, a voz carregada de urgência.
Sem hesitar, avançou, arrancando a espada da bainha em um único movimento. Porém, congelou ao perceber a cena: Seliora, ainda em roupas íntimas, tinha uma lâmina encostada contra a pele delicada do pescoço.
Não se tratava de uma arma comum. Era uma lâmina que surgia das costas de Onoken, como uma cauda de escorpião pronta para ferroar. Um brilho frio e sombrio percorria a lâmina, como se ela própria desejasse aquilo, precisasse daquilo — ansiava por cortar. Um simples movimento em falso, e a cabeça da princesa seria decapitada sem piedade.
Os olhos de Darian se arregalaram, encontrando, por um breve instante, os de Onoken — medo e desespero se mesclavam, mas ele conteve o impulso. A vida da princesa de Ímpeto estava à mercê de uma criatura que sentia prazer em matar.
Mesmo sendo maga, Seliora não teve tempo de reagir. Quando pensou em invocar sua varinha, a lâmina já pressionava seu pescoço, pronta para separar sua cabeça do corpo.
De todos os inimigos que poderia enfrentar, Onoken estava no topo da lista dos mais temíveis. Não era nem mágico nem natural — uma criatura à parte, com objetivos desconhecidos e um único desejo: matar.
Seu poder superava qualquer humano, e Seliora sabia que todos, em plena consciência, tinham ordens explícitas de jamais confrontá-lo. E, ainda assim, ali estava ele, em seu quarto, pronto para fazer mais uma vítima.
Não era apenas sua magia que inspirava terror, mas também a natureza de seu corpo translúcido, que o tornava imune a armas tradicionais. Sua proficiência mágica o colocava em um patamar acima de qualquer mortal, um degrau inalcançável, tornando qualquer confronto quase impossível.
Talvez Onoken tivesse cansado de bancar a amigável, deixando seus desejos prevalecerem.
Darian Veynor permaneceu imóvel, as mãos firmes no punho da espada, ciente de sua inutilidade — nem sua lâmina, nem sua magia poderiam feri-la. Ainda assim, sabia que precisavam encontrar algum meio de contornar a situação.
A princesa sentiu seu corpo gelar; o medo era inegável, refletido tanto em seus olhos quanto nos tremores que percorriam seus membros. Ainda assim, esforçava-se para manter a firmeza, conservar a concentração diante dos acontecimentos. Se Onoken desejasse matá-la, já teria feito, sem dar tempo para qualquer defesa. Talvez houvesse um sentido oculto naquela hesitação — ou, pelo menos, era nisso que Seliora queria acreditar.
Onoken ignorou completamente o guarda real, como se ele não representasse qualquer ameaça. O largo sorriso anormal no rosto não vacilava, enquanto seus olhos permaneciam fixos na bela princesa amedrontada à sua frente.
Seliora notou algo estranho em suas pupilas: um símbolo dourado, semelhante a um naipe de baralho, reluzindo em um vermelho vivo, como se carregasse algum significado especial. A pedra no centro de sua testa brilhava em branco intenso, irradiando satisfação, como se Onoken estivesse genuinamente contente com a situação.
O guarda real pensou em se mover, mas algo o fez parar. Não era por vontade própria, mas sim pelo medo — um medo que nunca havia sentido antes, provocado por aquela criatura translúcida que parecia brincar com a situação. Darian olhou para suas próprias pernas e percebeu que, apesar de acostumado à luta, elas tremiam involuntariamente. Era puro terror. Mas uma dúvida atravessou sua mente: seria esse medo causado por Onoken, pela ameaça esmagadora que a criatura representava… ou pelo simples pensamento de perder a princesa Seliora?
A princesa reuniu toda a coragem que pôde, consciente de que seu futuro dependia apenas da vontade de Onoken.
— O que está fazendo, Onoken? — questionou, tentando manter firmeza, embora seus olhos denunciassem a tensão diante da figura translúcida.
Onoken não hesitou. Por um breve instante, pressionou ainda mais a lâmina contra o pescoço de Seliora, transmitindo a sensação de que poderia pôr fim à vida da princesa ali mesmo.
— Tenho autorização do meu mestre para matar, apenas isso. — respondeu, com um sorriso sádico que se alargava em seu rosto.
Seliora engoliu em seco. A pedra incrustada na testa de Onoken brilhava em branco intenso, pulsando com uma satisfação quase viva. Não havia intrigas políticas, alianças ou tronos que despertassem seu interesse — sua devoção era ao prazer da violência. O que movia Onoken era o êxtase mórbido de sentir o sangue correr, fosse ele de quem fosse.
Luxos, tronos ou estratégias políticas eram inúteis para comprá-la. Onoken obedecia a um único impulso: o desejo de matar. De fato, se quisesse, poderia ter acabado com tudo antes mesmo de começar. Não havia ameaça que pudesse fazê-la mudar de opinião.
— E é isso que pretende fazer, não é? — a voz da princesa soou firme, como se aceitasse seu destino.
Apesar do medo latejante em seu peito, Seliora tentava manter-se firme diante da situação, consciente de sua impotência.
— Meu mestre decidiu. Ele vai matar a todos, assim como eu… — respondeu Onoken, o sorriso denunciando prazer na própria sentença.
As palavras abalaram tanto a princesa quanto o guarda real, que sentiu o desespero consumi-lo. Era como se a esperança tivesse se esvaziado daquele quarto, perdendo seu brilho, assim como o pôr do sol que se apagava no horizonte.
— Por acaso… ele sabe que estamos aqui? — Seliora perguntou, a voz carregada de receio.
Onoken soltou um riso agudo que ecoou pelo quarto, confirmando sem necessidade de palavras a suspeita da princesa. No timbre daquele riso, Seliora percebeu a verdade: ele não sabia.
— Então… esse desejo é seu… — murmurou a princesa, a voz quase vacilante. Nos olhos da criatura translúcida, havia a resposta clara: sim.
O olhar de Onoken não negava nada. Nas pupilas da criatura, Seliora vislumbrou uma afeição sádica, enquanto o desespero se refletia nos seus próprios olhos.
— Princesa… — murmurou Darian, firme, ajustando a empunhadura da espada, o corpo tenso, pronto para o risco.
Ele sabia que qualquer ataque seria inútil contra aquela criatura. Mas, apesar do medo que Onoken provocava, a simples ideia de perder Seliora o consumia ainda mais. Se não pudesse vencê-la, lutaria com todas as forças que tinha, demonstrando toda sua garra, coragem e fúria, mesmo que em vão.
— Entendo… — ela suspirou, fechando os olhos.
Uma nova gargalhada rasgou o silêncio. Por um instante, a lâmina recuou, criando uma tênue pausa de esperança. Mas logo voltou a encostar, desta vez descendo até o tecido delicado que cobria os seios da princesa.
Num movimento lento e cruel, a lâmina de Onoken rasgou a peça íntima, expondo Seliora. O calor da vergonha queimou seu rosto, misturando-se à impotência; estava completamente à mercê da criatura.
Onoken, por sua vez, parecia saborear cada instante, como se o ato fosse mais um jogo perverso do que uma ameaça definitiva. A lâmina recuava apenas milímetro a milímetro, prolongando o tormento sem intenção de finalizar.
A tensão no quarto crescia como um nó sufocante. Darian Veynor observava cada movimento da criatura, calculando mentalmente o momento certo para agir. Mas o que aconteceu em seguida surpreendeu a todos.
— Meu mestre decidiu. Ele vai matar a todos. — Repetiu Onoken, com um tom quase divertido. — Se eu fosse vocês… iria para bem longe. — A gargalhada que seguiu foi mais alta e intensa que a anterior.
Num gesto repentino, a lâmina recuou, desfazendo a ameaça. Por um motivo desconhecido, Onoken não finalizou o ataque. Seliora desabou no chão, trêmula, ainda sentindo o frio da lâmina contra a pele.
Darian correu até ela, cobrindo-a com o vestido que estava sobre a cama. Permaneceu ao lado da princesa, buscando respostas para o inexplicável comportamento de Onoken, preocupado não apenas com sua segurança física, mas também com a saúde mental da herdeira de Ímpeto.
Onoken, porém, permaneceu à frente deles. Flutuava no ar, gargalhando, deleitando-se com o medo que havia provocado. Apesar da hostilidade, sua postura deixava claro: naquele momento, eles não eram o alvo.
— Eh…? — murmurou a princesa, em êxtase e incredulidade.
Seliora não sabia como interpretar o ocorrido. Seria um aviso? Uma ameaça velada? Ou apenas um capricho da criatura? Tudo o que podia fazer era agradecer por ainda estar viva.
Darian, por sua vez, manteve-se firme. Não sabia se o perigo havia passado, mas permanecia atento a qualquer movimento hostil que Onoken pudesse fazer. Com uma das mãos, segurava Seliora junto ao peito, protegendo-a; com a outra, empunhava a espada, pronto para atacar a qualquer sinal de agressão.
Onoken, observando o gesto, inclinou a cabeça de forma quase debochada. Para ela, aquela lâmina — ou melhor, aquele humano — não representava ameaça alguma. O ar de superioridade era palpável, e a criatura parecia divertir-se com a seriedade que Darian tentava manter.
— Irei repetir: se eu fosse vocês… iria para bem longe — disse Onoken, gesticulando com as mãos, como se desenhasse no ar a representação dos dois se afastando.
A princesa, tentando recuperar a compostura, reuniu coragem e olhou para a figura translúcida. Por um instante, permaneceu em silêncio, absorvendo a gravidade da situação. Então, finalmente, ousou perguntar:
— O que está querendo dizer?
Onoken parou de flutuar, fixou os olhos nela e, de maneira quase infantil, sentou-se no chão, cruzando as pernas.
— No jogo de poder, o tal “bicho feio” do August é apenas um peão descartável… assim como qualquer outro nobre desta cidade — disse, a voz baixa, quase um sussurro, brincando com a situação, mas impregnada de veneno e verdade. — Bugres não é apenas um palco para festivais. É um círculo ritualístico… e seu verdadeiro propósito é trazer de volta os corpos autênticos das criaturas que dormem aqui, mas que não pertencem a estas terras.
Seliora engoliu em seco, sentindo o frio percorrer sua espinha. Cada palavra de Onoken parecia pesar mais que uma tonelada, revelando uma verdade que ela jamais poderia ignorar. Darian, por sua vez, apertou a empunhadura da espada com força, consciente de que nenhuma lâmina poderia ferir aquela criatura… mas a proteção da princesa não lhe dava escolha: ele precisaria enfrentar o impossível.
— Você… quer dizer que todos nós… — a voz de Seliora falhou, mas ela se recompôs rapidamente.
Onoken inclinou a cabeça, o sorriso translúcido persistindo, quase zombeteiro:
— Exatamente.
A princesa respirou fundo, sentindo uma mistura de raiva e medo.
Ela já havia percebido a concentração anormal de magiculas na cidade, mas imaginar que os nobres — inclusive o grão-duque — fossem apenas peças descartáveis em algo muito maior… era um pensamento que roçava a loucura.
Onoken sorriu, satisfeita com a confusão estampada no rosto da princesa. Seu corpo translúcido balançava levemente, como o de uma criança que havia acabado de agradar os pais ao obedecer a um capricho.
Um silêncio pesado pairou sobre o quarto. Seliora sentiu o coração disparar, tentando processar o alcance daquela revelação. Ela havia acreditado que poderia agir de acordo com sua vontade, mas, na verdade, estavam todos presos a um plano muito maior.
— Fiz exatamente o que meu mestre ordenou: investiguei cada canto desta cidade, inclusive seu passado. — Seus olhos brilhavam com malícia e entusiasmo. — E posso garantir… aquele que entrou neste território não era um mago puro. August sabe disso, mas sua sede de poder o cega. Os livros proibidos que ele tanto venera… não passam de um diário mal escrito, com fragmentos sobre os chamados magos puros. Um registro antigo, incompleto, que só guarda ecos.
Sua forma translúcida oscilava sob a luz, projetando uma presença que claramente não pertencia a este mundo. O sorriso em seu rosto parecia quase inocente, mas cada palavra era uma lâmina, rasgando com crueldade as certezas da princesa.
A voz da criatura soava doce, quase infantil, mas carregava veneno em cada sílaba.
Seliora prendeu a respiração, incapaz de mover um único músculo.
E então, Onoken prosseguiu:
— A intenção do festival do “novo deus” nunca foi invocar. — A voz ecoou como um sussurro gélido. — Pelo contrário… o ritual busca trazer à existência algo oposto. Uma força que jamais deveria ter lugar neste mundo. Algo movido a sangue. A personificação da própria guerra.
A lâmina de sua cauda ergueu-se lentamente, apontando para a princesa como se contasse cada batida de seu coração.
— Suas almas já residem nos habitantes de Bugres, mas ainda estão incompletas. Pois, por mais que a magia profana tenha sido invocada, faltava o essencial: um criador de sangue real. — O sorriso de Onoken se ampliou, cruel, se divertindo. — Entende agora? A mente por trás de tudo não deseja a vitória de ninguém. Apenas nos usa como catalisadores de algo muito maior… e infinitamente mais sombrio.
Um arrepio percorreu a espinha de Seliora, e até Darian — firme como uma muralha — sentiu os dedos tremerem sobre a espada.
— I–Impossível… — murmurou a princesa, incrédula, a voz embargada. — Existe alguma coisa… que possa impedir isso?
Onoken cruzou os braços, inclinou a cabeça levemente e, com um gesto lento e cruel, balançou negativamente.
— Impedir…? — repetiu, saboreando a palavra como se fosse um doce raro. — Ânimo! Se a esperança é a última que morre… vocês podem muito bem ser os primeiros. — Uma risada leve escapou de seus lábios, descontraída e debochada.
— Deve haver algum meio de parar o ritual. Deve haver! — exclamou Darian, tentando sufocar o desespero que ameaçava transbordar em sua voz.
Onoken suspirou, a expressão murchando em tédio. Talvez tivesse desistido de tentar convencê-los… ou simplesmente não se interessava em dirigir mais nenhuma palavra ao guarda real.
— O ritual já foi iniciado há dias. — disse Onoken, sua voz carregada de um desinteresse. — Houve sacrifícios… muitos. Tudo para impulsionar a magia profana. Como consequência, mais de quinze mil soldados aguardam apenas um sinal para entrar em ação. Não há como detê-los. Não serão parados por palavras bonitas nem por títulos vazios. Eles anseiam por carne, por corpos… desejam conquistar.
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Ela engoliu em seco, a mente oscilando entre a incredulidade e o desespero. Darian, por sua vez, apertou com mais força a empunhadura da espada. Estava pronto para proteger Seliora até o último instante, mas ambos sabiam, no fundo, que aquilo que enfrentavam transcendia qualquer esforço humano.
Seliora sentiu o coração afundar, mas não permitiu que o silêncio a esmagasse.
— Deve haver um jeito… — murmurou, quase como uma prece.
Onoken gargalhou, inclinando a cabeça como uma criança travessa.
— Um jeito? — repetiu. — Vocês acreditam mesmo que bravura vai mudar o que já foi escrito? — O sorriso se alargou, e a pedra branca em sua testa brilhou cruelmente. — Não existe salvação, princesa. Apenas o destino de serem consumidos.
Darian rosnou baixinho, mas não se moveu. O aperto na espada não era de coragem — era de impotência.
O quarto mergulhou em um silêncio sufocante, quebrado apenas pela respiração da princesa. As palavras de Onoken pairavam como uma sentença já proferida.
Seliora fechou os olhos por um instante, reunindo forças. Sua mente gritava em desespero, mas sua voz, quando saiu, soou serena:
— Haverá pessoas inocentes que serão sacrificadas nesta batalha, não é? — questionou, erguendo-se, sem se importar com a exposição de seu corpo.
Encarou Onoken, buscando confirmação.
A criatura apenas sorriu. Não com escárnio, nem piedade — mas com a estranha satisfação de quem observa um rato desafiar a tempestade.
— Na batalha, morrerão mulheres, crianças e homens que estarão à mercê da sorte. —
Darian virou-se para a princesa e sussurrou com firmeza:
— Princesa…
Ele aguardava sua decisão. Se desejasse fugir, fugiriam. Se escolhesse ficar, ficariam — e lutariam. Seria seu último ato de bravura.
— Entendo… — murmurou Seliora, absorvendo a gravidade da situação. Então ergueu o queixo e declarou: — Darian, se não podemos mudar o destino, permaneceremos em Bugres. Protegeremos aqueles que não têm escolha. Nós seremos a sorte que eles precisarão.
Onoken gargalhou alto, como quem ri de uma tolice nobre. Talvez entendesse que aquele gesto era inútil… mas o coração heroico da princesa a impedia de fugir.
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