Meu celular tocava aquela mesma melodia de ontem. Eu o peguei rapidamente para não acordar Luke e desliguei o despertador. Com o coração batendo mais rápido do que o normal, eu olhei para baixo da minha cama. Lá estava ele com a toalha enrolada na cintura.

Sorri e fiquei olhando-o por alguns segundos. Levantei da cama e andei devagar até o banheiro. Não queria acordá-lo. De repente, pisei na minha sandália que estava no meio do quarto, perdi o equilíbrio e caí.


What are you doing? eu o ouvi perguntar de baixo da cama.

I... tripped. respondi ao me levantar rapidamente.

Yeah, I noticed that. Youre so noisy in the morning...


Sem resposta, andei sem graça até o banheiro e fechei a porta.

Idiota!

Eu o havia recebido em minha casa de braços abertos e ele ainda reclamava... Respirei fundo e entrei no chuveiro. Fazia muito calor. Saí do banho e escovei os dentes, foi aí que percebi... Droga! Havia esquecido de pegar minhas roupas. Enrolada na toalha, andei devagar pelo quarto. Abri cuidadosamente a porta do armário e peguei o que precisava para sair. Voltei para o banheiro e terminei de me trocar. Coloquei o vestido mais fresco que tinha, branco com flores rosadas. Era um dos poucos compridos o suficiente que eu podia usar no trabalho.

Silenciosamente, saí do quarto e fechei a porta. Andei tranqüila até a cozinha, preparei um sanduíche. Quando coloquei a mão na fechadura da porta, senti algo dentro de mim se inquietar. Estaria esquecendo alguma coisa? Senti um inesperado ímpeto de voltar, apesar de ter certeza de que tudo já estava em minhas mãos. Suspirei fundo e retornei ao meu quarto procurando por algo que provavelmente tivera deixado para trás. Ao abrir a porta, imediatamente, ouvi a voz rouca de Luke vinda de baixo da minha cama:


Have a nice day. eu sorri ao sentir a inquietude se dissipar. Era isso que eu queria ouvir?

Thank you.


No metrô, eu ia ouvindo minha música favorita que tocava na rádio. De bom humor, cheguei no colégio e rumei para a sala de aula. Ouvi os mais variados comentários sobre a minha mudança drástica de humores. Alguns como: TPM, namorado e, o melhor de todos, salário... No almoço, resolvi sair com as moças da recepção para comer. Fazia algum tempo que eu não ouvia as fofocas de pais e alunos. Distraída, meus pensamentos voaram para o meu apartamento. Com certeza, ele estava dormindo. Será que tinha comida o suficiente? Mexi nas almôndegas que acompanhavam meu macarrão tentando prestar atenção no que as moças ao meu lado diziam. Eu deveria ter deixado um pouco de dinheiro... Não, melhor não... Ah, da próxima vez, eu ia deixar um pouco de dinheiro, sim. De repente, meu celular.


Oi.

O que resolveu? Eu preciso saber para separar o seu convite. Isabella.

Eu vou ter que pagar entrada?

Não. É por isso que eu preciso da sua confirmação. Preste atenção no que as pessoas dizem...

Desculpe. Então, coloque o meu nome e Luke.

Como assim Luke? L-U-K-E?

Posso explicar depois?

Faz tempo que você está no horário de almoço?

Não. Acabamos de sair.

Então, você pode explicar agora. maldita sinceridade! Eu suspirei fundo, ainda não estava convencida da minha própria mentira.

Acontece que um amigo meu está passando uns dias em meu apartamento. E, bem... Na verdade, não o conheço direito, a primeira vez que nos vimos foi alguns anos atrás e ele estava passando umas férias no Brasil, desde então mantivemos contato por internet... nesse pequeníssimo espaço de tempo, as moças da recepção estavam completamente interessadas em minha conversa. Bendita hora que resolvi sentar com elas...

Deixe-me ver se eu estou acompanhando corretamente: um homem completamente estranho está na sua casa por uns dias?

B-bem... Eu o conheço.

Você acabou de dizer, segundos atrás, que não o conhece direito, Talita. Pelo amor de Deus, você não tem juízo? Alguém mais sabe disso?

Não. não seria bom continuar aquela conversa ali. Aquelas mulheres iam criar a maior confusão. Eu ligo para você em menos de alguns minutos, preciso terminar de comer e voltar para o colégio.

Espera! Nós temos não termin... antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, desliguei a chamada e ignorei as várias que se seguiram.


Disfarcei minha ansiedade diante delas e saí dali o mais rápido que pude. Preocupada, paguei a conta e me despedi das moças da recepção, cujos olhos brilhavam sedentos por mais fofocas. Seria um desastre caso surgissem rumores estranhos a respeito do meu nome. Eu estava com vontade de gritar. Sentindo aquele velho frio de preocupação na barriga, andei apressada até a entrada mais discreta do colégio. Acendi um cigarro rapidamente e disquei o número da minha amiga.


Então? ela disse rudemente ao atender. Suspirei fundo.

É essa a explicação que tenho para dar. Não vou falar mais nada. até porque não sabia o que mais poderia dizer.

Tali, você não acha que está sendo irresponsável demais? Um homem desconhecido em sua casa...

Não se preocupe. Você vai entender quando conhecê-lo.

Querida, preste atenção: a questão não é entender sua situação. A questão é: você não o conhece! A vida é sua, eu sei disso, mas...

Então, fique tranqüila.

Muito fácil mandar que eu fique tranqüila enquanto tenho a plena e absoluta certeza de que você não tem um pingo de sanidade!

Calma, você está exagerando, não precisa gritar.

O que sua mãe vai dizer quando descobrir?! E Marcus? Você já pensou nisso?

Isabella. Chega. Eu já resolvi deixá-lo em minha casa por uns tempos...

Uns tempos? Ele vai ficar uns tempos?! eu suspirei.

É. Nós dois já conversamos e, por alguma razão, eu confio mais nele do que em muitas outras pessoas que conheço há mais tempo.

O problema é que você confia em TODO MUNDO! de repente, o sinal tocou dentro do colégio. Hora da aula.

O sino bateu, tenho que ir. De qualquer forma, não mudarei minha decisão. Não adianta se exasperar por mim, eu sei o que estou fazendo.

A minha preocupação está bem aí, você nunca sabe o que está fazendo...

Ah, cale a boca e tenha um bom dia.

Humph! Você também. Luke, não é?

Isso. eu disse ao dar a última tragada do cigarro e cancelei a chamada.


Andei mais tranqüila para a próxima turma. Isabella sempre foi uma irmã mais nova para mim. Por isso, o excesso de preocupação. Eu sabia que ela estava coberta de razão ao se opor à minha decisão, mas... Bem, eu não tinha nenhuma desculpa ou explicação. Apenas queria ajudá-lo e, além disso, matar minha curiosidade. Talvez, o preço fosse caro demais. De todo jeito, eu nunca medi as conseqüências quando quis fazer algo. Sempre arcava com elas depois, de uma forma ou de outra.

Foi a primeira sexta-feira mais demorada daquele mês. Eu queria voltar para casa, queria vê-lo. Novamente, parecia uma criança animada com o novo brinquedo. Um misto de sensações me cobria o peito; o medo ainda estava ali dentro, enorme. Qual prova tinha para me livrar do risco de correr perigo? Apenas a incrível sensação de alívio ao estar ao lado dele. Sem falar em sua perfeita feição, corpo, sorriso, voz...


Talita! Professora! a voz de uma garota sentada no meio da fila à direita me tirou do transe.

Sim?

Não consegui entender aquele exemplo...


E assim passou o restante do dia. De um lado para outro, dando aulas, ficando exausta. Há duas noites, não conseguia dormir corretamente. Quem conseguiria quando se tem um homem em baixo da cama? Sem mais forças para pegar o metrô, resolvi (a muito custo) pagar um táxi. Sentada no banco de trás, sentindo a mente esvaziar à medida que fechava os olhos, meu celular tocou.


Hum?

Ei! Você vai hoje à noite, não vai? Fábio, o namorado de Isabella. Eu os havia apresentado no final do ano anterior. Oito meses já haviam se passado.

Vou. Que horas? Onde? disse preguiçosa.

Minha banda toca às 23h, chegue mais cedo para conversarmos. Os garotos estão com saudades de você, nunca mais nos vimos.

Certo, certo. Que lugar?

Isabella não falou? O Primus Bar, fica ao lado daquela antiga sorveteria que costumávamos ir.

Hum, sei onde é. Vou tentar chegar umas dez.

Te amo, babe.

Também.


Sem ânimo, entrei no elevador. Ainda era cedo. Eu tinha duas horas para poder dormir um pouco até às 21:30. Fitei o espelho ali dentro. Círculos negros começavam a tomar forma no meu rosto. Estava com uma cara péssima... O que Luke estaria fazendo? A pergunta foi respondida quando abri a porta do apartamento.

Lá estava ele em pé de frente para o microondas. Ainda usava a toalha da noite anterior amarrada à cintura. Suas roupas estavam penduradas no varal no fundo da cozinha. Eu sorri, divertindo-me com a imagem.


Oh, youre back!

Im home. o aparelho apitou. Fechei a porta ignorando a toalha. Is that my dinner?

Of course it is. ele retirou o prato e o colocou em cima da bancada, então sorriu. You are even earlier today, miss. Wanted to take a look at a safe home, huh?

Its not like that. I specially made my schedule. Is there any problem about coming home earlier on Fridays? eu disse irritada ao sentar no sofá e tirar os sapatos.

No. Sorry. You are moody too. ele comentou segurando o prato trazendo-o para da sala.

Humph, Im tired.

By the way Were you with a man? a pergunta me surpreendeu, encarei-o.

... What?

Hum... No, its just... I mean, sorry... Its not my business. ele balançou a cabeça negativamente e virou-se para outra direção enquanto colocava o prato e talheres na mesa. Suspirei.

I was working and took a cab to come home. That was the only man I met on my way. The driver.

Oh, thats why. ele sorriu You usually take the subway, right?

Yeah.

You get here smelling like a bum, with so many scents and

I get sweaty, you know?! eu me levantei e fui direto para o chuveiro.


Que absurdo! Como ele pôde dizer que eu chego fedendo em casa?! Eu não sabia se ficava irritada ou se constrangida com o fato. Ele não tinha sistema de filtragem para falar? Demorei meia hora a mais no chuveiro, enquanto tentava tirar da cabeça o comentário infeliz daquele maluco. Eu sabia que não fedia, muito menos como um mendigo. Saí do banheiro e me troquei dentro do quarto. Ainda irritada/constrangida fui para a sala.


Your food got cold. ele disse sentado no sofá fumando.


Não respondi e sentei à mesa para começar a comer sem muito ânimo. Não tinha fome. Olhei o relógio em cima da bancada de tevê. Ainda tinha uma hora e meia para cochilar antes de me arrumar.


Talita. senti um frio passar na barriga com o susto. Are you okay?

Im just fine. claro que não estava. Acabara de ser chamada de fedorenta!

No, you look tired.

Yes, very.

You should go rest after eating.

I will. Dont forget we are going out at 10h.

I dont think we should go

Why not? fitei-o enquanto mastigava.

Youre that tired, miss

Im okay. repliquei, ainda chateada com o comentário do mendigo.


Ele apagou o cigarro que chegara ao fim no cinzeiro vermelho em cima da mesinha de centro e levantou do sofá. Passou atrás de mim, sentada na cadeira, e foi até a cozinha. Eu o ouvi retirando as roupas do varal e meu coração acelerou uma batida quando percebi que estava se vestindo ali mesmo, na cozinha. Oh my sweet God, e eu fedia como um mendigo! Um frio na barriga passou por mim rapidamente quando a figura de Luke completamente despido veio à tona em minha cabeça. Enquanto terminava de comer, tentando ignorar o som do tecido em movimento logo ao lado, senti duas mãos frias me segurarem nos ombros. Então, ele disse em meu ouvido:


I didnt mean to say you stink like a bum. I said you had many kinds of smell from the subway. Besides senti um arrepio na nuca quando ele, muito sutilmente, respirou em meu pescoço. I like your scent the most.


Ele me soltou e voltou a se sentar no sofá. Fiquei ali... Paralisada ao efeito daquela situação curta, mas incrivelmente delicada. Nem preciso mencionar que meu coração batia loucamente em meu peito. Ligou a televisão.

Não consegui terminar de comer, então levei o prato para a cozinha e guardei o restante da comida num pote e o coloquei dentro do microondas. Ainda em transe, voltei para a sala, acendi um cigarro e peguei o cinzeiro de cima da mesinha. Antes que pudesse sair para meu quarto, ele disse:


Will you tell me something? preparando-me para o que poderia ser, virei-me:

Hm?

I was watching TV last night, and noticed you Brazilians say the hours in a different way Dont you have the am/pm thing?

No, we dont. acalmei meu espírito com aquela pergunta fora de contexto. A day has 24 hours, right?

Yes.

Then, the hours before afternoon are: Midnight, one, two, three, four, five, until twelve oclock. Then, after that, we have: thirteen oclock, fourteen, fifteen, sixteen, until twenty three at night. Then, midnight again. Got it?

Pretty much. Ill try to get used to it. Thank you.

Sure. Im going to take a little nap.

Okay, miss. Arent we going out?

We are, but I have to get some sleep first. And cut it out already.

Cut what out? ele franziu as sobrancelhas.

With the miss thing, you know? It bothers me.

Oh. Im sorry... disse ao sorrir timidamente Its just a habit of mine. I will.


Andei para o meu quarto, coloquei o cinzeiro em cima do criado-mudo e me deitei na cama. Terminei o cigarro e virei para o lado depois de programar o celular para despertar dali uma hora. Respirei fundo e me deixei relaxar. Meus pensamentos voaram longe, e o sorriso sem graça na face de Luke surgiu. Arrependi-me por ter sido rude, ele estava apenas tentando ser cordial... Algum tempo depois, acordei assustada com a música do despertador. Fitei o relógio com uma crescente irritação: 21:31. Mal humorada, esfreguei os olhos pesados e me levantei da cama. Por que o show tinha que ser justamente hoje? Ah... Que saco.

Acendi a luz do quarto e fechei a porta. Procurei no guarda-roupa alguma coisa que servisse para sair à noite. Desanimada, peguei o vestido preto mais básico que tinha e me enfiei nele. Calcei um sapato alto e coloquei um batom vermelho nos lábios. De repente, a consciência pesou: era um bar recentemente inaugurado, não poderia ir tão desajeitada.

Abri novamente as portas do guarda-roupa, mas acabei ficando com o vestido preto. Dei uma melhorada na maquiagem e ajeitei os cabelos. Depois de meia hora, saí do quarto.


Luke?

What? ouvi sua voz vinda da sala.

Lets go.

Okay, mi... I mean... Talita. ele desligou a televisão e me encarou. Youre beautiful.

Oh, why, thank you. Now, lets go. sorri ao disfarçar o súbito nervosismo.


Descemos tranquilamente pelo elevador de serviço que chegara primeiro, o que me impediu de checar a maquiagem. Ele usava somente sua camisa sem mangas e a calça, deixara o sobretudo em cima do sofá. Sua roupa preta o deixava ainda mais branco. Contrastava bastante bem com sua pele que parecia não ter sangue correndo e seus cabelos loiros. Caminhamos por um pequeno trecho depois do condomínio onde ficavam alguns táxis estacionados. Entramos em um deles e dei as indicações ao motorista. Luke ia no banco de trás comigo, em silêncio, parecia prestar atenção em alguma coisa. Talvez, na cidade? Não demorou muito, chegamos ao lugar. Uma fila quilométrica surgia a partir da entrada. Descemos do carro, paguei o motorista e liguei para Bella.


OI? ela gritou ao atender.

Estou aqui na frente. Onde você está?

HÃ?! NÃO ESTOU ESCUTANDO! suspirei e desliguei a chamada.


Escrevi uma mensagem de texto e enviei para ela. Segundos depois, recebi uma resposta: Vem para os fundos.. Maravilha, pensei ironicamente.

Puxei Luke pelo braço e rodeamos a rua inteira. Lá estava ela, em frente a uma discreta porta de metal. Sorriu ao me ver.


Desculpa, estava barulhento lá dentro. disse ao me abraçar fortemente.

Percebi. retribuí o carinho. Saudades.

Também. Este é Luke?

Sim. Luke, this is my friend, Isabella.

Glad to meet you, miss Isabella. ele esticou a mão e minha amiga a apertou.

Hello, Luke. Nice meeting you too. Vamos entrar, aqui os convites.


Assim que a porta metálica foi aberta, um alto barulho chegou aos nossos ouvidos. Uma guitarra frenética acompanhada de uma bateria ensurdecedora agitava o ar do lugar. Estava abafado ali dentro, pareceu-me que o ar condicionado fora desligado. O ambiente era escuro como uma típica boate. As luzes estavam ligadas minimamente e lasers coloridos passeavam loucamente sem ritmo. Andávamos num corredor apertado, pessoas esbarravam em nós de segundo em segundo. O lugar estava cheio. Aposto que o dono estava pulando de alegria naquele momento.

Vi Isabella entrar numa porta atrás do palco e me adiantei para segui-la. Luke ia próximo a mim. Andei por um lugar mais apertado e tentei me equilibrar, em vão, entre o balcão dos fundos e um enorme holofote que iluminava o palco mais à frente. Resultado: tropecei em um dos fios e, com o salto alto, perdi o equilíbrio. Senti que o chão seria minha próxima parada e simplesmente fechei os olhos à espera do baque.

Mas, ao invés de encontrar o duro e frio chão, uma mão gélida me segurou firmemente pelo braço e outra me apoiou na cintura. Abri os olhos atordoada e, logo em seguida, me vi abraçada por uma pessoa alta cheirando ao amaciante que uso em minhas roupas. Suspendi minha cabeça e meus olhos encontraram os cinzentos de Luke.


Are you okay? ele disse, mais alto que o normal, em meu ouvido por conta da música alta.

Hm, ye... Yes... Yes! Im ok. Thanks a lot. I thought I surely would hit the floor. sorri nervosamente.

Please, be careful. Look, your friend is calling you.


Virei-me para olhar Isabella quando ele afrouxou o aperto de seus braços ao meu redor. Ela gesticulava nos chamando para entrar. Consegui ler o que seus lábios diziam: Vem pra cá!. Puxei Luke pela camisa (mais para me apoiar) e fomos ao encontro dela.

Ao chegar na frente da porta, avistei dois velhos amigos que não via já há algum tempo. Um deles colocou de lado a guitarra e se levantou contente.


Tali! gritou em meus ouvidos e me abraçou fortemente.

Ei, Beto. Como você está? Nossa, saudades.

Não me fale! Você sumiu... mal pôde terminar a frase, Fábio (o namorado de Isabella) se intrometeu.

Quando falei no telefone, pensei que você não ia vir!

Claro que viria... Estou morrendo de cansaço, mas não queria deixar de ver vocês tocarem!


Um a um, os membros da banda levantaram-se para nos cumprimentar. Apresentei Luke a todos eles e, para minha surpresa, foi bastante sociável e manteve alguma conversa com os poucos que sabiam falar sua língua.

Era um quarto meio apertado. Um camarim improvisado, à prova de som. Eles o dividiam com outra banda que se apresentaria depois deles. Já curtindo a música que chegava abafada aos nossos ouvidos, recebi um copo com alguma batida alcoólica muito bem feita. Tinha sabor de frutas. Luke recusou a cerveja que lhe fora estendida.


You dont drink alcohol? perguntei ao puxar mais da batida pelo canudo.

Not really. I like some wine though.

Oh, I see.


Em menos de alguns minutos, a banda já estava no palco. Eu, Isabella e Luke assistíamos dos fundos. A propósito, Fábio era o baixista. Tocavam um pouco de quase tudo, principalmente alguns rocks antigos. As meninas na frente gritavam e cantavam histéricas quando eles começaram a tocar algumas de suas próprias músicas. Isabella apareceu com mais um pouco da batida de frutas. Olhei para Luke, parecia estar aproveitando o show.

Depois de algum tempo, a bebida fizera efeito no meu organismo. Sentia-me mais bem disposta do que deveria e o sorriso não largava meu rosto. Eles já tinham terminado sua apresentação e recolhido seus instrumentos do palco. Conversava alegre com Fábio enquanto Luke socializava com o pessoal da outra banda que tocara quando chegamos ao local. Percebi que, muito discretamente, me olhava preocupado de tempos em tempos. Sorri satisfeita com o fato.


Então... começou Fábio ao notar o sorriso causado por Luke. Quem é o cara?

O cara? Luke?

Isso mesmo. Do nada, você aparece com um homem que nunca vimos na vida e, ainda por cima, um gringo. Até a última vez que nos encontramos, você estava com Marcus.

Ainda estou. suspirei, estranhamente incomodada com o fato. Luke é apenas um amigo que...

... Que você nem conhece. ele me cortou. Bella me contou a história e, sinceramente, não acredito.

Você não precisa acreditar. E também não quero ouvir mais reclamações a respeito.

É lógico. Porque sabe que está errada... e louca!

Era só o que me faltava hoje... sorri ironicamente. Discutir com você. Olha só, Fábio, não estou com um pingo de paciência e, só vim para essa porcaria, porque considero muito VOCÊ e nossos amigos!

Ei, ei. O que foi? Daniel, o guitarrista. Fábio, não começa, vai. A Tali quase nunca aparece. Vem, gatinha, vem pra cá.


Ele segurou firme minha mão e me puxou. Esfregando os olhos cansados, deixei-o me conduzir até um sofá afastado no fundo do camarim. Sentamos ali e passamos a conversar sobre outros assuntos. Era um rapaz amigável. Não o conhecia há muito tempo, mas nos demos bem já de início. Ele era uns 2 ou 3 anos mais novo que eu. Tinha um rostinho bonito que fazia as fãs gritarem por ele histéricas.

Gargalhava de alguma coisa que ele havia dito quando percebi Luke com um saxofone nas mãos. O que? Sem aviso prévio, ele levou o instrumento aos lábios e soprou. Uma melodia agradável penetrou o ar. Todos ali presentes voltaram-se para ouvi-lo. Todos hipnotizados pela delicadeza do som e sua força. De olhos fechados, sentia a música encher meu corpo e tomar minha mente por completo. Queria tê-lo para mim...

Não. Abri os olhos negando o pensamento absurdo que se passara em minha cabeça e um frio subiu espinha acima quando percebi que me encarava. Desviei o olhar de Luke e voltei-me para o sofá, ainda balançando negativamente a cabeça como que enxotando a idéia louca. Talvez Fábio tivesse mesmo razão. Suspirei fundo e, de repente, percebi as mãos de Daniel em meu rosto. Ele estava agachado de frente para mim. Seus olhos encaravam os meus.


O álcool? ele sorriu.

Acho que sim. retirei suas mãos.

Vem aqui...


É verdade quando digo que realmente não entendi o que se seguiu. O garoto, simples e sedutoramente, aproximou-se de mim para me beijar. Mas, o que? Aquele dia estava me enlouquecendo. Afastei-me sutilmente negando seu gesto. Desde quando aquela criança ficara tão ousada? Ele me ignorou e delicadamente se aproximou mais. Um não sem muita convicção saiu pela minha boca. Tentei empurrá-lo, mas a minha cabeça pesava mais que o normal e tudo girava. Acredito que ficamos nesse vai-e-vem durante alguns longos minutos. Ele parecia estar se divertindo com a situação, e eu me amaldiçoando por ter bebido algo que desconhecia a procedência.

De repente, vi uma figura alta de camisa preta de pé em frente ao sofá onde estava sentada.


What are you doing? ele sorriu descontraído.

L-Luke.

Are you not feeling well? ele continuou, ignorando o garotão ao seu lado.

Kinda... estiquei minha mão para ele que a pegou e me levantou dali. Apoiei-me nele.

Lets go home. ele disse sério em meu ouvido.

Hey, deixa ela em paz. disse Daniel, obviamente irritado, empurrando Luke levemente no ombro.

Daniel, o que você está fazendo? Você não está bem? Isabella se aproximou preocupada. Ill take care of her. The guy with the sax wants to talk to you for a bit.


Luke meneou a cabeça de leve e saiu. Isabella me trouxe um copo de água e enxotou Daniel dali. Gargalhou quando contei a situação ridícula pela qual passei, disse que jamais esperou ele, tão tímido, dar em cima de mim tão abertamente como fizera. Pois é, como disse para ela: aquela noite estava me enlouquecendo.

A cabeça me doía pesada, mas a sensação de enjoou já havia me deixado. Conversava empolgada com Isabella e Fábio (fizemos as pazes), quando Luke retornou. Aparentemente, conseguira emprego. Não consegui disfarçar meu espanto, pensei que era do tipo que não gostava muito de trabalhos. Tocaria saxofone naquele mesmo local durante alguns dias específicos na semana durante a noite. Devo dizer que fora um grande achado, já que era uma pessoas noturna, como ele mesmo havia dito. Sentamos no sofá, nós dois (Luke e eu), quando as bandas tiveram uma reunião sobre sua apresentação e outros assuntos. Isabella acompanhava o namorado.


Lets go home. ele disse ao colocar uma das mãos em minha cabeça, afagando-a.

Yeah... suspirei e apoiei a cabeça em seu ombro largo. I still have to say goodbye to everyone. Such a pain, really...


Ele continuou afagando minha cabeça carinhosamente e, com a outra mão, fechou meus olhos. Ficou escuro dentro das pálpebras fechadas e me deixei relaxar. De repente, tudo ficara em silêncio, e eu apenas sentia seu abraço e sua respiração quente próxima ao meu rosto. Como se ele estivesse muito afastado, ouvi sua voz de muito longe em meu ouvido: Sleep and let me take care of you. Now.

Depois disso, já não mais estava consciente.


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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.