Equalize
33 Capítulo 33
Notas iniciais
–O que vamos fazer enquanto sua amiga não liga?
Jenny perguntava o mais esparramada na cama possível. Seu cabelo negro espalhado pela fronha branca que cobria a cama, suas pernas mal cobertas pelo seu shortinho. Eu realmente estava dando uma boa checada em minha mulher, pensando se realmente deveríamos sair daquele quarto de hotel ou não.
–Eu posso até imaginar as posições que estão passando por sua mente agora, Mitch – Jenny comentou arqueando uma sobrancelha.
Prontamente fiquei vermelha, mas não escondi o sorriso malicioso que era o espelho do que estava nos lábios de Jenny. Aproximei da cama, já que havia levantado para jogar fora toda a bagunça que tínhamos feito na noite anterior. Engatinhei lentamente até ficar sobre o corpo de Jenny, seu sorriso ia sumindo pouco a pouco ao compasso que seus olhos verdes iam ficando obscurecidos, denunciando a vontade crescente dentro dela.
–Estamos em minha terra natal – comentei em um tom rouco, inclinando o rosto para morder a bochecha dela – Mas faz muito tempo que não venho aqui – mordi o queixo dela lentamente – Então provável que eu vá me surpreender um pouco também, como uma turista – capturei o lábio inferior dela e o suguei levemente – Ainda é cedo, podemos passear um pouco – rocei o meu nariz no dela e finalmente a fitei – Quer se aventurar um pouco comigo?
–Depois disso tudo eu iria até o inferno com você – Jenny disse em um tom acima de um sussurro.
–Não amor, mais tarde vai ser o nosso paraíso – provoquei em uma voz rouca.
Mas antes que ela me agarrasse eu levantei bruscamente com um sorriso travesso. Apenas avisei que iria tomar banho primeiro, pois sabia que se começássemos algo só iriamos terminar quando nossos corpos estivessem extremamente cansados. Tomei um rápido banho e optei por uma roupa confortável, um vestido que media um pouco acima de meu joelho branco e tomara-que-caia, pegando uma jaqueta de couro para usar quando anoitecesse. Peguei um chapéu clarinho e feminino que lembrava muito uma boina para usar e óculos escuros. Estávamos no Brasil e ninguém sabia disso, nenhum paparazzo estaria à espreita esperando um furo, então teríamos mais liberdade de nos movimentar em uma cidade grande e estrangeira. Apesar de que, depois do lançamento de meu filme e, até onde eu sabia, a transmissão de Eternal dublado em um canal de TV aberta aqui no Brasil, minha fama começava a crescer um pouco mais no país do “samba” e do “futebol”. Eu odiava o quanto resumiam o Brasil a festa e esporte, quando era muito mais do que isso.
Jenny também ficou um pouco mais desleixada. Pegou uma calça jeans extremamente justa, uma blusa com algo que lembrava riscos e manchas de tinta como estampa, com um decote moderado em V e também um pouco justa, um moletom preto. Ela pegou apenas óculos escuros, prendeu apenas as mexas frontais na parte de trás da cabeça em tranças, que alias eu que fiz, deixando um penteado simples e bonito.
Assim que saímos ligamos para Peter, nosso segurança da vez, vim nos pegar. Ele também seria nosso motorista, apesar de que Jenny reclamou um pouco. Ela queria alugar um carro esportivo e dirigir por si mesma, mas eu neguei veementemente. Estávamos em outro país, um cujo transito era infernal e desconhecido para ela. A americana não saberia ler as placas e iria se perder facilmente.
–Para onde iremos? – Peter perguntou, usando de um inglês arranhado, afinal ele era de uma agência brasileira contratada pelo Kevin.
–Qual sua sugestão? – perguntei inclinando para frente, estávamos dentro de um carro sedan preto, na parte detrás dos passageiros.
–Depende do teor do passeio – Peter sorriu simpático – Cultural, aventureiro ou romântico?
–Um pouco de cultural e romântico? – Jenny ponderou fintando a mim.
–Que tal o Museu do Ipiranga? – Peter sugeriu.
–Ótimo! Eu acho o Parque da Independência lindo! E tem o Museu em si... Será que está aberto? – falei animada.
–Se não estiver, eu tenho os meus contatos. Agora podem relaxar, se estão sobre a minha guarda, estão na guarda de um anjo!
Ri do jeito do Peter e recostei no banco. Senti o braço de Jenny envolver meus ombros e me puxar para mais perto. Inclinei o rosto o suficiente apenas para dar um selinho, mas não ficamos namorando. A todo lugar importante que passávamos, eu ou Peter dávamos de guias turísticos e explicávamos para Jenny sobre o ponto. Peter era divertido e bem articulado em sua fala, às vezes cantarolava muito mal a música que tocava na rádio, arrancando risinhos divertidos de Jenny que não entendia uma palavra da música.
Felizmente quando chegamos ao Museu do Ibirapuera, ou o Museu Paulista, estava entrando um grupo de turistas que seriam guiados por um estagiário de alguma universidade. Peguei a mão de Jenny e simplesmente a arrastei antes que perdêssemos a chance. Peter acompanhava de longe, finalmente ficando em silêncio e com os sentidos apurados para caso precisássemos dele. Apesar de seu porte simpático, o homem era mesmo um profissional. Um cara de pele morena, cabelos escuros e olhos castanhos claros. Charmoso a sua maneira. Tudo o que a guia, uma garotinha de 18 anos, loira e com sardas no rosto, falava eu traduzia para Jenny em sussurros baixos para não atrapalhar o grupo.
O passeio em si foi muito bom e bonito, o único desconforto foram os olhares de uma senhora e de um casal de pais que estavam com os filhos. A senhora nos fitava constantemente como se reprovasse a mão de Jenny entrelaçada a minha. Os pais afastavam os filhos adolescentes de nós duas. Se ficamos abaladas? De inicio eu fiquei bastante desconfortável, mas logo Jenny ficava fazendo gracinhas, beijando meu pescoço sempre que a senhora nos olhava, ou mostrava a língua infantilmente para o casal. Ela estava fazendo pirraça da situação, o que me fez rir e perceber que era besteira ligar para opiniões alheias de totais estranhos, ainda mais quando eu estava em uma relação tão intensa e estável.
Depois dali levei Jenny para um tour pelo parque da Independência, contando um pouco da história brasileira de uma maneira bem dramática, afinal de contas, era uma atriz! Ninguém nos reconheceu e isso era tão incrivelmente bom! Pensar que poderia passear com Jenny por qualquer lugar de mãos dadas sem ter medo de ser abordada por qualquer jornalista desagradável por só está interrompendo um momento nosso. Não ter de fingir sorrisos ou me preocupar com pequenos detalhes. Minha mente estava leve apenas por pensar que estávamos em um encontro como um casal normal, como duas pessoas apaixonadas que estavam curtindo o tempo fazendo nada e ao mesmo tempo fazendo tudo que queríamos.
Namoramos, nos abraçamos e brincamos de pega-pega, ou melhor, pega e agarra. Se ela me pegasse poderia me dar um beijo do jeito que quisesse. O que foi um beijo bem escandaloso para o lugar público que estávamos, se bem que era um prêmio válido, já que eu corri bastante e dei trabalho de ser pega. No fim, estávamos rindo caídas no gramado verde, afastadas do grande movimento e debaixo de uma enorme árvore curtindo uma sombra e vento fresco.
–Eu estou amando isso aqui – Jenny comentou, estava deitada de costas, olhando para cima e para o nada, mas tinha um sorriso bobo e sonhador – Fazia muito tempo que eu não ficava despreocupada dessa forma.
–Podemos fazer isso mais vezes – comentei deitando de bruços, ficando apoiada sobre meu cotovelo para poder olhar para a mulher mais linda desse mundo – Quando entrarmos de folga, ou férias, ou tivermos um tempinho livre. Fugir em segredo para algum lugar, contratar um cara legal como Peter que sabe manter a distância, brincar e rir de qualquer coisa e de tudo ao mesmo tempo.
–Gosto desse plano – Jenny virou o rosto para mim sorrindo daquele jeito que sempre faria meu coração disparar – Gosto de qualquer plano que envolva você – e então ela riu daquela maneira rouca e gostosa que só ela sabia fazer – Se fosse um tempo atrás e me dissessem que eu estaria dizendo algo desse tipo, eu estaria rindo da pessoa e a chamando de louca.
–Então você não se arrepende ou fica apreensiva de alguma forma? – perguntei pensando alto, mordendo o meu lábio inferior logo depois.
–Como assim? – Jenny franziu o cenho confusa.
–Não sente falta de sua antiga vida? Digo, da liberdade que você tinha nela. Veio ao Brasil por minha culpa, está cuidando de mim por uma boa parte do seu tempo, tem de se preocupar em como se comportar publicamente porque está com compromisso sério – tentei explicar o que se passava em minha mente, mas eu não estava nervosa, e sim calma, eu sabia que ela me amava e tudo o que eu queria era compreender essa nova parte dela, pois éramos amigas antes de todo aquele sentimento sufocante chamado amor – Não sente falta?
Jenny me fitou pensativa, dei-lhe o tempo de formular a resposta. Ela sentou e me chamou com um movimento de cabeça, logo eu estava em seu colo, sentada de lado por causa de meu vestido. Os braços dela envolveram minha cintura suavemente, apenas me segurando e não abraçando.
–Sabe, de certa forma é essa a ideia de liberdade que muitos tem – Jenny começou de maneira suave, fitando-me o tempo todo – De poder fazer o que quiser na hora que quiser. Muitos tem medo de compromisso por ter medo de perder essa possibilidade – acenei com a cabeça e senti os dedos dela brincando com uma mexa de meu cabelo – Mas quando eu comparo o antes e o agora, eu vejo que tenho tudo o que eu preciso e vejo o quanto é paradoxo todo esse sentimento. Eu quero cuidar de você, eu quero estar sempre com você, então se estou fazendo o que eu quero eu não estou sendo livre? Mas por outro ponto de vista, eu estaria sendo dependente de você, sendo submissa a esse sentimento poderoso que me domina, então eu estaria presa a ele? – Jenny deu de ombros e abriu um sorriso tímido – No fim das contas, você se tornou meu tudo. Se eu voltar para a minha antiga vida só restaria um grande vazio dentro de mim. Você me completa, por assim dizer. Eu tenho medo as vezes, seria idiota se não dissesse que não, porque é forte, é poderoso e como eu já disse, me controla. Porém então eu escuto sua voz, vejo seu sorriso ou simplesmente penso em você, então sei que tudo está no seu devido lugar e que sempre vou sentir esse friozinho na barriga quando se tratar de Michelle Lopez. Acho que é isso que é amar alguém não é? Aceitar o paradoxo, viver nele até sentir seus ossos quebrarem pelo peso que ele é e então flutuar por se sentir livre.
Jenny não era dada a grandes discursos, então sempre quando ela fazia algo desse tipo eu me emocionava verdadeiramente. Eu estava com os olhos marejados e o coração batendo freneticamente em meu peito. Ele iria explodir, eu tinha certeza que sim! Fiz a única coisa que me era cabível no momento. Eu a agarrei e abracei com todas as minhas forças, em minha mente, essa era uma forma de me convencer que nunca iria deixa-la escapar para longe de mim. Que a teria para sempre, mesmo que esse para sempre algum dia tivesse fim. Viveria cada dia de forma intensa, pois era isso o que aquele amor pedia, para ser vivido a cada minuto. Jenny nada falou mais, apenas se agarrou a mim e respirou com a mesma dificuldade que eu tinha, naquele momento qualquer romântico poderia dizer que até mesmo nossas almas estavam se tocando. E não era preciso um beijo super bem dado, ou a melhor noite de amor, para que isso acontecesse. Bastava que estivéssemos assim, uma perto da outra, sentindo o calor que irradiava da outra, para que nossas almas e sentimentos se intercalassem como um só. Era nesses momentos que eu tinha certeza de que ela era a mulher de minha vida.
O clima foi completamente quebrado quando o meu celular começou a vibrar. Jenny afastou um pouco e eu soltei um longo suspiro. Eu teria ignorado completamente aquele aparelho irritante se não fosse a minha memória acusando que poderia ser algo importante. E o era. Assim que eu peguei o celular vi na tela o número de Duda. Soltei um longo suspiro tentando controlar minhas emoções antes de atender a chamada.
–Alô meu anjo! – atendi com um sutil sorriso.
–Demorou, estava ocupada com sua namorada super famosa? – Duda perguntou em português, provavelmente esquecendo de usar o inglês, mas para uma chamada particular como aquela não tinha importância.
–Pra falar a verdade sim, você acabou de ser empata foda – provoquei também falando em português para que Jenny não entendesse propositalmente. Ela arqueou a sobrancelha ao notar o tom de minha voz e eu desviei o olhar.
–Eu vou pra o inferno por estar imaginando a Jenny Summers transando com minha amiga – Duda resmungou do outro lado me fazendo rir – Ao menos me tire a dúvida, ela é a ativa da relação?
–Relativas – respondi e fiquei vermelha – Trocamos para não cair em um cotidiano – fiquei mais vermelha ainda e pigarrei antes que Jenny perguntasse alguma coisa – Mas então, alguma novidade?
–Sim! Está vendo, me distraiu com suas ideias pervertidas! – revirei os olhos – Falei com a Vanessa, como prometi, inventei uma história de que alguém entrou em contato comigo e que queria encontra-la. Ela não pareceu muito convencida, mas lembrou de que eu sou uma advogada respeitada e não estaria armando para cima dela. Porém tudo o que eu consegui foi que ela estaria com o namorado no Parque do Ibirapuera e que poderia encontrar essa pessoa lá, que não queria estar sozinha encontrando um desconhecido.
–Foi esperta na verdade – comentei e mordi o meu lábio inferior – Eu estou no Independência. É perto... Acho que vou encontra-la agora, antes que perca a coragem.
–Olha, qualquer coisa me ligue ok? Eu vou estar para você a qualquer momento – Duda garantiu – Sei que os anos passaram e que você mudou, mas você sempre vai ser a minha nerd favorita ok?
–Eu também te amo, sua boba – disse emocionada.
Nos despedimos, desliguei e soltei um longo suspiro. Jenny endireitou o corpo e fez um carinho em minhas costas, como se estivesse dizendo que estaria ao meu lado e que me daria o tempo que fosse necessário. Como não amar aquela mulher? Levantei e a ajudei a levantar também.
–Vanessa está aqui perto com o namorado – expliquei – Duda apenas avisou que ela poderia encontrar com alguém que queria conversar com ela – contei apenas essa parte da conversa no celular – Quero encontra-la agora, não quero perder mais tempo.
–Vou chamar o Peter e iremos ok?
Apenas acenei com a cabeça. Quando ela se afastou foi quase que automático o nervosismo bater em minha mente. O que eu sabia sobre minha irmã agora? Nada, absolutamente nada. Era apenas três anos mais velha que ela, porém nossa relação sempre foi um pouco conturbada por causa de nossos pais. Eu tentava fazer as coisas certa como irmã mais velha, ao menos isso eu tinha de fazer certo, era o que eu tinha em mente na época. Então passávamos horas brincando, eu ensinava o seu dever com toda a paciência e ficávamos assistindo desenhos juntas. Mas então vinha as crises de minha mãe, quando apanhava minha irmã fugia para o seu quarto e eu agradecia mentalmente, não queria que ela visse aquelas cenas. Porém ela não tardou a aprender que sempre que quisesse alguma coisa, bastava me usar para isso. Quando se encrencava? Colocava a culpa encima de mim para poder se livrar. Eu a odiava nesses momentos e fraquejava em meu amor, mas logo ela vinha arrependida, com doces e chocolate, até tentava me dar seus melhores brinquedos. Como eu disse, uma relação conturbada.
Foi Vanessa quem me encontrou quase morta naquele fatídico dia em que eu desisti de tudo. Depois do que tudo aconteceu, eu mal falei com minha família, apenas com Duda sobre os planos de sair dali já que morrer não havia dado certo. A despedida foi amarga, minha mãe praticamente me empurrando para fora de sua vida, meu padrasto contente com a resolução de seus problemas. E Vanessa? Quieta. Ela apenas me olhou com raiva, gritou que me odiava e saiu correndo. Eu não tive como ir atrás dela, minha mãe não havia dado chance para isso alegando que quanto antes ela me esquecesse, melhor.
Jenny retornou com Peter e eu estava envolta em uma nova aura, uma que mesclava medo e ansiedade. Minha namorada segurou firme a minha mãe e respeitou meu silêncio, me acompanhando o caminho inteiro. Até mesmo Peter sentiu o clima e não conversou muito também, apenas perguntando para onde íamos. Mandei uma mensagem para Duda perguntando onde Vanessa estaria exatamente, mas minha amiga apenas respondeu dizendo que isso a minha irmã não informou precisamente. Porém ela me mandou uma foto atual de Vanessa, retirada do facebook.
–Ela se parece com você – Jenny observou, ainda estávamos dentro do carro.
Sim, Vanessa se parecia um pouco comigo. Sua pele era morena clara, cabelo castanho claro e olhos azuis. Mas era o sorriso que ela dava para a câmera que era idêntica ao meu, o modo como seu ficava levemente franzido quando sorria daquele jeito. O desenho da boca era uma cópia da minha. Soltei um longo suspiro, meu coração agoniado com aquela expectativa toda.
Chegamos ao parque e dessa vez pedi para o Peter nos ajudar a procurar. Parecia quase uma busca impossível já que o Parque do Ibirapuera além de ser famoso era grande. Estava entardecendo e os jovens estavam aos montes nos locais mais estratégicos. Eu estava com todas as defesas levantadas, com medo até de ser reconhecida. Como iria falar com minha irmã sem me denunciar? Sem denunciar a Jenny?
–Isso pode acabar estragando a nossa folga – comentei enquanto passava por um grupo de adolescentes de cabeça baixa.
–Não importa, eles podem descobrir a qualquer hora mesmo – Jenny deu de ombros – Sempre vai ser assim – ela apertou minha mão – E estamos aqui mais por você, lembra? Não é bem uma folga, mas sim uma caça aos fantasmas. Posso até escutar aquela música do filme Ghost Hunters ao fundo.
Sorri com aquela tentativa de minha namorada de brincar. Ela pareceu bem feliz por ter conseguido um sorriso meu, tão feliz que me abraçou de surpresa e estalou um beijo em minha bochecha. Ri de seu jeito tão espontâneo e segui um pouco mais tranquila. Porém minha felicidade não durou nem dois minutos completos.
Eu a encontrei perto de um aglomerado de árvores. Ela estava perto de um rapaz realmente alto e com um corte de cabelo que lembrava vagamente o Justin Bieber. Vanessa usava uma saia relativamente curta, mas que não mostrava o que não devia. Sua blusa era soltinha e cinza, estava cheia de acessórios jovens e uma maquiagem bem feita. O cabelo castanho estava completamente liso e caía como uma enorme cascata, os fios alcançando quase o seu quadril. Ela era linda, parecendo uma menina-mulher com tão pouca idade. Ela logo faria dezesseis.
–Eu posso me aproximar e distrair o garoto enquanto você conversa com ela – Jenny propôs a estratégia.
–Parece uma boa, eu preciso de um tempo a sós com ela. Felizmente ela está em um lugar mais vazio. Sei que vamos gritar um pouco, velhos costumes familiares – comentei com o coração pesado e acelerado.
–Ei, qualquer coisa me grite, está bem? Eu e o Peter não vamos ficar longe – Jenny me garantiu.
Soltei um longo suspiro e para acalmá-la e me acalmar ao mesmo tempo, salpiquei um selinho em seus lábios. Reunir toda a coragem que eu não tinha e soltei a mão da de Jenny, que em momento algum soltou a minha. A cada passo que eu dava, eu sentia como se estivesse me aproximando de uma forca. Uma em que a corda fui eu mesma que eu criei, afinal, eu a abandonei também, certo? Nunca mais entrei em contato ou busquei informações dela. Meu coração se enxia de culpa antes mesmo que eu estivesse a poucos metros de distância.
O tal namorado dela foi o primeiro a me notar. Primeiro me olhou rapidamente como se fosse uma turista qualquer, mas quando viu que não ia me afastar, franziu o cenho. Eu queria poder dizer algo, mas eu estava simplesmente congelada no lugar! Vanessa notou o olhar diferente do rapaz e olhou na mesma direção que a dele. Seu olhar azulado estava confuso, como se tentasse me reconhecer. Soltei mais um de meus inúmeros suspiros e tirei o meu chapéu da cabeça, então também tirei os óculos escuros. Abri um sorriso sem jeito e acenei timidamente para ela.
–Oi Van – cumprimentei sem jeito.
–Espera... Essa daí não é a... – o garoto semicerrou os olhos e depois os abriu enormemente – Meu Deus! É a MICHELLE LOPEZ!
–Não seja escandaloso! – Vanessa o cortou em uma voz seca, sem tirar os olhos de mim – É apenas a minha irmã.
–Você é irmã de Michelle Lopez? Está de brincadeira não é? – o garoto fitou ela incrédulo – Vanessa, você nunca me contou isso!
–Ela é apenas minha meia-irmã – Vanessa disse ainda em um tom duro.
Meu sangue gelou nas veias. Então ela não dizia que eu sou sua irmã? Até onde nossos pais influenciaram a sua mente? Ou a minha falta a magoou? Eram tantas questões que eu mal sabia se queria as respostas ou não.
–Hey! – Jenny se aproximou prontamente, como um cavaleiro em um cavalo branco para salvar sua donzela. Ela tirou os óculos escuros e colocou sobre a cabeça. Dessa vez até mesmo minha irmã ficou surpresa – Do you speak English?
Ela perguntou olhando para o garoto. Ele balbuciou algo e para Jenny foi o suficiente.
–Vamos ali conversar um pouco rapaz? Essas duas precisam conversa – Jenny disse em um inglês calmo e lento para que ele entendesse.
–Mas é claro! – ele respondeu.
Jenny se aproximou e o segurou pelo ombro direito, ele parecia extasiado por causa disso. Ela olhou para mim, piscou um olho e começou a se afastar perguntando o nome do garoto. Eu mal escutei a resposta dele. Mais uma vez usei da coragem que eu não tinha e me aproximei de minha irmã.
–Você é a pessoa que a Duda falou na escola – ela disse me fitando seriamente.
–Sim, eu entrei em contato com ela hoje logo cedo – comentei e dei de ombros – Pedi para que ela armasse um encontro entre nós duas. Queria conversar.
–Depois de tanto tempo você quer conversar? Por quê? – Vanessa cruzou os braços irredutível.
–Porque eu precisava – disse simplesmente e olhei para os lados – Podemos sentar naqueles bancos ali? Nossa conversa não vai ser pequena pelo visto.
–Claro, como a estrela de Hollywood desejar.
Ela caminhou a frente. Mordi o meu canto inferior incerta do que deveria fazer a seguir. Como conversar com sua irmã que ao mesmo tempo era uma desconhecida? Ela poderia estar envenenada pelos meus pais, ou simplesmente magoada com a minha fuga. Balancei a cabeça de um lado para o outro, eu precisava disso, eu precisava falar com ela e enfrentar tudo o que eu deixei no meu passado para seguir em frente. Mas como não pensar que aquele ser emburrado a minha frente não era aquela mesma menininha que passava as tardes comigo rindo vendo os desenhos da Disney? Definitivamente Vanessa sempre foi o melhor que aquela família brasileira poderia ter me ofertado.
Caminhei a passos um pouco lentos para os bancos de cimento que indiquei a Vanessa. Ela já estava sentada, de pernas cruzadas e olhar um pouco perdido. Sua postura era impecável, assim como sua beleza era extremamente singular. Sentei ao seu lado, com um bom espaço entre nós para que ela não se sentisse invadida. Lancei um olhar para ela um pouco incerta. Mulheres eram realmente complicadas, em seu auge na adolescência eram piores ainda! Indubitavelmente, eu não sabia como lidar com aquela situação.
–Então, aquele é seu namorado? – perguntei para começar a conversa.
–Não, estamos apenas ficando – ela respondeu e deu de ombros – Jonas é previsível demais para mim, mas beija bem.
–Acho que compreendo – disse sincera, meu lado romântico gritando contra aquilo, parei por alguns segundos e abri um sorriso – Que tal uma brincadeira? Você me pergunta algo e eu pergunto algo a você. Como fazíamos quando criança quando tentávamos advinhar o que a outra está pensando.
–Não sou mais criança! – Vanessa reclamou.
–Não, mas eu não sei lidar com essa nova você – tentei soar calma, mas soltei um suspiro exasperado – Estou tentando da melhor forma que eu conheço.
–Tudo em, comece então.
–O quanto você me odeia?
A pergunta pareceu pegá-la desprevenida. Os olhos azuis encontraram os meus castanhos-esverdeados. Ela mordeu o lábio inferior, uma mania igual a minha, desviou os olhos e recostou no banco, olhando para frente.
–Eu te odiei por um bom tempo. Sentia raiva e abandonada – Vanessa comentou – Você foi uma tremenda de uma idiota por nunca ter entrado em contato.
–Eu sei – disse rendida e um pouco esperançosa – Não me odeia mais? Ou menos do que antes?
–Odeio menos, por causa de seu vídeo – Vanessa admitiu e descruzou os braços, finalmente ela estava abrindo espaço para mim – Eu fiquei imaginando como as coisas haviam sido difíceis para você na época. Eu era uma criança e não tinha ideia de muita coisa sobre a sociedade. Era tudo mais simples e mais concreto – ela deu de ombros – Mamãe nunca foi fácil de lidar, papai muito menos. Te odiei menos quando pude me colocar um pouco em seu lugar.
–Mas ainda odeia – conclui de uma maneira calma.
Vanessa olhou para mim e foi como se uma fúria rompesse dentro dela. Ela levantou bruscamente, cruzou novamente os braços e ficou andando de um lado para o outro.
–Isso é um jogo. Tenho direito a minha pergunta – ela lembrou, seu tom voltando a ser levemente rude.
–Sim, você tem – disse escondendo todo o temor que eu sentia.
–Por que não entrou em contato novamente? – ela disparou a pergunta.
–Porque as coisas que me deixaram aqui me causaram tanta dor que eu preferi a morte – respondi sincera – Sinto muito não ter entrado em contato, eu realmente cortei todos os laços que havia com o Brasil, porque eu estava tão assustada e machucada que não conseguiria me erguer se não fosse dessa forma – passei a mão no meu cabelo, nervosa por tocar nesse assunto tão delicado – Minha vez. O que aconteceu depois que eu parti? Para você digo, como ficaram as coisas para você depois que eu parti?
–Foi um caos para mim – Vanessa disse com certa raiva – Eu amava você, sua imbecil! – dessa vez ela quase gritou – E eu te encontrei quase morta quando ainda era uma criança! Você tem ideia de quanto aquilo me abalou? Sem contar que depois você foi embora! – ah, dessa vez ela cuspia as palavras, ferindo meu coração de uma forma merecida – Eu tive de ir a psicólogos, minha mãe culpou você como sempre, mas o pior? Foi que dessa vez eu acreditei. A culpa era sua! Sua por ser covarde e ter desistido daquela forma!
–Desistido fácil?! Você não tem ideia do inferno que eu vivia naquela casa! Como saberia? Você era a favorita, eu apenas a bastarda! – eu estava gritando também, devolvendo toda a angústia e medo que eu sentia na época, era involuntário, as emoções estavam tão fortes que cegava a razão – Não era você que apanhava, não era você que sofria com aquelas palavras de desgosto. Eu cheguei a desejar não ter existido! Também era uma criança naquela época e pensava dessa forma. Sinto muito que tenha visto aquilo! – levantei também, afastei um pouco, respirei fundo tentando controlar um pouco. Voltei o corpo para minha irmã e a vi chorando, aquilo me desarmou por completo – Mas... Obrigada, obrigada por salvar minha vida, obrigada de verdade por ter me dado uma segunda chance, eu a estou aproveitando com tudo o que eu tenho. Porque eu vou viver a minha vida com toda a intensidade que for possível. Vou amar, vou pular as cegas, vou quebrar a cara e vou crescer. E eu devo tudo isso a você.
Dessa vez eu estava chorando em um pranto copioso. Vi no olhar de minha irmã o que eu precisava fazer. Em passos largos cruzei a distancia que nos separava e a abracei. Abracei com força, inspirando o seu cheiro de shampoo de morango que ela sempre usava, desde criança. Ela chorou muito, me apertou contra o seu corpo e tremeu em meus braços. Ficava murmurando que me odiava, que sentia minha falta, que me odiava mais ainda. Mas no fim, que me amava. Quando calmas novamente, ela sentou no banco acinzentado e me fez sentar perto de seu corpo dessa vez.
–Nós todos erramos – Vanessa começou – Meus pais não merecem perdão pelo que eu fazia, e eu me fiz de cega, surda e muda...
–Você era uma criança Van – a cortei e segurei firme em sua mão – Eu vim aqui para resolver meu passado, mas eu nunca odiei você de forma alguma. Eu só precisava reencontrar minha irmãzinha e brigar com ela para ser a princesa Ariel e reclamar que não queria ser a Bela Adormecida, porque ela só dorme!
–Você lembra disso? Credo! – Vanessa riu pela primeira vez e eu adorei aquele som – Ainda estamos jogando?
–Pode perguntar o que você quiser.
–Você vai querer encontrar com a mamãe?
A fitei um pouco hesitante. Minha coragem estava na berlinda. Se para encontrar com Vanessa foi tão complicado e gerou um grande conflito com direito a choro e medo do que iria acontecer, como seria encontrar com minha mãe?
–Esse é o ponto principal – confessei – Eu acredito que para eu poder continuar crescendo bem, eu tenho de me ver livre de alguns pesadelos. Infelizmente nossa mãe foi o meu pior e mais assustador pesadelo. Eu preciso encará-la e dizer: eu consegui, estou vivendo, obrigada por ter me posto nesse mundo, mas só por isso.
–Ela vai surtar – Vanessa riu e fez uma breve careta.
–Conte mais sobre esses anos.
–Depois que você foi embora, as coisas “melhoraram”. Era mesmo como se meus pais tivessem se livrado de um fardo. Eu estava abalada psicologicamente, isso era óbvio, frequentei diversos psicólogos até poder me acalmar. Tinha pesadelos e tudo o mais – ela disse e eu me senti terrivelmente mal – Não me olhe assim, a culpa não é toda sua. Eu não duvido nada de que se fosse mamãe a te encontrar... – ela não terminou de falar, não era preciso, se fosse a nossa mãe ela me deixaria morrer, isso era um fato – Mas então, é fácil perceber que na verdade a natureza dos dois que é um pouco ruim. Quando eu ficava de castigo, era algo mais sério, já que não tinha você para sofrer – ela fez uma careta – egoísta eu sei. Eles ainda são conservadores, até demais.
–Duda me disse que você é uma garota popular com coração, como isso é possível? Você é uma espécie de aberração, já que eles são cruéis – tentei brincar.
–Bom, eu não consigo ser cruel – Van deu de ombros e sorriu meio tímida – Querendo ou não, ainda me espelhava em você. Você sempre sofria, e muito, mas no fim do dia, mesmo machucada, vinha ao meu quarto para ler uma história para mim, sempre gentil – ela estremeceu e enxugou algumas lágrimas – Então eu via aqueles adolescentes sofrendo de bullying e eu não podia simplesmente concordar, mesmo que eu possa perder minha “coroa”, aquela pessoa pode ser levada ao limite e perder a vida por não escutar uma palavra amiga em um momento tão delicado. Se você que era forte tentou a morte, eles logo poderiam tentar também. Eu não conseguiria viver pensando que contribuir para isso de alguma forma. Então sou legal, na medida do possível.
–Você minha querida irmã, é uma mulher incrível! – a abracei forte, orgulhosa daquele discurso que deu, emocionada pelo que ela disse sobre mim – Estou mesmo contente que pense assim, de verdade! Estou orgulhosa de minha pequena princesa.
–Ah, qual é, nada se compara ao que você conseguiu! – Vanessa exclamou, mas não se afastou de meus braços, ficando coladinha em mim – Uma estrela de Hollywood!
–Bem, estou tendo meus quinze minutos de fama, espero que se torne algumas horas a mais – brinquei um pouco tímida com isso.
–Mamãe me proibiu de falar algo para meus amigos e até de assistir Eternal. Mas eu via tudo com a Bruna, que é minha melhor amiga, quando ia para a casa dela. Elas não sabem que você é minha irmã, mas não é a toa que eu sou uma Lyanna fangirl. Eu fugi para ir na estreia de seu filme aqui!
–Isso tudo porque ainda me odiava, imagina se amasse? – brinquei rindo.
–Eu já estaria batendo na sua porta nos Estados Unidos e sendo empata foda de você e da Jenny... Falar nisso, que mulherão irmã!
–Mais respeito com sua cunhada!
–OH MEU DEUS, Jenny Summers é minha cunhada!
Acabamos rindo bastante, o que se tornou em sonoras gargalhadas. Sinceramente? Acho que estávamos exorcizando os demônios naquela ação de felicidade, que era simplesmente rir de besteiras. Isso pareceu atrair Jenny, pois logo ela apareceu com o ficante de minha irmã e com Peter. Levantei e passei um braço pelo ombro de Vanessa enquanto aproximava de minha namorada.
–Mô, essa é minha irmã Vanessa – apresentei em inglês e depois olhei para Vanessa falando em português – Mana, essa é minha namorada, Jennifer.
–Nessas horas eu me arrependo das aulas que matei de inglês – Vanessa murmurou frustrada e falou incerta – Hi, Jenny?
–Ela não fala inglês, amor – expliquei para Jenny.
–Oh, então vamos para a conversa corporal.
Imprevisivelmente, Jenny puxou Vanessa para um abraço de urso e deu um beijo estalado na bochecha de Vanessa a deixando extremamente vermelha.
–Obrigada por fazer meu amor rir daquela forma – Jenny agradeceu me fazendo corar.
–O que ela disse? – Vanessa questionou.
–Ela disse obrigada por fazer sua irmã rir – o ficante traduziu todo exibido.
–Ela é mesmo uma idiota romântica – Vanessa acusou me fazendo rir novamente – Eu sempre desconfiei disso, ainda mais depois daquele vídeo, é tão óbvio!
–O que...
–Nada! – cortei a pergunta de Jenny rindo ainda – Nada demais amor, juro.
–Agora estou mais desconfiada ainda – Jenny fez o maior bico do mundo – Mas que tal sua irmã e esse rapaz aqui irem jantar conosco?
–Eu adoraria! – ele respondeu excitado.
–Van, a Jenny está convidando para jantar – falei para minha irmã.
–Ah, não vai dar. Toque de recolher as dez horas – Vanessa encolheu os ombros e encarou o garoto – Jonas, vamos precisar conversar, ninguém pode saber que Michelle e Jenny estão aqui.
Viu? Garota esperta, não precisou que eu pedisse isso, Vanessa logo deduziu tudo. Minha irmã me deu um último abraço apertado e eu murmurei em seu ouvido.
–Amanhã eu irei vê-la. Em casa. Não vá para a escola, vou precisar de você, chegarei logo cedo.
–Tem certeza? – Vanessa me olhou preocupada.
–Nunca vou ter até que eu faça – disse convicta, mas meu lábio tremeu denunciando o meu nervosismo – Até amanhã. Ah, me dê o seu número.
Trocamos nossos números e logo Vanessa estava indo, puxando o garoto pelo braço praticamente o arrastando de discutindo sobre manter segredo. Jenny se aproximou sorrindo, abraçou-me e me deu um suave e gentil beijo. Ah, isso era tudo o que eu precisava para acalmar todo o meu espírito.
–Estou feliz que tudo deu certo entre você e sua irmã – ela murmurou fazendo carinho em meu cabelo – Eu quase sai correndo quando escutei os primeiros gritos. Peter que me segurou.
–Você é um ótimo segurança Peter – elogiei o homem que estava discretamente em uma distancia de nós duas, ele abriu um sorriso e eu voltei a olhar para minha mulher – Posso te contar uma coisa?
–Qualquer coisa.
–Essas coisas de reconciliação familiar me dá uma fome! Vamos jantar? Um daqueles bem generosos!
Jenny gargalhou do meu jeito e logo concordou. Tudo o que eu precisava para aquela noite era de uma boa dose de Jenny para me preparar para o dia seguinte. Ah, eu iria usá-la para me distrair de todas as formas possíveis, e ela sabia disso, apenas se entregava completamente e sem medo.
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