Notas iniciais
"A vela mais brilhante de todas foi apagada
Sufocada por aqueles que não podem suportar encarar a realidade
Cada batida de seu coração quebrou as mentiras em pedaços
Fazendo as fundações tremerem
Cada onda no lago fez a porcelana quebrar"— Feint — Epica
INO’S POV ON
Acho incrível como quando seu dia está uma merda, ele pode piorar. Parece que o universo inteiro se organiza e resolve juntar todos os piores fatos possíveis e resolvem que estes irão acontecer simultaneamente. Meu dia já havia começado pessimamente, o que não era nenhuma novidade pra mim. As aulas seguiram seu curso natural. Diferente da outra escola onde eu estudei, essa não precisava mudar de sala a cada aula, o professor é que vinha até nós. A cada troca de professor havia 10 minutos de pausa, e foram justamente esses 10 minutos que tornaram o ambiente da sala insuportável. Pude ver e ouvir cada pessoa ali com sua atenção voltada pra mim. Uns eram até discretos, comentavam entre si numa tentativa inútil de que eu não percebesse. Outros eram extremamente óbvios, como um grupo de garotas que estavam na parte da frente da sala, que riam e apontavam pra mim como se eu fosse o espetáculo mais engraçado de um circo. Minha vontade era de socá-las até eu me sentir confortável. Porém eu precisava ter um bom comportamento ou voltaria para onde eu não queria voltar. Eu precisava me controlar. Eu sempre fui muito desencanada e dificilmente me irritava com facilidade. Agora era diferente. Eu estava diferente, afinal, as pessoas mudam e nem sempre é para melhor. Aqueles 10 miseráveis minutos se extinguiram e uma professora entrou. Tinha uma estatura mediana, os cabelos curtos e presos de forma estranha. Ela entrou rindo sarcasticamente na sala e falando algo sobre uma prova surpresa. Parecia se divertir com a aflição dos alunos sobre a tal prova surpresa, porém vi seu sorriso morrer ao me ver. Ela caminhou lentamente até o fundo da sala até parar em frente a minha cadeira e me olhar da ponta do pé até meu ultimo fio de cabelo.
— Quem é você?— Disse ela, ainda me olhando como se eu estivesse deformada ou com algo bizarro na cara.
— Yamanaka Ino... aluna nova— Eu disse, olhando-a por entre os óculos escuros.
— Pois seja mais educada e retire o óculos ao falar com as pessoas, senhorita Yamanaka. – Ela me disse ríspida.
— Satisfeita?— Eu disse, retirando os óculos e a olhando nos olhos.
— Por hora. Sou a professora Anko e não tolero indisciplina. Esteja ciente disso. A propósito, se na próxima aula minha não estiver devidamente uniformizada, não assistirá a aula, fui clara?
— Como água, professora— eu disse cerrando os punhos embaixo da cadeira. Ótimo, já ganhei a antipatia de um professor sem ter dito uma única palavra.
Dito isto, a professora dirigiu-se para frente da turma, novamente com o sorrisinho macabro, abrindo uma enorme pasta sobre a mesa, retirando diversas folhas de papel e começando a distribuí-las para cada um dos alunos.
— Espero que não tenham deixado o conteúdo acumular. Essa prova vale uma nota inteira— Disse Anko, entregando uma folha pra cada aluno de cadeira em cadeira. Logo os burburinhos e reclamações foram ouvidos por toda a sala.
— Mas professora, a Ino não pode fazer a prova. Ela chegou aqui hoje e...e não teve tempo de ver os conteúdos passados ainda.
Virei-me para ver quem havia citado o meu nome e me defendido. Atrás do loiro, tinha uma garota de cabelos castanhos e presos em dois coques. Ela era bem bonita, tinha os olhos igualmente castanhos, num tom achocolatado e bastantes expressivos. Ela olhava para mim com uma expressão séria, porém não era um olhar inquisidor. Eu não a havia visto. Na verdade não vi ninguém que estava sentado atrás de mim, me limitei desde que cheguei ali a ficar na mesma posição. A garota agora olhava pra mim e para a professora. Diferente das outras garotas, ela não me olhava com desdém ou qualquer repulsa. Ela estava sendo... gentil? Eu não estava mais acostumada a gentilezas. Dois anos naquele inferno me fez perder minha humanidade, talvez. A professora nada disse a garota, apenas caminhou até a minha mesa novamente, colocando uma folha de papel sobre esta e me olhando nos olhos.
— Nada posso fazer pela senhorita Yamanaka. Não é problema meu se ela foi retardatária e se apresentou a escola com duas semanas de aula. – Disse a professora, entregando o papel aos demais alunos.
— Mas professora eu não acho que...— a garota não pôde concluir o que pretendia falar, já que a professora a interrompeu prontamente.
— Não me questione Mitsashi. Vocês têm exatamente os 50 minutos restantes de aula para responderem as questões.
A professora sentou-se em sua cadeira e apoiou os cotovelos na mesa, olhando a turma inteira sem nem piscar. Seus olhos encontraram-se aos meus e ela me olhou como se eu fosse tentar algo. Olhei para a prova e li as questões. Eu não sabia nada do que estava ali. Nunca havia estudado nada daquilo. O Saint Pierre-Eton era conhecido nacionalmente por sua disciplina e avanço nos conteúdos em sala de aula. Eu não tinha a menor chance de responder questão alguma, então resolvi não me estressar ainda mais. Apenas aguardei o término do tempo de prova.
Após longos e entediantes 50 minutos, a professora passou de cadeira em cadeira recolhendo as provas e fazendo caras e bocas ao olhar algumas das respostas. Terminando de recolher as provas, a professora colocou no quadro de vidro paginas do livro que continham uma atividade para ser entregue na próxima aula. Ótimo, ainda estou sem os livros, pensei. Quando a aula da Anko terminou, finalmente soou o sinal do intervalo. Os alunos saíram da sala aos pulos e gritos, a maior algazarra. Eu não queria ir para a área externa da escola. Se estar sob os olhares do pessoal da minha sala já era insuportável, imagina da escola inteira. Porém eu também não queria permanecer naquela sala, estava me sufocando. Permaneci sentada enquanto as pessoas iam saindo da sala. Pude ver o loiro que estava atrás de mim saindo agarrando uma garota de longos cabelos azulados, que estava exageradamente vermelha pela situação. Outros dois, que também deveriam ser um casal, era uma garota de cabelos rosa, que havia subido nas costas de um garoto alto, de porte atlético e cabelos negros, bem como seus olhos que eram igualmente pretos. A garota de coques e olhos castanhos que havia me defendido saiu da sala de mãos dados com um garoto de cabelos enormes, muito bonito e extremamente sério, como ela. Em nenhum momento ousei me virar para trás, não queria encontrar com o olhar de ninguém me encarando. Após esperar alguns segundos, julguei que a sala estava completamente vazia, peguei minha bolsa e me levantei. Julgamento errado. Trombei bruscamente com alguém. Levei as mãos à cabeça e xinguei a primeira palavra que me veio a mente. A pessoa ao meu lado praguejou algo que eu não escutei direito. Olhei para a pessoa e vi que era o ruivo que vi vagamente quando entrei na sala. Ele ainda estava ali? Eu pensei que todos haviam saído. Olhei para ele sem e ele me olhava indiferente. Na verdade nem sei se era indiferença em seus olhos, era apenas... nada. Seus olhos estavam contornados de preto e sua pele era muito alva. Tinha um kanji tatuado na testa e eu não faço à mínima ideia do que significa. Os cabelos dele era de um vermelho intenso. Apesar da falta de expressão era um garoto muito bonito. Os olhos eram de um verde incomum. Nunca havia visto olhos daquela cor. Ele apenas murmurou um “desculpe”, passou por entre as cadeiras e saiu da sala.
Caminhei para a saída da sala e resolvi ir a até a sala da vice-diretora, para resolver logo a questão dos livros e do maldito uniforme. Para minha sorte, ao sair da sala, haviam pouquíssimos alunos nos corredores. Provavelmente a maioria preferia passar o intervalo na imensa área externa do colégio. Eu não tinha a mínima noção de onde era a sala da vice-diretora e já estava ficando irritada em procurar. Aquela escola era enorme. Subi mais algumas escadas e encontrei um corredor vazio com muitas portas. Provavelmente mais salas de aula, afinal não havia especificação alguma sobre a diretoria.
— Que inferno, isso é uma escola ou um labirinto?— Falei baixinho, já sem vontade alguma de continuar procurando aquela maldita sala.
— Perdida? – Me assustei com uma voz atrás de mim e me virei para ver quem era. Um garoto muito branco, eu diria até pálido, com cabelos e olhos bem pretos, estava escorado na parede e com os braços cruzados, sorrindo pra mim de maneira forçada.
— Na verdade to procurando a vice-diretoria— Eu disse. Ele se manteve sorrindo a todo momento. Era irritante.
— A vice-diretoria fica do outro lado da escola.
— Ótimo— eu murmurei mais pra mim do que pra ele, em desgosto.
— Posso te levar lá, se quiser — Ele disse, ainda sorrindo, agora caminhando para mais perto.
— Não precisa se incomodar. Eu posso achar — eu disse num tom de voz que saiu um tanto frio. Não queria ser grosseira, afinal ele estava sendo educado e não tinha culpa de nada do que aconteceu comigo. Eu só não conseguia mais ser gentil.
— Não será um incomodo, estou indo exatamente para aquele lado. Meu nome é Sai. Vem, senão vai passar o resto do mês tentando achar a diretoria. – Ele disse, virando-se de costas pra mim e caminhando para o lado que havia dito ficar a vice-diretoria.
Eu não disse mais nada. Apenas o segui. Realmente eu ia demorar em encontrar a sala e o intervalo já estava quase no fim. Após Sai me deixar na vice-diretoria, bati na porta e Shizune me autorizou a entrar. Ela me deu uma lista extensa sobre os livros que minha mãe teria que comprar e me entregou três uniformes. Dois eram os normais — padrão e o outro era para educação física. Enfiei-os dentro da bolsa, agradeci e sai em direção à sala de aula. Novamente parei em um dos corredores e me senti perdida.
— Merda, eu odeio esse lugar.
Caminhei rapidamente por entre os corredores e logo avistei o da minha sala. Adentrei o lugar e vi todos virar-se para me olhar. Todos já estavam na sala e um professor estava sentado na cadeira dele, com um livrinho de bolso laranja, lendo tão empolgado que nem percebeu minha entrada, ou fingiu. Ele tinha os cabelos brancos, porém não era velho. Usava uma mascara preta cobrindo metade do rosto, o que era muito estranho, mas eu tava mais preocupada em não ser visto do que divagar sobre a máscara estranha do professor. Sentei-me novamente na frente do loiro, era a única cadeira vaga ali. Todos estavam em grupos, como se estivessem realizando alguma atividade. Permaneci quieta no meu lugar, até que o professor, sem retirar os olhos de sua leitura, apontou para mim e disse:
— Você, sente-se com elas e responda as questões.
Ele me colocou num grupo onde tinham seis garotas, que me olharam com total aversão e logo questionaram o professor.
— Ah Kakashi, porque ela tem que ficar logo no nosso grupo?— Disse uma garota ruiva, ajeitando o óculos e me olhando fulminantemente.
— Porque o seu grupo é o único incompleto, Karin. Agora terminem a atividade.
As seis garotas me olharam com raiva. Eu não me importei. Não ia me intimidar com cara feia. Já havia passado dois anos no inferno e não serio um grupo de frescas que iria me tirar do serio. As outras aulas transcorreram sem nenhuma novidade. Agora eu tinha a antipatia não so de alguns professores sem ter feito absolutamente nada, assim como da maioria da turma. Incrível o dom que as pessoas tinham de me odiar sem eu ter feito nada. Seria um ano difícil.
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Ao sair da escola, caminhei um pouco pela cidade. Eu não queria voltar pra casa naquela hora. Parei em uma lanchonete e comi um sanduíche imenso com um milk-shake. Eu não havia comido nada o dia todo e não tinha percebido o quanto estava faminta. Quando já era noite, peguei um taxi e voltei para casa. Parando na porta percebi que eu não tinha as chaves. Ótimo. Revirei os olhos e bati na porta três vezes. Após alguns segundos minha mãe veio abrir. Ela estava sorrindo, como se estivesse esperando alguém, mas ao me ver seu sorriso desapareceu. Entrei em casa sem falar nada e subi as escadas em direção ao meu quarto. Ao entrar logo percebi a mudança. Estava limpo e as roupas de cama haviam sido trocadas. Meu notebook estava sobre a cama também. Eu sabia que minha mãe pouco se importava com o meu conforto. Provavelmente tinha feito aquilo para que eu ficasse o máximo de tempo no meu quarto, sem precisar transitar pela casa e ter que encontrar-se com ela. Joguei minha bolsa sobre o a cômoda e me deitei na cama. Minha mente estava vazia. Não conseguia pensar em nada.
Após alguns minutos sobre a cama, ouvi vozes vindo da sala. Minha mãe estava conversando com alguém. Visitas? Ela teria me avisado, afinal, eu deveria vestir-me “como uma Yamanaka” como dizia minha mãe, quando tivesse visitas em casa. Abri a porta do quarto devagar e caminhei a passos lentos até a escada, onde a voz além a da minha mãe ficou mais audível. Aquele voz. Não podia ser ele. Mas era e estava aos beijos com minha mãe. Não podia. Minha mente estava me pregando uma peça? Desci as escadas correndo, em cólera. Ao entrar na sala, senti como se meu coração tivesse parado. O que ele estava fazendo ali? Porque ele estava ali? Eu não estava acreditando no que eu estava vendo e por um momento cheguei a crer que estava alucinando. Mal pude organizar meus pensamentos e já estava em surto.
— O QUE ELE ESTÁ FAZENDO AQUI? COMO PÔDE DEIXÁ-LO ENTRAR?— Eu disse aos berros. Minha respiração estava ofegante e meu corpo estava tremulo por completo.
— Ino, ele é meu noivo. É natural que ele me visite. Você é quem não devia estar aqui — Disse minha mãe, numa falsa calma, também prestes a explodir.
— NOIVO? AGORA SÃO NOIVOS? QUE TIPO DE MÃE É VOCÊ? – Eu disse cuspindo as palavras. Como assim noivos? Minha mãe realmente não tinha acreditado no grande mal que ele havia me causado.
— VOCÊ É QUE NÃO DEVERIA ESTAR AQUI, INO. A INTRUSA AQUI É VOCÊ— Ela disse também tremula. O “noivo” dela se colocou na frente da minha mãe e eu pela primeira vez em dois anos o olhei. Senti meu corpo inteiro reagir numa fúria imensa. Queria partir para cima dele, senti meu autocontrole se esvaindo.
— Ino, querida. Tenha calma, nós ainda podemos ser uma família— Ele disse, sorrindo para mim numa tentativa inútil de acalmar os ânimos.
Eu o olhei com o mais puro ódio que havia em mim. Como ele conseguia se dirigir a mim? Como ele podia ser tão cínico?
— NÃO-OUSE-FALAR-COMIGO-NUNCA-MAIS-NA-SUA-VIDA SEU MONSTRO DE MERDA. EU QUERO QUE VOCÊ VÁ PARA O INFERNO E QUEIME ETERNAMENTE, OUVIU BEM?— Eu disse gritando o mais alto que pude e subi as escadas correndo. Não conseguia mais ver aquela cena grotesca.
Entrei no meu quarto e bati a porta com força. Tranquei com a chave e me joguei na cama, esmurrando o travesseiro tentando conter a raiva. Como minha mãe teve coragem de continuar com aquele monstro?. Eu não queria ficar em casa. Eu não podia continuar ali ou ia acabar surtando. Senti meus olhos úmidos e as lagrimas caindo contra minha vontade. Eu ainda tinha lagrimas afinal. Elas tinham um gosto amargo. Um misto de ódio e decepção, uma péssima combinação para alguém com a mente tão perturbada como a minha estava naquele momento.
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