"E agora a batida dentro de mim é como uma brisa gelada

E eu nunca tive qualquer sentimento aqui dentro, mas

Me arruinando, traga meu corpo, carregue-o para outro mundo

Sei que estou viva, mas como uma pedra estou caindo" — Falling Again — Lacuna Coil

“Eu estava exausta naquele dia. Havia passado o dia inteiro na escola numa gincana estúpida que tinha todo ano. Os professores insistiam na idéia de que era um ótimo evento para a interação entre as turmas. Até que não era tão ruim assim, pra ser sincera. Eu podia cantar e tocar livremente com os meus amigos. Quando cheguei em casa já era noite. Minha mãe não estava em casa. Provavelmente havia saído com o namorado ridículo dela. Não consigo me dar bem com ele. Não é implicância de filha com ciúmes da mãe. Eu simplesmente não consigo. Ele me olha estranho. Ele namora com minha a alguns meses e algumas coisas estranhas aconteceram nesse meio tempo. Parei de pensar no estranho namorado da minha mãe e resolvi tomar banho e ir dormir, eu estava exausta. Após o banho, deitei na cama e nem percebi a hora que dormi.

Estava me sentindo desconfortável, como se algo pesado estivesse sobre mim. Abri os olhos com dificuldade...

— NÃO, NÃO, EU NÃO QUERO. MÃE ME AJUDA. MÃÃÃÃE!!!”

Acordei ofegante. Estava suando frio e senti que meu corpo tremia por inteiro. Tentei respirar mais profundamente e me situar. Corri ate a janela do meu quarto, abrindo-a e me debruçando no parapeito, tentando inutilmente respirar o ar vindo de fora do quarto. Eu havia sonhado. Depois de meses aquele sonho me perturbara novamente. Não eram ilusões criadas por minha mente. Eram sonhos com as lembranças daquela noite. Aos poucos senti minha respiração acalmando-se. Eu ainda suava e tremia. Já havia se passado uma semana que eu tinha saído do inferno e os pesadelos tornaram-se constantes de novo.

Ouvi batidas na porta do quarto, porém não fui abrir a porta. Continuei estática ali debruçada na janela, sentindo meu estomago embrulhar só com a mera lembrança daquela noite.

— Ino? – Ouvi minha mãe me chamando do outro lado da porta. Ela nem mencionou abri-la. Sabia que estaria trancada.

— Não aconteceu nada, foi só um pesadelo— respondi alto, para que ela pudesse ouvir do outro lado da porta.

Ouvi minha mãe murmurar um “ok” e percebi que seus passos se afastavam. Estar naquela casa novamente estava me causando um mal imenso. Aquele quarto. Caminhei em direção ao criado-mudo ao lado da minha cama, abrindo uma das gavetas e pegado um porta-retratos empoeirado que estava guardado. Limpei o vidro para poder observar melhor a foto que nele estava. Senti meu coração apertar e minha face tornar-se úmida. Eu estava chorando de novo, que inferno. Apertei o porta-retratos com força entre os meus braços, deitando-me na cama abraçada com o pequeno objeto.

— Ah papai, você não podia ter me deixado sozinha...— murmurei baixinho entre lagrimas de saudade e angustia.

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Após o pesadelo que tive na madrugada, não consegui mais dormi. Senti meus olhos pesarem, fechando-se contra minha vontade e como se tivessem passado apenas segundos, logo percebi a claridade que invadia o quarto. Havia amanhecido. Eu não queria ir para o colégio. Verdade que queria sair daquela casa, porem o ambiente escolar também não estava sendo um dos melhores pra mim. Ser hostilizada gratuitamente era algo insuportável, principalmente pelo fato de eu ter que manter o bom comportamento, já que eu tinha certeza de que me vigiavam ali. Eu sinceramente não tinha engolido aquela historia de que a mudança de escola visava apenas minha melhora psicológica. Tinha algo a mais nisso tudo. Sem nenhum animo, levantei-me e fui para o banheiro, girando a chave na fechadura. Após escovar os dentes, tomei um longo banho e fiquei alguns minutos olhando minha imagem refletida no espelho. Estava ainda pior. Ter chorado quase a noite inteira me deixou com os olhos inchados e vermelhos, assim como a ponta do meu nariz, que ainda estava vermelha. Prendi meu cabelo num coque mal feito no alto da cabeça e voltei para o quarto. Abri o guarda-roupas procurando algo para vestir e então me lembrei do uniforme. Procurei minha bolsa pelo quarto e logo a vi sobre a cômoda. Tirei os uniformes de lá e peguei o que a vice-diretora havia dito ser o tradicional. Era uma saia de pregas, na altura do joelho, num tom de cinza grafite. Uma blusa manga longa de botão, com o brasão da escola bordado na altura de um dos seios. Havia também uma gravata rosa bebê e um blazer também cinza e com o brasão da escola. Me vesti sem nenhuma empolgação e me prostrei em frente ao espelho de corpo inteiro que havia num canto do quarto.

— Que ridículo...

Como sou baixinha, aquela saia nos joelhos ficou realmente ridícula. Parece que diminuiu ainda mais o meu tamanho. Corri até a cômoda e abri uma das gavetas. Depois de alguns segundos, finalmente encontrei o que queria. A tesoura. Retirei a saia e logo comecei a cortá-la, diminuindo-a e deixando com o comprimento acima dos joelhos. Após cortá-la, vesti novamente e agora sim melhorou um pouco. Não que eu fosse o tipo de garota que me importava com isso, mas também não ia sair de casa com aquela roupa de jardim de infância. Vesti a blusa e olhei a gravata rosa, que ao tocar e ver de perto, percebi que era de seda. Revirei os olhos e coloquei a gravata dentro da bolsa novamente, assim como o blazer. Coloquei um cinto com alguns rebites sobre a saia, calcei a meia-arrastão preta e em seguida o coturno. Coloquei algumas pulseiras de fivela e voltei para o banheiro. A maquiagem preta e carregada nos olhos agora era minha fiel companheira mais do que nunca. Soltei os cabelos e voltei para o quarto. Coloquei os mesmos óculos escuros de ontem, peguei minha bolsa e sai do quarto. Olhei para o longo corredor até a escada e hesitei. E se ele ainda estivesse ali? Fiquei mais alguns segundos parada e então sai de vez do quarto. Desci para a cozinha e percebi que a casa estava silenciosa demais. Não vi minha mãe e nem aquela aberração que a acompanha. Sobre o balcão da cozinha tinha uma quantidade de dinheiro. Ótimo, eles haviam saído. Melhor assim, não queria vê-la até o fim do século, o que seria impossível. Novamente acordei sem fome alguma. Apenas peguei o dinheiro e fui para a escola.

Não encontrei taxi algum transitando pela rua e eu não fazia idéia dos horários do metrô. Resolvi ir caminhando e novamente ao chegar à escola, percebi que estava atrasada. Caminhei a passos rápidos até a sala, que como num transe, não tive dificuldade de achar. Dei duas batidas na porta e a abri. Todos olharam pra mim novamente com aquele olhar de represália. Olhei para a mesa dos professores e revirei os olhos por detrás do óculos. Perfeito, aula da Anko, não poderia ser pior. Pensei. Anko logo me olhou com aquele sorrisinho debochado dela, levantando-se de sua cadeira e vindo em minha direção. Ela me olhou de cima a baixo e nada disse. Eu apenas caminhei lentamente até minha cadeira quando ouvi um pigarro atrás de mim.

— Eu disse que sem o uniforme, você não assistiria a minha aula. Não conseguiu compreender, senhorita Yamanaka?— Ela disse satisfeita.

— Eu estou com o uniforme — eu estava séria. Meu humor estava péssimo e a vontade de mandá-la pra puta que pariu estava coçando a minha língua.

— Karin, querida, pode vir aqui um instante? — Disse Anko, sorrindo falsamente para a ruiva que eu havia feito o trabalho em grupo. Anko apontou para a vestimenta de karin, que aos padrões do colégio, estava impecável , nada fora do lugar. — Está vendo, Yamanaka? Este é o uniforme. Por acaso acha que se enquadra nesse perfil?— ela disse com o mesmo tom de deboche.

— Graças ao meu bom Kami, não— eu respondo seca.

Anko me fulminou com o olhar, acenando para que Karin voltasse ao seu lugar. Percebi a ruiva e seu grupo cochicharem algo e uma delas apontar para mim sem sutileza alguma. Anko olhou-as rispidamente, fazendo-as se calarem.

— Quero que se retire da minha aula, senhorita Yamanaka. Agora . – Ela parecia nervosa.

Eu nada disse. Apenas virei-me e caminhei até a porta, porém antes de abri-la ouvi uma voz conhecida.

— Espera— era a garota de cabelos castanhos – Não pode expulsá-la da aula sem motivos, professora Anko.

— Está me questionando, Mitsashi? Se gosta de bancar a defensora dos fracos e oprimidos, pode se juntar a ela nesse momento. As duas, saiam já da sala – disse Anko, agora olhando mortalmente a tal Mitsashi.

Sem dizer mais nada, a garota pegou sua mochila e caminhou até mim, sussurrando um “Vamos”. Sem entender, apenas a segui. Meus pés moveram-se sozinhos. Ela caminhava em silencio, para o pátio da escola. Sentando-se em um dos bancos, ela sorriu pra mim e fez sinal para que eu sentasse também. Permaneci em pé, apenas olhando-a desconfiada. Esses dois últimos anos me fizeram duvidar de todo e qualquer tipo de gentileza. Sempre que alguém era gentil comigo naquele inferno, queria algo muito caro em troca. Ela pareceu não perceber minha desconfiança e continuou a sorrir.

— Não se importe com a Anko. Não que eu esteja defendendo ela, mas é pra você não achar que fez algo de errado. Ela implica com todo mundo, porém por você ter enfrentado ela, então terá uma atenção especial – ela disse gargalhando com a própria piada – ela tenta reprovar os meninos injustamente desde a sétima serie, é ridícula.

— Está nesta escola a tanto tempo assim?— perguntei, já interagindo. Ela parecia ser legal, afinal os olhos dela me olhavam com uma simpatia verdadeira. As pessoas podem fingir como for, mas os olhos acabam refletindo o que se passa realmente.

— Com o tempo você se acostuma. E quando se tem amigos, é mais fácil suportar, acaba sendo divertido. Ah, sou a Tenten— ela estendeu uma das mãos. Segurei mecanicamente enquanto ela sorria.

— Não entendi o motivo de você ter me defendido... duas vezes — eu estava confusa. Uma parte de mim havia gostado daquela garota e dizia que seriamos grandes amigas. Porem o medo me rondava e a sensação de ser um engano não me deixava.

— Ah, a Anko é uma megera e estava implicando com você a toa. Eu não podia deixar barato, senão não seria eu. E você parece ser das nossas, diferente das insuportáveis que estudam aqui.

Um grupo de garotas passou por nós, cochichando e rindo escandalosamente, olhando pra mim com aquela mesma expressão de deboche da Anko. Apertei as mãos com força, numa tentativa de conter a raiva e ânsia de socá-las. Tenten me olhava com atenção.

— Relaxa, logo isso passa. Você é nova aqui, não é igual ao ridículo “padrão” Pierre-Eton de ser— ela imitou um sotaque francês — é a nova distração pra vida sem graça deles. Apenas ignore. Eu faço isso – Ela me olhou com uma cara de louca— Uma boa terapia é você imaginar várias formas de quebrar a cara delas, igual da vez em que eu quis muito esfregar a cara delas no ralador industrial do refeitório...mas o Neji não deixou – Ela deu de ombros naturalmente. Eu percebi que estava rindo e a sensação foi boa. De fato, acho que seriamos amigas.

A sirene tocou, informando o fim dos dois primeiros horários de aula e alguns minutos depois, vi um grupo aproximar-se de onde eu estava com Teten. Era o loiro, abraçado com a garota de cabelos azuis, o moreno com a garota de cabelos rosa e o cabeludo. Tenten levantou-se num pulo e abraçou o cabeludo pelo pescoço. Ele olhava sério para ela, parecia chateado, porém a beijou na testa, com uma suavidade que eu jamais vi.

— Não fica bravo Neji, eu não podia deixar a Anko agir daquela forma.

— Você ainda vai ser expulsa dessa escola Tenten, precisa saber a hora de parar— Disse o cabeludo para ela. A chateação dele parecia mais com uma preocupação.

— Bobagem. Essas sanguessugas adoram o dinheiro que recebem todos os meses. – Ela virou-se pra mim bruscamente, quanto o cabeludo a abraçava pela cintura. Sem cerimonia alguma, os outros foram se sentando nos bancos.— Ino, esses são os meus amigos — então ela apontou para cada um — Naruto, nosso idiota numero um— o loiro fez uma cara engraçada, fazendo bico – Hinata, nossa mamãe— a garota de cabelos azulados bateu os indicadores um no outro, timidamente – Sasuke, que tem essa cara de bicho, mas é uma ótima pessoa— disse apontando para o moreno, que murmurou um “foda-se, Mitsashi” – Sakura, nossa psicóloga — disse apontando para a garota de cabelos rosas que sorria – e por fim, esse é o meu namorado, o Neji – O garoto cabeludo me cumprimentou com um aceno de cabeça.

— E você é o macho da turma, Tenten-chan— Disse Naruto, rindo escandalosamente. Tenten gentilmente mostrou-lhe o dedo do meio.

Estranhamente me senti acolhida no meio deles. Como há muito tempo não sentia. Permiti-me sorri com as graças que o Naruto fazia e por um momento me senti livre. Eles estavam conversando sobre vários assuntos aos quais eu estava totalmente alheia. Apesar disso, estranhamente eu não me sentia deslocada, embora não estivesse prestando muita atenção. O sino tocou alto, informando o fim do intervalo. Eles resmungaram e começaram a se levantar. Então deram as costas e começaram a caminhar em direção aos portões do pátio. Continuei sentada no banco, sem saber exatamente o que fazer.

— Ino, você não vem?— Disse a tal Sakura. Todos pararam de andar e me esperaram – Temos o próximo horário vago.

Levantei-me um pouco devagar e caminhei na direção deles. Eu agora tinha amigos? Era isso que eles eram pra mim? Não, estava muito cedo pra isso. Eu já havia experimentado o que era ter amigos e a realidade me deu um belo tapa na cara. Mas eu estava me sentindo leve na presença deles, então isso devia ser algo bom, eu acho.

— Onde estamos indo?— perguntei sem saber para onde eles iam, afinal, não estavam caminhando para as salas.

— Para o nosso cantinho particular, afinal, você tem que conhecer nosso refugio né.— DisseTenten, sendo carregada nas costas pelo cabeludo.

Caminhamos para a área externa da escola e adentramos uma espécie de jardim fechado, um pouco afastado dos prédios principais do colégio. La havia apenas grama e algumas pedras, bem como arvores altas, o que tornava o lugar ainda mais escondido. Após estarmos bastante afastados dos prédios da escola, eles pararam. Cada um se sentou e eu me sentei embaixo de uma arvore, escorando-me no tronco e retirando a bolsa dos ombros. Tirei os óculos escuros e os guardei.

— Cara, seus olhos são tão bonitos quanto os meus— disse o Naruto me olhando inocentemente.

— Cala a boca, Dobe, você é muito convencido— Disse Sasuke, revirando os olhos.

— Cara, esse olhão azul aqui fez a Hinatinha gamar, né Hina-chan meu amor?— Disse Naruto abraçando Hinata pela cintura, enquanto ela corava até o ultimo fio de cabelo.

— Então Ino, você é daqui mesmo? Nunca te vi em lugar algum...— Disse Tenten, sentada entre as pernas de Neji.

— Ah claro Tenten, como se a cidade fosse pequena— Disse Sasuke irônico.

Tenten olhou furtivamente para Sasuke, como num pedido mudo para que ele calasse a boca.

— Sou daqui sim, é que passei um tempo... fora.— Eu gelei com essa pergunta. Não podia contar onde estava, afinal, que pessoas iriam querer ter como amiga uma... psicótica, como minha mãe falou.

— Cadê o viadinho do Gaara com os violões hein? — Disse Neji, esticando o pescoço e olhando para o caminho por onde viemos.

— Viadinho vai ser meu pulso entrando por sua garganta. Acha que é fácil andar discretamente pela escola com dois violões?— Entre umas das arvores, saiu o ruivo que eu havia esbarrado na sala. Ele estava com um violão pendurado nas costas e outro ele segurava com as mãos.

O ruivo então entregou o violão ao Naruto e retirou o que estava em suas costas, sentando-se próximo do loiro.

— Compus algumas musicas pra vocês meninos. Eu mando pelo Sasuke daí vocês decidem se ficam com elas ou não — Disse Sakura animadamente.

— Ta bem, Sakura-chan. Então o que vamos tocar hoje? — Disse Naruto pousando os dedos sobre as cordas do violão.

O ruivo então, como se despertasse de um transe e só naquele momento percebesse minha presença, fitou-me seriamente. Ele ainda não tinha me visto ali? Será que eu era tão invisível? Ele continuou me olhando com aqueles olhos ... penetrantes. Essa é a palavra. Ele parece aquele tipo de pessoa que você tem medo de olhar, porem os olhos dele me prenderam. Ele então desviou o olhar, com uma expressão um tanto carrancuda e olhou para Tenten, esperando alguma explicação, talvez.

— Ah, Gaara. Essa é a Ino. Ino, esse é o Gaara.— Ela disse olhando para nós dois.

Gaara nada disse. Continuou mudo, achando mais interessante apertar as cordas do violão do que me dirigir qualquer palavra. Depois da bela ignorada que recebi, Tenten levantou-se e sentou-se ao meu lado, sussurrando.

— Não liga não, o Gaara é assim mesmo, com todo mundo, até com a gente.— Ela disse rapidamente, num tom apaziguador.

— Eu não me importo, pode ficar tranqüila.— eu realmente não me importava. Ser hostilizada já fazia parte do meu dia. Ele era so mais um.

— Então Ino-chan, você compõe também? Porque essas meninas aqui são uma vergonha cantando e tocando, mas compõem que é uma beleza— Disse Naruto olhando pra mim de maneira curiosa.

Eu não sabia o que responder. Aquela cena era de certa forma bizarra pra mim. Um grupo de amigos, reunidos pra tocar e cantar livremente. Lembrou-me de como era minha vida há dois anos. Era como se nada tivesse acontecido comigo. Aquela nostalgia me invadiu completamente. Mas eu não podia me trancar naquele mundo em que eu estava vivendo há dois anos. Por que não tentar ter realmente uma vida?

— Tenho certos momentos pra compor... Não surge do nada. Prefiro tocar, é mais seguro — Eu disse num meio sorriso.

— Você toca?— Disse Naruto como se aquilo fosse algo inédito de se ver – Meninas... que vergonha meninas, que vergonha — disse ele fingimento desapontamento e olhando para Tenten, Hinata e Sakura.

— Se vocês tivessem paciência para nos ensinar, talvez a gente aprendesse— Disse Sakura cruzando os braços e fazendo bico.

— O que você toca, Ino-chan?— Disse Hinata timidamente.

— Guitarra, violão, baixo e piano — Eu disse, lembrando-me vagamente da ultima vez em que toquei algo. – Mas tem muito tempo que não toco, nem sei mais se consigo fazer algum som.

— ENTÃO VAMOS VER AGORAAA— Disse Naruto escandalosamente, me entregando o violão.

— Naruto-kun, fale baixo— Disse Hinata olhando para o namorado, que coçava a cabeça sorrindo.

— E-eu não sei se é uma boa idéia. – Meus dedos tremiam segurando o violão. Muitas lembranças dançavam em minha mente. De como eu era feliz, de como me reunir com os meus amigos e de como com apenas um violão fazíamos uma festa incrível. E por fim de como todos eles me viraram as costas. Fui interrompida de meus pensamentos pela voz do ruivo, que até aquele momento mantinha-se calado. Por um instante eu ate esqueci que ele estava ali.

— Tsc...Ela não toca coisa nenhuma, Naruto— disse ele com um meio sorriso sarcástico.

Aquilo me irritou profundamente. Quem aquele arrogante achava que era? Acomodei o violão e comecei a tocar levemente. Tenten correu novamente para o lado de Neji e sentou-se entre as pernas dele. Hinata fez o mesmo com Naruto e Sakura sorria de orelha a orelha.

— É Gaara, ela ficou revoltada. Vai ter que pagar sua língua. – Disse Sakura debochando do ruivo, que revirou os olhos.

Após tocar a introdução da musica, como num transe, comecei a cantar. Aquela musica era uma das que eu mais gostava. Eu tocava olhando para a grama, mas senti os olhos de todos sobre mim.

Lay my head, under the water

(Deite minha cabeça, sob a água)

Lay my head, under the sea

(Deite minha cabeça, sob o mar)

Excuse me sir, am I your daughter?

(Com licença, senhor, eu sou sua filha?)

Won't you take me back, take me back and see?

(Você não vai me levar de volta, levar de volta para ver?)

It's not a time, to being younger

(Não há tempo, para ser jovem)

And all my friends, are enemies

(E todos meus amigos, são inimigos)

And if I cried unto my mother

(E se eu chorei a minha mãe)

No she wasn't there, she wasn't there for me

(Não, ela não estava lá, ela não estava lá para mim)

Percebi que Naruto fez um sinal com a mão para que Gaara me acompanhasse, provavelmente eles conheciam essa musica. Meio a contra gosto, o ruivo começou a tocar também, me acompanhando.

Don't let the water drag you down

(Não deixe a água te afundar)

Broken lines, across my mirror

(Linhas quebradas pelo meu espelho)

Show my face, all red and bruised

(Mostram meu rosto, todo vermelho e ferido)

And though I screamed and I screamed, well no one came running

(E embora que eu tenha gritado e gritado, bem, ninguém veio correndo)

No I wasn't saved, I wasn't safe from you

(Não, eu não fui salva, eu não fui salva por você)

Senti meu peito apertar e os meus olhos queimarem. Eu não podia chorar ali, não podia. Mas tudo vinha em minha mente sem freios. Minha mãe contra mim, meus amigos, aquele lugar fétido e escuro. Continuei a cantar segurando as malditas lagrimas e despejando minha raiva no trecho da musica que eu sabia que poderia gritar.

Don't let the water drag you down

(Não deixe a água te afundar)

Don't let me drown, don't let me drown in the waves, oh

(Não me deixe afundar, não me deixe afundar nas ondas, oh)

I could be found, I could be what you had saved

(Eu poderia ser encontrada, eu poderia ser o que você tinha salvo)

SAVED, SAVED, SAVED

(Salvo, salvo, salvo)

Lay my head, under the water

(Deite minha cabeça, sob a água)

Alone I pray for calmer seas

(Rezei sozinha por mares mais calmos)

And when I wake from this dream, with chains all around me

(E quando eu acordar desse sonho com correntes ao meu redor)

No, I've never been, I've never been free

(Não, eu nunca fui, eu nunca fui livre.)

No, I've never been, I've never been free

(Não, eu nunca fui, eu nunca fui livre.)

No, I've never been, I've never been free

(Não, eu nunca fui, eu nunca fui livre.)

Todos estavam estáticos quando eu terminei de cantar, como se percebessem que algo não estava bem. As meninas se entreolhavam e os meninos me olhavam serio. Só Naruto que sorria pra mim com aquele sorriso enorme, aplaudindo e assobiando.

— CAAAAAARA, VOCÊ É INCRIVEL. SUA VOZ É PERFEITA— Disse ele empolgado — Gente, acho que achamos a vocal pra nossa banda.

Os meninos se entreolharam como se aquilo fosse algo obvio. As meninas sorriam pra mim como um sinal de aprovação. Banda? Do que eles estavam falando? Minha mente ainda não conseguia acompanhar aquela conversa.

— Por mim tudo bem. Ela foi a melhor que vimos até agora e eu sinceramente já cansei de procurar alguém— Disse Sasuke dando de ombros.

— É, de fato você é boa. – Disse Neji, com sua postura séria de sempre.

— Ela é a cara da banda de vocês. Eu apoio totalmente a escolha—Disse Tenten, empolgada.

Eles falavam como se eu não estivesse ali. Até Hinata, como se lesse meus pensamentos, intervir.

— Gente, primeiro perguntem a Ino-chan se ela quer – disse ela sorrindo pra mim tão meiga que me senti acolhida.

— Ela tem que querer. Você quer né, Ino-chan? Por favooor, não nos deixe na mão. Você é perfeita pra nossa banda. – Disse Naruto, fazendo drama e se jogando na grama.

Eu permaneci estática. Cantar numa banda? Era isso mesmo? Porque estava acontecendo aquilo comigo? Eu não deveria mais ter sonhos ou esperança. Não era isso que haviam me mostrado naquele lugar? Eu não sabia o que falar, todos me olhavam com uma expectativa enorme, até o ruivo levantar-se, atirando o violão no chão com violência. Ele parecia muito irritado. Me fulminava com os olhos e eu me senti acuada. Ele apontou pra mim e percebi que suas mãos tremiam.

— Ela não vai ficar na banda...isso é ridículo— ele saiu olhando pra Naruto como se estivesse decepcionado e sumiu de vista.

Notas finais
Link da música cantada pela Ino - Under The Water - The Pretty Reckless - https://www.youtube.com/watch?v=ZsLvrBwPrA0