Equilibrium
26 Capítulo 25 - Passeio pelo Mayombe
Mais tarde, meu estômago estava queimando de ansiedade. Mil vezes pior do que gastrite.
Era bem irracional visto que tudo tinha dado certo. Hermes tinha sido convencido a inaugurar uma competição de armadilhas entre Trivia e eu. E o local alvo era a casa dele, exatamente o lutar onde tinha câmeras espalhadas para todo lado.
"Por que não devo fazer algo igual Jogos Vorazes?"
"É clichê pra cacete, você encontra uma distopia sobrivencialista a cada dois passos em uma livraria"
"Não vai ser tão emocionante. Eu queria uma luta épica. Mas eu não tenho certeza que você aguentaria uma luta épica".
Sim, o idiota desconfiava. Semanas sem me ver usar um grão de poder deviam parecer suspeitas.
"C'est la vie. Me ver virar pudim na primeira batida não vai ser emocionante"
Era como jogar migalhas na direção oposta. Hermes ficaria tão empolgado com minha confissão de ausência de poderes que não notaria mais nada. A cada segundo, ficava mais convicta que ele nem sonhava com as câmeras.
"Tudo bem, quem trazer a cabeça da oponente ganha a adaga. Espero que você tenha bons truques, Christine".
É claro que tinha.
Fiquei o resto do dia com o notebook de Layla. Ninguém da casa estava sabendo do meu plano, só Idia. Apostava que Vanessa iria escrever o sermão da falta de ética se sonhasse com aquilo.
Observei um cara moreno entrar na casa de Hermes e começar a instalar as armadilhas. Sensores debaixo do tapete que se ligavam a facas jogadas por trás de um quadro da sala, várias linhazinhas nas escadas — choque elétrico? — veneno em tudo da geladeira — Trivia realmente esperava que eu fosse fazer uma boquinha naquela situação?
Fiquei meio decepcionada. Estava com expectativa de ver a cara da tão falada Trivia, mas pelo visto, ela era do tipo que curtia trabalho tercerizado.
Durante a noite, a sensação piorou mais ainda. Tentei passar a madrugada assistindo animes — especificamente Attack on Titan, é ótimo e recomendo — mas não estava ajudando muito.
— Esse cara vai morrer logo — Idia falou depois que assistiu a cena do Levi fazendo uma depilação à lâmina no Titã Bestial — Sempre que alguém parece ser tão fantástico, tenha certeza, vai morrer logo.
Encarei a gata empoleirada no meu ombro.
— Não fala isso, é um dos meus favoritos.
— Todos seus favoritos morrem.
Estalei a língua.
— Tyrion sobreviveu.
— Como um pamonha.
Pelo visto, ela prestava atenção nos episódios de Game of Thrones que eu assistia.
Pausei a tela do celular e olhei para o lado, tentando conferir se Layla ainda estava dormindo. Pelo ronco leve, sinal positivo.
— Idia, promete não me chamar de pamonha?
Ela estreitou os olhos azuis.
— Desembucha.
Ah, cacete.
— Como é matar alguém?
Eis o que me incomodava: eu me sentia uma maldita psicopata. Uma coisa era matar alguém em legítima defesa enquanto a criatura está voando para cima de você. Agora passar uma noite inteira planejando isso para alguém que você não conhece, é simplesmete estranho.
Toda essa situação com Trivia era esquisita. A mulher nem sequer sonhava que a Diana original estava morta e ela estava perseguindo uma fraude. Eu nunca tinha feito nada para ela e tudo que Trivia fez para mim, bem, não era contra a Christine.
Enfim, eu me sentia como se estivesse planejando o assassinato de uma desconhecida. As únicas fontes sobre a natureza pérfida dela era minha mãe e a História desfragmentada dos descendentes de deuses. Cá entre nós, não eram as fontes mais confiáveis.
— Depende de quem você está matando.
Revirei os olhos.
— Lindamente vaga. O que faço para não travar na hora?
Idia ficou reflexiva. Esperei alguns segundos, pronta para ligar o vídeo de novo porque achei que ela não iria reaponder.
— Pense que é melhor a mãe de outra pessoa chorando do que a sua.
— Obrigado, Idia, eu não tinha começado a pensar em mães enlutadas ainda.
Como podem ver, mais uma neurose foi acrescentada na minha listinha de remorso.
Abaixei o tablet e encarei o teto.
— Me conte o que você sabe sobre as histórias de Trivia. Minha mãe foi muito vaga.
— Não pense como uma pessoa. Você pode pensar assim, travar na hora e então, vai ser o seu enterro.
Revirei os olhos.
— Então me conte sobre Diana.
Idia bateu a pata na minha testa, mas continuou:
— Hum, ela era uma amazona.
Gargalhei alto e quase cheguei perto de acordar Layla.
— É sério?
— Acha que estou de brincadeira, pirralha? Mas as amazonas não eram guerreiras boazinhas igual esses filmes meia-boca que os humanos assistem. Diana não teria nem pensado duas vezes sobre arrancar a cabeça de Trivia.
— Ok, Idia, não serei pamonha amanhã.
— Artemis usou o nome dela quando se apresentou para os romanos. Não envergonhe o nome dela morrendo igual uma pata na primeira luta.
— Ok, Idia, agora estou nervosa por medo de passar vexame.
— É só encorajamento. Se existisse uma chance segura de você largar tudo e sair disso e seguir a vida sem manchar as mãos de sangue, eu lhe diria. Mas não tem.
No dia seguinte, acordei cedinho. Hermes iria me chamar para armar minhas armadilhas às 10 horas e meia hora depois iria dar a largada. Então, eu teria que providenciar as coisas o mais cedo possível.
O primeiro passo foi ir no açougue, o lugar mais fácil para pegar sangue.
Antes disso, peguei um galão branco de 4 litros na lavanderia e peguei cem euros emprestado da bolsa de Vanessa. Olhe, as coisas seriam mais simples se minha mãe tivesse se preocupado em deixar uma grana comigo.
Mas nããão, a mulher era uma deusa, podia fazer notinhas brotarem do nada e mesmo assim me deixou financeiramente dependente de uma ruiva mandona.
De qualquer forma, eu iria pagar Vanessa depois. Um dia.
Enfim, voltando ao assunto, vocês não imaginam como ficou a cara do açougueiro quando pedi gentilmente por 4 litros de sangue.
— Pra quê?
— Pra fazer chouriço.
Ele me encarou desconfiado. Dava até pra cheirar a suspeita dele crescendo. Aposto que magia negra era o palpite 1.
— Existe chouriço já pronto.
— Tradição familiar — dei os ombros — Você acha que gosto de sentir o cheiro daquilo na minha cozinha? Mas minha mãe está no meu pé.
Abanei casualmente os cem euros no balcão.
Posso dizer que o $$$ suprime quaisquer conflitos morais. Em menos de cinco minutinhos, o cara me entregou um galão cheio de sangue.
Sorri maliciosante antes de deixar a loja e gritei:
— Libertà religiosa!
O pobre açougueiro fez o sinal da cruz.
Quando cheguei na casa, quase esbarrei em Alec saindo. Ele me encarou e depois encarou o galão cheio de sangue.
— É algo que eu quero saber?
Provavelmente não.
— Você não vai querer saber os detalhes. Aliás, você teria alguma lança guardada no seu quarto?
— Deuses, não.
Discretamente, tirei o cabo da vassoura da lavanderia e caminhei tranquilamente para a casa de Hermes. Nem liguei para os pobres pedestres que me encaravam e certamente pensavam "Já é Halloween?"
Bati na porta.
— Olá, Christine querida — Hermes suspirou — Infelizmente tivemos uma mudança de planos.
Pisquei. Ah, droga.
Três segundos depois, o deus estralou os dedos e estávamos… em uma espécie de floresta tropical? Bom, as copas das árvores eram tão fechadas que eu nem conseguia ver a luz do sol direito. O ar estava bem mais quente e úmido do que lá na Sicília e tinha centenas de folhas caídas no chão. Que porra é essa?
— Bem-vinda à floresta do Congo.
Fechei os olhos e contei até dez para não começar a despejar um tonel de palavrões.
— Hermes, meu bem, eu gostei muito de Mayombe, mas não sei se essa é a hora para um passei.
Ele deu um sorriso lunático.
— Andei pensando e cheguei a conclusão que as coisas não estavam justas suficientes. Você escolheu seu desafio, isso não foi justo com Trivia — ele deu os ombros — E também achei as armadilhas dela bem meia-bocas. Pensei em algo mais animadinho.
Eu tinha medo do conceito de animadinho dele.
— Então, para deixar as coisas mais justas, escolhi o meu cenário e coloquei minhas próprias armadilhas.
Respirei fundo.
— Esse não era o acordo.
— Você não assinou nenhum contrato — ele deu uma risadinha — Você deveria começar a deliberar mais antes de tentar me passar a perna. Boa sorteeee.
E a criatura sumiu, me largando em uma floresta equatorial — é, errei na primeira suposição — cheia de armadilhas.
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