Equalize
3 Capítulo 3
Notas iniciais
De repente minha vida virou uma loucura.
Eu tinha treinos e aulas para fazer durante toda a manhã e boa parte do período da tarde. Recebia ligações de minuto em minuto, os paparazzi e programas começavam a questionar quem era aquela atriz que iria interpretar uma personagem importante em Eternal. Pela tarde e noite eu ia até o estúdio para assistir as filmagens e me acostumar com o processo ou então fazer o trailer prévio para ser divulgado. Eu apareci por questão de dez segundos, falando uma frase e saindo desfilando enquanto em minha mão saia fogo e acendia o cigarro de Lyanna.
Depois do trailer ai sim tudo começou a acontecer. Fiz parte de pequenas entrevistas, me sentia um pouco perseguida quando andava na rua para ir apenas comprar alguma comida, para depois no dia seguinte ver minha foto na internet. Sem contar nos fãs, definitivamente essa era a parte que eu mais gostava. Ainda não era constante, mas alguns que eram realmente amantes da serie que passavam por mim paravam, olhavam uma vez ou duas, gritavam e vinham correndo eufóricos. E de pensar que até certo tempo atrás seria eu a fazer isso caso visse um ídolo meu pela rua! Nesse momento novo de minha vida era uma sorte ter Kevin ao meu lado, tratando de cuidar de todos esses assuntos que eu ainda não entendia. Tive de me mudar já que morava no centro e seria complicado chegar a casa sem causar algum tipo de problema.
Em um mês eu já havia compreendido que aquela vida não era nada fácil. Era desgastante acordar cedo, preparar-se para poder interpretar um personagem, gravar falas e lidar com toda aquela atenção que estava recebendo. Porém era tremendamente recompensador!
Aquele seria um dos dias que teríamos de dormir nos ônibus-trailers, pois as filmagens terminaram muito tarde e começariam muito cedo. Também dormíamos nele quando tínhamos de gravar fora dos estúdios, em algum lugar especial como um bosque ou longe da cidade. Estava deitada em minha cama usando roupas confortáveis enquanto lia o roteiro, afinal no dia seguinte iriamos começar a filmar o segundo episódio, o que eu iria aparecer nos minutos finais com uma entrada chocante e literalmente explosiva. Já estava considerando ir dormir quando escutei uma batida em minha porta. Franzi o cenho achando completamente estranho aquilo. Levantei e abri um pouco a porta, apenas para arregalar os olhos e abrir a porta completamente ao ver que ali estava Jenny com os braços cruzados já que do lado de fora estava fazendo frio.
–Hey – ela disse sem jeito, presenteando-me com um sorriso torto – Posso entrar?
–C-claro!
Dei espaço e ela subiu a pequena escadinha para entrar em meu trailer. Que eu fosse jogada no inferno, mas assim que ela passou por mim foi inevitável meu olhar descer por aquele corpo. Ela usava um shortinho muito curto, exibindo as pernas firmes e brancas, o cabelo escuro descendo pelas costas em um desalinho natural e que a deixava com um ar extremamente charmoso. Mas então eu percebi que ela usava uma blusa do Bob Esponja e foi impossível não rir.
–O que? – Jenny virou o corpo em minha direção, maldição, aquela blusa era apertada no busto, destacando os seios fartos dela – É muita loucura eu vim assim tarde da noite?
–Não foi isso, apesar de ser loucura – disse ficando um pouco nervosa, desviando o olhar rapidamente – Mas é que você está usando uma blusa do Bob Esponja e eu a do Patrick.
Ela me olhou e desceu o olhar para minha blusa, sorriu um pouco e foi sorrindo ainda mais enquanto aqueles olhos verdes desciam ainda mais pelo meu corpo. Maldição, eu estava usando o meu shortinho folgado que tinha corações! Pigarreei depois de ficar extremamente vermelha ao ser analisada assim por ela.
–Aconteceu algo? – indaguei tentando manter minha voz normal.
–Sem sono – Jenny deu de ombros – E também não conversamos muito esses dias, vem sendo uma loucura e eu queria alguém que não me falasse nada sobre Brielle ou Eternal.
Balancei a cabeça em total compreensão. Às vezes era difícil sair do mundo fictício ou não falar sobre. Tentei – em vão – ignorar o calor que aqueceu meu peito ao perceber que ela tinha me escolhido para tentar passar o tempo e se distrair.
–Você também ler esse livro? Oh Deus, eu comprei e nunca consegui terminar! – Jenny pegou um livro que estava sobre uma mesinha, era um de romance e drama.
–Ah não perdeu muito – disse dando de ombros – Ela morre no final mesmo.
Eu estava mentindo, mas usava um tom de descaso como se fosse verdade e uma desinteressante. Os olhos verdes se abriram primeiro em choque, depois em raiva. Quando dei por mim Jenny avançava e me batia no braço com o livro.
–Você me deu um spoiler, sua vadia! – ela brigou comigo sem esconder a raiva.
–Opa, opa! – eu ria sem conseguir aguentar, tentando pará-la – Era brincadeirinha! Brincadeirinha! Eu sou da paz, paz e amor!
–Como posso confiar em você? – Jenny me fitou desconfiada, o livro erguido pronto pra me bater mais uma vez.
–Porque você está armada, é maior do que eu e está com um olhar verde assassino, eu não ousaria mentir – falei prontamente um tanto encolhida e na defensiva.
Ela pareceu ponderar sobre o que eu disse e se afastou, olhou do livro para mim e começou a rir. Eu a acompanhei ainda sem acreditar que eu levei uma livrada de Jenny. Ela colocou o livro no lugar e eu comecei a ir para uma espécie de cozinha que havia ali dentro.
–Quer cappuccino? – ofereci.
–Você gosta? – ela me perguntou em uma mistura de surpresa e curiosidade.
–Sim, cremoso e achocolatado – expliquei com um enorme sorriso – Não é por nada não, mas o segredo de meu cappuccino é de família, é tão gostoso e importante quanto o ingrediente secreto do hambúrguer de siri.
–Parece realmente bom, acho que vou me arriscar.
Sorri contente e logo comecei a preparar enquanto Jenny sentava com as pernas cruzadas em índio no sofá que havia ali ao lado. Enquanto eu fazia a maravilha de meu cappuccino nós conversávamos sobre coisas bobas, como nossos livros prediletos, discutindo e protegendo nossos personagens favoritos. Assim que terminei as bebidas quentes, havia começado a chover forte. Ao que parecia Jenny teria de ficar um bom tempo ali de qualquer jeito. Entreguei uma caneca com desenhos de tartarugas enquanto o meu tinha de golfinhos, sentei ao seu lado de uma maneira desleixada e confortável.
–Você é brasileira, não é? – Jenny perguntou enquanto assoprava o líquido para não queimar a língua, deu um pequeno gole e gemeu baixinho – Deus isso é realmente bom!
–Eu avisei – ri baixinho e beberiquei um pouco da bebida – E sim, sou brasileira, nasci em São Paulo, morei um tempo lá e depois tive de ficar mudando por causa do emprego de meu padrasto.
–Porque saiu de lá? Do Brasil?
A olhei com o olhar estreitado. Ela estava mesmo querendo saber sobre mim? Jenny pareceu perceber o meu jeito meio desconfiado, pois logo sorriu e propôs:
–Você também pode me perguntar qualquer coisa e eu irei responder na medida do possível.
–Hum – considerei a proposta – Problemas com minha mãe, conflitos de princípios e algumas coisas – disse meio evasiva e tomei um gole do cappuccino, a bebida me ajudando a relaxar um pouco – Então vim atrás de meu pai em Chicago, eu tinha 15 anos na época – olhei para ela e não resisti a pergunta – Você teve mesmo um lance com a Candice?
–Foi um pouco mais que um lance – Jenny sorriu de lado – Mas não deu certo, era muito mais físico e nosso horário não era compatível. Sempre ficou subtendido esse caso entre nós duas – ela bebeu mais um pouco do cappuccino e me fitou – você tem esse sotaque mais britânico, eu acho tão charmoso.
–Meu pai era britânico, aprendi inglês com ele e por mais que saiba falar de maneira americana eu gosto de ter algo dele – expliquei com um sorriso triste.
–Era?
–Ele morreu faz menos de um ano – revelei e vi a surpresa nos olhos verdes, assim como a suavidade que veio logo a seguir – Não fique com pena, ele lutou até quando pode contra o câncer no pulmão. Eu gosto de pensar que ele estaria orgulhoso de mim agora e louco para conhecer você, ele realmente comprou a versão especial do seu último filme só porque tinha entrevistas exclusivas.
–É incrível como você consegue facilmente pensar pelo lado positivo da coisa – Jenny comentou e tocou minha bochecha com o polegar em uma carícia gentil – Eu admiro isso em você.
Aquele toque me aqueceu tanto que nem que estivesse nevando do lado de fora eu sentiria frio. Os olhos verdes estavam intensos enquanto me fitavam e naqueles segundos em que prenderam os meus eu pude sentir que havia algo a mais. O que era nunca poderia definir, mas estava ali, forte e potente o suficiente para me impedir de desviar. Mas então um trovão ressoou poderoso o suficiente para me assustar e quase me fazer derramar o cappuccino em minha blusa do Patrick. Jenny riu e se afastou um pouco.
–Espero que não se importe que eu fique aqui, nem morta eu vou ir para o meu trailer nessa tempestade – Jenny comentou terminando de beber – Agora me diga, se você pudesse ficar com alguém desse mundo artístico, quem seria?
Você.
A resposta veio tão rápida que me fez corar forte e olhar para baixo em uma tentativa inútil de disfarçar. Ok, hora de ser uma atriz e fingir que nada estava acontecendo, que meu coração não estava derretido por aquele carinho tão terno.
–Não é por nada não, mas eu morro de amores pela Angelina Jolie, ou a Keira Knightley, a Natalie Portman em Cisne Negro também subiu na minha concepção, mas também tem a Shay Mitchel, a Willa Holland... Eu ficaria com a Emilia Clarke só porque ela faz a Danaerys de Game of Thrones. Estamos contando com cantoras também? Ai minha lista ficaria muito maior...
–Espera! – Jenny exclamou finalmente entendendo a minha lista – Você é lésbica?!
Eu ri da reação dela, afinal quem parecia tão surpresa agora era ela. Terminei de beber meu cappuccino e peguei o copo dela para levar ambos para a pia.
–Na verdade – comecei um pouco pensativa – Depois de muita crise eu finalmente entendi que a gente tem certas tendências, mas que no fundo para gostar de alguém você acaba gostando da pessoa e não da sua genitália. Veja bem, você pode conhecer uma pessoa mais ou menos em aparência e ela ter uma conversa tão boa e tão legal que você começa a ver qualidades, a achar bonita mesmo que para os outros não sejam, ou até mesmo falar: e daí? Mas se você encontra com alguém lindo e ele for um tremendo pé no saco, não importa beleza que seja, você pode se afastar só por ela ser muito chata ou idiota.
–Então você seria bi? – Jenny disse depois de um tempo.
–As vezes bi, as vezes lésbicas, outras hetero, acho que varia de acordo com meu humor. No momento gosto mais de mulheres, elas são menos previsíveis. – dei de ombros e ri – Já cansei de tentar me classificar, me veja como você quiser então – Depois de lavar os copos enxuguei minhas mãos e finalmente a olhei. Jenny me encarava de um jeito intenso e encantador, deixando-me consequentemente vermelha – Er... Quer ver um filme? Agora perdi o sono mesmo e você vai ficar aqui de qualquer jeito.
–Eu escolho.
Não importou qual filme ela escolheu, assim que deitamos em minha cama de casal começamos a conversar sem prestar atenção no filme de ação que rodava em minha televisão presa no alto da parede. Porém antes mesmo que o filme acabasse nós duas já estávamos dormindo.
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