Era Uma Vez... Uma Ilusão

46 45. A verdade terá de ser revelada algum dia.


Final de novembro|1813 Hampton Court Park, Londres

O clima no sudeste da Inglaterra torna-se cada vez mais frio, prenunciando talvez um dos mais frios invernos londrinos desde 1789. Quem sabe aconteça até uma feira de gelo no Tamisa?

Porém, apesar do clima, nenhum dos convidados da marquesa recusou o convite de um chá no parque de veados. Muito pelo contrário, todos os bons amigos fazem-se presentes. É contagiante a alegria, tanto que nem mesmo os tiros dos caçadores conseguem abafar as risadas das damas e cavalheiros.

— A água está fria, Richard! Não nos faça cair, por favor! — Risadas que, por sua vez, não abafam as de Cathrine e Richard no Long Water. — Não brinque com isso, Richard!

— Perdão, mas é irresistível! — Os dois estão num pequeno barco sendo remado sem qualquer habilidade por Richard. — Vamos para a borda então.

De fato, risos tão alegres e felizes que nem parece que os dois estavam distantes não faz muito tempo. É interessante que até o frio torna-se mais confortável com tanta felicidade.

Quem observa os dois da margem é Sophia, cujo sorriso no rosto é acompanhado pelo silêncio da solidão. Até que o príncipe regente se aproxima.

— A alegria conjugal é tão... bem, alegre, não? — Sophia franze o cenho para George, que sorri na direção do casal. — O que um bucho não faz.

— Considero eles um casal extremamente belo. — E ela retorna aos dois. O silêncio instaura-se, até que...

— Não acha tudo isso irônico? — o regente fala, ganhando um confuso olhar da irmã. — A estéril grávida e você... bem...

— Pense muito bem antes de falar, George — ameaça Sophia entre os dentes, desviando o olhar e sussurrando: — Lembre-se que não sou obrigada a ajudá-lo com Charlotte.

E nem mesmo o simples fato dele ser o regente a coloca nessa obrigação. É, porém, o suficiente para calá-lo; George sabe que Sophia é a única das tias que Charlotte realmente confia. Mas o silêncio dele não necessariamente significa "derrota":

— E qual a sensação de perder uma coroa? — Arregalando os olhos, Sophia volta-se ao irmão, cujo sorriso é desdenhoso.

— Esplêndida — ela responde, sorrindo com igual desdém. — Principalmente porque sei que qualquer criança nascida de mim será herdeira de uma coroa ainda mais gloriosa: a britânica.

Afinal, Charlotte ainda não garantiu a coroa para si mesma. O sorriso do príncipe instantaneamente morre, enquanto Sophia simplesmente faz uma mesura e se afasta dele.

*****

Mais distante na margem, após ser ajudada por Richard a descer do barco, Cathrine passeia de braços dados com o marido. Os dois exibem um largo sorriso no rosto, gerando muitas óbvias especulações. Geralmente Cathrine ficaria incomodada, mas...

— Sinto um desejo tão grande por maçãs — ela fala altamente ao chegar numa mesa onde estão os von Frieden e von Eden. — O que acha que isso significa, barão Leopold?

— Um príncipe-hereditário, certamente. — Cathrine troca um sorriso com Richard e depois sorri para von Eden, que acrescenta: — Embora uma princesa também seja extremamente útil.

— Poderíamos casá-la até com um príncipe da Sicília — sugere a baronesa von Frieden, cujos olhos brilham de expectativa. — Ou um príncipe bávaro, numa grandiosa reconciliação!

Claro, afinal qualquer princesa deles seria superada por um príncipe de Robert e pelo próprio Robert. Mas Cathrine apenas ri com as palavras da baronesa; ela está feliz demais para se irritar com tais discussões.

— É melhor deixarmos isso para o futuro. — Os alemães assentem para Cathrine, porém ela ainda acrescenta altamente: — Mas garanto que qualquer casamento futuro será protestante!

Uma leve ofensa para os católicos niedersiegers, principalmente a baronesa, mas que gera aplausos dos protestantes britânicos. Richard nega para Cathrine, apesar dele mesmo também sorrir. E logo os dois se afastam dos alemães.

— Está feliz com a festa? — Richard pergunta, encarando-a com carinho.

— A festa é só uma consequência da minha felicidade. — Sorrindo ternamente para Richard, ela acaricia o ventre. — Nosso bebê é a minha felicidade.

— Nossa felicidade — acrescenta Richard, sorrindo para o ventre dela. — Você me surpreendeu de uma forma... incrível.

— Confesso que eu mesma fui surpreendida — sussurra Cathrine, encarando-o fixamente e sussurrando: — O bebê da nossa alegria.

— Tão belo e saudável quanto necessitamos. — E Richard toca no ventre dela, embora rapidamente afaste a mão e... franza o cenho. — Mas e se...

A frase sequer é concluída e o sorriso de Cathrine já morre. Não é necessário pensar muito para descobrir o medo de Richard, um medo que a própria Cathrine compartilha. O silêncio apodera-se dos dois e ainda vem acompanhado com uma tensão tão terrível que...

Latidos começam a ser escutados, fazendo o sorriso de Cathrine retornar e ambos se voltarem na direção do grupo de cavalheiros retornando da caça, e ainda trazendo um alce junto. A alegria é instantaneamente restaurada e os dois seguem na direção dos caçadores.

Quem os observa de longe, porém, é Sophia, cuja expressão é inegavelmente preocupada. Ela até tenta disfarçar quando Robert se aproxima, mas ele percebe e, no final, ambos olham com preocupação na direção de Richard e Cathrine.

*****

Início de dezembro|1813 Palácio de Inverno, São Petersburgo

No salão branco, a música para, o silêncio instaura-se e toda a corte se curva para a imperatriz Maria que, ao lado do grão-duque Nicholas, adentra gloriosa no salão, sendo imediatamente seguida pela tsesarevna, o grão-duque Mikhail e a grã-duquesa Anna.

A família imperial é bela, gloriosa e altiva, característica que apenas aumentam a admiração da corte e são em tudo provadas pelas vitórias na Alemanha. A Rússia é o poder da Coalizão e isso é indiscutível.

— Viva a vitória! — exclama um dos convidados da imperatriz, assim que a família real para de andar. — Viva à Rússia!

— Deus nos guie até Paris! — um outro acrescenta, sendo seguido por aplausos.

Os presentes estão longe do liberalismo ou da juventude, mas até Mary os segue nos sorrisos e aplausos. O importante nesta situação é que eles estão vencendo, apenas isso.

E logo a música recomeça e, junto dela, as conversas também. As risadas e palavras se misturam com a música, tornando tudo quase a mesma coisa. Normalmente Mary mantém-se o mais distante possível da família imperial, sobretudo da imperatriz viúva. Hoje, porém, é diferente...

— Confesso que estou muito satisfeita com o andamento da guerra. — Mary observa de perto a imperatriz viúva com o tenente-coronel Alexandre Aledinsky. — Perdemos Kutuzov, mas logo estaremos entrando em Paris.

— E a paz será restabelecida na Europa. — Mas a imperatriz ignora Mary, que questiona sorrindo. — Ekaterina mandou alguma notícia?

Afinal Ekaterina, junto de Maria, está em Viena. Mas, novamente, ela é ignorada pela imperatriz, que se afasta com o Aledinsky... O sorriso de Mary permanece, não é muito difícil forçar alegria. Até que ela olha para trás e dá de cara com Nicholas...

— Se lhe interessa, as hostilidades recomeçaram — ele fala, mesmo sendo algo que ela já sabe. — Bonaparte recusou Frankfurt.

— Aceitar é que ele não iria. — Nicholas, porém, sorri... Ele sabe de algo... Bufando, Mary pergunta: — Qual o seu preço?

— Uma dança... Valsa. — A reação dela é semicerrar os olhos, meditando se vale a pena, e...

— Cunhados não dançam, Nicholas. — Não vale a pena. O sorriso dele instantaneamente morre, enquanto o dela renasce. — Não fique preocupado, vou dar um jeito.

Nicholas franze o cenho, porém Mary se afasta antes dele conseguir fazer qualquer pergunta. Mas, de fato, ela conseguirá suas informações, com quem...? Os olhos dela recaem no alto e incrivelmente ainda belo general Alexandre Tormasov.

— É uma alegria tê-lo conosco, general — cumprimenta Mary, estendendo uma mão ao general, que beija numa mesura. — Sinto-me muito mais segura agora com sua presença na corte.

— Que proteção um velho doente pode proporcionar, madame? — Tormasov responde e, com uma piscadela, acrescenta galante. — Vamos confiar no imperador e no tsarevich.

— Oh, general, eu gostaria tanto de fazer isso, mas... como? — Fechando os olhos, Mary suspira tristemente e nega. — Konstantin pouco escreve e, quando o faz, é para Pavel.

— Certamente que ele deseja apenas resguardar seus sentimentos.

Ou a odeia tanto quanto ela o odeia. Mas Mary deixa-se ser consolada pelo homem mais velho. Diferentemente de Anne, ela ainda necessita de carinho. E quem não gosta de carinho? Porém...

— Desejo informações sobre a guerra. — Ela abre logo o jogo, fazendo Tormasov franzir o cenho. — E sei que o general tem as informações que desejo.

— Tudo que sei a senhora já sabe, madame. — Afastando-se dela, Tormasov ainda acrescenta: — Bernadotte logo atacará a Dinamarca e a França será invadida.

— Justamente por isso o baile. — O general apenas assente para Mary, que força um sorriso. — Alegra-me saber que logo Bonaparte cairá.

Depois disso ela se afasta do general, cuja expressão na direção dela é só de... pena. Mary não vê, mas sabe que é. Ela será imperatriz um dia e... Ninguém fala nada, Mary quem busca as próprias respostas.

*****

Oldenburg House, Londres

Não apenas a imperial São Petersburgo vive em festa, mas também Londres e, sobretudo, Oldenburg House. O salão de bailes da casa encontra-se cheio de aristocratas, nobres alemães e émigrés. Tudo é belo e esplêndido, desde os convidados até o brilho da glória Tudor-Habsburg. Porém...

— Sim, esse mesmo. — A marquesa ainda está sendo vestida no quarto. — Quero minha barriga muito bem visível nesta noite.

Mas as damas de companhia, sobretudo Lady Castlereagh, franzem o cenho com a escolha dela. É um vestido prateado, brilhante e... Não tem túnica! A gravidez é um trunfo poderoso, claro, mas...

— Ostentar demais é pecado, Cathrine. — Todas as damas fazem uma mesura para a rainha, cuja entrada é definitivamente inesperada. — Mas claro que perdoável durante a maternidade.

E a rainha sorri levemente para Cathrine, que ri com alegria e retorna ao espelho. A verdade é que ultimamente ela anda extremamente feliz; tão alegre quanto nos passados "dias de glória". Um bebê... Cathrine acaricia o ventre sobre a chemise.

— Estou muito orgulhosa de mim mesma — ela sussurra e, pegando um colar de diamantes, acrescenta: — Quero mostrar o quão importante é esta criança.

— Um herdeiro, acima de tudo — a rainha responde... Mas Cathrine nega.

— Minha alegria, sobretudo. — No pior momento da vida dela, quando tudo parecia perdido... Cathrine ri. — Richard e eu seremos profundamente felizes quando ele nascer!

Tal como eram quando tinham Juliane e... Os olhos dela se enchem de lágrimas; Adam... O aperto de Cathrine na barriga aumenta; é quase desesperado. E isso não deixa de chamar a atenção, bem como preocupação, da rainha, que se aproxima.

— Cuidado, Cathrine. No seu caso, todo o cuidado é... — Assim que toca na barriga dela, a rainha franze o cenho e afasta a mão. — Faz quanto tempo mesmo?

— Pouco mais de dois meses — responde Cathrine, totalmente alheia a reação da rainha. — Às vezes penso até que ele está se movendo.

É quase um sussurro, mas profundamente alegre e seguido de uma risada... Mais que alegria, parece até... Desespero? Mas logo a rainha deixa os aposentos da marquesa, que coloca o vestido, bem como as joias, e segue com as damas para o salão de bailes.

Ao cruzar os corredores e descer a escadaria, porém, é impossível para Cathrine não notar o quão... familiar é Oldenburg House. Talvez porque foi construída por um príncipe dinamarquês, mas... O bebê será criado aqui.

— Bela como... Uma rosa! — E no final da escadaria, Cathrine é recebida por Richard, cujo sorriso é terno. — Ou uma roseira, uma que logo dará novos botões.

Pegando a mão dela, Richard a beija com delicadeza. É o bastante para fazê-la corar e olhar para baixo.

— Não acha que estou exagerada demais? — pergunta Cathrine, tocando num dos diamantes e dando os ombros. — Ou até feliz demais?

— Por que não podemos ser "felizes demais"? — Richard questiona e, sorrindo confiante, beija novamente a mão dela. — Temos todos os motivos do mundo para sermos felizes.

— Sim — responde Cathrine, acariciando o ventre —, teremos um filho, isso que importa.

E a felicidade será restabelecida na casa dos Tudor-Habsburg. Mas logo os dois seguem para o salão de bailes, onde finalmente são anunciados por Lord Pembroke:

— Suas Altezas Sereníssimas, o príncipe e a princesa de Niedersieg!

Assim que entram no salão, Richard e Cathrine são recebidos por graciosas mesuras, que muito rapidamente se tornam aplausos. Notícias se espalham muito rápido... Embora dessa vez não tenha sido feito nenhum esforço para escondê-la.

— Deus salve os Tudor-Habsburg! — e Robert exclama, levantando uma taça de champagne. — Deus salve a Europa!

É um brinde, e um que logo é seguido por outros no salão. As expectativas em relação a esse bebê são muito grandes. Ele deve, ele precisa, nascer... A felicidade deles depende disso.

*****

Palácio de Inverno, São Petersburgo

Já é quase 02h da madrugada em São Petersburgo e Mary continua na sua busca por informações. Inicialmente os convidados da imperatriz até mostravam algum interesse, mas agora... Claramente a maioria deles já deveria estar dormindo. Outro fator, porém, que dificulta a busca dela é...

— Ele suplica e... Está quase tirando o meu juízo! — Anna exclama e ainda acrescenta num tom choroso: — Aceite logo, Mary!

— Para depois ser criticada por sua digníssima mãe? — Ou até pela corte? Mary ri quando Anna não responde. — Foi o que eu imaginei...

— A permissão dela já foi garantida! — Mary franze o cenho para Anna, que dá os ombros. — Pelo menos foi o que Nika disse.

Maria Feodorovna permitiu algo tão escandaloso como cunhados dançando valsa? É muito questionável isso, tanto que Mary semicerra os olhos e sorri.

— Ficarei muito satisfeita em perguntar.

Dito isso, ela dá as costas e sai atrás da "mãe dos russos". A anfitrião não deve ser tão difícil de achar, não é...? É sim, tanto que Mary não a encontra no salão, e estranhamente também não encontra Nicholas e Mikhail.

Esse "sumiço" é o bastante para criar uma desconfiança em Mary, principalmente quando ela deixa o salão e finalmente encontra a imperatriz viúva, porém num corredor com...

— Qual o precedente disso!? — A imperatriz está com Mikhail e Nicholas, que acrescenta: — Nunca antes...!

— Fale mais baixo, Nika, por favor! — As palavras da imperatriz são o suficiente para Mary franzir o cenho e se esconder. — Nada é certo; a vitória sequer foi alcançada ainda.

— Mas está claro que é uma manobra de Metternich para nos limitar! — porém Mikhail exclama, muito irritado. Mas... Metternich...? — Ele sabe que uma conferência em Viena...

— Conferência!? — Não aguentando mais, Mary deixa as sombras, fazendo-os arregalar os olhos. — O que é isso que estão escondendo de mim!?

E o horror compartilhado por Nicholas e Mikhail apenas aumenta, mas a atenção de Mary foca apenas e unicamente na imperatriz, que imediatamente nega.

— Não temos obrigação alguma de compartilhar nossas conversas, Mary! — aponta a imperatriz num tom censurador. — As cartas de Ekaterina...

— Estão sendo enviadas de Viena! A mesma onde acontecerá uma... conferência. — Mas como assim uma "conferência"? Mary caminha na direção deles. — Exijo que digam.

O tom dela não dá espaço algum para desculpas ou mentiras, se essa conversa é o que Mary imagina... Ela volta-se a Nicholas, encarando-o tão fixamente que ele pede a imperatriz:

— Mamãe, por favor...!

— Quem você pensa que é para exigir algo!? — Mas a imperatriz é igualmente firme. — Quando eu morrer e você for a imperatriz aí...

— Se a senhora não deseja falar, saiba que o imperador abrirá amplamente o coração para mim! — É uma ameaça, mas que não surte efeito algum... — Que decepção!

Essas últimas palavras são ditas principalmente para Nicholas. E Mary deixa o corredor, não retornando para o salão, mas sim para...

— Mary, por favor! — Nicholas agarra o braço dela, fazendo-a parar. — São apenas rumores, fofocas e... Desde quando Ekaterina é confiável!?

Mas Mary não responde, na verdade o silêncio dela é tão frio que parece até gelo. Fechando os olhos, Nicholas respira fundo e fala:

— Dance comigo. — Mary franze o cenho para Nicholas, que sorri de lado. — Prometo contar algo, mas apenas se você dançar comigo... aqui mesmo.

A confusão dela apenas aumenta; dançar num corredor escuro e distante? É quase um pedido para o desastre... Mas Mary aceita e logo os dois estão dançando uma das valsas mais estranhas da vida dela.

O silêncio é profundo, nenhuma palavra é dita sequer por Nicholas, que tem no rosto uma expressão... É mais abatida que satisfeita com finalmente ter a dança.

— Temo que tenham arranjado uma noiva para mim — até que Nicholas fala, sussurrando também: — A princesa Charlotte da Prússia.

— Não sei quem é, nem como é... Que importância isso tem? — Mas Nicholas apenas encara fixamente Mary, que nega. — Talvez ela contenha você.

— Mas não quero ser contido. — Nicholas para a dança e pega o queixo dela. — Quero você.

E, fazendo-a arregalar os olhos, Nicholas beija os lábios de Mary, que fica inicialmente sem reação. O aperto dele... A paixão... O desejo... É um beijo que dura pouco menos de 30 segundos e ela quase...

Voltando a arregalar os olhos, Mary se afasta e, dando um tapa em Nicholas, deixa correndo o corredor. Por Deus... Mas o que foi isso!?

*****

Oldenburg House, Londres

É o cotillon que domina o salão de bailes dos Tudor-Habsburg, e os dançarinos — sobretudo os jovens — dançam com tanta animação que o som dos pulos eclipsa as doze badaladas dos relógios. Há anos Cathrine não oferece um bailes com tanto prazer e...

— Vamos dançar, Cathrine? — sugere Richard, extremamente próximo do pescoço de Cathrine, tanto que ela sorri. — Ninguém ousará nos criticar.

— Mas irão, com certeza. — Não satisfeito, porém, Richard pega a mão de Cathrine, que nega. — Agora não... Mais tarde.

E ela ainda sorri na direção dele... É uma promessa, então... A atenção deles, porém, continua no cotillon, principalmente nos pulos, trocas de pares e toques. É tão belo e romântico que os dois constantemente se olham, sorrindo com...

— Bristol! Que alegria vê-los tão... alegres! — Mas o momento deles é estragado pelo príncipe regente, que traz consigo duas taças. — Senhora, parabéns novamente pela felicidade.

— Uma que nem esperávamos mais ter — agradece Cathrine, enquanto Richard pega uma das taças do príncipe. — E Charlotte? Está com algum cavalheiro...?

— Em Buckingham House com Mary — o regente responde, não mantendo o sorriso. Uma discussão?

— Que pena, convidamos até Willem de Orange para... — E a seriedade do regente se torna irritação, tanto que Richard sorri tensamente e suspira. — Foi esplêndida a restauração dos Orange na Holanda, não?

— É mais um motivo para nos alegrarmos — comenta Cathrine, sorrindo para Richard. — Nos alegrarmos até pela próxima geração, que desconhecerá tanto a guerra quanto Napoleão Bonaparte.

— Bem como a Dinamarca-Noruega. — E a preocupação apodera-se de Cathrine, tanto que Richard volta-se irritado ao regente. — Perdão, eu... É inevitável a invasão da Dinamarca.

E Richard imediatamente envolve os braços ao redor de Cathrine, já percebendo a respiração pesada dela e os olhos marejados. Mas o regente simplesmente assente e vai embora. Conversar com esse tipinho é...

Richard bebe o resto do champagne e leva Cathrine para um lugar mais afastado no salão. Irritações como essa podem ser extremamente prejudiciais e... Eles precisam desse bebê!

— Ele fará algo, não é, Richard? — O príncipe franze o cenho para Cathrine, cuja respiração é pesada. — Ele tem que fazer algo! Christian está na Noruega e...

A única ação dele é apertar a mão dela e negar, não para destruir as esperanças dela, mas sim buscando acalmá-la. O destino da Dinamarca-Noruega cabe a Bernadotte. Nisso até Robert e Sophia se aproximam deles, embora...

— Três gerações de Tudor-Habsburg juntas! — E franzem o cenho para o conde O'Ryen, cujo sorriso torna-se tenso. — Digo três porque seus filhos casarão e... E dificilmente isso será necessário, porque certamente a criança será...

— Carrelli enviou alguma mensagem de Viena, O'Ryen? — pergunta Richard, em nada gostando dessa conversa. — Lembro de von Eden falar algo sobre negociações e...

— Uma conferência? — Richard questiona e, quando Robert assente, ele franze o cenho. — Quando foi isso?

E o silêncio instaura-se, mas tão tenso e frio que o próprio O'Ryen faz uma mesura e se afasta. Richard semicerra os olhos. Desde quando von Eden é amigo de Robert?

— Você não me prometeu uma dança? — Mas Cathrine traz a atenção de Richard. — Estou cobrando ela agora.

Richard acaba sendo obrigado a se afastar, embora continue desconfiado e... Já dá até para imaginar qual o assunto da próxima reunião dele com os ministros? Por que Robert está sabendo disso? Só porque ele é, provisoriamente, o herdeiro?

— A verdade terá de ser revelada algum dia, Robert. — Observando-os de longe, porém, Sophia sussurra com seriedade para Robert: — Eles confiam mais em você do que nele.

A atenção de Robert, porém, continua em Richard e Cathrine dançando o cotillon, agora com sorrisos tão alegres e divertidos que...

— Mas não agora — ele fala, suspirando tristemente. — Não quero estragar o momento deles; eles estão tão felizes.

— Felizes até demais. — Robert franze o cenho para Sophia, que o encara de volta. — Não acha perigoso demais basear sua felicidade em... bem, filhos?

A confusão de Robert apenas aumenta, embora rapidamente se torne confusão quando ele volta a olhar na direção do irmão. Esses sorrisos, essa alegria... São por eles, não? Ou pela criança?

— Penso a mesmo, Sophia. — E até mesmo a rainha se junta a eles, ganhando olhares franzidos. — Há algo de muito errado nisso tudo.

No final, todos os três acabam olhando na direção de Richard e Cathrine. Um casal extremamente feliz... Desde o início de uma gravidez... De fato, o quão estável é essa felicidade?

*****

Dezembro|1813 Palácio de Ludwigsburg, Ludwigsburg

— Não faço a mínima questão de perseguir o conde Karl von Normann. — O tom do rei é sombrio, mais gélido até que o inverno. — O simples fato dele estar na desgraça em Viena já me alegra.

Nenhuma resposta é dada pelos ministros do rei, que mantêm a cabeça baixada enquanto o mesmo fala. Foi o conde que ordenou a "troca de lado" das tropas württembergers durante Leipzig, claramente um ato que desagradou o rei.

— Deveríamos ser gratos, Friedrich. — A rainha também encontra-se na sala, sentada. — A insubordinação dele preservou nosso reino.

— A guerra não acabou ainda, Charlotte, e nem a Coalizão venceu. — Mas o rei continua inflexível, tanto que exclama: — Foi uma uma insubordinação desertar sem o meu prévio conhecimento, e isso não irei perdoar!

— O importante é que o estamos no lado vencedor, meu rei — o conde von Zeppelin fala, conciliador.

— E que o príncipe herdeiro está liderando nossas tropas — acrescenta von Phull, ganhando uma negativa do rei. — Vamos até Paris!

Mas, novamente, o rei não compartilha da animação de von Phull, tanto que suspira e senta numa cadeira ao lado da rainha. Fritz se juntou a Coalizão com as tropas württembergers. E talvez até Anne fosse necessária nessa reunião, porém...

— Tudo já está preparado para sua chegada, senhora. — Anne deixará hoje mesmo Ludwigsburg, tanto que ela recebe algumas informações de Anton. — As autoridades de Leonberg desejam até oferecer...

— Não desejo nada além de paz — ela fala, pensando um momento e suspirando. — Mande assarem um boi... Eles fazem isso aqui, não fazem?

A única ação de Anton é assentir, não para a pergunta, mas para a ordem. Logo atrás dela vem as crianças e as damas de companhia; um grupo que chama quase tanta atenção quanto a própria Anne, embora ela esteja usando uma peliça de pele.

Prestes a descer a escadaria, porém, o grupo é abordado por Ludwig, o príncipe de Oettingen-Wallerstein...

— Está atrapalhando nossa passagem... Alteza. — O tom de Anton é uma mistura de ironia e irritação. Mas Ludwig nem se move. — Não vê que a princesa...!

— Leve as crianças para a carruagem, Anton. — Todo o grupo, e até Ludwig, franze o cenho para Anne, que se irrita. — Está surdo, Belgärd?

Surdo, dificilmente, mas com ciúmes... Anton desce a escadaria com o grupo, deixando para trás uma fria Anne, que sequer olha para Ludwig.

— Veio suplicar pelo meu perdão? — ela questiona, profundamente arrogante.

— Não há perdão para o que fiz; vim me explicar. — Anne semicerra os olhos, enquanto Ludwig engole em seco. — Oettingen... Tudo foi por Oettingen-Wallerstein.

— Um principado que sequer existe mais? — Anne volta a questionar, arqueando uma sobrancelha com desdém. — Como é belo valer o mesmo que nada!

Ludwig fecha dolorosamente os olhos com essa última parte. Mas Anne ergue a cabeça e começa a descer...

— Você faria o mesmo! — Ludwig a agarra prlo braço, fazendo-a franzir o cenho. — Tente me entender, por favor! Deram-me esperanças de reviver Oettingen!

— E foi tolice sua acreditar — sussurra friamente Anne, afastando a mão. — Não acredito o quão desgraçada sou!

Desgraçada o suficiente até para... Anne dá as costas para Ludwig e desce alguns dos degraus. É incrível o tipo de pessoa que ela é; talvez ser enganada por Fritz...

Fechando os olhos e respirando fundo, Anne volta-se para Ludwig... e estende a mão. A reação dela é franzir o cenho, questionador.

— Você, Ludwig, é o pior tipo de ser humano que existe... Felizmente, também sou desse tipo. — Ele arregala os olhos, enquanto ela semicerra. — Sou capaz de tudo para conseguir o que desejo.

Até mesmo perdoar o pior dos pecados. Anne deseja ser rainha e apenas a morte poderá separá-la desse objetivo. Obedientemente, porém, Ludwig pega a mão dela e beija. Logo depois Anne se afasta e desce...

— Nem tudo foi enganação nas nossas conversas — mas Ludwig fala, fazendo-a parar. — Certas coisas vou levar para sempre comigo.

— Alegra-me saber que não sou tão barata assim.

E Anne continua seu caminho, deixando Ludwig para trás. O importante é que logo ela estará em Leonberg e só precisará de preocupar com a derrota do usurpador.

*****

12|12|1813 Carlton House, Londres

O som de talheres e risadas domina a sala circular. Os aristocratas e amigos próximos do regente mostram-se imersos nas conversas, bem como na refeição. Nada parece fora do lugar... A não ser o próprio regente, que encara duramente os calados Willem de Orange e Charlotte.

— Satisfeito com a refeição, Orange? — O príncipe assente para o regente, que volta-se a Charlotte. — E você, minha filha?

— O leitão está duro.

Não há nenhuma alegria ou animação na voz dela, e isso irrita tanto o regente que, ao beber vinho, ele quase quebra a taça. Mas Charlotte continua firme na sua recusa, tanto que encara com seriedade Orange.

— Imagino que o príncipe está ansioso para reencontrar seu pai na Holanda. — Até mesmo Sophia, ao lado de Charlotte, é forçada a agir. — E quando o príncipe partirá?

— Dentro de muito em breve — responde Orange, sorrindo levemente em seguida. — Eu teria partido antes, mas Frits chegou lá primeiro.

— Frits? — questiona Charlotte, franzindo o cenho.

— Meu irmão mais novo; ele lutou no exército prussiano em Leipzig. — Os convidados do regente exclamam admirados... Mas não Charlotte. O príncipe ri. — Frits parece as vezes até mais prussiano que Orange.

— Não que o príncipe seja diferente.

E todos na mesa voltam-se a Charlotte, cuja expressão continua desafiadoramente calma, tanto que ela força um sorrisinho ao "pretendente". Quem, porém, não gosta nada disso é o regente, que abre a boca e...

— Realmente, não posso criticar Frits! — E o príncipe-hereditário começa a rir. Charlotte franze o cenho, principalmente quando... — Tanto quanto ele é prussiano... Sou inglês!

A confusão dela torna-se rapidamente desdém, tanto que Charlotte começa a rir. Não, o príncipe-hereditário é definitivamente mais prussiano que qualquer outra coisa; tanto a avó mão quanto mãe dele são princesas prussianas.

Mas o sorriso do príncipe continua, a risada dela sequer parece afetá-lo. Tanto que ele comenta:

— Minha bisavó era uma princesa inglesa, também sou descendente de George II. — Mas Charlotte nega com as palavras do príncipe, que acrescenta: — Assim como a princesa.

— Mas eu nasci e cresci na Inglaterra — aponta Charlotte, sorrindo arrogante para Orange. — Enquanto o príncipe simplesmente estudou em Oxford.

Agora nenhuma resposta é dada por Orange, que assente e, sorrindo, retorna a refeição. É o bastante para Charlotte franzir o cenho, incapaz de entender qual o objetivo dele, ao mesmo tempo que...

— Wellington sempre fala muito bem de Orange — comenta o príncipe regente, chamando a atenção da filha. — Os Orange são, de fato, muito conhecidos pela coragem militar.

— Uma pena que não herdamos também essa coragem — zomba Robert, virando-se para o "primo". — Ansioso para finalmente conhecer os diques, Orange?

O príncipe ri com as palavras de Robert, embora não deixe de compartilhar suas expectativas com a "tão desconhecida terra natal". O resto do jantar transcorre normalmente, mas sem qualquer troca significativa de palavras entre Charlotte e Willem.

Até que o jantar acaba e todos vão para a sala de desenhos, todos a não ser Charlotte e o príncipe regente...

— E então? — o regente questiona, extremamente frio. — O que achou dele?

— Já tínhamos nos visto antes, papai. — Olhando para baixo, Charlotte dá os ombros. — Ele é... agradável.

— Orange é corajoso e galante, além de extremamente importante. — Essas palavras já foram inúmeras vezes repetidas. — Mas você gostou do que viu?

O silêncio instaura-se na sala de jantar, um silêncio profundo e extremamente frio. Mas Charlotte levanta a cabeça e encara fixamente o regente, cujo olhar é implacável.

— Até agora... Sim.

Não aguentando, ela volta a olhar para baixo, enquanto o regente sorri amplamente e deixa a sala... Um sim... Talvez Charlotte não saiba, ou talvez até saiba, mas um sim sempre é um sim...

*****

Fevereiro|1813 Palácio de Hampton Court, Londres

Cruzando a Torre do Relógio, uma carruagem com o brasão dos Bristol adentra no Pátio do Relógio. Quase que imediatamente Lord e Lady Wilmington aparecem no pátio para receber o "convocado", que não se revela outro senão o Dr. Markson...

— Imagino que o pior tenha acontecido — o médico fala ao fazer uma mesura aos nobres. — Ou então está prestes a acontecer.

Mas nenhum deles imediatamente responde, a única ação do conde e da condessa é se entreolhar e voltar-se ao médico. As expressões deles são terrivelmente sombrias. Seja lá o que está acontecendo, é horrível.

— É mais que o pior, doutor — aponta Lady Wilmington, negando tristemente —, é um desastre.

— Não faça mais perguntas, por favor — ordena Lord Wilmington, antes sequer de Markson pensar em abrir a boca. — Apenas veja e dê o seu parecer.

De fato, há algo de extremamente horrível acontecendo em Hampton Court. Mas o médico assente e segue com os nobres para o apartamento dos Bristol.

Tudo, porém, parece perfeitamente normal durante o caminho, até que Markson entra no apartamento, sobe a escadaria e... Um débil choro é escutado, e um choro muito bem conhecido... A marquesa... ! E tudo só piora quando Markson passa por uma criada com toalhas... manchadas de vermelho...

— Um aborto — sussurra Markson, começando a escutar gritos.

— Não, doutor — responde friamente Lady Wilmington, parando nos aposentos da marquesa —, é pior.

A confusão de Markson apenas aumenta, tanto que ele tenta questionar. Mas Lady Wilmington abre a porta e... Os olhos do médico arregalam.

— Não! Mande-o embora! Não quero vê-lo! — Sendo fortemente agarrada pelo marquês, a marquesa chora desesperada do chão... com o vestido manchado. — Mande-o embora! Agora!

E os gritos continuam, tornando-se até mais violentos, mas o marquês mantém-se abraçado a marquesa, tentando ao máximo contê-la. Mas essa mancha... Markson não para de encará-la; está muito claro o que é isto... menstruação...

*****

16|02|1813 Palácio de Inverno, São Petersburgo

— Protelei ao máximo possível, mas... É isso. — Até o momento cabisbaixo, Nicholas respira fundo e ergue a cabeça. — Está calada; não vai dizer nada?

Sentada a penteadeira no outro lado do quarto, Mary encara Nicholas pelo reflexo do espelho. O silêncio dela é notável desde o início desta conversa, mas agora... Ela respira fundo e...

— Minhas orações estarão com você e Mikhail. — Ela volta-se para trás, encarando-o com seriedade. — As crianças sentirão muito sua falta.

— Escreverei para elas... E para você também.

Isso é uma certeza, e será até que bom Nicholas escrever; a frequência, ou falta dela, com que Konstantin faz isso é risível. Mas o silêncio instaura-se no quarto. Até que Mary deixa a penteadeira e, arrumando o robe, se aproxima de Nicholas.

— Imagino que a partida será amanhã. — Nicholas assente, mesmo que focando no decote dela. — Surpreende-me Alexandre ter permitido.

— Suplicamos bastante por isso — responde Nicholas, subindo o olhar para os olhos de Mary. — Será amanhã cedo, sem data para retorno.

— A guerra é imprevisível, Nika. — Suspirando, Mary cobre o decote e força um sorriso. — Mas sei que você retornará, e Mikhail também.

— É o que desejo. — E o silêncio instaura-se novamente, mas é visível que Nicholas ainda deseja falar. Porém... — Boa noite.

Numa desajeitada mesura, ele deixa os aposentos de Mary, cuja expressão torna-se profundamente preocupada. Nicholas... na campanha externa? Claro que todo o foco da guerra agora está na França — as últimas notícias foram de uma vitória da Coalizão em La Rothière —, mas...

Caminhando de volta a penteadeira, Mary senta e pega novamente a carta de Anne que ela lia antes de Nicholas entrar. Há tempos elas não se comunicavam, não desde a Invasão Francesa. Mas agora que Rússia e Württemberg fazem parte da Coalizão tudo foi restaurado.

— "Confesso que fico lisonjeada, mas ainda assim recuso" — lê Mary em voz alta as palavras na carta. — "Acho que você me entende, sei que entende, afinal ambas compartilhamos a mesma situação".

Uma vida desgraçada num país estrangeiro onde nenhuma das duas é amada pelo povo e pelos maridos. É impressionante como as ações de Wilhelm e Konstantin provam que são primos.

— "Tenho sentimentos, quero ser feliz e sentir, mas... não posso ceder". — A voz de Mary falha, mas ela ainda lê o final: — "Meu objetivo é claro e não desejo trocá-lo por nada."

A coroa vale tudo, não é? Até mesmo a sua... Olhando tristemente para o próprio reflexo, Mary suspira; até a sua felicidade.

Ela deseja ser imperatriz, é por isso até que ainda não desistiu, mas... Desistir dos próprios desejos não é o que ela faz desde sempre? Logo Mary fará 30 anos e nunca sequer sentiu prazer de verdade. Mary encara fixamente a carta... e nega.

— Perdão, Anne — sussurra Mary, guardando a carta numa gaveta — mas eu quero saber, quero sentir... quero ser feliz.

Levantando, Mary deixa os seus aposentos e segue para os de Nicholas. Não será tão errado assim, antes um parente que um total estranho, não?

— Mary? Mas o que você faz aqui uma hora...? — questiona Nicholas assim que Mary entra, franzindo o cenho quando ela se aproxima. — Você está... bem...?

A voz de Nicholas morre e os olhos dele arregalam quando Mary desfaz o nó do robe e o joga no chão. A camisola dela é branca... Branca demais!

— Não posso posso amá-lo, Nika, e nem tê-lo comigo — Mary fala, aproximando-se lentamente dele. — Mas posso usá-lo e... sentir... sentir alegria.

A voz dela está tão rouca e aveludada, quase que sinalizando... A respiração de Nicholas para, principalmente quando Mary fica a poucos centímetros dele. Tudo... Nicholas vê tudo!

— O-o que você quer?

— Nada — responde Mary, abraçando-o e sussurrando no ouvido dele: — Apenas que... me faça feliz.

Os olhos de Nicholas arregalam de tal forma que ele só consegue abraça-la de volta e... sentir o corpo dela... Toda essa proximidade, o calor e os desejos...! Nicholas beija o ombro de Mary, depois o pescoço e...

Quando dá por si, ele já está tirando a camisola dela... As ações desta noite desencadearão inúmeras consequências, mas Mary terá a lealdade de Nicholas, e Nicholas... Nicholas terá Mary...

*****

Palácio de Hampton Court, Londres

Humilhada... Cathrine se sente totalmente humilhada depois... daquilo. Como ela se colocou numa situação dessas!? Como foi tão tola!? Limpando rapidamente algumas lágrimas do rosto, Cathrine alisa o vestido — da tão odiada cor branca — e deixa os aposentos.

Ninguém ousa falar com ela. Os criados, sempre tão discretos, tornam-se praticamente invisíveis, enquanto até as damas de companhia evitam encará-la. É terrivelmente doloroso isso, mas... Cathrine sente uma vergonha tão grande que nem as aceita mais no quarto.

— Para todos os efeitos, será um aborto. — Antes de entrar na sala verde, Cathrine escuta Richard. — Somos fortes, somos perfeitos, somos Tudor-Habsburg, não podemos ter conosco a mácula de uma...

— Uma gravidez fantasma — completa o Markson, recebendo um assentimento de Richard. — Todos os meus relatórios dirão que foi um aborto.

— Muito bem. — O médico faz uma mesura e segue para a porta. Porém... — Só mais uma coisa, Markson: esqueça disso no seu diário.

Toda e qualquer referência a última semana será destruída. Quando deixa a sala, Markson arregala os olhos ao ver Cathrine, mas ela simplesmente entra e fecha as portas.

— Destruindo as provas da minha loucura? — É o bastante para chamar a atenção de Richard. Cathrine nega. — Fico impressionada com a facilidade que você tem para dizer aborto, enquanto...

— Não vamos falar disso, por favor — Richard pede... ganhando uma negativa.

— Fico impressionada também com o quão covarde você é! — E os olhos dele arregalam, mas Cathrine se aproxima, sussurrando: — Tem medo da minha gravidez...?

— Acho que vou chamar o bispo Howley! — Mas Richard se afasta, negando com desprazer para ela. — Talvez ele consiga consolá-la melhor.

O olhar dela se torna irônico. E qual será o consolo do bispo de Londres? O mesmo de Sparke quando Adam...!? Lágrimas tomam de conta dos olhos dela, mas Cathrine não as derrama.

— Howley dirá que é a vontade de Deus — sussurra Cathrine, encarando fixamente Richard e negando. — Não acho que Deus deseja o meu sofrimento.

A forma como Cathrine o encara é de uma frieza que Richard não aguenta e desvia o olhar. No passado os frios eram eles, mas agora... Cathrine observa Richard se afastando.

— Entenda o meu lado, Cathrine, por favor — Richard pede, evitando olhar nos olhos dela. — Não quero falar dessa coisa...

— E quando você quer falar, Richard!? — exclama furiosamente Cathrine, assustando-o. — Desde sempre é assim! Eu aborto, dou a luz uma criança morta e você simplesmente me abraça, dizendo: vai ficar tudo bem! Mas é só isso!

— Porque eu também sofro! — retruca Richard, também elevando a voz.

— Mas e eu!? — Agora Richard arregala os olhos, incapaz de responder. Cathrine então fala: — Não percebe, Richard, que a culpa disso tudo... é sua!?

E o horror apodera-se de Richard, enquanto Cathrine só consegue encará-lo com toda a frustração que sente. Sim, a culpa disso tudo é apenas e unicamente de Richard!

Notas finais
* "Era Uma Vez... Uma Ilusão" também está no Pinterest: https://pin.it/5dxyZd0kF