Era Uma Vez... Uma Ilusão

47 46. Se estamos assim hoje, é por nossa culpa, não apenas minha.


O silêncio que domina entre Richard e Cathrine é mais que profundo, é tão denso e frio quanto as geleiras norueguesas. Mas Cathrine mantém o firme olhar em Richard, que nega veemente.

— Minha... culpa? — repete Richard, ganhando um firme assentimento de Cathrine. — Está sugerindo que a culpa... é minha!?

— Estou afirmando — ela responde e, fazendo-o arregalar os olhos, ainda acrescenta: —, e com toda a convicção que tenho.

As pupilas dele dilatam com essas palavras, mas em momento algum Cathrine recua. Sim, a culpa desta situação toda pertence a ele. Talvez não os abortos e natimortos, mas a gravidez fantasma...

— Vejo que você realmente não está pensando direito. — Cathrine nega com ironia para as palavras de Richard, que aponta: — Eu sempre estive do seu lado! Sempre te apoiei...!

— Mas não o suficiente! — exclama Cathrine, avançando na direção dele. — Você nunca me escutou! Nunca desejou falar sobre os nossos problemas! Sou política sempre foi "deixar de lado"!

— Por você, Cathrine! — defende-se Richard, num tom profundamente ofendido. — Para poupa-la...!

— Não, Richard, para você se poupar! — Os olhos dela arregalam, mas ela ainda acrescenta: — Se estamos nesta situação hoje, é por sua culpa! Culpa da sua covardia!

Ela é profundamente enfática ao falar, não mostrando preocupação alguma com os sentimentos de Richard. Pode até parecer duro — é duro, na verdade —, mas ela só está retribuindo o que Richard a fez sentir.

O silêncio instaura-se entre os dois, embora seja perceptível que Richard está se segurando. Isso até que...

— Se estamos assim hoje, é por nossa culpa, não apenas minha — ele sussurra num tom friamente baixo. — Você não é santa, Cathrine, mas é tão culpada quanto eu.

— Claro — ela responde, rindo com desdém —, afinal eu sou mulher, não é?

— Você nunca insistiu em falar dos nossos problemas! Das suas frustrações! — Mas Richard sequer parece escutar, tanto que aproximando-se, ele acusa: — Seu silêncio foi por escolha própria!

— E que outra opção eu tinha!? — A fúria explosiva volta a tomar conta dela. — Sua família sempre tão fria, distante e perfeita! Eu cresci com liberdade para me expressar, Richard!

— Enquanto eu cresci sem mãe e nem pai! — É o bastante para fazê-la parar e arregalar os olhos. Richard, porém, semicerra os olhos e nega. — Posso até ser culpado, Cathrine, mas sou não sozinho.

Nenhuma resposta é dada por Cathrine, que também semicerra os olhos. Então é isso? Richard se apegará em culpá-la tanto quanto ela o culpa....

— Mas é mais. — E ela deixa a sala verde, não desejando nenhum pouco continuar esta conversa.

Ficando para trás, porém, Richard fecha os olhos e, cobrindo o rosto, cai sentado numa sofá. As coisas acabaram de piorar de tal forma que... Toda a felicidade anterior ficou para trás.

*****

31|03|1814 Paris, Império da França

Grandes multidões reúnem-se nas avenidas parisienses; são inúmeras pessoas acenando, gritando e aplaudindo em animação. São tantas pessoas que é necessário a Guarda Nacional para contê-las. Embora hajam também corajosos assistindo de telhados e copas de árvores. Tudo para ver...

— Vive le Roi! — São homens a cavalo cruzando a Porte Saint-Denis, todos usando braçadeiras brancas. — Vive la monarchie!

E, junto deles, cruzam também o portão inúmeros soldados... da Coalizão. Todos marcham em ordem e glória, exibindo todo o poder das nações aliadas.

Os parisienses, novamente, apenas aplaudem os invasores, principalmente quando o imperador russo, ladeado pelo rei prussiano e o austríaca príncipe Schwarzenberg, também cruza o portão.

A recepção não estava tão festiva assim nos subúrbios, mas agora que as tropas estão nos Grands Boulevards... Por que lutar ou resistir? Paris capitulou! Os marechais deixados pela imperador se renderam!... O imperador sequer encontra-se em Paris, mas sim em Fontainebleau.

Logo atrás dos soberanos, e Schwarzenberg, marcham também os outros grandes generais da Coalizão, dentre eles príncipes prussianos, midiatizados e o próprio príncipe herdeiro de Württemberg. Sendo que logo atrás destes vêm as infantarias prussiana e russa, bem como a reserva.

São quase 100 mil soldados da Coalizão que adentram em Paris, e sem previsão alguma para partir... É inegável então que a derrota chegou; o inimigo está no centro do império.

Os parisienses aplaudem, saúdam o inimigo e louvam pelo fim da desgraçada guerra. Mas a paz tem o seu preço... E quem haverá de pagá-la não será apenas Bonaparte — provisoriamente na segurança de Fontainebleau —, mas também os próprios franceses...

*****

Abril|1814 Oldenburg House, Londres

— A vitória! — exclama exultante o barão von Frieden, elevando uma taça de champagne.

E os outros ministros do príncipe seguem o exemplo do barão, brindando pela vitória da Coalizão sobre a França. É uma exaltação quase sem igual; uma alegria totalmente diferente da sentida pela libertação de Niedersieg. Mas é uma alegria e deve ser comemorada.

Os ministros, junto de Linzmain, sorriem uns para os outros e se abraçam, ao mesmo tempo que aproveitam em fim do champagne de Champagne... Isso até que a contenção retorna e eles voltam a sentar.

— A vitória foi alcançada, meu príncipe — o barão von Frieden fala, sorrindo largamente. — A paz já é uma realidade.

— Não há como contestar este fato — acrescenta von Eden, pegando da mesa o último jornal publicado. — A França se rendeu e Napoleão Bonaparte abdicou incondicionalmente em Fontainebleau.

— Embora devamos concordar que os termos de Fontainebleau são brandos demais. — Carrelli pega outro jornal, detalhando o tratado, e nega.

— O importante é que o usurpador logo estará exilado em Elba. — Fechando os olhos e acomodando-se na cadeira, O'Ryen ri. — Nunca foi tão útil uma ilhota italiana...!

— Cavalheiros, por favor, Elba só é levemente menor que Niedersieg. — Mas a atenção deles logo retorna ao príncipe... Robert, que acrescenta zombeteiro: — Tenhamos pena dos ilhéus.

E a maioria dos ministros começam a rir das palavras de Robert, que respira fundo e tenta ao máximo não pensar que está usurpando Richard. Mas o verdadeiro príncipe tem seus próprios problemas e... Aparentemente, sequer a tão esperada queda de Bonaparte pode distraí-lo.

— Ficamos muito gratos pela sua presença, meu príncipe. — O olhar de Robert recai em von Frieden. — Imagino que seu irmão, o príncipe, está muito satisfeito com as notícias.

— Ele já está, com certeza. — Apesar de tudo, está o suficientemente feliz. Robert sorri. — Sinto o ar muito mais leve agora com a abdicação de Napoleão Bonaparte.

Basta agora saber quem será o novo soberano na França. Claro que a escolha mais óbvia é Louis XVIII, o próprio Senado francês o convidou para retornar. Mas há diversas opiniões divergentes entre os aliados.

— O fato é que ainda não acabou — o barão Linzmain fala, ganhando um assentimento de Robert. — Há muito o que consertar na Europa.

— E justamente por isso os aliados visitarão a Inglaterra — Robert acrescenta e, pensativo, franze o cenho. — Londres será o centro do mundo.

Nesta conversa, porém, reside um perigo, e um muito grande. Robert sabe que Richard tem conhecimento dessa visita que ocorrerá no verão, mas o objetivo dos ministros...

— Acreditamos que seu irmão, o príncipe, já está preparando a corte. — A única ação de Robert e encara fixamente Linzmain, que franze o cenho. — Não está?

A corte dos Tudor-Habsburg é algo extremamente difícil de classificar ou organizar. O grande Alfred, quase 50 anos atrás, até tentou organizá-la de uma forma prática e harmônica entre o principesco niedersieger, o pretensioso habsburger e a simplicidade inglesa, mas...

Encarando os ministros de Richard, Robert respira fundo e põe-se a pensar. Preparando a corte... Sim, isso Richard está fazendo, mas...

*****

Palácio de Kensington, Londres

O silêncio domina profundo na sala azul dos Kendal, tanto que é claramente audível o som do chá sendo servido por Sophia. À fente dela, Richard e Cathrine sentam num sofá, embora olhem para todos os lados menos um para o outro...

— A rainha está extremamente animada com a visita dos aliados no verão. — Deixando o bule na mesa, Sophia entrega uma xícara a Cathrine. — Será uma ótima oportunidade para mostrarmos o quão esplêndidas são...

— Quem estará presente? — questiona bruscamente Richard, suspirando em seguida. — O regente deve ter falado, não?

Inicialmente, Sophia não mostra reação alguma, apenas encara fixamente Richard. Até que ela sorri e, dando os ombros, entrega ao cunhado uma xícara de chá.

— E importa quem...?

— Com certeza! — É o bastante para Sophia franzir o cenho. Richard nega. — Não podemos receber sentados o imperador da Rússia ou o rei da Prússia, enquanto os soberanos alemães...

— Dificilmente estarão presentes. — Afinal o objetivo da visita é simplesmente comemorar a vitória. — Os únicos soberanos serão o imperador da Rússia e o rei da Prússia, todos os outros serão herdeiros ou generais.

Mesmo que, tecnicamente, muitos desses herdeiros e generais sejam as mesmas pessoas. É o bastante para deixar Richard pensativo. A atenção de Sophia, porém, volta-se a Cathrine, cuja expressão é... profundamente irritada...

— Teremos muitos alemães em Londres — aponta Richard, ganhando um assentimento de Sophia. — Creio que o mais justo seja oferecermos uma ordem ao rei e o imperador. Talvez a Goldrose...

— Para que serviço prestado a nós? — questiona Cathrine, finalmente se fazendo ser ouvida. — Nada de bom ou ruim eles fizeram a você, já a mim... Eles apoiam a desgraça da minha família!

Surpreendentemente, porém, Richard revira os olhos e suspira com as palavras de Cathrine, fazendo Sophia franzir o cenho. Claro que esta animosidade já foi percebido, e não havia como ser diferente depois... daquilo. Mas... Parece ficar pior a cada dia que passa.

— O que exatamente vocês planejam para a visita? — Mas Sophia prefere ignorar... Por enquanto.

Mas essa pergunta mostra-se tão reveladora quanto a conversa deles, embora num aspecto levemente diferente. A única ação de Richard é olhar para Cathrine, que tem o rosto invadido pela fúria.

— Recuso-me a falar, olhar ou até estar no mesmo local que a escória republicana que é Bernadotte! — exclama Cathrine, levantando violentamente do sofá. — Ele mostra pelas ações o quão indigno e vil é!

É o suficiente, tanto que não é necessário acrescentar mais nada. Porém Richard não olha nada compreensivo para Cathrine, muito pelo contrário, ele nega e volta-se a cunhada.

— A verdade, Sophia, é que gostaríamos que você organizasse as comemorações da nossa corte. — Sophia franze o cenho para Richard, que acrescenta num dar de ombros: — Se você puder, claro.

— Não tenho oposição alguma, mas... — Ela volta-se a Cathrine, que vira o rosto. — Não é da princesa essa...?

— Minha obrigação é representar, não planejar! — A obrigação dela é liderar o cerimonial! Mas Cathrine suspira. — Estou exaurida, Sophia.

— Exaurida? Mas do quê?

— De tudo! — exclama Cathrine, olhando para ela e depois acrescentando na direção de Richard: — De todos! Cansei de aguentar tudo; se não quero... não quero.

Há um certo desafio nessas palavras. Claro que consorte nenhuma é obrigada a liderar a sociedade ou até mesmo a corte, mas... Não é nada agradável ser invisível.

De qualquer forma, porém, essa... explosão de Cathrine apenas aumenta os temores de Sophia, principalmente quando Richard desvia de Cathrine o olhar. O que fazer? Como fazer...?

— Cathrine está certa, Richard, a Goldrose não é adequada — Sophia fala, chamando a atenção dos dois. — Mas sim o Inntal de Prata, sendo a mais alta ordem niedersieger...

*****

Dresden, Reino da Saxônia

A Saxônia é um país devastado pela guerra. Rico e próspero, de fato, mas nenhuma riqueza ou prosperidade conseguiu salvá-lo de ser o principal foco das Guerras de Libertação.

E Dresden é o principal expoente desta devastação. Soldados russo-prussianos marcham por toda a cidade, cujas periferias encontram-se tomadas por enfermos, enquanto os subúrbios praticamente não existem mais... Nem mesmo a Augustusbrücke foi poupada, tanto que treme com a carruagem imperial russa cruzando-a rumo à Schlossplatz...

— Qual o objetivo disso? — sussurra uma mulher morena, voltando-se para um homem loiro ao lado. — Qual o objetivo dela!? Nos destruir mais ainda!?

Mas nenhuma resposta é dada pelo homem, cujo uniforme — amarelo e branco — é de um oficial da cavalaria pesada. Os dois esperam pela carruagem no portão principal do Georgentor. Porém a animosidade da mulher é tamanha que...

— Lembre-se da calma, Juliane — sussurra o homem, fechando os olhos em busca de paciência.

— A única coisa que consigo lembrar agora é de Coburg e Berna. — Ela volta-se novamente para ele e nega. — Essa mulher...

— É só uma mulher! Nada mais que um mulher! — A paciência dele chega ao fim, tanto que ele acrescenta enfático: — É só...!

Mas a carruagem para e ambos são obrigados a fazer uma mesura. Nenhum anúncio, porém, é dado, bem como nada é dito, o lacaio simplesmente abre a porta e ajuda a descer...

— Como é inigualável a sensação de estar em família! — A sorridente tsesarevna Maria Konstantinovna... — Primo August, você parece conosco!

Enquanto o homem e a mulher, apesar de parecerem dois burgueses, são os príncipes herdeiros da Saxônia. O comentário não parece agradar muito o príncipe, mas ele recebe com um desajeitado abraço a prima.

Muito foi falado na família real sobre os belos Niedersieg, principalmente pela falecida rainha Elisabeth, e até algumas cartas trocadas entre os primos. Mas isso... No final, o abraço simplesmente acaba e eles seguem em silêncio pelo palácio...

— Mas é esplêndido! — Nos aposentos da tsesarevna, Mary olha encantada para tudo. — E a vista para o Elba quase me lembra... O Neva.

— Pensamos neste quarto justamente para fazê-la se sentir em casa — comenta Juliane... nenhum pouco animada.

— Que agradável. — Nem a tsesarevna parece muito animada... Mary deixa a janela e, vagueando pelo lugar, sorri. — É tão grande; sinto-me até uma rainha!

— Infelizmente, nunca um rei ou rainha dormiu aqui. — O tom de Juliane é seco, tanto que ela ganha negativa de August. — Mas dizem que eram estes os aposentos da eleitora Eleonore Erdmuthe.

E, novamente, August nega para Juliane. Mas as palavras já foram ditas e a atenção da tsesarevna capturada.

— Esse nome não me é estranho — aponta Mary, voltando-se para eles. — Quem foi ela?

— Ninguém muito importante, apenas a esposa... malfadada de Johann Georg IV — responde August, fazendo Mary franzir o cenho. — Ela era mãe da rainha Caroline de Ansbach.

— Aparentemente, foi aqui onde o eleitor tentou matá-la. — E Mary volta-se surpresa para Juliane, que sussurra: — Ele a pegou tendo intimidades com o irmão.

Os olhos da tsesarevna arregalam numa mistura de horror e... medo? August franze o cenho e volta-se a Juliane, cujo sorriso no rosto é profundamente zombeteiro. Enquanto Mary força uma risadinha e segue para a janela.

O silêncio instaura-se no quarto. Essa conversa parece tê-la perturbado bastante. Mas qual parte? A vida malfadada da eleitora? Os abusos do eleitor? Ou... o adultério...?

— Tudo não passa de uma lenda. — Mas ela continua na janela, tanto que August nega para Juliane. — Meu tataravô jamais trairia o próprio irmão.

A única ação de Juliane é negar para August. Mas é o silêncio que domina o quarto, e um silêncio profundo e tenso. Isso até Mary voltar-se para eles.

— Garanto que não serei incômodo algum. — Ela deixa a janela e acrescenta sorrindo: — Minha visita é breve; desejo apenas ver Konstantin.

— A saudade é realmente poderosa — comenta Juliane, forçando um sorriso e acenando para August. — Vamos deixá-la agora descansar um pouco.

Numa mesura, os dois deixam então os aposentos da tsesarevna. Mary, porém, respira tensamente e segue para a janela, onde observa o Elba com um olhar terrivelmente preocupado.

*****

Palácio de Kensington, Londres

Parada ao lado do pórtico no pátio oeste do palácio, a carruagem dos Bristol espera pelo marquês e a marquesa. Logo o relógio da torre baterá 15h30 e... O marquês e a marquesa deixam o palácio com a princesa Sophia.

— Novamente, agradeço muito pela ajuda, Sophia — Richard fala, enquanto Cathrine sobe na carruagem. — Querendo ou não, você coexistiu com a corte de mamãe. E a rainha ainda deve lembrar da corte dos meus avós.

— A velhice nunca foi tão vantajosa — responde Sophia num tom irônico, antes de assentir. — Tomarei as providências necessárias... E nada de suecos.

— Nada de Bernadotte! — A atenção de Richard e Sophia volta-se a Cathrine, na carruagem, cuja expressão é irritada. — Faça o possível para ofendê-lo; use até um dos filhos do rei deposto, se necessário.

— Receio ser impossível. — Mas Cathrine pouco se importa e se acomoda no assento.

Suspirando, Richard força um sorriso para Sophia, que, verdadeiramente sorrindo, nega. Não é difícil perceber que algo não está bem entre eles. Mas Richard logo sobe na carruagem e o veículo deixa Kensington.

Nenhuma palavra, porém, é trocada entre Richard e Cathrine, cujo silêncio é tão profundo, porém igualmente frágil, que... Richard volta-se a Cathrine, encarando-a tão fixamente que a irrita mais ainda.

— Não me reprima por odiá-lo — sussurra entre dentes Cathrine. — Além de roubar a Noruega, Bernadotte ainda ousa exigir a destituição de Christian como herdeiro da Dinamarca!

— Seu irmão, ao defender a independência da Noruega, desrespeita a Paz de Kiel — retruca Richard, bastante enfático.

— Que desrespeita os direitos da Noruega como reino igual a Dinamarca! — Mas Cathrine não desiste, mesmo que com lágrimas nos olhos. — É minha família, Richard!

O coração dele aperta com esta imagem, tanto que Richard desvia o olhar. Ele sabe como é, e sabe realmente, mas... Richard cobre o rosto com uma mão e nega.

— Só... não seja tão expressiva no seu ódio. — Cathrine franze o cenho para Richard, que volta-se a ela. — Que necessidade há nisso?

— E você daria atenção caso minha reação fosse branda? — responde Cathrine, fazendo-o arregalar os olhos. — Falaria algo, bom ou ruim?

— Isso não vem ao caso agora...

— Muito pelo contrário, vem sim! — Mas Richard novamente desvia o olhar. Cathrine ri fracamente. — Sabia que acabariam assim.

Não poderia ser diferente... O silêncio volta a dominar entre os dois, mas agora sem qualquer sinal de mudança. Acontece em fevereiro, claro, mas as consequências... Elas não têm tempo ou hora determinada para chegar ao fim.

Cathrine acaba olhando para as ruas de Londres pela janela, enquanto Richard só consegue olhar para baixo, incapaz de falar alguma coisa... Até que...

— Você não precisa estar lá quando a rainha fizer a corte. — E Cathrine franze o cenho para Richard, que continua de cabeça baixa. — Não irei obrigá-la a ir, caso não queira.

Mas, novamente, o silêncio domina na carruagem. Pelo menos isso ele dará a Cathrine: a chance de não ser torturada.

— É meu dever estar lá... ou seu lado. — E Richard encara fixamente Cathrine, que acrescenta: — Aguentamos tudo de cabeça erguida, não?

Mais humilhante que aceitar Bernadotte é fugir de Bernadotte. Mas Richard vira o rosto na direção da janela, uma ação que Cathrine segue na janela oposta. E o silêncio reina entre os Bristol... E parece extremamente supremo...

*****

Abril|1814 Schloss Leonberg, Leonberg

— Achei impressionante! — Na cozinha do castelo, um grupo de criadas reúne-se ao redor do fogão. — Dizem até que ele quase foi atingido por uma bala, mas continuou liderando as tropas.

— E entrou na cidade ao lado do imperador russo e do rei prussiano — acrescenta outra criada, para a animação das outras.

— Realmente, o príncipe herdeiro é lider que precisávamos! — exclama uma mais jovem, fechando os olhos e suspirando. — Não entendo como a princesa pode ser tão fria...

— Até onde sei, as senhoras são pagas para servir e não fofocar. — Todas se dispensam do fogão e olham com horror para... Anton Belgärd. — Vocês, por acaso, sabem o privilégio que possuem?

Servir a Casa Real, a futura rainha... Mas nada é dito pelas criadas, apesar de algumas negarem em súplica, enquanto outras se entreolham. Dificilmente os nobres da princesa descem para cá e quando é Belgärd... Geralmente há tanta bondade...

— Sr. Belgärd, perdão, mas... — A lavadeira toma a frente, negando veemente. — Só estávamos conversando!

— Sobre o príncipe herdeiro? — aponta Anton, arqueando a sobrancelha.

— Mas não se fala de outra coisa! Ele é o grande herói de Württemberg! — responde a jovem assistente da cozinha. — É só uma conversa inocente...

— Da intimidade da patroa? — A jovem só consegue olhar envergonhada para baixo. A fúria apodera-se de Anton. — O que a princesa faz ou deixa de fazer não diz respeito a vocês! Voltem ao serviço!

Em desajeitadas mesuras, as criadas deixam o fogão e seguem para seus afazeres. Enquanto Anton pega o chá que desceu para buscar e segue para cima.

De fato, não se fala outra coisa em Württemberg que não seja a vitória sobre Bonaparte e o príncipe herdeiro. Poderia até ser suportável, e Anton nem ficaria irritado, mas Anne... Parando na porta da sala inglesa, Anton observa pela brecha Anne lendo uma carta.

— E então? — pergunta Luise, logo atrás da princesa. — É de Ludwigsburg ou...?

— Fritz vai para a Inglaterra, Luise — Anne sussurra e, voltando-se para a condessa, sorri largamente. — O meu Fritz foi chamado para acompanhar o imperador Alexandre!

— Por Cristo! Devemos preparar desde já a sua... — Mas a voz de Luise morre e ela franze o cenho. — Você vai junto, não vai?

Os olhos de Anton arregalam com esse questionamento, ou melhor, com toda essa conversa. Fritz já é um herói e indo para a Inglaterra... A alegria de Anne só irá aumentar. Claro que Anton não deseja vê-la triste, mas...

— Não creio que seja adequado. — Ele adentra na sala, fazendo Anne franzir o cenho. — A senhora está doente, minha princesa.

— Certamente que o clima britânico, ou até mesmo Calais, seja o suficiente para...

— É muito mais complicado que isso, senhora. — Colocando a bandeja com chá numa mesa, Anton força um sorriso e nega. — A imperatriz Elizaveta dificilmente irá junto.

— Porque não há nela nenhuma gota de sangue britânico. — O tom de Anne é friamente irritado. Ela arquea a sobrancelha. — Qual o seu problema, Anton?

É o bastante para fazê-lo arregalar os olhos e virar o rosto, o que só faz a princesa negar. Está muito claro que é isso. A única questão é que ninguém deseja falar em voz alta.

— Talvez seja melhor a senhora escrever ao príncipe perguntando como deve proceder — sugere Luise, ganhando um olhar franzido de Anne. — Para evitar constrangimentos.

O olhar de Anne não suaviza muito com essa sugestão, mas ela assente e segue para a escrivaninha.

— Bem, se eu não puder agora certamente que poderei depois. — A guerra acabou e Bonaparte logo partirá para a Ilha de Elba. — Você não deveria estar com Wilhelm agora, Anton, ensinando latim?

A única ação dele é assentir e, numa mesura, deixar a sala inglesa. Os pensamentos de Anton, porém, continuam fixos naquela carta... Há uma grande possibilidade de Fritz aceitar a companhia de Anne. E então, sozinhos na Inglaterra...

*****

Final de abril|1814 Palácio Real, Dresden

É noite em Dresden, e uma noite tão sombria e silenciosa que é possível ouvir dos corredores do Palácio Real as tropas da ocupação russo-prussiana marchando pela Schlossplatz.

Não há praticamente mais corte alguma em Dresden, a maioria fugiu para o interior ou seguiu o rei para Berlim. Então a caminhada de Mary pelos corredores com August e Juliane é profundamente solitária e silenciosa.

— Infelizmente, não pudemos recebê-lo adequadamente. — Até que August quebra o silêncio. — Então preferimos não recebê-lo oficialmente.

— Entendo sua posição — responde Mary, cruzando o xale sobre os ombros e sorrindo de lado —, a da Saxônia inteira, na verdade.

Um dos países mais ricos da Alemanha rebaixado a posição de ocupado pelos aliados... Nesse estadia, Mary percebeu muito bem as privações que a derrota trouxe a Saxônia. Há anos ela não comia tanto peixe ou dormia sob velas que não eram de cera de abelha.

— Dresden não tem o luxo de São Petersburgo, mas...

— É perfeita. — Tanto a princesa quanto o príncipe franzem o cenho para Mary. — Os únicos pontos negativos são as tropas e, obviamente, os feridos. Mas, fora isso, tudo é muito agradável.

Principalmente porque ela está longe da Rússia, longe dele... Ou melhor, estava... Chegando no corredor onde ficam os aposentos da tsesarevna, August entrega o castiçal para Juliane e elas seguem sozinhas; ele ficará onde está... para fumar.

— Você não perdeu muita coisa, Juliane — Mary fala assim que elas chegam nos aposentos dela. — Sei que não gosta de mim.

— A Rússia invadiu a Saxônia e levou o meu sogro como prisioneiro para Berlim...

— Ambas sabemos que não é isso. — Juliane franze o cenho para Mary, que olha para o quarto... sorrindo fracamente. — É ele... O Ceto.

Não é necessário dizer mais que isso. Juliane dificilmente entende o apelido, mas sabe que se refere a Konstantin.

— Fiquei encantada com o esplendor da corte russa, e que garota não sonha em ser imperatriz? — responde Juliane, rindo levemente e negando. — Mas o choque de ser preterida logo passou.

— Que alegre, afinal você não perdeu muita coisa. — O sorriso da princesa morre, enquanto Mary explica: — Se não me engano, você e August não têm filhos...

— Temos filhas — Juliane retruca, fechando dolorosamente os olhos —, e elas são a nossa maior alegria!

— Mas não filhos. Não há herdeiros. — Muito diferente dela mesma. Mary deu um herdeiro a Rússia. — Veja como uma benção ter se livrado de Konstantin.

Dos abusos e da instabilidade violenta dele. Inicialmente todos até poderiam amar Juliane como grã-duquesa, até a própria imperatriz viúva, mas quando os filhos homens não viessem... Tudo se tornaria pressão.

O olhar de Juliane em Mary é profundo, embora ofuscado pelas sombras. Mas é claramente perceptível a desconfiança dela.

— Qual o seu objetivo com tudo isso? — questiona Juliane, semicerrando os olhos. — Me humilhar...!?

— Apenas mostrar que não há necessidade alguma de rivalidade. — Mary aperta o xale, quase protetoramente. — Você não teria suportado o inferno que é viver com ele, e, mesmo se tivesse, acabaria destruída.

Juliane de Saxe-Coburg-Saalfeld nunca será imperatriz da Rússia, mas o título de rainha da Saxônia parece o suficientemente agradável, afinal não vem com abusos e a violência de um marido bruto.

Isso é o bastante para suavizar a expressão da princesa, que faz uma mesura e deixa Mary sozinha. O que resta a ela é entrar no quarto, coisa que logo Mary faz e... O local está escuro, há apenas uma luz iluminando...

— Por que você me convocou para este lugar? — Konstantin... Ele volta-se na direção dele. — Minhas tropas polonesas estão sem líder em Paris...

— Não é sua esposa, a mãe dos seus filhos, mais importante que qualquer tropa? — Mary aproxima-se dele, sempre apertando o xale. — Queria apenas vê-lo são e salvo.

— Mesmo? Ou é o seu trono que você veio garantir? — O tom dele é cético, profundamente irônico.

— Sim. — Mas Mary não recua e, chegando extremamente perto dele, sussurra: — Quero apenas garantir o meu trono.

E Mary abraça Konstantin, fechando fortemente os olhos ao fazer isso. Ela sabe que é o bastante para incitá-lo a dar o que ela veio buscar. E isso... garantirá o trono dele, sem qualquer desconfiança...

*****

08|06|1814 Palácio de St. James, Londres

A corte real britânica reúne-se na Grande Câmara do Conselho, onde o ministro do exterior austríaco, o príncipe Metternich, curva-se a rainha Charlotte, que estende uma mão ao príncipe.

— Sejam bem-vindo, Sua Alteza Sereníssima.

— É uma honra estar novamente na sua presença, Majestade — responde Metternich, beijando a mão da rainha. — Tenho certeza que esta estadia será...

E o príncipe não tira os olhos da rainha, e nem o encantador sorriso do rosto. A esquerda da rainha, porém numa distância "segura", as princesas e os duques reais olham para toda a cena com desdém. Mas ficam em silêncio... Até que Metternich se afasta.

— Não me surpreende que ele seja tão popular — aponta Elizabeth, sussurrando em seguida: — Metternich bajula e sorri como ninguém.

— É um fanfarrão sedutor. — William, porém, é muito mais negativo. O príncipe e a princesa August da Prússia então se aproximam. — Ótimo, agora só falta a outra metade.

O belo prussiano, junto de sua graciosa arquiduquesa austríaca — cujos olhos são definitivamente Tudor-Habsburg —, faz uma mesura e cumprimenta a rainha. Mas William está certo, todos os generais e ministros estrangeiros já foram apresentados, agora só falta a realeza.

E falando em realeza... A atenção de Sophia acaba voltando-se a Richard e Cathrine, cuja tristeza e distância é muito visível. Ela até olha com preocupação para Robert, ao lado deles. Tanto que nem percebe a entrada...

— Seu noivo chegou, Charlotte. — Mas Augusta sim, o que atrai um irritado olhar da princesa. — Por que não vai lá cumprimentá-lo?

— Porque não desejo! — retruca Charlotte, ganhando um duro olhar da rainha assim que os dois Orange se afastam. — E ele não é meu noivo...

— Quem é aquele? — Todos agora franzem o cenho para Elizabeth, que sinaliza para os três que se aproximam. — O hussardo austríaco atrás do príncipe e da princesa Wilhelm.

Um hussardo austríaco atrás de um príncipe prussiano? Deixando Richard e Cathrine, Sophia olha para o dito homem e... franze o cenho.

— O bigodudo gordo? — mas é Mary quem exclama, horrorizada. — Elizabeth, por favor!

— Mas qual o problema dele?... E do bigode também? — Até os duques negam para Elizabeth... A não ser Ernest. — É viril...

— É desleixo! — responde Sophia, encarando o hussardo e negando. — Parece até um camponês russo!

Logo, porém, é descoberto que trata-se de Friedrich, o príncipe-hereditário do extinto Hesse-Homburg, o que não ajuda muito. Até que chega a vez do príncipe herdeiro da Suécia e atenção de toda a corte, não apenas de Sophia ou Robert, divide-se entre Bernadotte e Cathrine.

Um burburinho começa entre os cortesãos, vindo principalmente dos mais "escondidos". Mas o herdeiro eleito da Suécia chega no trono e curva-se a rainha. Enquanto Cathrine assiste tudo com o mais frio estoicismo, afastando-se, porém, quando Richard tenta tocá-la. E logo chega a vez do rei da Prússia...

— Veja, Ernest, se não é o seu futuro genro — aponta Augustus, sinalizando para o jovem logo atrás do rei. — Parece um jovem promissor, não?

— É prussiano e tem o favor do rei — comenta, porém, Charlotte, semicerrando os olhos na direção do príncipe. — Deve ser tão violento quanto...

O jovem príncipe prussiano encontra o olhar de Charlotte e sorri para ela. É o bastante para calá-la, deixá-la encantada, e as princesas percebem isso, porém...

A atenção de Sophia está apenas em Richard e Cathrine, bem no que Richard sussurra para Cathrine e ela nega com desgosto. A situação torna-se a cada dia pior e... Chega a vez do imperador da Rússia, fazendo a rainha levanta e a corte se curvar.

— Desde o seu ancestral, Pedro, o Grande, não recebemos tamanha grandeza em Londres — a rainha fala, estendendo a mão ao imperador. — Espero que aprecie a estadia, Majestade.

— Eu também. — O imperador sorri e, analisando a sala, acrescenta zombeteiro: — Mas não havia nenhum lugar melhor para nos recepcionar? St. James parece até um hospital decrépito.

O ultraje espalha-se pela sala, principalmente quando o imperador começa a rir. A aristocracia nega e os oficiais olham com horror, enquanto os duques reais mostram-se furiosos e grã-duquesa Ekaterina e o príncipe herdeiro de Württemberg, atrás do imperador, ficam envergonhados.

— Oh, o humor russo. — Mas a rainha permanece... plácida. — Só não destrua nada, como destruiu o seu tataravô.

E a rainha volta a sentar, enquanto o sorriso do imperador morre. A parte das apresentações acabou e agora as bebidas serão servidas... Mas Sophia, sequer esperando Robert se aproximar, olha fixamente na direção dele e sinaliza para Richard e Cathrine.

Será necessário agir, e muito rápido, ou as consequências...

*****

09|06|1814 Carlton House, Londres

O animado som do cotillon domina Carlton House, onde não apenas jovens damas e cavalheiros exibem seus dotes, mas também as damas britânicas competem em riqueza com as embaixatrizes e princesas do continente. Isso, porém, é na sala circular, porque na sala do trono...

— ... São investidos cavalheiros da Mais Nobre Ordem da Jarreteira! — anuncia Sir Isaac Heard, assim que a gola da Jarreteira é colocada no imperador Alexandre. — "Honi soit qui mal y pense"!

O imperador aperta então a mão do príncipe regente, enquanto Lord Liverpool e Lord Castlereagh se curvam. E todos os cavaleiros aplaudem os novos membros da Ordem da Jarreteira.

A sala é dominada quase que exclusivamente por homens, que usam todas as vestes e insígnias da Ordem da Jarreteira, desde o manto até o chapéu plumado. Desde o século XV nenhuma mulher é investida, mas Charlotte observa tudo da porta...

— Apreciando o espetáculo? — Charlotte instantaneamente recua ao escutar essa voz... Apenas para encontrar um preocupado príncipe Friedrich. — Perdão, eu lhe assustei?

— Não! Não, eu... — O jovem príncipe continua preocupado, então ela sorri. — Fui apenas pega de surpresa... Eh, Sua Alteza...

— Friedrich. — Charlotte franze o cenho, fazendo ele sorrir e explicar: — Somos primos, compartilhamos os mesmos bisavós, então nada mais justo que sermos informais, não?

— Sendo assim, me chame de Charlotte.— Ela responde, encarando-o fixamente. — Não deseja me levar para...?

— O quão desrespeitoso seria eu usar a liga da Jarreteira, hein? — Mas esse olhar acaba e os dois se afastam... Orange. — Primo Friedrich! Vejo que já conheceu a minha noiva.

E Charlotte recua mais ainda de Friedrich, bem como de Orange e seu taciturno irmão. O coração de Charlotte bate fortemente, embora sem qualquer explicação, afinal... Que coisa errada ela fez?

— O contrato ainda não foi assinado, Guillot — o Orange mais novo fala, tomando do irmão a liga e a jarreteira. — É melhor isso ficar comigo, por segurança.

— Não seja tão sério, Frits! — Mas Willem abraça o ombro de irmão e zomba: — Assim você vai acabar casando com a prima Luise...

— E qual o problema da doce Luise? — questiona Friedrich, franzindo o cenho.

Willem, parando de rir, encara fixamente o primo. E o coração de Charlotte volta a bater freneticamente, mesmo com o motivo sendo desconhecido. Mas a forma como Friedrich defende a prima indefesa é... Willem, porém, volta a rir.

— Fico feliz que tenha gostado da minha noiva, Friedrich. — Mas Orange sequer toca no assunto de Luise. Ele, porém, pega a mão de Charlotte. — Seremos os novos...

— Peço que não me toque assim, senhor! — retruca Charlotte, afastando a mão do confuso Willem. — E lembre-se que você é apenas pretendente e não noivo!

E, se depender dela, não passará disso! Mas a confusão de Willem apenas aumenta, tanto que se torna um olhar franzido. Friedrich aproxima-se da princesa, enquanto Frederik nega para o irmão. Orange, porém, abre a boca e...

— Charlotte? Mas o que você faz...? — Sophia, porém, deixa a sala do trono e franze o cenho para os jovens. — Quantos cavalheiros!

— Sua Alteza Real, mas que prazer! — Orange exclama, fazendo uma mesura e apontando para Frederik. — Já foi apresentada ao meu irmão?

Sorrindo, Sophia é formalmente apresentada ao Orange mais novo. Embora a atenção de Charlotte... Friedrich está mais próximo do que antes, ela consegue até sentir o perfume dele... Até que ela é avisada pela tia que o regente deseja vê-la.

Na sala do trono, Charlotte espera quase todos os cavaleiros da Jarreteira — dentre eles Richard e Robert — irem embora para poder falar com o pai.

— Chamou, papai? — Charlotte aproxima-se então do regente, em pé ao lado de uma mesa com... — Por que Lord Castlereagh e Lady Hertford...?

— Sabe o que é isso, Charlotte? — pergunta o regente, apontando para... um documento na mesa... — É um contrato... um contrato de casamento.

Os olhos de Charlotte arregalam e ela olha com horror para o pai, bem como para Lord Castlereagh e Lady Hertford... Mas... A voz de Charlotte morre e ela só consegue negar.

*****

A música e dança continua no salão circular, mas agora dominada principalmente pelos estrangeiros do continente. O próprio Metternich e a esposa do embaixador russo dançam numa... Uma mistura de giros e "abraços"! Escandalizada, a aristocracia britânica nega para tal dança.

Mas não Richard... Na verdade, ele se mantém bem distante da atenção no salão, preferindo observar a dança vienense da porta norte. Ele está sozinho... Até que...

— Não gosto de alimentar os seus vícios, mas cá estou eu. — Aproxima-se Robert, consigo uma taça e um copo. — Champagne ou conhaque?

— Pode parecer incrível, mas estou sem vontade. — O tom dele é distante e contido... Mas o olhar de Robert é cético. — Conhaque, por favor.

É forte e... Richard pega o copo e bebe praticamente metade do líquido num só gole. Há meses ele não bebe e... A sensação do conhaque queimando pela garganta é maravilhosa!

Robert, porém, permanece ao lado dele, certamente que apreciando em silêncio o escândalo da dança.

— Deseja conversar? — Richard mantém-se focado na dança, tanto que Robert o encara. — Falo de você e Cathrine.

— Nós estamos ótimos! — ele responde, acrescentando com um débil sorriso: — Ambos já sabemos o que pensamos um do outro.

— Não é essa a impressão que vocês dão, de estarem ótimos. — Mas Richard nega para o irmão e bebe do conhaque. — Somos irmãos, Richard... Você é o meu melhor amigo.

As pupilas de Richard dilatam com essas palavras. Irmãos... Melhores amigos... A atenção dele volta-se ao príncipe herdeiro de Württemberg, dançando com a grã-duquesa Ekaterina, e ao imperador. Richard não foi um irmão tão bom assim, e nem... Os olhos dele encontram Cathrine...

— Ela me culpa por tudo o que está acontecendo — sussurra Richard, fechando os olhos e apertando os punhos. — Afirma que fui eu quem causou tudo!

— Talvez...

— Não, Robert, não há talvez! — Recuando, Robert arregala os olhos. Mas Richard nega e... — É o que ela pensa e nada pode mudar isso. No final, o culpado sempre foi o meu silêncio!

Ele deixa a sala circular e segue para a sala de desenho carmesim, certamente onde não haverá ninguém. E Robert o segue.

— Mas e você, Richard!? — questiona Robert, fazendo-o parar. — O que você pensa?

O que... ele pensa? Richard volta-se para trás e encara fixamente Robert, notando brevemente que esqueceu onde deixou o chapéu plumado. Mas a pergunta de Robert...

— Cathrine é injusta! Além de muito hipócrita! — Acusá-lo de indiferença e silêncio quando... — Fiquei sim calado e posso até ser culpado... Mas ela também é!

É tremendo o desgosto na voz de Richard, tanto que Robert arregala os olhos. Mas não era isso que ele queria? Saber o que Richard pensa. Agora é aceitar e...

— Sabe, uma vez alguém muito inteligente me disse que o importante não é estar certo ou errado — Robert fala, sorrindo largamente —, mas sim...

— Não me dê o meu próprio conselho! — Mas os sentimentos de Richard são fortes demais. — Ambos somos culpados, isso é fato!

Um fato incontestável. A expressão de Richard é furiosa; os sentimentos ao lembrar disso tudo são tempestuosos. E talvez contagiosos...

— Não — responde Robert, tendo o rosto dominado pela raiva —, é covardia!

Agora é Richard quem arregala os olhos. Totalmente ofendido e surpreso com... Covardia!?

Notas finais
* "Era Uma Vez... Uma Ilusão" também está no Pinterest: https://pin.it/eP3V7PoQF