Equilibrium (REESCRITA E REPOSTADA)
12 Fade To Black
Notas iniciais
"As coisas não são mais como costumavam ser
Faltando alguém dentro de mim
Mortalmente perdido, isso não pode ser real
Não posso suportar esse inferno que sinto" — Fade To Black – Metallica
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FLASH BACK ON
Era o décimo quinto aniversário de Ino e a garota estava por demais ansiosa. Sabia que seu pai não lhe daria uma festa de quinze anos digna de princesa, não por falta de vontade, mas por saber que a filha não gostaria de uma festa assim.
O presente que Yamanaka Inoichi havia escolhido para a filha era algo muito especial, algo que Ino queria muito. Uma guitarra autografada por Mark Jansen, o sonho de consumo como guitarrista para Ino. Inoichi ria sozinho ao lembrar o quanto fora trabalhoso conseguir aquela assinatura. Mas era pra ela, pra sua menina e por ela faria qualquer coisa. Inoichi chegou em casa naquela tarde e foi direto beijar sua esposa Yanna, ele a amava muito e quando ela dissera que estava grávida de Ino, foi o dia mais feliz da vida de Inoichi. Agora sua pequena princesa completaria quinze anos. Era nostálgico lembrar-se do tempo em que ela era só um bebezinho.
Após cumprimentar a esposa, Inoichi subiu as escadas calmamente, sabia que Ino estava no quarto. Ao chegar à porta, ele deu suaves batidas, ele sempre batia na porta, nunca invadia o espaço da filha, nem mesmo quando estava nervoso. O homem, após bater na porta, adentrou o quarto da filha ao ouvi-la gritar um sonoro entre, escutando o barulho do chuveiro, ela estava no banho. Sentou-se na cama da filha, depositando a caixa com o presente de Ino sobre a cama e observando o notebook aberto sobre a cama, com várias conversas abertas com os amigos. Falavam sobre se reunir para que Ino fizesse um showzinho particular com o violão, afinal, era o aniversário dela. Inoichi riu da simplicidade da filha.
– Que coisa mais feia, olhando as conversas dos outros— Disse Ino, parada a porta do banheiro, usando um roupão felpudo branco e mexendo a cabeça negativamente para o pai, num falso aborrecimento. Porém seu enorme sorriso a denunciava. A garota correu até o pai e o abraçou com força, afinal, estava sem vê-lo a mais um duas semanas.
– Senti sua falta— Disse Ino, quando abraçada ao pai.
– Eu também, minha linda. Então, como está? Pronta para o seu presente?— Disse Inoichi soltando a filha. Só então os olhos de Ino percorreram o quarto e pousaram sobre uma grande caixa que havia em cima da cama.
A loira soltou os braços do pai e correu até a cama, abrindo a caixa perfeitamente embrulhada com um cuidado imenso. Tava tão arrumada que dava pena estragar. Ao terminar de tirar o embrulho, Ino retirou a enorme tampa da caixa e seus olhos quase não se continham de tanto brilho. Ela retirou a guitarra de dentro da caixa, ainda boquiaberta. Tocou cada centímetro do instrumento até que seus olhos pousaram sobre a assinatura autografada na guitarra.
— Ai meu Deus, como conseguiu isso? – Disse ela com o enorme sorriso que Inoichi amava e os enormes olhos azuis arregalados.
– Eu sou o super pai, esqueceu?— Disse Inoichi, sorrindo. Porém seu sorriso era um pouco forçado e Ino percebeu.
— O que foi pai? Você ta com aquela cara de propaganda de pasta de dente... Rindo só por fora— Disse a garota, deixando seu presente de lado e sentando-se ao lado do pai.
— Vou precisar viajar amanhã de manhã bem cedinho— Disse Inoichi, temendo uma reação negativa da filha.
Ino abaixou o olhar, tristonha. Ele havia acabado de chegar e já iria viajar novamente. Ela sabia que o trabalho do pai era importante e que diversas vezes ele já desmarcara compromissos sérios por ela. Mas ela o compreendia, não podia ficar chateada, pois aquilo o deixaria triste. A loira então levantou o olhar e sorriu, abraçando o pai com força.
— Tudo bem pai. Queria que ficasse aqui, mas sei que precisa ir então tudo bem.
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Ino tivera um sono inquieto aquela noite. Tivera um dos aniversários mais felizes de sua vida. Saíra com os amigos, ganhou uma guitarra autografada como sempre quis, seu pai estava lá. Porém seus sonhos, naquela noite, não eram agradáveis. Ofegante, a loira despertou com os raios de sol incomodando-lhe os olhos. Tivera pesadelos com o pai à noite inteira e em todos eles, Inoichi estava em um lugar distante dela e em perigo. Sentiu um aperto no peito e apertou o local instintivamente. Num pulo, a loira levantou-se da cama e correu para o quarto dos pais, abrindo a porta de supetão. O cômodo estava vazio e arrumado. Sem demora, a jovem saiu do quarto e rumou para as escadas, descendo-as rapidamente e seguindo para a cozinha, onde encontrou sua mãe sentada comendo. Yanna olhou para a filha interrogativamente, arqueando uma sobrancelha.
— O que foi Ino?— Indagou a mãe diante do afobamento da filha.
— Nada... O papai já foi?— Perguntou Ino, vendo que seu pai não estava ali e constatando que ele já deveria ter viajado.
— Já sim. Ele se despediu de você antes de ir, mas não quis acordá-la, por quê?– Disse Yanna tranquilamente, bebendo mais um gole do seu café.
— Não é nada... Eu só queria me despedir dele...— Ino sentiu seu peito apertar ainda mais ao pronunciar a palavra despedir. Por que estava sentindo-se assim? Ela não entendia — Eu vou subir e me arrumar pra ir pro colégio.
Yanna nada disse, apenas acenou com a cabeça. Ino subiu para o quarto, sentindo um nó na garganta e uma vontade enorme de chorar. Ao chegar ao quarto, pegou o celular e apertou o numero 1 nas teclas, era a discagem rápida para o pai. Esperou impacientemente até ouvir a voz conhecida do seu pai do outro lado da linha.
— Bom dia meu bem— Disse Inoichi carinhosamente
— Pai, quando você volta?— Disse Ino, sentindo os olhos arderem e algumas lágrimas se acumularem.
— Não tenho certeza, mas vou fazer o possível para não demorar— Inoichi ouviu a filha fungando do outro lado da linha – Está chorando por que Ino?
— Não é nada pai, é só... Saudade — Disse Ino limpando o rosto.
— Também vou sentir muito a sua falta meu anjinho. Preciso desligar agora, vou entrar no avião. Quando eu chegar a Boston eu te ligo, ta?
— Ta bom pai, vou pra escola agora. Se cuida.
— Você também meu anjo. Amo você ta? E pare de chorar, senão vai ficar igual um camarãozinho.
— Eu também te amo. Beijos papai— Ino sorriu do outro lado. O pai sempre ria dela quando ela chorava e ficava muito vermelha.
Após desligar o celular, a loira sentiu-se um pouco melhor. Ainda sentia aquela sensação estranha, mas estava mais calma. O dia no colégio havia sido o mesmo pra Ino, porém a loira estava ansiosa. Seu pai havia dito que ligaria quando chegasse a Boston. Ele tinha um jatinho particular e por não ser um vôo comercial, ele já deveria ter chegado. Provavelmente deve ter ficado cheio de coisas para fazer na filial da empresa e esquecera-se de ligar para ela. Cabeça de vento pensou Ino, rindo sozinha. Ao chegar em casa, de cara Ino percebeu algo estranho. Percebeu um carro estranho estacionado na porta. Não era o carro do seu pai e eles não costumavam receber visitas quando Inoichi não tava na cidade. Ela abre a porta e entra, escutando os gritos histéricos da sua mãe vindos da sala.
— COMO ASSIM NÃO ENCONTRARAM? ELE NÃO PODE ESTAR MORTO... E AGORA, COMO VOU VIVER? — Dizia Yanna aos berros a um homem alto e muito bem vestido parado ao lado do sofá.
Ino parou a entrada da sala, estatica. Morto? De quem ela tava falando? Aquela sensação que sentira pela manhã fora lhe invadindo o corpo novamente, Ino sentiu seu corpo tremer e suar frio, mas permaneceu no lugar, olhando para a mãe, sem conseguir pronunciar palavra alguma. O homem trajado de preto, em um terno aparentemente caríssimo, olhou para Ino, atraindo a atenção de Yanna para a filha.
— Ino, vá para o seu quarto— Disse Yanna tentando controlar-se.
— Do que ele ta falando mãe? Quem ta morto?— Disse Ino agora olhando fixamente para o homem que a olhava com certa compaixão nos olhos, apesar da postura séria.
— Ino vá para o seu quarto agora, daqui a pouco eu converso com você— Repetiu Yanna, aproximando-se da filha com os olhos marejados.
Ino permaneceu estática. Será? Não, aquilo não era possível. Com certeza não seria Inoichi. Ele sempre viajara e sempre voltava para casa, era assim que acontecia. Porém, por mais que repetisse pra si que estava tudo bem, que provavelmente sua mãe tinha perdido algum amigo ou parente distante, afinal, nunca conhecera nenhum familiar por parte da mãe, Ino não convencera sua mente. Continuava parada e tremendo. Olhando atentamente o homem parado na sala, Ino lembrou-se dele. Era um dos amigos de seu pai, um dos muitos investidores que sempre acompanhava Inoichi e de vez em quando, ia para algum jantar na casa dos Yamanaka. Ino não se lembrava do nome dele.
— O que houve com o meu pai? — Perguntou Ino vacilante, não queria fazer essa pergunta, seu interior gritava uma resposta que ela nunca aceitaria.
— INO, VÁ PARA O SEU QUARTO, AGORA— Gritou Yanna, empurrando a filha em direção as escadas. Mas Ino era pequena e desvencilhou-se rápido das mãos da mãe e retornou a sala.
Pegando o aparelho de telefone do gancho, a loira rapidamente discou os números do celular do pai e esperou que chamasse, porém o que ouviu do outro lado foi só a voz eletrônica informando que o numero estava desligado ou fora da área de cobertura. A garota repetiu o ato insistentemente, precisava ouvir a voz dele desculpando-se por não ter ligado e avisado que tinha chegado bem, como sempre.
— Vamos pai, atende... Atende... Atende...— Repetia Ino, num sussurro audível.
Ino viu sua mãe arrancar o telefone de suas mãos e jogá-lo no sofá. Olhou-a nos olhos e nem precisou ouvir da boca dela o que sua mente já lhe falava. Ino então se virou para o homem e o encarou.
— O que aconteceu? — Perguntou a garota. Sentia seus olhos arderem, mas as lágrimas não vinham.
— Ainda não sabemos. O jatinho ficou fora dos radares por alguns segundos. Quando o sinal retornou a base, o jatinho já estava... Em queda. O avião caiu no mar, já iniciaram as buscas, mas até agora o corpo dele não foi encontrado. Eu sinto muito.— Disse o homem num tom um tanto quanto mecânico e impessoal. Talvez fosse o jeito dele de dar uma noticia trágica.
Ino não conseguira processar toda aquela informação. Estava em choque. Agora sim pudera sentir o rosto úmido. As grossas lágrimas caíam por sua face lívida. Seu corpo tremia violentamente, porém Ino mantinha-se calada. Seu pai, seu refúgio, seu ponto de equilíbrio, estava morto, perdido no imenso oceano.
FLASH BACK OFF
Ino estava com um olhar distante. Gaara a olhava sem alterar sua expressão. Podia sentir a dor dela, mas não sabia como agir. Nunca confiaram nele ou tinham tanta empatia a ponto de lhe contarem suas maiores dores. A loira não chorou ao contar sobre a morte do pai a Gaara, sentia que Inoichi, onde quer que estivesse, queria que a filha lembrasse-se dele com alegria. Ino olha para Gaara e se perde nos olhos do ruivo. Ele estava com a mesma expressão apática de sempre, porém seus olhos mostravam solidariedade. Ele também havia perdido alguém que amava muito, embora Ino não soubesse como. Gaara não sabia ser carinhoso ou dizer palavras belas de conforto, mas sentia em seu intimo que por ela, ele deveria tentar. Aproximando-se mais de Ino, o ruivo beijou-lhe a testa, num ato de carinho que fez Ino fechar os olhos para apreciá-lo melhor. Sabia que era o jeito dele de estar junto. Acostumara-se a forma muda como Gaara falava, através de pequenos gestos.
— Sinto muito, também perdi alguém importante, sei como dói...constantemente— Ele dissera depois de um silencio confortável entre eles – Não sei o que falar, mas sei ouvir... Temari disse que isso serve, também.
Ino sorriu do comentário dele. Gaara às vezes era até inocente demais, apesar do jeito sério. Ino pegou uma das mãos de Gaara e apertou. Falar da morte do seu pai não era o que mais lhe doía. Gaara percebeu o incomodo da loira e falou baixo.
— Não precisa continuar se não quiser...
— Em algum momento você vai ter que saber, então é melhor eu falar logo— Disse a loira, sem olhá-lo nos olhos. Ino novamente tinha aquele olhar distante. Então ela começou a contar:
“Duas semanas após a morte do meu pai, minha mãe apareceu em casa com um namorado novo. Eu achei tudo muito estranho, afinal ela o amava muito e tinha ficado desconsolada com a morte dele. Eu não era o tipo de filha possessiva que achava que ela deveria passar o resto da vida sozinha, mas só tinham se passado duas semanas. Eu não gostei dele, ele me olhava estranho, mas não falei nada. Com a morte do meu pai, minha mãe ficou muito fria comigo. Mal me dirigia a palavra em casa e me repreendia quando me pegava chorando pelos cantos. Na verdade ela se recuperou muito rápido da morte do meu pai. Passou a viajar muito, parou de trabalhar, afinal meu pai deixou uma herança considerável para nós. “
“O nome do namorado dela é Kabuto. Ele realmente era um tipo muito estranho. Sempre ficava me encarando, era constrangedor. Um mês após a morte do meu pai, Kabuto mudou-se para a minha casa e minha mãe ficou ainda mais fria e grosseira comigo. Um dia estávamos na cozinha, Kabuto passou por mim e apertou minha coxa. Eu me assustei com aquilo, afinal, era algo intimo e eu não conversava com ele alem do necessário. Eu discuti com ele na hora e o chamei de pervertido. Minha mãe disse que eu estava exagerando e que aquilo fora um acidente”
“Numa outra vez, eu estava tomando banho, o som do quarto estava ligado um pouco alto e eu sempre demorava no banho quando estava ouvindo musica. Saí do box distraída e quando olhei, a porta do banheiro estava aberta e Kabuto estava lá parado, com aquela cara de maníaco me olhando. Eu gritei e me enrolei na toalha rapidamente. Ele saiu do quarto às pressas e minha mãe apareceu, perguntando o que tinha acontecido. Contei a ela que ele estava me espionando. Ela simplesmente surtou. Disse que eu era uma putinha, que ficava inventando coisas para destruir a felicidade que ela finalmente tinha encontrado. Eu fiquei zonza com aquilo. Além de não acreditar em mim, ela ainda insinuou que tudo o que vivera com meu pai foi uma mentira. Meu pai a amava muito, ela era uma deusa pra ele e ela simplesmente dissera que só agora havia encontrado a felicidade”
“A partir daquele dia eu passei a fechar meu quarto e o banheiro e ficar de olhos bem abertos com Kabuto. Ele era muito mais jovem que a minha mãe e me olhava com cara de maníaco. Eu não sabia se ele havia transformado minha mãe no monstro que eu via ou se ele havia apenas feito com que ela mostrasse a verdadeira face”
Gaara percebera que Ino tremia. Abraçando-a calmamente, ele a puxou pelas coxas e a colocou sentada em seu colo, em silêncio, apenas olhando-a. Ino tinha o rosto iluminado pela luz da lua e agora sim Gaara via lágrimas em seus olhos. Ela tinha o rosto vermelho e os olhos repletos d’água. O ruivo sentiu-se triste por vê-la assim.
— Chega Ino... Não precisa ficar lembrando isso... Não te faz bem — Disse ele olhando-a nos olhos. Ino ignorou o que ele havia dito e voltou a contar-lhe os fatos.
“Eu estava exausta naquele dia. Tinha ficado o dia inteiro no colégio numa gincana estúpida que tinha todo ano. Os professores insistiam na idéia de que era um ótimo evento para a interação entre as turmas. Até que não era tão ruim assim, pra ser sincera. Eu podia cantar e tocar livremente com os meus amigos. Quando cheguei em casa já era noite. Minha mãe não estava em casa. Provavelmente tinha saído com o namorado ridículo dela. Resolvi tomar banho e ir dormir, eu estava exausta. Após o banho, deitei na cama e nem percebi a hora que dormi.”
“ Durante a madrugada eu estava me sentindo desconfortável, como se algo pesado estivesse sobre mim. Abri os olhos com dificuldade, eu nunca dormia no escuro, sempre deixava um ponto de luz no quarto, mas naquele momento a escuridão era tamanha, o que me deixou em pânico. Senti mãos ásperas apertando minhas coxas e entrando por dentro da camisola. Eu tentei me soltar, mas a pessoa me segurava com força. Então ouvi a voz de Kabuto mandando eu ficar quieta, senão ele me matava. ”
“Eu gritei por minha mãe, pedindo ajuda, mas ela não apareceu. Ele subiu em cima de mim e rasgou minha calcinha. Eu mordi o braço dele e só assim ele afrouxou mais as mãos que me prendiam. Ele ficou muito irritado pela mordida e me deu vários tapas no rosto. Eu implorei para que ele parasse e novamente gritei tanto por minha mãe, mas ela não vinha me ajudar. Eu sabia que ela estava em casa, se ele estava então ela também tava, mas ela não vinha me ajudar. Então ele começou a me acariciar e foi tão nojento. Eu batia nele com força, mas mesmo assim ele não parava. Kabuto então começou a me tocar nos seios. Eu gritei ainda mais alto. Eu implorei tanto pra que ele parasse, mas ele continuava me tocando com aquelas mãos nojentas. Eu aproveitei que minhas mãos estavam soltar e empurrei os polegares nos olhos dele, então ele saiu de cima de mim. Eu levantei correndo, tropeçando e sai do quarto. Minha mãe estava no corredor. Ela me viu com as roupas rasgadas e foi ainda pior.”
“Ela me chamou dos piores nomes possíveis. Naquele momento eu me senti sem vida alguma. Eu só existia. Um recipiente vazio. Oco. Dormi na rua aquela noite. Eu não queria voltar pra casa, então fui pra casa de uma amiga minha, a Helena. Bati na porta da casa delas as 4 da manhã e a mãe dela me olhou estranho. Disse pra Helena ficar no quarto e não sair de lá. Então ela me disse que não queria mais que eu visitasse a minha amiga e que ela não daria abrigo a uma vagabunda. Depois eu descobri que, assim que eu sai de casa, minha mãe ligou para as mães de todas as minhas amigas, dizendo que eu havia seduzindo o namorado dela e que quando ela pegou o ato, eu havia fugido.”
“Tive que voltar pra casa, eu não tinha dinheiro, nem onde ficar. Depois desse dia, eu fui até a policia, mas ninguém fez nada. Foram até a minha casa e minha mãe disse que era uma completa mentira, que eu queria chamar atenção, que poderiam até realizar qualquer exame em mim que não encontrariam sinal algum de abuso. Depois disso o Kabuto passou a me persegui ainda mais. Tentava me agarrar a força sempre que podia. Por mais que eu trancasse o quarto, ele sempre dava um jeito de entrar. E eu passei a dormir cada vez menos. Teve um dia que eu tive uma idéia genial e fiquei planejando o que fazer durante o dia inteiro. Naquela noite eu fiquei trancada no quarto, mas não dormi. Quando foi as duas da manhã, eu desci bem devagar até a cozinha e peguei uma faca grande que minha mãe usava para cortar pedaços grandes de carne. Depois eu subi até o quarto deles e abri a porta devagar. E la estavam os dois. Me certifiquei se Kabuto estava dormindo e subi na cama. Eu precisava fazer aquilo, ninguém me ouvia. Ninguém me ajudava. Eu precisava, não me odeie, por favor...eu sabia que se eu parasse para pensar, minha coragem iria embora, então enfiei a faca na barriga dele de uma única vez, porém perdi o equilíbrio e esbarrei a perna na minha mãe, que acordou e quando percebeu a cena, levantou gritando desesperada. Porém eu ia terminar o que havia começado, e enfiei a faca na barriga dele novamente. Kabuto sangrava muito e gritava de dor. Vê-lo daquele jeito me fez um bem enorme, então eu levantei a faca mais uma vez, porém minha mãe me impediu. Ela me pegou no colo e me jogou longe. Então eu percebi o sangue. Eu estava completamente suja com o sangue dele. Meu corpo inteiro tremia enquanto eu tava caída no mesmo lugar que minha mãe havia me jogado. Estava terminado. Eu teria paz finalmente.”
“ Ela chamou a ambulância e foi para o hospital com Kabuto. Ficou dias no hospital com ele. Numa manhã, eu estava na sala de aula, quando ela entra com vários homens, que apenas acenaram para a professora e me colocaram numa camisa de força. Eu fiquei com tanto medo, não estava entendendo nada. Daí ela começou a gritar que eu era louca, que tinha tentado matar o namorado dela e ainda por cima o tinha seduzido quando ele só queria fazer o papel do meu pai e me dar carinho. Eu fiquei possessa com aquilo. Ela o estava comparado ao meu pai. Eu contei que ele havia me atacado e que eu apenas tinha me defendido. Mas ninguém acreditou em mim. Nem meus amigos. Afinal, Kabuto era um amor de pessoa para todos. Por detrás daqueles óculos eu conheci o inferno”
“Então me mandaram para um reformatório. Mas não é um reformatório comum, é como uma casa de tortura. Eu fui jogada numa sala escura logo no primeiro mês. Lá é assim, é como se eles lessem seus medos. Eu gritava muito e pedia pra sair dali, que eles tinham que acreditar em mim. Eles não gostavam muito dos meus escândalos, então ganhei minha primeira cicatriz. As outras... Bem, eu demorei a me comportar lá dentro, então já deve imaginar.”
“Fiquei lá por dois anos. Tempo suficiente pra eu descobrir como é morrer e ter que continuar existindo. Segundo os diretores de lá, eu permaneceria lá até completar dezoito anos, mas acabei saindo antes. Mudaram-me de escola e bem, é isso”
Ino chorara a todo o momento em que contara essa ultima parte a Gaara, sentia um nojo imenso de Kabuto e sentia medo de que Gaara sentisse algum tipo de repulsa por ela ou seguisse a opção dos outros em não acreditar nela. Gaara, por outro lado, continuava a olhar Ino sem falar nada. Sentia um ódio imenso crescendo em si. Sentia ódio da mãe de Ino e principalmente desse tal de Kabuto. Porém também se sentia angustiado. Era estranho, mas ver Ino tão ferida era mortal para ele.
Ino sentia-se suja. Gaara a olhava com a mesma expressão indiferente dele. Não que ele estivesse indiferente ao que acabara de ouvir, mas ele era assim. Ino desviou os olhos de Gaara, sentia vergonha. Ninguém acreditava nela, como se ela fosse uma prostituta ou algo do tipo. Levantou-se do colo de Gaara e procurou os sapatos que Temari havia emprestado, o encontrando num canto. Sentou-se no recaimer da cama e começou a calçá-los. Chorava em silencio. Esperava que ele agisse de outra forma, porém depois de tudo o que ela contara, ele parecia não crer muito nas palavras dela. Ino levantou-se em silencio e caminhou para a porta do quarto, quando a voz rouca e inconfundível do ruivo a fez parar.
— Eu acredito em você, Ino— Disse Gaara firmemente.
— Você pareceu pensar muito se acreditava ou não – Disse Ino com notória mágoa na voz.
— Não duvidei um segundo sequer de você. Não é esse o motivo do meu silêncio. Sua mãe não sabe o que é uma mente perturbada, Ino e se sair por essa porta e me deixar sozinho agora eu sou capaz de ir até sua casa e fazê-la ela compreender o real significado do que é uma mente louca— Disse Gaara seriamente. Ino o olhou. Ele tinha os olhos em chamas.
O ruivo levantou-se e foi até Ino, retirando a mão dela da maçaneta e trancando a porta do quarto. Ele a pegou no colo e a levou até a cama, sem desviar o contato visual que ambos tinham. Deitou-a na cama e novamente retirou-lhe os sapatos. O ruivo retirou a própria camisa e a jogou num canto, deitando-se atrás de Ino e abraçando-a com força. Ino fechou os olhos. Sabia que novamente aquele abraço seguro era a forma dele de dizer que estava com ela, que a protegeria.
— Eu vou cuidar de você... eu prometo— Disse o ruivo tentando conter o ódio e a insanidade que sentia naquele momento.
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— Está na hora de você voltar à ativa— Dizia Kabuto ao jovem a sua frente.
— Acha que engoliram essa história de que eu estava preso?— Disse Sai, girando a pistola entre os dedos.
— Claro que sim, o incompetente aqui é você. E se não fosse por mim, você realmente estaria preso, não te dei essa pistola pra você usar em briguinhas de bar— Disse Kabuto num tom superior.
— Eu deveria ter estourado a cara daquele babaca – Disse Sai visivelmente transtornado.
— Tudo há seu tempo. Você voltará para a escola e vai cuidar da Yamanaka. E dessa vez, sem falhas— Disse Kabuto aproximando-se do jovem.
— Claro, dessa vez não terá erros... Pai. – Disse Sai sorrindo diabolicamente.
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