Equilibrium
27 Capítulo 26 - Primeiro sangue
Filho da puta.
Se bem que era muita ingenuidade da minha parte em acreditar que tudo iria sair como planejado. A vida não é tão boa assim.
Nem dava para ver muita coisa, eis o problema das florestas ombrófitas. Só me restava rezar para que Trivia não enxergasse no escuro porque eu, a filha de Nix, certamente não tinha visão felina. Eu devia ter burlado as regras e escondido Idia na mochila. Hermes tinha trapaceado, então ele nem poderia reclamar.
Suspirei, resignada. Não senti confiança em dar um passo para frente. Conhecendo Hermes, ele não colocaria armadilhas logo de cara — Qual seria a graça se minha cara explodisse no primeiro tempo da brincadeira? — mas nunca se sabe.
O jeito era seguir o plano lá mesmo. O adicional era um cenário com armadilhas mais sofisticadas, risco de animais silvestres — Leopardos, um monte de primatas, sucuris famintas e talvez uma zebra poderia me pisotear até a morte. Além disso, comecei a me sentir meio idiota, não pensei em determinar um prazo com Hermes. Quanto tempo levaria para Trivia me encontrar no meio de uma floresta? E se ela não encontrasse e sei lá, fosse engolida por uma sucuri no meio do caminho ou morta por uma armadilha, eu ainda teria que pegar a cabeça dela para o jogo acabar?
Eu esperava que não. Se isso acontecesse, Hermes teria que notificar tanto Nix e Érebo. Vamos ser sinceros, eu jamais sobreviveria a um passeio no escuro com um monte de armadilhas e bichos.
Rezei para Trivia realmente ser uma criatura eficiente. Mas não tanto.
Então, dei continuidado ao plano. Sentei a bunda no chão, abri minha mochila e tirei o galão de sangue e minha maquiagem — Na verdade, maquiagem da Layla, usualmente não uso base porque, sei lá, a sensação é esquisita. Meu conjunto de maquiagem se resume. a batons vermelhos e roxos. Mas bem, quem se interessa pela descrição da minha maquiagem nesse momento.
A intenção era parecer morta. A base pálida á prova de água, principalmente lançada nos meus lábios, dava um efeito bem convincente em um cenário iluminado. Mas, mais uma vez, não dava para ter certeza da extensão dos poderes dela.
No fim de contas, a vassoura não foi muito útil, tive que dar um enterradinha nela porque Trivia iria realmente ficar desconfiada se visse aquilo. No mínimo, iria pensar que sou pirada — O que não era tão mentira assim. Enterrei o galão também. Tinha pensado em simplesmente esconder ele na mochila, mas ela poderia achar a mochila antes de mim dependendo da direção escolhida. Amassei o treco para ter o menor volume possível e enterrei. Joguei algumas folhas por cima da região.
Depois disso, veio a parte nojenta. Despejei uma boa parte do sangue no chão, formando uma poça bem na região que escondia as coisas. A outra parte do sangue, llancei na direção do meu pescoço e espirrei um pouco no meu rosto.
Enfim, deitei no meio da poça com a adaga na minha mão.
Gosto de chamar esse plano de Plano Loki — Sim, irônico visto que o próprio Loki me enfiou na floresta — da Marvel. O velho truque de se fazer de morto.
Com a jaqueta larga que eu usava, dificilmente Trivia iria notar algum movimento de respiração e caramba, todo aquele sangue era muito convincente. Ela iria dar pulinhos de alegria pensando que alguma armadilha de Hermes ou algum bicho fez o trabalho por ela.
Então, assim que ela se aproximasse, minha adaga iria ficar íntima da garganta dela. Ela nem iria esperar por isso. Também desenvolvi um plano paralelo para garantir que ela não iria me decapitar com alguma arma de longo alcance: Quando desse para ouvir passos, iria movimentar as pálpebras levemente, o suficiente para fazer uma checagem de armas.
Caso alguma lança ou foice estivessem por perto, bem, eu lançaria a adaga. Um pouco mais complicado, mas ninguém espera que defuntos saiam jogando coisas afiadas, então a chance de sucesso era alta.
Não era a coisa mais honesta do mundo dependendo da perspectiva de quem vê. O povo acha bonito guerra com monte de gente aleatória morrendo por um bando de cara que nem conhecem. Nah, na minha visão, o que eu planejava fazer era bem mais prático — Uma única baixa.
Não era a coisa mais cênica do mundo. Uma luta final de feiticeiras poderosas daria um cenário bem mais emocionante que uma garota se fingindo de morta. Mas não foi tão fácil como vocês estão pensando, o sangue de açougue estava coagulando encima e embaixo de mim, minhas roupas estavam grudendas e acima de tudo, fedia para cacete. Quase virei vegetariana depois daquilo.
E também tinha a necessidade de ficar em alerta, animais silvestres poderiam achar aquele fedor atraente e me considerar a janta. A cada farfalhada nas folhas, eu semiabria minhas pálpebras para verificar se não era um leopardo indo na minha direção. Meus pensamentos eram um coro de "Por favor, eu não quero matar nenhum bichinho, por favor, por favor" para qualquer divinidade que estivesse de plantão.
Felizmente, nenhum bicho achou o cheiro atraente. Teve um momento muito trágico em que senti algo frio e comprido deslizando pelas minhas pernas — uma cobra, aposto — e tive que me manter imóvel. Acho que foi o ápice do meu alto controle. Era diferente de quando é a Idia-jararaca bancando o bracelete porque aquilo poderia ser uma sucuri me confundindo com carcaça.
Mas fiquei imóvel e a cobra, que no fim não era uma sucuri, seguiu o seu destino.
E passei horas e horas assim. E eu nem podia tirar um cochilinho.
Quando eu estava prestes a chegar na conclusão que aquilo não iria acabar naquele dia, ouvi passos. Certamente passos humanos no meio da folhagem. O mais lentamente possível, ergui minhas pálpebras bem pouquinho.
Decepção, esse foi o resumo do que senti. Trivia era definitivamente uma praguinha que gostava de trabalho tercerizado porque quem estava ali era um homem, especificamente o mesmo coitado que instalou os aparelhos na casa de Hermes. Vendo pelo lado positivo, era um homem com duas facas curvas horrorizante — Aí você se pergunta: Qual é o lado positivo disso, tia Chris? Bem, não eram duas lanças.
"Talvez Trivia tenha nascido homem dessa vez", nunca li nada sobre o mecanismo da reencarnação, mas acho que podia ocorrer. Inclusive, podia ter sido uma caso de tradução incorreta, algum historiador descendente de deuses trocando feiticeirO por feiticeirA. Tosco, mas vai saber.
Também tinha a hipótese do cara realmente ser só um contratado.
— A vida é muito boa — ele deu um risinho quando me viu caída no chão.
Pobre iludido.
Então, ele se aproximou. Hesitei por dois segundos, mas caiu a ficha que mesmo não sendo a Trivia, o cara ainda tinha poderes e era uma ameaça bem maior que eu.
Melhor a mãe dele chorando do que a sua.
Um passo, dois, três. No alcance no meu braço.
Me inclinei rapidamente e girei a adaga em um arco na direção da garganta dele — Esfaquear o peito era arriscado em uma situação de adrenalina, daria para prender a adaga em uma costela ou no esterno acidentalmente. Na barriga, não era uma garantia de morte imediata e se o cara sobrevivesse, poderia utilizar seus poderes nos momentos finais.
Segundos depois, eu estava coberta de sangue, só que agora quente.
Era surreal. Eu tinha matado um homem e a única coisa que passava pela minha cabeça era como o cheiro de sangue humano era mais forte do que o de sangue animal. Mais ferroso.
Acho que eu queria vomitar.
Ouvi um barulho de palmas e virei para trás. Pelo visto, Hermes tinha gostado do espetáculo.
— Inesperado — Hermes riu — para ele.
Olhei para o cadáver caído do meu lado. É, inesperado.
— Me dê a adaga — falei. Eu precisava dar o fora dali rápido.
— Tá lá em casa. Arranque a cabeça dele primeiro.
— Você está de brincadeira comigo.
Ah, não, não, não.
— Era parte do acordo — ele sorriu igual um maníaco — Sem cabeça, sem adaga.
Vamos lá, você chegou até aqui, pensei, O cara já está morto mesmo.
Mas isso não deixava a coisa menos brutal. Resignada, suspirei e me abaixei do lado do corpo. Era tão estranho como de repente uma pessoa deixava de ser alguém e virava só um corpo imóvel. Acho que esse pensamento era porque eu estava um pouco chocada, nunca tinha visto nada morto além de peças anatômicas.
Cheiro de sangue que você tirou é pior do que formol.
Virei o corpo para frente. Era um homem jovem, aparentava ter uns 25, mas podia ter mais do que isso como descendente de deuses. Era moreno, tinha cabelo cacheado e olhos castanhos paralisados em surpresa eterna.
Bem, você deveria saber que agir contra uma feiticeira poderosa reencarnada seria uma má ideia. Pelo menos não virou um gambá.
O pensamento que o cara praticamente se suicidou por burrice era mais confortante.
Enfim, foi nojento e brutal. Aparentemente, eu não tinha talento para decapitação já que em determinado momento, estava tendo que fazer movimento para tentar serrar o osso do pescoço.
— Isso está sendo pior que a decapitação da Mary Stuart — Hermes comentou — Acredite, nunca pensei que iria ver algo mais incompetente do que aquele carrasco.
Ergui a adaga e desci com força. A parte restante do pescoço descolou.
Ai, eu iria acabar vomitando. Puta que pariu.
— Aleluia, pensei que iria ter que trazer uma faquinha de serra.
Joguei a maldita cabeça nele.
— Ai, que desrespeito com os mortos — ele pegou a coisa no ar e jogou pra longe.
Ah, a hipocrisia.
A criatura estralou os dedos e nós estávamos de volta na casa dele. A coisa foi tão rápida que comecei a me sentir um pouco de tontura. Encostei as costas na parede e fechei os olhos. Que dia.
Que eu não acabe essa merda de dia caída no tapete.
Hermes foi para a cozinha e ouvi o barulho do armarinho da pia sendo aberto. Aquilo só podua ser brincadeira com a minha cara. Um tempo depois ele voltou com uma faca normal.
— Sério? — Revirei os olhos.
Ele estralou os dedos de novo e a faca começou a emitir algum tipo de névoa preta. Olhar aquilo girando e dando rodopios me deu dor de cabeça, então olhei para o teto. Quando finalmente abaixei a cabeça, vi a verdadeira forma da adaga.
A lâmina era feita de algum metal prateato e tinha uma forma incomum, com duas ondulações como uma ampulheta, mas a ondulação final terminava com uma ponta afiada. A parte central da lâmina tinha alguns símbolos intrincados. O punho era feito de algum metal preto — Ferro de cometa? Me lembrava o material dos punhais do faraó Tut. Também tinham padrões no cabo, mas eles eram retilíneos e pareciam conjuntos de losangos dentro um do outro. A guarda — o treco que fica entre o punho (cabo) e a lâmina, para quem não sabe — tinha o formato de uma lua crescente com runas cursivas.
Resumindo, a adaga era bonita e estava o tempo todo na cozinha dele. Talvez a criatura usasse para fazer churrasco.
Peguei a lâmina da mão dele. Pensei que iria sentir algum arrepio ou alguma sensação em especial, mas nada.
— É a porcaria certa? — Semicerrei os olhos.
— Eu não sou burro suficiente para sacanear Nix — Ele piscou — Você ganhou como acordado, a faca é tua.
Joguei a adaga de uma mão para a outra. Bom, parte 1 concluída.
— Ah, Christine? — Hermes passou a mão pelo cabelo.
Ah, aí vem. Só falta essa merda precisar ser alimentada com sangue de cabras virgens e albinas a cada lua nova para não evaporar.
— O que é?
— Você não quer tomar um banho e depois subir para o meu quarto.
Pisquei.
— Como é? — Porque eu tinha certeza que estava ouvindo errado. Eu estava com tontura e ânsia, ensopada de sangue e tinha acabado de matar alguém pela primeira vez.
— Você entendeu — O sorrisinho dele me despertava uma não tão inesperada vontade de meter a mão na cara dele — Você me deve.
Aí que a coisa desandou. Se eu não estava p da vida ainda, fiquei. Em primeiro lugar, não estava devendo nada para ele visto que a criatura não me deu a adaga de presente. Fiquei horas deitada em sangue e matei um cara para conseguir essa adaga. Fiz tudo isso de acordo com um plano exclusivamente meu e sem nenhuma participação dele. Eu não devia absolutamente nada e mesmo que devesse, eu não era prostituta para pagar em sexo.
É curioso como homens nos veem como bonecas infláveis. Eu estava quase vomitando ou empacotando na sala dele e Hermes queria transar comigo. A minha maldita camiseta estava ensopada de sangue humano!
Quando eu aprontava horrores com Hermes, cheguei até pensar por alguns instantes que ele me considerava "amiga" ou no mínimo, ia com a minha cara. Era decepcionante. Homens reclamam de friendzone, mas as mulheres estão em uma constante fuckzone na cabeça dos homens.
Sempre pensei que iria falar um monte ou socar a cara da criatura se alguém me falasse coisa parecida. O inferno era que eu não podia. Minha mãe não apareceu para me salvar quando fui mandada para o meio de uma floresta equatoria. Quem iria garantir que ela apareceria se Hermes tentasse algo contra mim?
Por isso, mantive minha expressão facial o mais inexpressiva possível e fui para a direção da porta. A adaga já estava comigo, nunca mais precisaria ver a cara daquele ser na minha vida.
Aí ele segurou meu braço.
Veja, eu já estava enjoada. Ele não deveria ter tocado em mim.
Meio que vomitei meu café da manhã em cima dele. Aproveitando a deixa, quando me inclinei, cravei acidentalmente a adaga na coxa dele, bem próxima de algo.
— Desculpa aí, não tô me sentindo bem — Fiz minha melhor expressão de inocência.
Ele fez um som nojo e se afastou de mim.
— Some daqui.
É, aparentemente não sou sexy depois de vomitar nele.
— Com prazer — sussurei e dei o pé.
Só quando a porta se fechou atrás de mim, reparei que a adaga estava coberta de sangue negro.
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