Era para ser você
30 Capítulo 28
Notas iniciais
Tentei sondar pra ver se ele estava perto, ou se tinha me visto ali. Mas foi uma péssima idéia, ele tinha virado pro lado onde eu estava bem na hora que eu olhei. Me abaixei depressa de novo, e dessa vez consegui não derrubar nada.
Fechei meus olhos, e inspirei fundo. Ele não deve ter me visto, não, com certeza ele não me viu. Ou será que viu? Me levantei bem de vagar, e tentei sondar se ele estava por perto. Quando levantei minha cabeça, vi o Christoph parado na minha frente, só com a prateleira separando a gente, ele estava me encarando, a expressão séria, e como sempre eu nunca conseguia nem tentar adivinhar em que ele pudesse estar pensando.
—Por que está se escondendo? –ele perguntou sem tirar os olhos dos meus.
—Não estou me escondendo. –disse me levantando. –Deixei um chocolate cair. –murmurei.
Como ele pode me intimidar tanto só com o olhar? Tudo bem que aqueles olhos cinza ajudavam um pouco, mas o modo como ele olha nos meus olhos, me deixa um pouco desconcertada. Estou nervosa, ao mesmo tempo que eu quero abraçá-lo e sentir o cheiro do perfume dele de perto, eu quero sair correndo, ir para o meu quarto e chorar, eu sei que ele gosta da Ashley, e não de mim. E isso dói um pouco, talvez muito.
—Você está melhor? –a voz dele estava tranqüila.
—Otimamente, ótima. Obrigada. –disse rápido demais.
Ele continuava olhando nos meus olhos, e um sorriso escondido no canto da boca. Ele abriu a boca, como se fosse falar alguma coisa, mas parece ter mudado de idéia, porque a expressão dele voltou a ficar séria e ele olhou pra prateleira, e depois me olhou devagar.
—Ahm... Eu. Preciso. Preciso ir. –eu disse gaguejando.
Sai o mais rápido que pude sem esperar ele responder. Tentei o máximo possível para não olhar pra trás, e consegui. Tinha dois caixas, um, uma senhora estava comprando muitas coisas, então iria demorar bastante. E pro meu alivio só tinha uma pessoa na minha frente, demorou uns três minutos e já chegou a minha vez.
Percebi que alguém parou atrás de mim, olhei de canto de olho e vi o Christoph me analisando, voltei á atenção pra moça que estava passando minhas coisas. Eu queria muito olhar pra ele, mas estava sem coragem, nervosa, e com vergonha.
—Sete e cinqüenta. –a moça disse num tom educado.
Abri minha carteira e peguei o dinheiro, peguei o troco o mais rápido que pude, e sai correndo do mercado. Entrei no carro, e fui ligar a chave, mas acabei derrubando, me abaixei pra pegar, mas ela tinha caído atrás do pedal, estiquei o braço e peguei. Quando fui me ajeitar no banco, alguém bateu na minha janela e eu dei um pulo de susto. Quando me virei para ver quem era, o Christoph estava me olhando com graça. Ele fez sinal, para eu abaixar o vidro, e meio incerta fiz isso.
—Você esqueceu sua sacola. –ele ergueu uma sacola.
—Obrigada. –disse pegando a sacola da mão dele.
Nossas mãos se encostaram, eu não estava preparada pra ver ele, não hoje, não agora, não essa semana.
—É melhor você se agasalhar melhor. –ele disse, se virou e saiu.
Eu fiquei vendo ele entrar no carro dele, que não estava muito longe do meu. Parecia ter alguém com ele, mas o vidro estava fechado e era escuro. “A Ashley deve ter vindo passar o fim de semana com ele.” Meu inconsciente fez um comentário que deixou meu sangue ferver de raiva, e de repente uma vontade incontrolável de chorar.
Coloquei minhas mãos no rosto, e percebi porque o Christoph disse para mim se agasalhar, minha mão estava uma pedra de gelo, enxuguei uma lágrima que caiu do meu olho, e liguei a chave.
Quando cheguei em casa, eu sentei no meu cantinho do sofá, pra minha sorte não tinha ninguém. Peguei meu chocolate e comecei a comer, liguei a tevê e deixei num canal de moda. Eu não entendo nada de moda, mas eu precisava entreter meus pensamentos com alguma coisa nova para mim. Depois de algumas horas, minha mãe e minha irmã chegaram juntas, eu fingi estar dormindo, porque não queria conversar agora, e certamente elas iriam perguntar como foi meu dia. E eu diria o mesmo de sempre, -“fiquei vendo tevê, comendo, e dormindo”. E eu não quero repetir de novo a mesma coisa; nessa de fingir estar dormindo, eu acabei cochilando de verdade. Só acordei quando meu pai chegou do trabalho, e minha mãe veio me chamar para o jantar.
—Fui á casa da Genevieve hoje. –minha mãe disse, em particular pro meu pai.
—A Pietra foi com você? –meu pai perguntou, em particular pra minha mãe.
—Ah não. Ela ficou em casa vendo tevê, comendo e dormindo.
Eles estavam falando como se eu não estivesse aqui.
—A propósito, ela está aqui. –eu disse apontando o garfo, para mim mesma.
—Oh. Ela fala. –meu pai disse brincalhão.
—E eu sai hoje.
—É mesmo? –minha mãe perguntou curiosa.
—Fui até o mercado, comprei alguma coisa pra comer. Voltei, assisti tevê e dormi.
—Tivemos um progresso. –meu pai disse rindo.
—Você não me parece estar tão mal assim docinho. Acho que não precisa mais ficar entocada dentro de casa.
—Na verdade eu ainda não estou me sentindo muito disposta mãe. Acho que vou ficar essa semana sem ir pra escola. Vai que eu acabo ficando fraca de novo, e desmaiando.
—Podemos chamar o pai do Ian. Aliás foi ele quem te atendeu. –minha irmã se intrometeu.
—Não precisa. Obrigada.
Eu precisava de mais alguns dias para me preparar psicologicamente para ver o Christoph de novo, e hoje eu percebi que não agüentaria vê-lo sabendo que ele está com aquela loira oxigenada. Depois do jantar, meus pais foram para o escritório, ainda é cedo, mas minha mãe disse que estava trabalhando no livro e teve idéias repentinas e precisava escrever. E meu pai tinha muitos negócios da construção do hotel para resolver. Ficamos só eu e minha irmã na sala.
—O Ian vai trazer alguns filmes para a gente ver.
—Tudo bem, quando ele chegar eu vou pro meu quarto. –resmunguei do meu cantinho no sofá.
—Claro que não, eu disse. O Ian vai trazer alguns filmes pra gente ver. –ela deu ênfase no “gente”. –Você vai ver junto.
—E ficar de vela pra vocês? Sem chance Ennye.
—Você precisa se distrair um pouco Pietra, e ficar dormindo o dia inteiro só pra não ficar pensando no Christoph, não vai adiantar em nada. Você vai ver o filme e ponto.
Até que a minha irmã tem um pouco de razão, tudo bem que eu adoro dormir, mas passar dia e noite desse jeito só pra não pensar nele, já estava ficando um exagero. E discutir com ela agora, era muito empenho, e eu não estou nenhum pouco a fim de fazer isso.
Meia hora depois o Ian chegou. Minha irmã foi toda feliz atender a porta, até que esse cara era uma boa pessoa, pelo menos eu simpatizei com ele, o que é uma coisa um pouco difícil de acontecer, já que eu não me simpatizo com todo mundo.
—Boa noite Pietra. –ele disse parando na outra ponta do sofá.
—Tudo bem Zac?
—Não liga, ela faz isso só para me irritar. E como não consegue, ela nunca vai te chamar pelo seu nome. –minha irmã disse se intrometendo.
—Sem problema. –ele disse sorrindo. –Trouxe os filmes que você escolheu, e alguns que eu escolhi. –ele disse se virando pra minha irmã.
—Ah ótimo. Podemos ver esse aqui, que tal?
—Pensei em ver algum de ação, romance não é muito aminha praia.
—To com o Chad. Sem romance Ennye. –dessa vez foi eu quem me intrometi.
—Dois contra um. –ele disse com um sorriso de relha a orelha.
Minha irmã revirou os olhos, e entregou os dvd’s pra ele, e se sentou ao meu lado.
O Ian colocou um filme de corrida, e tinha bastante ação nele. Estou sem tolerância para romance, e como eu gosto de filmes de corrida, foi uma grande distração assistir esse filme. Minha irmã ficou o filme inteiro abraçada com o Ian, volte e meia eles trocavam carinho, ele mexendo no cabelo dela, e dando beijos no alto da cabeça. Por alguns instantes, isso me deprimiu um pouco mais, eu fiquei verde de inveja dela. Podia ser eu e o Christoph assim, podia ser ele aqui, vendo um filme comigo, mas ao invés disso, ele está lá, quem sabe até vendo um filme com a Ahsley. Sem perceber uma lágrima caiu do meu olho, e eu tentei disfarçadamente, limpar meu rosto.
—O filme não é tão triste assim Pietra. –minha irmã disse.
—Claro que é. –inspirei fundo, e tentei disfarçar. –Querem alguma coisa pra comer? –perguntei já me levantando.
—Pipoca. –minha irmã pediu.
Fui até a cozinha, peguei a pipoca e coloquei no micro-ondas, enquanto ela estourava fui pegar alguma outra coisa para eu comer, eu detesto pipoca, aproveitei e coloquei três copos, refrigerante, e um pode com doces na bandeja, assim que a pipoca ficou pronta, coloquei na bacia de pipoca, e voltei pra sala.
Assistimos a mais um filme, dessa vez um suspense. Depois que o Ian foi embora, minha irmã foi para o quarto dela. Eu estava exausta de dormir, tomei um banho quente e fui para o meu quarto. Não estava com vontade de ler, nem de escutar música, abri a janela, e percebi que dava para subir até o telhado. E foi o que fiz. Como meu quarto fica no sótão, não tem dificuldade nenhuma para conseguir chegar até o telhado. O céu estava estrelado, a lua cheia brilhando no céu, e por um momento eu não me senti a única solitária por aqui, mas me sentia confortável em ficar sozinha. Lembrei de quando nós moramos por alguns meses em São Francisco, minha mãe é estadunidense, mas foi morar no Reino Unido quando era adolescente, onde conheceu meu pai. Me deu muita vontade de voltar pra São Francisco, eu adorava aquele lugar, quando eu disse pro Christoph que meus lugares preferidos era Londres e Seattle, é porque eu não me lembrei de São Francisco. Eu quero fugir pra lá, e tentar deixar o Christoph como meu passado, esquecer que um dia eu conheci ele, esquecer de como ele é, do sorriso, do jeito que ele meche no cabelo, do cheiro do perfume que eu adoro, e principalmente daqueles olhos cinza.
Um repley de quando eu vi aqueles olhos pela primeira vez, surgiu na minha cabeça. Aqueles olhos cinza com pontinhos verdes que ás vezes some, e quando ele me chamou de novata, ele não me chama assim faz um bom tempo. Fiquei horas ali no telhado, só me deixando levar pelos pensamentos que insistiam em ter como foco principal o Christoph, eu podia tentar fugir dele, mas ele não fugia de mim.
No outro dia eu não fui para a escola, estava falando sério quando disse que não iria essa semana pra aula. Mas também não fiquei amontoada no meu cantinho do sofá vendo tevê, comendo e dormindo. Decidi sair de casa e respirar ar fresco, entrei na minha picape e fui dirigindo sem rumo, só para poder apreciar o vento batendo no meu rosto, e a boa sensação de me sentir livre. Abasteci o carro e voltei pra casa, quando cheguei eu estava me sentindo muito melhor do que me senti nesses últimos dias sem o Christoph, mas só em pensar nele de novo, eu voltava a ficar daquele jeito, e o único lugar que eu me sentia acolhida, era no meu cantinho do sofá.
...
A semana se arrastou feito uma lesma, é sábado, e eu estava com planos de ficar como fiquei a semana inteira.
—Vai pegar seu maiô, vamos pra praia. –minha irmã disse parando em frente á tevê.
—Eu não tenho maiô. –resmunguei.
—Eu te empresto um. Vem. –ela pegou minha mão e me levou até o seu quarto.
Coloquei um maiô preto, um macacão jeans curto, e meu chinelo. Assim que estávamos prontas o Ian buzinou. Descemos, minha irmã disse pra mamãe que íamos á praia, sentei no banco de trás e minha irmã na frente.
—Feliz por saia da toca? –o Ian perguntou pra mim.
—Você nem faz idéia.
Até então eu estava achando que a gente estava indo pra mesma praia que eu fui e o Christoph me achou, mas o Ian estava fazendo outro caminho, quando chegamos lá, a praia era diferente, a o mar com mais ondas, do que o outro, tinha até rede de vôlei, um quiosque e pessoas.
Fale com o autor