O celular em cima da bancada do lado direito da cama começou a tocar uma melodia que não me era familiar. Era a música do despertador. Constantemente, eu a modifico apenas pelo simples fato de odiar ter que levantar tão cedo e ter que ouvir a mesma música todas as manhãs.

Como de costume, acordo de mau humor. Sempre, sem exceções. Quer dizer, talvez existam exceções; mas elas estavam ocorrendo muito raramente nos últimos dias.

Obviamente, mal dormira. O sol ainda nascia e eu estava com uma preguiça tremenda de levantar da cama. Contudo, para meu infortúnio, dinheiro não nasce em árvores e, apesar de diminuto, eu tenho senso de responsabilidade.

Um frio penetrou minhas entranhas assim que me recordei da noite anterior, do medo incalculável que senti e do estranho pedido que acatei. Eu me debrucei na cama e olhei, de cabeça para baixo com os cabelos desarrumados tocando o chão, a figura que estava deitada ali embaixo; meu coração passou a bater mais rápido imediatamente.

Ele dormia profundamente, como se morto. Imóvel, mantinha os braços cruzados sobre o peito nu, a cabeça em cima do travesseiro. Será que estava confortável? Eu havia colocado o sobretudo e a blusa para secar pendurados no varal da cozinha.

Analisei-o. Tinha os braços não muito largos, mas com músculos desenvolvidos e bem dispostos; o abdome era definido como se o exercitasse diariamente. A pele era branca como leite. Havia entradas nos quadris, assim que terminavam os músculos do abdome. Como seria mais abaixo... [?]

Oh, meu Deus!! O que eu penso que estou fazendo aqui, analisando o corpo desse maluco?? Eu devia estar igualmente insana ao concordar com aquela situação... Infelizmente, eu teria de admitir: ele era lindo. Oh, o que seria de mim?

Foi aí que notei: ele não estava respirando. Não havia movimento no peito. De repente, sua cabeça pendeu em minha direção e, depois de demorados segundos, seus olhos acinzentados se abriram e me fitaram. Tamanho o susto, eu tentei me endireitar bruscamente; mas, ao invés disso, virei meu corpo para o lado errado, bati com a cabeça na borda da cama e caí com tudo no chão.


Good... morning? – eu o ouvi dizer com a voz baixa e desconfiada. Oras! Quem era ele para estar apreensivo sobre alguma coisa?!

Hi... – eu balbuciei enquanto me levantava constrangida e me dirigia para o banheiro. A ponta da cabeça doía, e os cotovelos também.

Ms. Talita. Before you leave, can you draw the curtains? It’s too bright. – eu ouvi sua voz rouca vinda de baixo da minha cama.

S-sure.


As cortinas já estavam fechadas, mas eu (de alguma forma) as fechei novamente. Entrei no banheiro e me certifiquei de que a porta estava devidamente trancada, tomei um banho rápido e vesti minhas roupas ali dentro.

Antes de ir embora, avisei que poderia comer qualquer coisa que quisesse e encontrasse na casa. Pedi para não atender nenhum telefonema sob hipótese alguma e que se comportasse. Depois de ouvir um preguiçoso “have a nice day” como resposta, saí de casa para o meu maravilhoso e cansativo trabalho.

Passei o dia inteiro pensando se aquele rapaz ainda estaria lá. Seria muito bom chegar em casa e encontrá-la vazia. O que eu iria fazer caso ele ainda estivesse? Se alguém ligasse para meu apartamento e ele atendesse? Todos iriam querer saber como um gringo foi parar em minha casa! E se meu namorado... Oh, meu Deus! Caso o objetivo dele fosse roubo, eu poderia até ficar mais despreocupada. Digo, ele sairia, afinal de contas!!

Foi um dos mais angustiantes dias de aula em toda a minha humilde vidinha. Às vezes, eu me embolava com o conteúdo, ou esquecia o que estava dizendo... Foi terrível. Os alunos mais chegados perguntavam o que estava errado, ou se eu estava me sentindo mal...

Quando tive algum tempo livre durante o horário do almoço, escapei da sala de professores e me dirigi até uma das varandas do corredor da escola. Acendi um cigarro e disquei os números do telefone de casa no meu celular.

Alguns vários segundos se passaram enquanto eu esperava que a chamada fosse atendida, até que: click. Pareceu-me que alguém atendeu e, logo em seguida, desligou. Fiz outra tentativa... “Este telefone encontra-se ocupado ou fora do gancho”. Ah! Que maravilha... Nem a secretária eletrônica vai poder fazer seu papel agora...

Parei para ver o lado positivo daquela situação: ninguém iria descobrir que ele estava lá. Voltei sorrindo (meio chorosa, meio feliz) para a sala dos professores depois de fumar três cigarros seguidos. Não tive ânimo para sair do colégio e almoçar, apesar de vários colegas terem convidado.

A tarde passou mais demoradamente do que o usual, acredito que devido à minha enorme angústia. Saí do trabalho e fui para casa com o coração batendo a mil. Um fiapo de esperança ia tomando forma em meu peito. Talvez, aquele homem estranho já tenha ido embora... A verdade é que, no meu íntimo, eu queria que ele ainda estivesse lá. Suspirei fundo dentro do metrô.

Andei apressada pelo mesmo caminho de todas as noites. Tudo estava igual como sempre: as lojinhas fechadas, o cheiro de lixo, os postes de luz; a única diferente era eu; ansiosa, feito uma criança à espera de um novo brinquedo (pura curiosidade). Cheguei no meu condomínio e passei rápido pela portaria. As chaves já estavam em mãos quando saí do elevador. Meu coração saltava pela boca... Abri a porta.

Um cheiro bom de comida veio até meu nariz. Franzi as sobrancelhas e olhei para dentro da cozinha.

A primeira coisa que vi foi aquele homem alto e bonito, branco como a parede da sala, usando apenas sua calça preta de tecido e mexendo alguma coisa dentro da panela. Percebi um fiapo de fumaça subindo até o teto e logo vi meu cinzeiro vermelho em cima da bancada. Em seguida, avistei uma cozinha totalmente suja e desarrumada com alguns pontos de comida que se espalhavam pelo chão. Várias panelas haviam sido usadas, e a pia virara, literalmente, um nojo. Meu queixo caiu, não sei se por causa dele (em si) ou se pelo estado da cozinha.


W-what are you doing? – perguntei depois de avaliar tudo.

Well… – ele sorriu e olhou para mim – As a payment, I decided to cook for you. I used to work at a restaurant.

Oh, really… and who used to clean the kitchen?? – ele olhou ao redor e me encarou com nem um pingo de remorso.

I don’t really remember that.


Eu respirei fundo, fechei os olhos e fui direto para o chuveiro. Tomei uma ducha morna, tentei relaxar os músculos. Um sorriso brotou em minha face. Seria interessante ter aquele homem em minha casa... Oh, meu Deus! O que eu estava pensando!? Bem, de fato, seria interessante; mas eu não poderia excluir a possibilidade de ser um psicopata, ladrão ou sei lá o quê...

O que eu ia fazer com aquela criatura maravilhosa na cozinha, usando apenas sua calça e cozinhando para mim?? Dei dois tapinhas no meu próprio rosto e disse baixinho, em meio ao chuveiro, “concentre-se, mulher!”.

Coloquei uma bermuda jeans e uma blusa regata preta velha ao sair do banho e trancar a porta do quarto. Um aperto no coração me veio quando percebi que não teria mais o conforto de ficar pelada na minha casa durante alguns dias...

Terminei de me trocar e saí do quarto. A mesa estava posta com um prato que cheirava muito bem.


Sit. You must be hungry. – ele estava sentado no sofá com a televisão ligada assistindo ao jornal. Eu o encarei confusa. – What?

I thought you didn’t understand Portuguese…

And I don’t.

So… What’s the TV for…?

I’m trying to learn, there are subtitles, see? Now go eat what I cooked for you. – ele abanou a mão como se enxotando algum tipo de animal. Contorci a boca e sentei à mesa.


Devo confessar que estava mesmo gostoso. Geralmente, a moça que arruma a minha casa vem uma vez por semana e deixa a comida feita dentro da geladeira.

Discretamente, dei uma olhada para ele. Estava concentrado assistindo ao jornal. Voltei para a deliciosa comida que havia sido feita para mim com um sorrisinho de satisfação.

Terminando de comer, coloquei o prato na pia. Olhei aquela bagunça na cozinha... Não podia deixar de arrumar aquilo. Eu o fiz levantar do sofá e o deixei com o trabalho de enxaguar os pratos que eu lavava. Enquanto íamos limpando as coisas, eu ia ensinando os nomes dos objetos. Sorríamos da pronúncia dele e sorríamos das brincadeiras com o sabão nas mãos.

Depois de limpa e brilhante a cozinha, fomos para a sala. Minhas pernas doíam... Coloquei o cinzeiro em cima do braço do sofá e acendi um cigarro. Ele, ao meu lado, assistia à tevê atentamente.


Does it bother you? The smoke. – perguntei com preguiça sentindo as pernas relaxarem esticadas em cima da mesa de centro.

Nope...

Humn... By the way, I forgot your name.

Luke, it’s Luke, ms. Talita.

Ah, stop calling me miss. Just Talita is fine. – eu sorri e coloquei a mão novamente dentro do maço.

You came earlier today. – ele comentou enquanto pegava o cigarro que lhe estendi.

Yep. I get busy until late only on Wednesdays. Did someone call today? – lógico que ligaram, eu havia ligado...

Yes… I almost broke the phone, lucky I remembered it was yours. – ele respondeu após uma longa tragada com um fino sorriso nos lábios.

What were you doing at that time?

Sleeping.

Sleeping?! – não me diga que ele simplesmente dormiu o dia inteiro?!

Well, I’m a nocturne person.

So what..? You are awake at night and sleep all day long?

That’s it. – nossa, encontrei um vagabundo… Comecei a pensar que ele era realmente louco.


Ficamos em silêncio até o final do jornal. Ele prestava tanta atenção na televisão que mal piscava os olhos. Eu me sentia relaxada, a companhia dele me fazia sentir bem, descansada. Era estranho... Um completo desconhecido me causar aquela sensação de conforto. Bem, o pânico e apreensão certamente ainda marcavam uma enorme presença em meu peito.

Então, meu celular tocou. Levantei do sofá e andei até a minha bolsa que estava em cima da mesa redonda da sala.


Oi, querida. – era Bella. Isabella, uma das minhas melhores amigas (a mais antiga).

Por que eu tento ligar para sua casa e diz que seu telefone está ‘ocupado ou fora do gancho’??

Ah! Espera um minuto que já te ligo. – andei até o telefone ao lado de Luke e disquei os números da casa da minha amiga.

Oi. – ouvi a voz dela do outro lado da linha.

Então... O que é? – perguntei ao me recostar no sofá, senti minhas costas tocarem de leve o braço dele, que não se moveu.

Como assim “o que é”!? Já faz mais de um mês que não conversamos. Você anda tão ocupada que nem meus e-mails responde.

Desculpe, desculpe... Eu pensei em te ligar ontem à noite, mas... – olhei de esguelha para Luke, que estava absorto na novela que passava. – Algumas circunstâncias aconteceram, e eu me esqueci.

Está bem, está bem. Como desculpa, nós vamos sair amanhã.

Amanhã? – eu franzi o cenho.

É.

Não pode ser outro dia?

Não. Fábio vai se apresentar naquele barzinho que inaugurou recentemente, e ele disse que você tem que ir. – eu gemi. Seria um problema ter que sair com Luke em minha casa. – Que aconteceu?

Não... Nada... – então, ele se virou e olhou para mim.

You can do whatever you want to... And I sure don’t intend to be in your way.

O que é isso que escuto? Voz masculina?

Ahn... é. It’s okay. Um amigo está aqui.

Leva ele com você. Não tem problema. – eu sabia que não tinha problema, mas o que eu ia dizer quando perguntassem de onde nos conhecíamos?

Eu vou pensar no que vou fazer e te ligo depois, ou amanhã. – ela suspirou.

Está bem. Me ligue, beijo.

Ta, ta... Boa noite. Beijos. – coloquei o telefone no gancho e o encarei. – What am I going to say when they ask me about you? You’re a long distance friend who came to visit? – ele continuou olhando para a tevê. – Humn… Essa é boa. Nos conhecemos quando você veio pela primeira vez ao Brasil, e agora você está de volta! Isabella não vai acreditar nisso... – esfreguei a testa, aquilo tudo estava me deixando com dor de cabeça.

What are you saying?

We are going out tomorrow, okay?

Why do I have to go?

Because I’m asking you to. Can you?

I don’t mind, but what will you tell those people?

That we met in the internet and now you came here for the first time.

Humn. It’s okay with me, but the only clothes I have are the ones I’m wearing…

They are fine, just need to be washed. Where are they? My bedroom?

Yes. I guess on the bed.


Incrível como era bagunceiro. As roupas passaram do varal para a minha cama, mas estavam igualmente amassadas e jogadas de qualquer jeito. Eu abri o armário de cima no guarda-roupa de madeira negra e peguei uma toalha. Voltei até a sala e a joguei junto com um sabonete. Ele agradeceu e entrou no banho após a novela.

Eu esperei do lado de fora do banheiro. Meio segundo após ter entrado, ele abriu a porta. Eu pude ver metade do seu corpo nu antes de receber a calça. Meu coração ganhou uma pequena aceleração, e ele sorriu como se percebesse meu nervosismo, apesar da poker face que tentei manter.

Coloquei as roupas dentro da máquina de lavar que tinha ganhado do meu pai biológico e voltei para a sala. A propósito, meus pais são divorciados desde que tinha um ano de idade (ambos já se casaram novamente).

Já passava das onze, acendi o último cigarro daquele dia cansativo e esperei que ele terminasse o banho para que eu pudesse ir dormir. Debruçada no parapeito da janela, fumando, escutava o barulho do chuveiro ligado e pensava sobre a situação na qual eu havia me metido. Será que poderia confiar nele? Sempre achei preferível (e prático) acreditar naquilo que as pessoas dizem ao invés de duvidar delas. Pode-se chamar de inocência ou preguiça, mas é dessa forma que sempre pensei.

Porém, a sensação de conforto me deixava ansiosamente preocupada. “Quem era ele?” eu queria saber, mas não me sentia inclinada a perguntar. Suspirei fundo e dei a última e gostosa tragada para jogar o resto do cigarro pela janela.


So. – eu o escutei dizer atrás de mim de repente. Quando me virei, vi que usava apenas a toalha que lhe havia sido entregue. Meu coração acelerou e quase engasguei com a fumaça que estava saindo dos pulmões. – Sorry, didn’t mean to surprise you.

It’s okay. – calma, eu precisava ficar calma. Ele não era tudo aquilo... Desviei o olhar para a parede atrás dele e sorri. – I-it seems you enjoy doing that anyway. I’m going to bed, you nocturne guy.

Right. I’ll watch TV. Good night... Talita. – ele se demorou pronunciando meu nome, senti um frio na barriga.

G-good night, Luke.


Tirei a bermuda jeans que vestia e a coloquei em cima do criado-mudo que ficava ao lado da cama. Puxei a coberta e me cobri até a cintura. Quando finalmente relaxei, senti que meu corpo tremia. Estava nervosa. “Hell of a man!”, pensei.

Virei e revirei na cama; apesar de cansada, o sono não chegava. Certifiquei-me de que ele estava na sala e levantei depressa para o banheiro. Não acreditei no que vi: estava tudo molhado. Respirei fundo, enxuguei o chão com o pano que ficava ali e fiz o xixi que pretendia fazer. Voltei para a cama. Que homem mais desleixado foi me aparecer...

Enquanto pensava nas aulas do dia seguinte e que teria de acordar cedo, percebi, através do reflexo na tela do computador, que havia alguém parado à porta. Virei meu corpo na cama e o vi recostado na parede me encarando.

Meu coração já estava a mil. Será que finalmente resolvera me atacar? Chegara a hora do meu sofrimento? Será que eu conseguiria gritar?


W-what is it? – não consegui, ao invés, sussurrei a pergunta e puxei a coberta para a altura dos meus olhos (acho que por proteção).

Aren’t you going to ask me? – ele disse de braços cruzados ainda vestindo apenas a toalha que lhe dei.

Ask what?

Who am I? Where did I come from? What do I do for living?

Oh… ahn… – eu me sentei na cama com a mente vazia preocupando-me se estava corretamente coberta da cintura para baixo. – You want to tell me, then?

I think I should. – ele descruzou os braços e ligou a luz do quarto, andou em minha direção e sentou na cama e me encarou. – I will say this one more time: I don’t intend to hurt you. I don’t want to steal anything from you. I just need a place to stay for a couple of days, if you please. It’s not that I don’t want to, but I can’t tell you my… circumstances. I just need you to trust me if that’s possible... – após uma breve pausa para raciocinar a resposta, eu disse:

W-well, I think I already trust you and that’s why I agreed to let you stay, uh? But… When it’s fine, I do want to know your ‘circumstances’. By the way, I’m sorry that I’ve got no clothes for you.

That’s okay. I don’t really mind that. – “é, mas eu ligo...”. – Let me ask you something...

Yes?

Why didn’t you just lie to the person on the phone? You could have said nothing about me.

Well, I didn’t really want to leave you alone, and… Oh! But that’s not because I don’t trust you. It’s just that… – ele me deixava nervosa ao me encarar daquela forma. Desviei os olhos. – People would find out sooner or later… Actually, it could trouble me to lie about your existence, I think…

I understand, then. If it’s okay with you, I’m okay too. – eu o vi sorrir. – Sleep tight. See you tomorrow night.

Yeah, yeah... Tomorrow night. Don’t close the door, please, and turn off the wash machine when it stops the washing. Blue button.

Okay, miss. Nice dreams. – então, ele saiu do quarto após apagar as luzes.



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