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34 Capítulo 34


Notas iniciais
Eu não sei o que achar desse capítulo, sinceramente não sei t-t

O quão rápido um coração pode bater por puro desespero?

Talvez devesse existir algo sobre isso no livro dos recordes. Talvez se eu tivesse alguma espécie de medidor, eu entrasse para a história pelo coração mais disparado do mundo ao estar parada a frente da porta de sua antiga casa.

Tudo estava como sempre esteve, porém um pouco mais velho. A casa era pequena e em um bairro modesto. A pintura estava verde, mas estava desgastada e com algumas pichações nas laterais, obra de algum dos adolescentes do bairro. Eu podia escutar uma música gospel sendo tocada de dentro da casa, minha mãe sempre ligava o radio em uma sintonia com músicas daquele tipo para cozinhar. Fazia cerca de cinco minutos que eu estava ali, parada, observando a porta de ferro e que estava enferrujada. Minha mente sofria ataques de lembranças que eu já havia enterrado no meu mais profundo inconsciente. Lembranças boas, mesmo que poucas, e lembranças ruins, sendo estas a maioria.

–Oh graças a Deus você ainda não entrou – Vanessa apareceu atrás de mim, dando-me um susto.

–O que faz aqui?! – perguntei em um tom baixo e preocupado, não era para ela estar lá dentro?!

–Papai me pediu “gentilmente” para ir a escola – ela disse fazendo aspas com os dedos e revirou os olhos – Mas eu fugi, eu prometi que não iria te deixar nesse momento não foi?

–Oh my God – murmurei e fechei os olhos com força – Eu vou fazer você se meter em uma encrenca e...

–Não lamente, eu quero estar aqui – Vanessa se aproximou e acariciou meus ombros – Vamos, seja forte agora, é o seu momento. Agora, toque a companhia.

Respirei fundo e minha irmã virou meu corpo em direção a porta novamente. Meu coração iria desfalecer a qualquer momento, machucando-se a cada batida violenta contra a minha caixa torácica. Mesmo tremendo, ergui a mão para tocar a companhia. Meus dedos pressionaram o botão rapidamente, produzindo um som antigo que já não existia mais nas casas mais atuais. Mesmo rápido, foi o suficiente para minha mãe abaixar o som, gritar um já vai e começar a se mover dentro da casa.

Naquele momento minha respiração acelerou e as minhas mãos começaram a soar. Eu queria que Jenny estivesse ali comigo, mas havia pedido horas antes que ela apenas me deixasse defronte a casa de minha mãe, sabendo que esse era o momento mais crucial e familiar que eu iria passar em minha vida. Não podia levar minha namorada, ela mal iria entender todos os berros que sucederiam aquele encontro. Então Jenny prometeria que ficaria por perto, procuraria um lugar agradável nas redondezas e estaria com o Peter.

–Pois não? – a mulher abriu a porta e foi educada sem nem ao menos olhar quem era.

Claro, porque assim que ela me reconheceu sua expressão fechou completamente. Aquela mulher, parada a minha frente, era apenas uma sombra do que Maria Luiza, minha mãe, havia sido. Seu rosto estava coberto por marcas da velhice. O cabelo estava descuidado e com vários fios brancos. Sua postura estava levemente corcunda, provavelmente de anos cuidando da casa apenas. Porém seus olhos azuis, idênticos aos de Vanessa, ainda me fitavam da mesma maneira cortante e superior de sempre.

–O que faz aqui? – ela exigiu saber rudemente – Vá embora!

–Calma mãe – Vanessa finalmente ficou ao meu lado, eu ainda estava um pouco em choque – Minha irmã veio em casa, ela merece ao menos um pouco de educação.

–Eu só tenho uma filha! – Maria Luíza exclamou veementemente.

Depois de tantos anos, depois de tantas superações, escutar aquilo ainda partia meu coração em pequenos fragmentos e era queimado em uma dor surreal. Abaixei o olhar envergonhada, como sempre fazia quando era criança e encarei minhas mãos. Eu sabia que iria sofrer, que iria chorar, então porque fazer isso? Não era melhor simplesmente dar a volta e correr para os braços de Jennifer?

Então eu seria uma eterna covarde, perseguida pelo meu passado.

–Eu preciso conversar com a senhora, não tomarei muito de seu tempo e nem planejo ficar – falei criando coragem de erguer meu olhar ao dela – Acho que me deve ao menos uma chance de conversa.

–Por favor, mamãe – Vanessa ajudou-me mais uma vez.

A mulher pressionou os lábios uns nos outros, formando uma linha dura e agressiva em seu rosto. Porém, ela deu dois passos para trás e se afastou da porta. Soltei um longo suspiro, sabendo que aquilo era apenas o começo. E eu já estava tão cansada! Vanessa me empurrou de leve, dando-me o resto da coragem que eu precisava para adentrar a casa. Ela veio logo em seguida, fechando a porta de ferro atrás de si.

A casa havia mudado. Tinha móveis novos, pintura diferente das minhas lembranças, mas ainda assim me era terrivelmente familiar. Maria Luiza nos guiou até a sala e sentou em uma poltrona. Os sofás novos – ou melhor, novos para mim, pois eram velhos já – eram de cor alaranjada. Sentei em um e Vanessa sentou ao meu lado, dando todo o apoio que eu iria precisar só de estar por perto. Nossa mãe lançou um olhar repreendedor em sua direção, mas Vanessa não se abalou em momento algum. Ao que parecia ela sabia lidar melhor com a megera mais do que eu.

–Diga logo o que você quer – minha mãe exigiu e cruzou os braços.

O que eu deveria dizer? Por onde começar? Porque eu não peguei algo sobre exorcismo na internet mesmo? Respirei fundo mais uma vez, passei a mão por meu cabelo e encarei mais uma vez a mulher a minha frente. Em algum ponto de minha vida, eu a amei imensamente. Em algum outro ponto, eu a temi fortemente.

–Eu sempre soube que você não me quis, mãe – eu comecei e pigarrei tentando por mais confiança em minha voz – Você sempre deixou isso claro o suficiente para mim, que mesmo sendo uma criança, entendia isso perfeitamente – ela continuou em silêncio, encarando-me friamente – Mas estou aqui para dizer que a senhora estava errada, e que eu te perdoo.

O choque das duas, minha irmã e minha mãe, foram enormes. Sim, o perdão. Nada tirava as coisas erradas que ela fez para mim. Nada iria apagar as marcas em meu pulso, mesmo que cobertas por minha tatuagem de pássaros. Maria Luiza ergueu-se rapidamente, olhando-me arfando como se estivesse passando por um turbilhão de emoções.

–Eu ser perdoada?! Por ter uma bastarda maldita? – ela vociferou as palavras, a mágoa ainda corroendo suas veias – Você nunca deveria ter existido. Meu único erro e personificado em você! É um castigo de Deus para mim desde o início!

–Sim, seu erro! Mas não meu! – se era para me jogar em uma briga, iria me jogar de cabeça dessa vez. Ergui meu queixo assim que consegui a atenção daquela mulher – Seu erro por ter cometido adultério no casamento. Seu erro por ter feito uma besteira. Mas não meu! Eu era apenas uma criança que foi posta nesse mundo sem saber de nada disso! Eu não te obriguei a fazer aquelas coisas, eu não estava lá sussurrando em seu ouvido como o capeta, como a senhora gosta de acreditar! – meu corpo começava a tremer lentamente – Eu posso ter sido uma consequência, mas não a causa disso tudo!

–E ainda vem desaforada em minha casa faltar com o respeito. Saia daqui! – Maria Luiza gritou irredutível – Eu não quero escutar mais nada dessa sua boca imunda! Você é uma maldita de uma pecadora! Como eu imaginei, vivi em um mundo promíscuo com outra mulher! Você é uma lésbica, uma decepção desde o princípio, uma doente mental por...

–Cala a boca mãe! – Vanessa gritou e se levantou, apontando o dedo para nossa mãe de uma maneira acusadora – A senhora tem de escutar tudo o que ela tem a dizer. Você abusou dela de todas as formas físicas e psicológicas possíveis. Você a fez querer morrer e por Deus, se fosse você a encontra-la naquele dia, você a teria deixado para a morte!

Aquilo a fez empalidecer e recuar um pouco. Tentei organizar os meus pensamentos, tentei criar estratégias para enfrentar o meu demônio. Mas de nada adiantava, então restava-me apenas seguir tudo o que meu coração magoado tinha a dizer.

–Eu a amava – revelei em um fio de voz – Você era a minha mãe, e tudo o que eu queria era ser aceita pela senhora. Por isso aguentava todo o maltrato, porque eu tinha fé de que um dia, um dia você me amaria de volta. Que eu poderia amar por nós duas e que assim Deus veria o meu esforço – as lágrimas começaram a preencher minha visão, parei para conter o choro – Mas nada do que eu fazia parecia bom o suficiente para a senhora. Quanto mais eu crescia, mais agressiva você o Antonio ficavam – Antonio era meu padrasto, pai de Vanessa – Então eu passei ter medo. Medo de vim para casa, medo de descer para o jantar. Medo de ficar em família. Você tem noção de como você estragou a minha autoconfiança? De como é viver na sombra de um medo de simplesmente estar em casa?

–Você não sabe o quanto estragou minha vida! A sua existência errada! – Maria Luiza tentou se defender – Você não deveria ter existido, foi um erro meu, admito. Mas todas as vezes que eu olhava para você, via o meu pecado encarnado. Todas as vezes que Antonio a via, lembrava-se do adultério. Você estragou a vida perfeita que eu tinha para mim! Você estragou o amor que Antonio tinha por mim!

–Não, a senhora fez isso – neguei com a cabeça, chorando em silêncio – Eu era apenas uma criança que não sabia nem o que era certo e o que era errado. Que foi ensinada a pensar que não existir era a melhor opção – limpei minhas bochechas molhadas, finalmente o quanto minhas mãos tremiam – Você sabe que tipo de monstro a senhora foi? Cruel e egoísta. Como conseguia fazer aquilo com uma criança e dormir a noite? Em ir para o culto e fingir que tinha a família perfeita?

–Não me julgue! Você não tem esse direito! – Maria Luíza gritou, mas também estava chorando – Você é a culpada! Você!

–Está apenas transferindo a sua culpa para mim para poder fugir de tudo o que fez. Nunca assumiu a responsabilidade de seu erro – neguei com a cabeça e a fitei com toda a dor que meu coração carregava – Eu tinha medo de você mais do que do próprio demônio. Ter medo do inferno? Para que se minha vida era assim já aqui quando viva? – neguei com a cabeça – Agora eu vejo a sua amargura, a sua vida aprisionada em servir o marido e vejo, principalmente, o quanto você é fraca.

–CALE A BOCA!

Ela avançou em mim e antes que qualquer coisa pudesse ser feita, desferiu um tapa em meu rosto. Mas não foi apenas isso, aquela mão pesada partiu para cima de meu corpo, atingindo tão forte quanto possível o meu braço e a minha cabeça. Imagens de muitas surras passaram por minha mente por questão de segundos. Mas eu não era mais aquela criança, eu não deveria ter mais medo daquela criatura. Então eu, pela primeira vez na minha vida, reagi. Em um movimento rápido, segurei o pulso daquela senhora e o girei empurrando com força para baixo, um golpe de imobilização que obrigava o “inimigo” a abaixar o corpo. A dor e a surpresa dela a colocaram de joelhos na minha frente. Agradeci internamente por todo o treinamento que as filmagens me fizeram ter.

–Nunca mais ouse encostar a mão encima de mim ou eu perderei todo o resquício de respeito que tenho por você, por sem minha mãe, e eu revidarei com o dobro de tudo o que a senhora me fez passar – ameacei prontamente, tão séria em minhas palavras que a fez arfar de medo.

Eu a soltei e ela levantou-se rapidamente, afastando a passos largos. Vanessa me fez olhá-la ao segurar o meu rosto delicadamente. Eu podia sentir meu lábio latejado de dor, enquanto minha bochecha quente espalhava uma sensação de intenso formigamento por causa do tapa forte que havia recebido.

–Só tenho mais algumas coisas a dizer – prometi e afastei um pouco de minha irmã, fiquei em pé para assumir uma postura orgulhosa – Você estava certa, eu não devo julgá-la pelos pecados, apenas Deus e tem esse direito. Mas assim como Ele também ensinou, eu devo perdoá-la – fechei a mão em punho – Você fez uma criança ficar sem esperanças ao ponto de tentar se matar. Mas ainda assim você é minha mãe e eu preciso perdoá-la para superá-la. A partir de hoje, você também não irá existir em minha vida, pois eu cresci não por sua causa, mas por tudo o que eu conquistei fora daqui. Eu a perdoo por ter sido fraca, egoísta e mesquinha, eu a perdoo porque acredito que um dia você poderá se redimir, não comigo, mas com Vanessa, sendo uma mãe de verdade, não esse ser pequeno. Eu superei você. Superei o seu ódio. Eu estou vivendo e vivendo por todas as minhas escolhas, certas ou erradas, estou vivendo cada momento com tudo o que eu tenho, porque nunca mais quero cair naquela escuridão novamente. Eu me amo, do jeito que eu sou, tive de crescer muito rápido, amadurecer para poder aguentar todas as rasteiras de minha vida. Mas agora? Eu tenho de agradecer por tudo, por ter me tornado forte do jeito que eu sou.

A mulher nada disse. Ela não podia, pois estava assustada, incrédula. Vendo-a daquele jeito, tinha vontade de rir. Como tive medo por tanto tempo daquele ser? Respirei fundo e balancei a cabeça tentando afastar esses tipos de pensamentos, eu precisava perdoá-la, esquecer todo o ressentimento e rancor, para que eu pudesse crescer sem o meu passado me atormentando.

–Acho que disse tudo o que tinha de dizer – disse e olhei para Vanessa, ela chorava copiosamente, mas sem fazer muito barulho. Abri um sorriso carinhoso para ela – Venha me ver amanhã e...

–Minha filha não irá ver você! – Maria Luíza gritou apavorada – Você não vai leva-la para esse caminho de...

–Eu vou dizer apenas uma vez! – gritei firmemente, em um tom ameaçador – Se você ousar tentar impedir que Vanessa entre em contato comigo, eu juro que vou procurar até mesmo o Papa para poder dizer tudo o que você fez! – apontei um dedo para o meu rosto – Está vendo esse machucado que você fez? O que você acha que vai acontecer quando eu tirar uma foto e postar na internet que foi você quem o fez? Acha mesmo que ganharia um processo quanto a mim? – sim, eu estava mesmo um pouco assustadora naquele momento – Eu disse que cresci e fiquei forte, não ouse me desafiar!

–Filha, por favor, não faça isso – ela pediu olhando diretamente para Vanessa.

–Ela é minha irmã – Vanessa negou com a cabeça, encolhendo um pouco – E é alguém que eu admiro, eu não quero perde-la mamãe...

–Se for atrás dela, irá me perder! – nossa mãe ameaçou.

–Você sempre foi difícil de lidar, mas eu sempre te amei e obedeci como eu pude – Vanessa disse com certa calma, mas ficando um pouco insegura – Por favor, mãe, não faça disso algo tão ruim.

–Eu não vou permitir que você vá pelo mesmo caminho que essa... Essa criatura!

–Pois você vai deixar ela fazer as escolhas que quiser! – eu a interrompi e fitei diretamente a Vanessa – Você pode contar comigo para o que for Van, você tem o meu número pessoal. Se quiser um dia pensar em morar lá nos Estados Unidos comigo, pode considerar essa possibilidade super válida.

–Eu sei Michelle, eu sei disso agora – Van soltou um longo e cansado suspiro, alternou os olhares entre mim e minha mãe – Mas eu não vou morar com você agora, eu ainda acho que as coisas podem melhorar um pouco por aqui. Ainda há esperanças – Vanessa sorriu docemente – Mas amanhã irei vê-la sim, ok? – olhou para a nossa mãe – Certo mãe? Ou eu devo ir embora de vez de casa?

Maria Luiza ficou vermelha de raiva, percebendo o quanto estava encurralada. Ela bufou alto e saiu correndo para o quarto, batendo a porta com força. Olhei para a minha irmã e depois de poucos segundos de silêncio estávamos rindo daquela atitude infantil. Puxei minha irmã para um longo e forte abraço. Nossa, como eu me sentia mais leve! Era como se o mundo estivesse abrindo todas as portas para mim, como se eu estivesse flutuando!

–Obrigada por estar aqui comigo – agradeci sincera.

–Eu não poderia te deixar mais uma vez, eu sempre corria nas horas das brigas – Vanessa disse com a voz embargada.

–Ei, tudo bem, já passou – beijei a testa dela – Eu te perdoo também, está bem?

–Distribuindo perdão fácil assim?

–Estou me sentindo uma pessoa amável hoje.

Rimos e nos abraçamos mais uma vez. Vanessa hesitou em me soltar, mas me acompanhou até a porta.

–Talvez – ela disse hesitante – Talvez eu possa ir fazer a faculdade lá nos Estados Unidos, o que acha?

–Que você vai ter uma irmã coruja para te bancar lá com um maior sorriso no rosto... E que vai conhecer alguns astros nesse meio tempo. Espero que vá me visitar antes da faculdade, que tal nas férias? Eu provavelmente estarei em gravações de Eternal, mas você poderia acompanhar de perto e...

–Oh meu Deus, eu iria conhecer o Zack, o Ian e o Oliver! – ela exclamou quase gritando feito uma fangirl.

–Não sei se você sabe, mas eles são meus amigos sabe? Assim como o Bradley Cooper e algumas outras figuras nada famosas – disse jogando o cabelo para trás, em uma típica atitude de alguém que estava se gabando.

–Definitivamente vou te ver nas férias!

–E amanhã.

–E amanhã – Vanessa concordou com um sorriso – Ligue para a sua mulher, aposto que ela deve estar nervosa para saber como você está.

Ri e mandei uma mensagem para Jennifer avisando que ela já poderia vim. Fiquei sentada com Vanessa na frente da porta, como fazíamos quando éramos crianças, e ela ficou me contando sobre o colégio e seus amigos. Porém não demorou nem dez minutos para Jenny aparecer correndo na calçada, aproximando-se esbaforida.

–Está tudo bem? – ela perguntou ofegante.

–Melhor impossível – garanti sorrindo.

–Você... – ela olhou para a minha boca – Está machucada! – seu olhar ficou possesso de raiva – O que aquela mulher fez?! Eu vou...

–Vai nada – levantei e a abracei – Estou bem, estou leve – salpiquei um beijo em seus lábios – Vamos para o hotel? Preciso descansar um pouco. Juro que quando estivermos lá eu vou te contar tudo o que aconteceu.

Jenny semicerrou os olhos desconfiada, mas nada falou, soltou a respiração e segurou em minhas mãos com delicadeza.

–Ei cunhada – Vanessa cumprimentou em português – Ela parecia que ia matar um.

–Ela disse oi cunhada – traduzi para Jenny que sorriu, ocultei a parte dela parecer uma assassina.

–Diga para ela ir nos ver amanhã! – Jenny pediu.

–Ela vai amor, eu já fiz o convite. Já podemos ir aliás.

Jenny se despediu de Vanessa que ficou toda boba e me levou até onde Peter estava com o carro. Quando passamos pela frente de nossa casa para sair da rua, eu dei uma última olhada para o meu “passado”. Estava deixando para trás todas as minhas feridas, todas as minhas mágoas. As cicatrizes continuavam, é claro, elas eram a prova viva de minhas batalhas. Mas era apenas isso, feridas que sararam e deixaram uma pequena deformação, elas estariam ali agora para me lembrar da coragem que eu tive de dizer tudo o que eu sentia para a minha mãe. De como eu a superei. De como eu escolhi viver a minha vida e não apenas sobreviver com um passado inacabado. Deitei minha cabeça no ombro de Jenny e chorei em silêncio, um pranto que mesclava a felicidade de ter me superado com as lembranças amargas que eu tive, mas que seriam a última vez que iriam me afetar.

–Estou orgulhosa de você, Michelle – Jenny murmurou.

–Estou orgulhosa de mim mesma – afirmei convicta.

A sensação que eu tinha era que depois de tantas batalhas eu tinha vencido, finalmente, a guerra.

Notas finais
E o próximo capítulo é o último. Nossa, nem acredito nisso! t-t