Equalize
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Meu despertador começou a tocar forte e irritante. Virei na cama deixando que ele entrasse sozinho no modo “soneca”. Cinco minutos depois ele tornou a tocar e eu me remexi, dando-me por vencida e me convencendo a levantar. Espreguicei, abri os olhos... Apenas para ver algo se erguendo ao meu lado com a pele extremamente branca e cabelos negros jogados para frente. Eu soltei um enorme grito e caí da cama com um medo muito real de aquilo ser uma daquelas garotas possuídas dos filmes de terror.
–Michelle? Tudo bem? – Jenny perguntou despertando completamente e tirando o cabelo preto do rosto.
–OH MY GOD – eu disse arfando – Crendeuspai você parecia aquela Samara do filme O Chamado – coloquei a mão sobre o peito buscando ar ainda – E eu não me lembro de estar tão desesperada para ficar dormindo com espíritos malignos.
Ela me olhou tão brava que eu soube que estava ferrada. Começou com ela jogando-me os travesseiros, tentei levantar e correr, mas assim que fiquei em pé ela me derrubou na cama e começou um verdadeiro ataque de cosquinhas. Acho que ela parou apenas quando me viu ficar roxa e sem ar, mas finalizou com uma bela mordida em meu braço.
–Ai caramba! Isso vai ficar marcado pelo resto da vida! – choraminguei passando a mão pelo lugar mordido.
–Isso é para você aprender a não chamar Jenny Summer de espírito de filme de terror – Jenny disse de forma ameaçadora e gargalhou – Vamos logo ou iremos nos atrasar.
–Por culpa de quem?!
Jenny deu de ombros e saiu da minha cama, estava para sair quando voltou e me olhou com um verdadeiro jeito de cachorro que caiu da mudança.
–Você bem que podia preparar aquele cappuccino não é? – ela pediu toda dengosa.
–Vai logo peste – reclamei e sorri de lado – eu faço e coloco em uma garrafa térmica.
–Você é um anjo!
Ela saiu praticamente saltitando. Revirei os olhos e ri sozinha. Quem diria que Jenny Summers seria aquela garota toda moleca? Levantei e me espreguicei uma última vez antes de olhar para a marca em meu braço. Ela não precisava morder tão forte! Resmunguei e fui fazer minha higiene matinal, me arrumar e fazer o cappuccino. Resultado? Cheguei atrasada e a primeira cena já estava começando a ser filmada. Parei ao lado de Oliver que sorriu assim que me viu, deu-me um abraço de urso e apontou para a garrafa térmica que eu segurava.
–O que tem ai? – ele indagou curioso.
–Nada disso! – Jenny surgiu do nada, roubando a minha garrafa – É só meu.
–Meu Deus, você acordou encapetada hoje? – falei e logo abri um sorriso de deboche – Ou melhor, com algum espírito sinistro, não é Sammy?
–Fica quieta ou eu te mordo de novo! – Jenny ralhou e mostrou a língua.
–Animal – resmunguei prontamente.
–Sinto que eu estou perdendo algum ponto importante aqui – Oliver riu de nossa interação – O que tem na garrafa afinal?
–O cappuccino mais delicioso da face da Terra – Jenny disse prontamente e eu sorri automaticamente.
–Não há o café mais delicioso por ai não? – Oliver pediu.
–Sorry, meus dotes começam e acabam no cappuccino – disse fazendo um beicinho triste.
–Graças a Deus, é menos pessoas para eu dividir esse tesouro.
Revirei os olhos, mas logo Jenny foi chamada para ensaiar e fazer a gravação de uma cena. Zack se aproximou de nós dois e conversou um pouco até olhar para a cena que estava sendo filmada e abrir um sorriso.
–Jenny parece bem animada essa manhã. Faz algum tempo que eu não a vejo assim – ele comentou.
–Foi o meu cappuccino mágico – brinquei um pouco e dei de ombros – Vai ver ela só precisava se distrair um pouco.
–Cappuccino mágico? – Zack abriu um enorme sorriso – Eu adoro cappuccino!
Logo tratei de servi-lo um pouco e quando ele bebeu só faltou pular no lugar dizendo que aquilo era incrível. De onde estava Jenny notou o que acontecia e no intervalo da cena gritou que era para eu manter a garrafa longe do Zack. Eu a provoquei chamando de Sammy, um apelido para Samara, o seu espírito de terror. Zack ficou mais próximo de mim, tentando arrancar a minha receita secreta enquanto me distraía. Chegamos até a tirar uma foto juntos e eu pedi permissão para postar em meu insta. Cheguei até a adicioná-lo nessa rede e assim que eu o marquei, cinco minutos depois já estava circulando por todas as redes sociais.
–Cara isso é muito engraçado – eu comentei rindo.
–Eles adoram qualquer demonstração de carinho – Zack explicou sorrindo – Acho que para você é muito legal isso e até importante, conquistar o coração dos fãs e se conectar com eles... Acho que é a coisa mais mágica de meu trabalho.
Acenei com um movimento de cabeça e com um sorriso bobo, mesmo que isso ainda seja algo novo para mim eu já estive do outro lado sendo uma fã. Eu adorava quando meus ídolos apareciam, serviam de exemplo e se conectavam de alguma forma comigo ou com uma multidão de desconhecidos. Era como se eu não estivesse só e isso para uma adolescente em crise pode ser uma válvula de escape.
O resto das gravações seguiu de maneira bem tranquila até, eu já estava me acostumando com aquele ritmo completamente novo e diferente.
(•••)
Era o primeiro final de semana que eu não tinha absolutamente nada marcado para fazer. O último pelo que Kevin deixou bem frisado em sua mensagem no whatsapp. Na próxima terça-feira iria ao ar o primeiro episódio de Eternal e nessa mesma noite iria haver uma festa. O que eu fiz nesse final de semana todo? Absolutamente nada, nem ao menos sai de casa. Eu passava a maior parte do tempo fora, seja em aulas e cursos, seja no set de filmagens ou até mesmo saindo com o elenco para algum lugar.
Não havia dúvidas que eu tinha me apegado muito mais a Oliver, Jenny e Zack. Era até mesmo visível pelas fotos que postávamos na rede social, chegou a tal ponto que segunda-feira nós teríamos uma entrevista em um programa de televisão.
No domingo eu estava jogando em meu vício secreto de League of Legends quando o meu celular vibrou. Despertei do jogo e olhei para a tela vendo uma mensagem no whatsapp de Jenny. Era dez horas da manhã e ela já estava me chamando? Inevitavelmente abri um sorriso quando peguei o aparelho e abri a mensagem. Desde aquela noite nós conversamos sempre, seja por mensagem, seja cara a cara, seja uma ligando para a outra.
Jenny: Pode parar de chorar, sei que está morrendo de saudades de mim.
Michelle: Como ai no poço tem sinal, Sammy?
Eu não resistia a provoca-la com esse lance todo de espírito assustador. Ela ficava tão fofa irritada que era irresistível, apesar disso ocasionar em alguns tapas ou mordidas.
Jenny: Chata è_é. O que está fazendo? Estou morrendo de tédio.
Michelle: Jogando, preciso reavivar a minha vida de gamer, sinto que a estou negligenciando.
Jenny: Vem aqui em casa, chamei o pessoal para almoçar.
Michelle: Mas... Mas eu já vou começar outra partida!
Jenny: Nerd! Vai perder de me ver usando um biquíni sexy para jogar uma partida? Obviamente que vamos tomar banho na piscina daqui de casa.
Meu rosto esquentou assim que a imagem dela saindo toda molhada da piscina tomou conta de minha mente. Engoli em seco enquanto meu coração disparava. Graças a Deus ela não me ligou ou estava a minha frente. Era difícil disfarçar essas minhas reações quando estou perto dela.
Michelle: Estou indo porque sei que isso daí ficaria extremamente chato sem minha presença! Mas não tomarei banho, estou naqueles dias =/
Jenny: Não importa, venha logo!
Ri podendo escutar a voz mandona dela em minha mente. Desliguei o meu computador e fui tomar um banho. Era um dia particularmente quente, então escolhi um shortinho jeans tingido de vermelho, uma regata branca e um chapéu de tom claro só para dar um charme. Estava saindo de casa quando parei no meio de caminho e retrocedi decidindo pegar o meu violão. Já que eu não iria cair na piscina poderia me distrair com outras coisas. Desde que havia aceitado o papel de Lyanna estava tendo algumas aulas de canto já que Grimer pretendia filmar algumas cenas comigo cantando e tocando.
Fui de táxi até a casa de Jenny que ficava a vinte minutos da minha. Paguei ao taxista e antes mesmo que eu tocasse a companhia para que os portões daquela pequena mansão se abrissem as grades de ferro já estavam se movendo sozinhas.
–Oh, abra-te Sésamo! – não aguentei a brincadeira, mesmo que estivesse sozinha.
Fui caminhando pelo jardim da frente até chegar a porta principal, ela se abriu antes mesmo que eu subisse os degraus da varanda. Nela estava uma Jenny com um sorriso deslumbrante... E um biquíni de matar qualquer ser que não fosse cego. Era pequeno, mas não vulgar, apenas exibia o corpo extremamente bem feito que ela possuía, com a barriga lisa e definida, que deixava a imaginar que se ela malhasse um pouco mais ficaria com suaves traços de gominhos. Sem contar naquela cintura, naqueles seios cheios e pernas... Meu Deus, eu estava prontamente imaginando aquelas pernas em volta de meu corpo e...
–Tudo bem, eu sei que sou gostosa – Jenny brincou quebrando a minha fantasia.
–Então eu não vou me sentir culpada – disse engolindo em seco, mas logo tratando de sorrir – Eu sei que na verdade você está se exibindo para mim.
Ela riu sabendo que era apenas brincadeira, mas não sabia que em um ponto muito profundo de meu ser eu desejaria que fosse verdade. Com um movimento de mão ela me chamou para dentro de sua casa. Essa era a primeira vez que eu realmente entrava ali dentro e eu não poderia deixar de ficar surpresa e encantada. Era exatamente tudo o que você imagina que uma pessoa rica e famosa deveria ter. A sala ampla e com vários sofás além de uma lareira, outra sala com aparelhos de áudio e televisivos. Uma escada elegante que daria para o andar superior, um corredor que levaria sabe Deus a onde e mais ao lado dava para ver parte da cozinha.
–Bem humilde – disse irônica.
–Logo você terá uma dessas – Jenny respondeu sorrindo.
–Não – balancei a cabeça discordando – É grande demais, eu me sentiria sozinha e solitária. No mínimo compraria uns dez gatos só para eu encontrar uma alma viva por onde caminhasse.
O sorriso dela diminuiu, ficando um pouco triste. A fitei um pouco séria, tentando decifrá-la. Havia esses momentos que se repetiam e duravam apenas segundos. Jenny ainda continuava sendo um poço enorme de mistério para mim. Não falava de seu passado, disfarçava as coisas com sorrisos e brincadeiras. As vezes eu tinha a sensação que ela se fazia de forte para não fraquejar.
–Vamos, todos já chegaram, você como sempre atrasada – ela logo tratou de pegar minha mão livre e me puxar para o quintal de sua casa.
E mais uma vez a área da piscina era tão luxuosa quanto deveria ser. Havia um quiosque muito bem construído, uma área para com gramado e a piscina em forma de U. Exatamente, em forma de U. Encontrei até mesmo uma jacuzzi mais a direita, perto do gramado.
–Retiro o que eu disse sobre humildade – comentei e fiz uma breve careta, arrancando um riso sincero de Jenny, eu me senti uma heroína – Hey Zack!
Logo fui cumprimentar o pessoal que estava ali. Zack, Ian e Oliver estavam quase me fazendo babar em seus corpos definidos e malhados. Tudo bem, não era todo dia que você estava em uma piscina cheio de homens famosos e cheios de gracinhas e palhaçadas pro seu lado. Eu passei a maior parte do tempo sentada em uma espreguiçadeira, os observando brincar dentro da água e fazer todo o tipo de competição possível. Quando deu meio dia eu olhei para o sol e olhei para a piscina.
–Jenny! – chamei até ter sua atenção, o que a fez levar bons jatos de água na cara e resmungar alto – É meio dia, passe um pouco mais de protetor, essa sua pele de espírito de fundo de poço vai ficar muito vermelha se você não fizer isso.
–Ta, mamãe!
Sorri de lado e a vi subindo pelas escadas. E então a visão que eu tive de mais cedo se tornou realidade, porém mil vezes mais tentadora do que eu tinha conseguido imaginar. Dessa vez foi impossível não olhar para Jenny e não acha-la a coisa mais sensual e linda da face da terra. Obviamente eu fui flagrada, mas aquela garota branquela não fez uma piadinha ou se afastou, pelo contrário, cada passo que ela dava em minha direção seu sorriso aumentava e ficava mais travesso.
–Passa em minhas costas? – ela pediu pegando o protetor na mesa ao meu lado.
–Cla-claro – gaguejei estupidamente.
Fiquei corada e pensei que iria ter um infarto ali mesmo quando Jenny sentou na espreguiçadeira, bem entre minhas pernas, longe o suficiente apenas para que eu realizasse o trabalho que foi solicitado. Respirei fundo e peguei o protetor, dando uma rápida lida e vendo que além de ser um fator extremamente forte, era um daqueles caríssimos.
–Coloca o cabelo para frente? – pedi em um timbre mais alto que um sussurro.
Jenny nada falou, apenas enrolou o cabelo e colocou sobre o ombro, deixando suas costas livre. Fechei os olhos rezando rapidamente, então mordi o lábio e primeiro coloquei o protetor sobre as costas dela, só então comecei a espalhar lentamente. Deus, que pele macia e branquinha era aquela? Ela estava quente, apesar de ter acabado de sair da água. Era tão suave que eu descobri naquele momento que eu poderia ficar horas e mais horas tocando aquela pele. Toda a pele, em todos os lugares. Engoli em seco reprimindo aquele desejo que estava aflorando, concentrando apenas na função de passar o protetor solar. Minhas mãos deslizaram para a parte baixa das costas, depois moldaram a cintura e sem querer – juro que foi sem querer – eu a arranhei suavemente. O corpo todo de Jenny arrepiou por causa disso e os ombros ficaram levemente tensos. Eu não consegui evitar um sorriso de lado, dessa vez eu fiz de propósito ao passar bem suavemente meus dedos por toda a coluna dela, provocando mais uma vez um longo arrepio.
–Jenny – murmurei perto do ouvido dela – Eu já acabei.
Ela estremeceu. E foi nesse momento que eu tive uma pequena noção de que eu a afetava. Meu coração disparou quando ela levantou e aquele traseiro muito bem moldado por Deus ficou tão perto. Minha vontade era a de morder uma daquelas “bochechas” e puxá-la de volta para mim.
–Vou ver o almoço – Jenny disse sem me fitar – obrigada por ter passado o protetor.
–Você não poderia ir aparecendo um camarão para a entrevista de amanhã – disse inventando de ultima hora uma justificativa para a minha preocupação.
–Michelle! – Zack estava saindo da piscina com um sorriso travesso – Eu também quero que passe protetor em mim, do jeito bem demorado que você fez com a Jenny.
–Não! – Jenny respondeu rápido demais, surpreendendo a mim e ao garoto – Ela vai me ajudar na cozinha, não é Michelle?
–Se eu disser que não eu sei que vai me morder mesmo – soltei um longo suspiro, “bem que eu queria uma mordida sua agora”, não pude evitar o pensamento – Pede para o Oliver, Zack. Ele vai te tratar com toooodo o carinho do mundo.
Jenny gargalhou sabendo que o Oliver mataria o Zack no meio do processo. Levantei e a segui até a cozinha onde uma senhora de pele negra e sorriso bem simpático estava terminando de por a comida nos recipientes. Foi me apresentada como Maria e logo eu já a estava ajudando a terminar de ajeitar as coisas enquanto Jenny ia ver a mesa.
–É muito bom conhecer você, menina Michelle – Maria comentou enquanto cortava a salada – A Jenny falava de você quase o tempo todo sem querer.
–Falava? Não acredite nas coisas ruins que ela diz sobre mim, eu juro que sou inocente! – respondi em brincadeira, mas meu coração estava disparado com essa informação.
Nesse momento Jenny se aproximou e Maria me lançou um sorriso cumplice. Eu fiquei com a função de tirar os meninos da água, o que gerou uma pequena discursão e parte de minha blusa molhada. Eles pareciam umas crianças quando estavam juntos! E isso era o que era mais incrível, ter um momento para se permitir ser eles mesmos.
O almoço foi extremamente animado e cheio de conversa sem pé nem cabeça. Algumas vezes estávamos falando ao mesmo tempo, outra prestando atenção ao que o outro falava. A comida estava esplendida e a sobremesa foi melhor ainda já que era sorvete, muito sorvete! Na parte da tarde ficamos mais na sala, eles me fizeram tocar violão e eu me senti como se tivesse no colegial, tendo uma tarde divertida com os amigos fazendo simplesmente nada. Algo que eu não tive realmente naquela época.
Ian foi o primeiro a ter de partir, seu agente ligou o lembrando de algum compromisso e Oliver aproveitou a deixa. Zack ainda ficou por mais alguns minutos, mas logo recebeu uma ligação anônima e deu uma desculpa esfarrapada.
–Eu acho que ele está de caso – Jenny comentou ao meu lado.
Ela já havia tomado banho e trocado de roupa, agora estava com um vestido tomara que caia verde escuro bastante bonito. Eu ri da hipótese e coloquei o meu violão de lado, ela aproveitou para sentar ao meu lado, estava sorrindo amplamente, como se estivesse tranquila e feliz.
–Eu deveria mesmo fazer mais encontros assim. Você tinha razão quando disse que aqui é grande demais para uma pessoa só – Jenny revelou, mas sem estar triste realmente.
–Você às vezes é tão misteriosa... E triste – acabei falando em pensar.
–Triste? – ela repetiu olhando-me com aqueles olhos verdes intensos.
–Sim. É muito difícil realmente notar quando você está sorrindo porque quer ou porque sabe que é o momento propício para isso – expliquei em um tom baixo, sem conseguir desviar o olhar – E é por apenas alguns segundos, alguns momentos, que seu olhar se perde e me faz ter vontade de te abraçar, como se soubesse que você está triste e logo vai juntar suas forças para continuar sem exibir isso.
Finalmente desviei o olhar, encarando minhas mãos enquanto me questionava gritando em minha mente como eu pude falar todas aquelas besteiras para ela. Eu não tinha certeza de nada daquilo. E se ela me perguntasse como eu tirei essas conclusões? Como iria responder que eu sempre estava olhando para ela?
–Michelle.
Eu ergui meu rosto rapidamente. Dessa vez meu nome foi pronunciado de uma forma tão quebrada, tão frágil! Então me deparei com uma Jennifer Summers acuada, com os olhos marejados e um sorriso fraco.
–Obrigada por me notar – Jenny disse e pegou minha mão esquerda, seus dedos tocando o meu pulso e me fazendo gelar quando ela encontrou a cicatriz que estava escondida no pássaro tatuado – Mas eu também sei que você é uma guerreira, uma muito especial e que parece está finalmente conquistando as coisas que deseja. Não é um caminho fácil, mas eu sei que se for você, vai conseguir Michelle.
–Idiota – murmurei sentindo que estava chorando – Quando ficou tão fofa assim?
–Você que começou – ela acusou em um fio de voz e riu fraco – Tocaria uma música para mim?
–Só porque eu estou em um momento sensível – disse enxugando as poucas lágrimas que ousaram cair – Teve uma música que me tocou bastante algum tempo atrás, eu sei que você deve conhecer, mas a letra pega de jeito determinadas pessoas que já passaram por batalhas silenciosas.
Peguei novamente o meu violão e me afastei o suficiente apenas para poder apoiá-lo em minha perna. Chequei a afinação e virei um pouco o corpo para que Jenny pudesse me ver tocar. Soltei os primeiros acordes da música Who You Are de Jesse J. e dessa vez quando cantei, meu timbre era baixo e rouco, como se estivesse tocando realmente para uma única pessoa, como se fosse apenas para ela escutar. Eu estava me emocionando no meio da música, minha voz por vezes ficava embargada e desafinava um pouco. Mas me mantive firme até o fim, sendo que quando encontrei os olhos verdes me fitando de uma maneira tão intensa eu não consegui sequer cogitar desviar. Então ali estava eu, catando as últimas estrofes fitando aquele mar verde e vendo-o se emocionar junto comigo.
Quando terminei, coloquei o violão no chão. Mal terminei de me ajeitar e Jenny lançou-se em meus braços, envolvendo meu corpo com seus braços e me abraçando com uma força real. Ela escondeu o rosto em meu pescoço e chorou, chorou forte de soluçar. Mesmo sem eu entender nada naquele momento, eu a abracei como se assim pudesse protegê-la do mundo e de qualquer coisa que fosse machuca-la. O choro perdurou longos minutos, até que eu a aconcheguei melhor em meus braços a deixando em meu colo, sem ousar fazer qualquer menção de afastá-la de mim.
–As vezes eu esqueço quem eu sou realmente – Jenny revelou em um tom extremamente baixo – São tantos personagens, são tantas vidas, tantas expectativas... Que eu esqueço quem eu sou.
–Jennifer – chamei e ela ergueu o rosto para me fitar, fiz carinho no seu rosto – Você é humana, tem de se deixar errar algumas vezes. Eu não sei se você é você mesma comigo, mas eu penso conhecer uma Jen diferente da que eu via na televisão e que eu era fã.
–E o que você ver?
–Uma garota chata e um pouco mimada – contei e recebi um olhar afiado que me fez sorrir – Mas que é incrível e divertida. Que é forte e não gosta de parecer frágil, que não fala de seu passado e as vezes penso que é melhor assim, o que aconteceu lá tem de ser superado, mas não deixa de ser passado. Eu vejo uma mulher linda, oh Deus, realmente linda, de todas as formas... Ok, menos quando ta acordando daquele jeito sinistro no estilo Samara.
–Eu vou te morder – Jenny ameaçou.
–Me deixa terminar pelo menos – ri e comecei a fazer carinho nela – E hoje descobri que talvez seja um pouco solitária, apesar de não estar realmente só. Eu sei como é estar no meio da multidão e se sentir perdida e solitária.
–Eu não me lembro de ter dado permissão para você me conhecer tanto – ela disse com um sorriso fraco, mas sincero.
–Oh, foi mal, acho que vou ter de aguentar as consequências de lidar com você – disse em um tom de sofrimento.
Ela riu baixo, mas foi tão gostoso que meu coração disparou... Apenas para dar saltos de ginasta quando ela novamente se aproximou de meu pescoço. Mas dessa vez não foi para deitar e chorar, não, Jenny pousou a boca na curva de meu pescoço e mordeu tão lentamente que fez meu corpo arrepiar diversas vezes antes mesmo da mordida ter seu fim.
–Isso é pelo que fez quando estava passando protetor em mim – ela disse em um tom vingativo e ao mesmo tempo carinhoso.
–Queria ver você reclamando de que estava toda ardida – comentei com a voz entrecortada, finalmente lembrando como se respirava.
Meu celular tocou e vibrou em meu bolso, fazendo-me levar um susto. Jenny riu e saiu de meu colo. Peguei o aparelho e vi que era apenas Kevin querendo revisar a programação da semana. O garoto estava tão animado que não notava as minhas respostas curtas e rápidas, como ele podia atrapalhar o meu primeiro momento mais íntimo com Jenny Summers?!
–E você tem de ir para casa logo – Kevin encerrou praticamente o seu monólogo – Estou te enviando os tipos de perguntas que eles podem fazer e você tem de estar preparada e descansada, amanhã ainda terá os treinos.
–Eu não quero ir para casa – reclamei que nem uma criança birrenta.
–Mas tem de ir mocinha, seriedade no trabalho! – Kevin ralhou usando o seu tom de “eu sou responsável”.
Suspirei e desliguei depois de uma rápida despedida. Olhei para Jenny e ela sorriu compreensiva, sendo a primeira a levantar do sofá e me levar até a porta. Parei ali para me despedir e ela colocou o meu chapéu sobre minha cabeça, o mesmo que eu havia esquecido de que havia levado.
–Sempre esquecendo algo – ela falou negando com a cabeça, mas logo sorriu – Obrigada por tudo Michelle.
–Eu fiz nada, só nasci incrível – brinquei para descontrair e a vi revirar os olhos. De uma maneira bem tímida aproximei e depositei um rápido beijo na bochecha dela – Te vejo amanhã.
–Até – ela sussurrou apenas por ter ficado surpresa com o meu gesto.
Sorri divertida e saí de lá com vontade de pular. Meu coração estava disparado e eu sabia exatamente o motivo disso tudo. Jenny Summers estava entrando em minha vida, tudo o que eu não sabia naquele momento era que seria de uma maneira permanente.
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