Tudo começou nesta fatídica noite de outono, quando minha vida e meu coração tomaram um rumo peculiar.

Lá estava eu passando pela mesma rua de sempre quando volto do trabalho à noite. Aquele cheiro costumeiro de asfalto sujo combinado com lixo em decomposição ia subindo até minhas narinas. Era tarde e muito quente. Estava escuro como sempre, porque os postes daquele trecho não funcionavam, e não havia mais ninguém ali.

De repente, uma figura curvada de capa preta mais à frente, na esquina, chamou-me atenção. Meu coração passou a bater mais rapidamente à medida que eu imaginava uma possibilidade de assalto. Atravessei a rua e passei para o lado oposto do qual se encontrava (eu achava que fosse) o homem.

Apressei o passo. Logo, logo alcançaria o bar que ficava mais à frente. Passei da figura que se encontrava do outro lado e continuei a passo firme. Meus cabelos longos atrapalhavam a visão ao tentar andar mais rapidamente. Quando julguei uma distância segura, dei uma discreta olhada para trás. Ainda corria o risco de estar sendo seguida: nada. Não havia mais nada atrás de mim; nada além dos postes de luz apagados, das casas comerciais fechadas e de algumas poucas árvores. Nenhuma pessoa.

Quando me virei para continuar a caminhada, esbarrei em algo firme e macio, numa jaqueta (ou era um sobretudo?). Não consegui gritar; até tentei, mas a voz me falhou e ficou presa na garganta.

Era um homem alto de cabelos loiros e lisos que batiam nos ombros. Sua barba estava um pouco crescida, seus cabelos desarrumados no gorro. Eu o encarei, balbuciei algo como um “desculpe-me” e tentei desviar apressadamente de seu corpo largo para sair dali. Com um coração prestes a saltar pela boca, senti uma mão fria segurar meu braço de forma firme, mas sem me machucar.


Hello, could you help me? – ele disse numa voz rouca.

Huh? – eu me virei espantada (ué. Inglês?). Eu seria assaltada por um estrangeiro?!

I’m lost and starv... – de repente, aquele homem imenso perdeu o equilíbrio e caiu completamente em cima de mim. Meu coração disparou.

Ahn, calma. Vai com calma. Eu não agüento você... – daí, eu lembrei nervosa, ele não falava português. – Wait, I can’t hold you for so long. Put yourself together, please. Mister?

Good, you speak English, at least... – ele tentou ficar em pé, mas acabou por se apoiar em mim com um dos braços passando-o por cima do meu ombro de forma que eu não poderia escapar. Senti sua voz e respiração muito próximas ao meu ouvido. Estava pesado. – Why isn’t there any animals around here?

Th-There was a disease among the cats and dogs, so the government took them all. – por que eu estava me dando ao trabalho de explicar..?!

Oh, right. Hum… I know this is Brazil, but in which city are we?

S-Salvador, Bahia. – respondi. Um arrepio cobriu minha espinha quando senti a voz grave tão próxima. O que estava acontecendo?! Quem era aquele homem?! – L-look, I’ll take you to the bar on that corner and I’ll treat you some meal, okay?

No, it’s too loud. Stay here. – ele disse firmemente em meu ouvido aumentando o aperto de seu braço ao redor dos meus ombros.


Eu fingi não escutar a negação, meu coração batia mais rápido que de um beija-flor em vôo. Segurei firme seu braço e andei, com dificuldade, rumo ao bar. Surpreendentemente, seguiu-me em silêncio ao invés de me puxar para um outro local mais afastado. O lugar estava cheio, era metade da semana e ninguém nos notou. Coloquei-o sentado em uma cadeira mais afastada das pessoas e disse:


Look, you’ll be okay. I’ll buy you some food. – quando ia saindo para falar com o balconista, ele segurou meu pulso fino.

Really, it’s not necessary. Thank you for taking care of me and sorry for the trouble, miss.

Are you sure? Don’t you need anything else? I think I should call an ambulance, are you hurt, sir? – era uma boa ideia tratá-lo bem… Talvez desistisse de me assaltar ou qualquer outra coisa que estivesse pensando. Quem sabe: “Oh, what a sweet girl. I won’t attack her”, ou algo do tipo.

You really are a nice girl, aren’t you? – ele sorriu e me encarou firme nos olhos como se tudo estivesse muito melhor do que parecia estar alguns segundos atrás. Eu corei, percebi como ele era bonito, olhos intensos.

U-uhmn, well then, I’m going. – ele soltou meu pulso e eu meneei a cabeça de leve para seguir meu caminho de casa. Por dentro, um “OHH, YEAAAH BABY!” de alívio dançava escandalosamente.


Ainda estava um pouco confusa com o que acabara de acontecer. Quero dizer, o que acontecera exatamente?! Um completo estranho, parado na rua, aproximou-se de forma assustadora, e eu o levei até o bar da esquina para comer algo? Que loucura! Bem, de certo, esse tipo de fato ocorre de vez em quando com as pessoas. Nunca pensei que aconteceria comigo.

Sentindo o peso do alívio cair sobre mim, andei apressada até o meu condomínio. Não era nada luxuoso, mas eu podia levar uma vida modesta ali. Passei pelo zelador e o cumprimentei com um “boa noite” agitado; entrei no elevador e apertei o botão que indicava o nono daquele edifício de 13 andares.

Ao chegar em casa, rumei para o banheiro. Era um apartamento quarto/sala e, apesar de pequeno, tinha espaço para todos os meus pertences.

Morava sozinha há seis anos. Saí de casa aos 19, com ajuda da família. Meus pais viviam não muito longe do bairro no qual eu estava.

Uma ducha morna não foi suficiente para acalmar meus ânimos, então corri até a cozinha e preparei um macarrão instantâneo para enfiar no estômago. Vida de professor não é fácil. Estava, desde a hora do almoço, sem comer absolutamente nada. Sentei-me no sofá de dois lugares da sala e liguei a televisão. Nunca gostei de tevê, mas estava cansada demais até para fumar um cigarro.

Deixei o prato de comida em cima da mesa redonda e voltei para o sofá. Ainda assustada com o que me ocorrera antes, não me permiti ir dormir no quarto. Fiquei deitada ali mesmo na pequena sala de estar, com a tevê ligada e as luzes dos comôdos acesas.

Era tarde da madrugada e eu havia pegado no sono. A televisão estava com o volume no mínimo, de forma que eu só podia escutar sussurros do que era falado. Eu dormia profundamente, meu dia havia sido cansativo. A minha agenda sempre fora lotada nas quartas-feiras. Chovia forte, e eu não tinha reparado.

De repente, um baque alto e um “Oops” vindos do meu quarto me fizeram despertar. Meu coração estava tão acelerado que eu conseguia senti-lo bater em meus ouvidos. Seria minha imaginação? Realmente, suspirei nervosa, aquele dia estava sendo agitado demais.

Um frio percorria meu estômago e minha espinha de tempos em tempos, e eu não tinha coragem de ir até lá averiguar. Minha cabeça estava virada de frente para a porta do quarto. O que quer que estivesse lá, eu poderia ver caso saísse de dentro.

Estava com medo, apesar das luzes acesas. Muito medo. Ladrão seria impossível. Minha imaginação? Um espírito? Espírito! Eu não cogitava nem a idéia de me levantar. Meu corpo estava grudado, pregado ao sofá.

Então, minha imaginação se apoderara de mim e milhões de situações começaram a passar pela minha cabeça. Um espírito apareceria, andaria em minha direção e me tocaria, ou estrangularia, ou sorriria para mim. Um espírito, com uma faca na mão, me esquartejaria, ou faria marcas na parede, entre milhares de outras coisas... Em nenhuma das situações, ele desapareceria.

Eu ouvi passos, coragem me faltou para abrir os olhos. Meu coração passou a bater na boca. Arrombaram minha casa! Tive a sensação de xixi estar escapando sem que eu permitisse. Os passos se aproximaram. As luzes acesas estavam me deixando ainda mais nervosa.

Congelada como uma morta, deitada no sofá, cerrei os olhos e vi uma figura negra parada à porta molhando o chão da sala. Procurei pela arma em sua mão e tive vontade de desmaiar, seria melhor não estar acordada para o que se seguiria: meu assassinato... Estupro, talvez? A figura continuou parada, eu continuei deitada (respirando o mínimo possível para que aquilo pensasse que eu estava morta) e a chuva ricocheteava as janelas. Ah, se ao menos eu tivesse uma coberta para me proteger...

Com olhos semicerrados, encarei a pessoa (ou aquilo), suplicando a Deus que fosse apenas minha imaginação. A figura deixou cair o gorro que lhe cobria a cabeça para traz e eu pude ver cabelos longos que batiam no ombro e as feições de um homem.


I really, really am sorry about this. I didn’t want to surprise you but that was the only way I could get in. – o que? Era a mesma voz daquele homem da rua.

OH MY GOD! YOU... – eu apontei para ele e me sentei rapidamente no sofá. Todo o meu assombro se configurara nesse grito. Ignorei o horário e os vizinhos e simplesmente extravasei o pânico que estava acumulado dentro de mim.

Yeah, I know. I do feel sorry about this. – ele andou em minha direção balançando as mãos de forma tranqüilizadora. Rapidamente, encolhi meus pés e coloquei os braços cruzados em meu peito.

Please, please, don’t do anything to me. I really wanted to help that time. – o fato de não ser um espírito me aliviou; mas, obviamente, eu ainda continuava em pânico.

No, no. I don’t mean to harm you. I just want a place to stay. – ele queria ficar no meu apartamento? Passar a noite?! Se eu concordasse, poderia ser atacada enquanto dormia... E se recusasse??

A-ahn, bem eu não sei. É que eu vivo sozinha e...

Sorry. I cannot understand you. I don’t know how to speak Portuguese.

I said: I don’t know what to do, because I live by myself, so…

I already said I don’t mean to harm you. Please. If I wanted to do something, I could have done it already. – ele tinha razão. Já estava em minha casa, conseguira entrar não sei por onde... Não fazia sentido tirá-lo agora. Se a Morte viera me buscar, eu devia aceitá-la.


O barulho do interfone tocando chegou aos nossos ouvidos. Ele olhou surpreso em direção à cozinha. Levantei-me do sofá e andei com pernas trêmulas para atender. Era o porteiro. Algum apartamento vizinho ouviu meu grito e se irritou com o barulho. Pedi desculpas apropriadamente e voltei até a sala onde o homem estava parado. Se ele entrara pela janela (ou algo do tipo), muito pouco provavelmente, um único e franzino porteiro seria capaz de tirá-lo da minha casa. Uma tragédia poderia acontecer, e eu não queria colocar a vida de outras pessoas em risco...

A propósito, já mencionei que moro no nono andar? Como ele entrou? Naquele momento, minha mente estava completamente em branco, então não tinha espaço para esse tipo de indagações.


O-ok then. I have to clean this mess, wait here. You need to dry yourself too. I’ll go get you a pillow and a blanket.

It isn’t necessary. I just need to sleep under your bed, if you don’t mind. – certo… Agora, as coisas ficaram um pouco mais estranhas. Em baixo da minha cama??

You... you don’t intend to pull my foot, do you?

You know... I’m not a ghost. – ele sorriu timidamente.


De repente, senti uma leve brisa passar por minhas pernas. Ah... Eu tinha me esquecido de um detalhe. Antes de pegar no sono, eu havia tirado a calça jeans que vestia e o sutiã. Por sorte, mantive a blusa. Nos dias quentes, eu costumo dormir usando apenas minha calcinha. Teria sido constrangedor ao extremo se ele me visse pelada.

O homem parou por alguns segundos, acredito que percebera meu constrangimento ao me dar conta da pouca vestimenta. Seus olhos me encararam firmemente, então, ele se virou de costas para mim, e eu rapidamente me enfiei na calça que estava em cima do braço do sofá.


B-by the way. My name is Talita. You are...? – falei enquanto me vestia.

Luke. Sorry about this, miss.


\"\"