Equalize
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Era finalmente a minha “folga”. Um final de semana inteiro sem ter nada para fazer. Três dias poderiam ser o paraíso para alguém com uma rotina como a minha. A primeira coisa que eu fiz foi comprar uma passagem para Chicago. Precisava retornar um pouco para casa e ver meu pai, mesmo que fosse a um cemitério. Estava terminando de arrumar a pequena mala que iria levar ao mesmo tempo em que escutava uma playlist de meu celular. Desde que tudo aquilo aconteceu essa era a primeira vez que eu estava verdadeiramente animada em fazer algo.
As coisas voltavam ao normal lentamente. Zack me implorou por desculpas, dizendo que foram apenas coisas do momento, que ele estava envolvido no personagem. Fui apenas acreditar nele quando finalmente me revelou que estava apaixonado por uma jovem cantora, que ela quase tinha acabado tudo com ele por causa desse beijo também. Depois eu fiz ele me contar detalhe por detalhe desse romance secreto. Ele só não assumia para o público porque sabia que a pressão iria aumentar, que iriam prossegui-los e seriam julgados por qualquer ato que fosse mal interpretado.
De certa forma eu o entendia. Eu havia me afastado bruscamente de Jenny e todos pareceram notar isso. Algumas revistas de fofocas especulavam uma briga de casal, ou que Jenny estava interessada em outra pessoa, ou qualquer outra coisa espetacular que aquelas mentes criativas poderiam pensar. O engraçado era ver os fãs comentando. Eles apoiavam e tinham fé que tudo iria se resolver em algum momento.
Terminei de fechar a mala ao mesmo tempo em que a companhia tocou. Gritei um “já vai” de maneira distraída e fui atender a porta cantarolando o refrão da música que tocava... Apenas para ficar completamente em silêncio ao ver que ali estava Jenny com um buquê de flores diversas. Apertei firme a porta pensando seriamente em fechar em sua cara, minha expressão não era nada amigável.
–Espere – ela implorou assim que viu a intensão em meus olhos – Por favor, eu só preciso de cinco minutos. É tudo o que eu peço. Cinco minutos.
Vê-la ali, acuada e com medo de minha resposta de certa forma me abalou. Eu a amava, ah como amava, mas ainda estava abalada por tudo que aconteceu. Soltei um suspiro antes de dar espaço para que ela entrasse. Eu sempre estaria abalada se não enfrentasse aquela situação, eu precisava enfrentar meu monstro para que ele fosse embora, senão sempre estaria apenas fugindo. Jenny quase chorou de alívio e correu para dentro, virou para mim e esticou as flores.
–Eu não sabia qual você gostava e até pouco tempo atrás achava brega dar flores a alguém. Mas... Eu já não sabia mais o que fazer – Jenny disse sincera – E eu também achei que você é o tipo de garota que gosta de flores, é delicada e romântica.
–Não vai me ganhar com bajulação – a interrompi seca e a vi apertando os lábios – mas começou muito bem – peguei as flores e levei até perto de meu nariz para sentir o delicado cheiro que vinha delas – você tem quatro minutos agora.
–Eu sei que fui idiota, eu... eu estava morrendo de ciúme e sem pensar direito, não vou colocar a culpa na bebida porque eu estava ciente de tudo.
–Ao menos é madura para admitir isso.
Fui em direção à cozinha para poder arranjar um jarro para as flores. Jenny me seguiu e sempre se manteve em uma distância razoável e aceitável. Assim que terminei a encontrei parada na porta, mordendo o lábio e não sabendo para onde olhar.
–Mas eu também estava morrendo de medo – ela admitiu e olhou para o chão – Aquela semana estávamos longe uma da outra e eu tive tempo de pensar em certas coisas que me fizeram ter muito medo.
–Medo de que? – encostei-me à pequena mesa que havia ali e cruzei os braços.
–Do que eu estava sentindo – finalmente ela me fitou e eu pude ver o quão abalados estavam aqueles olhos verdes – É tão forte a necessidade que eu tenho de você que dói como se fosse físico.
–Que estranho você dizer isso para um lixo – cuspi as palavras sem ter esquecido toda a mágoa.
–Eu não queria dizer aquilo. Não de verdade, eu estava cega de ciúme e misturando as coisas. Eu...
Jenny brecou e abaixou o olhar, passando a mão rapidamente nos olhos. Ela estava chorando? Meu primeiro impulso foi o de me aproximar dela e a abraçar, mas me controlei, eu precisava saber o que tinha acontecido aquele dia ou nunca seria capaz de perdoa-la pelo que fez.
–Dois minutos Jenny – a lembrei do tempo apenas para fazer pressão.
–Meu pai me abandonou – Jenny começou rapidamente, desabafando tudo com medo do tempo curto – Ele se separou de minha mãe, mas nunca mais entrou em contato comigo. Isso acabou comigo porque eu o amava mais que tudo. Eu quis ser famosa primeiro para chamar a atenção dele. Quando o encontrei novamente ele nem se dignou a olhar direito para mim. Ele recusa qualquer ajuda financeira que eu tento dar. Ele me recusa.
Meu coração se apertou ao escutar cada palavra do que ela dizia. Para alguns, isso não teria nada a ver com a discussão que tivemos, que seriam duas coisas diferentes. Mas eu sabia muito bem o que a falta de amor de um dos pais poderia causar em alguém e como isso abalava a todo o resto.
–E depois veio a Claire. Eu pensei que a amava mais que tudo. Mas a Claire queria apenas a minha fama, o meu dinheiro e o meu status. Descobri isso quando a peguei me traindo e o que ela usou como argumento? – Jenny fez movimento com os dedos indicando aspas – “Não pode se separar de mim, pois fazemos o casal perfeito de Hollywood, não estrague isso”. E eu a mandei para o inferno logo depois. Desde então eu me neguei a acreditar em qualquer outra pessoa, de confiar em outra mulher, de me entregar a alguém... Até você aparecer.
Certas coisas começavam a fazer sentido. O jeito que ela sempre se defendia com os jornalistas, o modo como escondia suas fraquezas. Eu entendia a lógica que ela usava. Se ela se mostrasse forte, outros teriam medo de atacar. Jenny respirou fundo como se buscasse as palavras certas para me dizer e se aproximou um pouco, arqueei uma sobrancelha e ela parou no lugar com medo de ficar mais perto.
–Você conseguia me ver mesmo quando eu tentava me esconder. Eu não conseguia parar de falar quando estava perto de você – Jenny começou falando com a voz carregada de sentimentos, o olhar intenso travado no meu – Eu pensava em me afastar, mas no minuto seguinte eu estava correndo atrás de você porque queria te fazer rir de alguma forma. Eu estava me abrindo novamente, mas não por conta própria, eu estava enfeitiçada e sem controle nenhum dos meus sentimentos. Quando dei por mim estava perdidamente apaixonada, tipo aqueles caminhos sem volta, entende? – eu apenas acenei, não conseguiria falar naquele momento mesmo se quisesse – Eu estava com tanta saudade sua! Era tanta que quando Rafaela falou de você meu coração disparou como um louco em plena entrevista, eu quase gaguejei em rede nacional! – eu não pude evitar um sorriso quando ela comentou aquilo e isso a fez dar mais um passo em minha direção, Jenny apertou os lábios e olhou para as mãos – E então Zack te beijou. Eu enlouqueci. Eu nunca senti tanto ciúme em minha vida, tanto medo misturado. Medo de ter sido idiota e me apaixonado, medo de perder você, medo de ter você. Então fiz a melhor coisa que sei fazer quando estou assim. Atacar.
Desviei o rosto para o lado sem conseguir olhá-la naquele momento. Meu peito apertou tanto que eu levei minha mão até ele como se assim pudesse segurá-lo e dizer que estava tudo bem. Porém eu senti a mão de Jenny sobre a minha, pegando minha palma com toda a delicadeza e a segurando enquanto me fitava tão perto. Quando foi que ela tinha se aproximado assim?
–Então eu descobri que aquilo não era medo. Era apenas minhas inseguranças e receios, meu lado negro falando mais alto. Medo eu tenho agora – Jenny ia falando e lutava seriamente com as palavras que iam ficando embargada, então ela perdeu toda a pose e chorou, os ombros caíram e os olhos verdes estavam totalmente vulneráveis – Eu faço qualquer coisa Michelle, qualquer coisa por mais uma chance. Eu preciso de você desesperadamente, eu preciso fazer você rir, eu preciso de sua voz e de seu cheiro. Eu quero você com todas as minhas forças porque você instiga o melhor em mim. Por favor, coloque qualquer condição, qualquer coisa, mas me deixa tentar de novo – ela soltou minha mão para enxugar o rosto, a voz dela ficou completamente cortada ao mesmo tempo em que impregnada da mais pura emoção – Eu te amo. Eu te amo de verdade, mais do que tudo que eu já amei e eu precisei te perder para entender isso. Eu...
Nunca iria saber o que ela queria falar naquele momento. Eu não estava aguentando mais quando por fim minhas emoções falaram mais alto do que qualquer razão e guiaram meu corpo. Eu a beijei. Minha boca encaixou-se com a dela a impedindo de falar qualquer outra coisa ao mesmo tempo em que dizia tudo o que ela precisava saber: Eu a perdoava. Eu a amava.
Jenny gemeu em minha boca e me agarrou puxando para seus braços e me envolvendo neles com um aperto forte, mas sem me machucar de maneira nenhuma. Seus lábios buscaram os meus na mesma sintonia que os meus buscavam os dela. Não havia nenhum pensamento coerente ou algum entendimento de quem comandava o beijo. Ele apenas acontecia por pura necessidade e emoção. Isso tornou aquele toque no melhor beijo de minha vida. Ou pelo menos o primeiro deles. Ela pediu por passagem e eu prontamente dei, sendo a minha vez de gemer de um jeito abafado quando aquela língua macia tocou a minha com toda a delicadeza. Eu estava me desmanchando com aquele beijo. Então eu me entreguei aquele toque sentindo que o meu mundo finalmente estava voltando para o lugar. Meu coração estava disparado, mas batendo tão perto do de Jenny que eu pensava que eles estavam se declarando um para o outro. Não sei quanto tempo durou aquele beijo mágico, mas sei que ele teve fim apenas porque o oxigênio se fez extremamente necessário.
–Michelle – Jenny chamou meu nome com os lábios junto aos meus, em um tom rouco que me fez arrepiar – Eu não vou deixar você se arrepender, eu prometo.
Sorri completamente boba e fui acompanhada por ela. De repente, ela me abraçou pela cintura e me girou no ar. Soltei um gritinho e me segurei firme nela, mas sem conseguir reclamar porque ela estava rindo tão feliz que eu só podia rir junto. Jenny me pós no chão e me fitou de uma maneira tão intensa que eu tive de me segurar em seus braços, pois minhas pernas ficaram bambas.
–Eu sei que precisamos conversar sobre algumas coisas – eu disse com a voz rouca sem querer – Mas acho que você deve me beijar uma vez, duas, três, quatro...
Ela riu e tomou meus lábios para si. Então acho que pela primeira vez eu sabia o real significado de um beijo intenso. Não era forte a ponto de fazer logo meus lábios doerem, não, os lábios dela me envolviam em movimentos precisos, a língua invadia a minha boca e me levava a loucura, explorando cada pedacinho e brincando com maestria com minha língua. Uma de minhas mãos foi para a nuca de Jenny, agarrando o cabelo que ficava ali, enquanto a outra se mantinha em um aperto firme na cintura, sempre a mantendo muito perto de meu corpo. Nossos lábios se afastaram alguns centímetros apenas para buscarmos ar, dessa vez fui eu a encaixar nossas bocas tombando a cabeça um pouco para o lado e a beijando com toda a vontade que eu queria.
Deus, aquela boca era totalmente pecaminosa de tão viciante que era. O gosto era indescritível, nossa sincronia era perfeita independente de quem estava dominando ou sendo dominado. Aquele corpo junto ao meu instigava um verdadeiro incêndio dentro de mim. Enquanto a beijava e estava em seus braços, eu me sentia mais viva do que nunca.
O ar nos fez falta, mas ao desgrudar nossas bocas, Jenny não hesitou em descer seus lábios por minha pele até meu pescoço para aplicar ali beijos e mordidas que arrepiaram toda a minha pele. Soltei um suspiro de prazer e a segurei firme enquanto a empurrava até o sofá. Ao cair, Jenny deixou um sorriso divertido em seus lábios vermelhos por causa do beijo. Não desviei meus olhos dos dela enquanto subia em seu colo, de frente. Os braços dela envolveram a minha cintura, meus dedos se perderam nos fios negros do cabelo dela. Aproximei nossos rostos, capturei o seu lábio inferior e o suguei de maneira delicada. Jenny estremeceu em meus braços e me beijou voraz, dessa vez exigindo de mim cada movimento de lábios e da língua. Eu iria enlouquecer apenas com beijos.
–Eu preciso... – Jenny parou o beijo ofegante – Eu preciso... – ela olhou para meus lábios – Oh Deus eu preciso de mais beijo.
Ri contra os lábios dela quando se juntaram aos meus novamente. Dessa vez eu a provoquei durante o beijo, mordendo o lábio inferior, chupando a língua, arranhando a nuca bem lentamente. Dessa vez Jenny parou o beijo gemendo e escondendo o rosto em meu pescoço.
–Eu preciso de um tempo, eu posso nem saber meu nome agora, mas você está me colocando muito excitada com apenas esses beijos – Jenny falou sem vergonha nenhuma.
–Vou pegar um pouco de água – disse também ofegante.
–Água, água é bom para apagar fogo não é?
Acabei rindo mais ainda e dando um selinho antes de levantar, eu estava tão feliz que poderia rir do vento! Minhas pernas ainda estavam tremulas e eu me sentia flutuar enquanto ia para a cozinha. Peguei dois copos, o jarro na geladeira e estava despejando o líquido quando braços me circularam por trás em um abraço gostoso.
–Não consigo ficar longe de você – Jenny falou tão perto de meu ouvido que o seu hálito quente me fez encolher um pouco – E nem quero.
Eu sorri toda boba, mas logo estava estremecendo quando Jenny capturou o lóbulo de minha orelha e a mordeu bem de leve. Isso me fez fechar os olhos por alguns segundos e quando tornei a abri-los dei de cara com o relógio pendurado na parede da cozinha.
–Ai merda! – exclamei batendo a mão em minha testa – Eu perdi o voo!
–Você ia viajar? – Jenny se afastou um pouco e ficou mais do meu lado, permitindo-me virar para ela e oferecer finalmente o copo com água – Mas você ia voltar não é?
–Eu tenho um contrato Jenny, teria de voltar de qualquer jeito. Eu iria para Chicago, ficar um pouco em casa para por a cabeça em ordem – expliquei e deixei escapar um suspiro – Agora o próximo voo é só mais pela noite.
–Eu te atrapalhei, não é? – a garota de pele branca questionou sem jeito, mexendo nos próprios dedos, algo que sempre fazia quando estava um pouco acuada.
–De certa forma você já me fez por tudo em ordem – falei e quando ela me olhou eu já estava sorrindo – Porque eu não aceito você vim aqui com flores, me dar beijos que nem aqueles e não termos nada.
–É sério? Você quer ter algo comigo?
–Você é chata às vezes, muito má comigo quando quer aprontar... Mas o que eu posso fazer? Não sou eu quem escolho por quem me apaixonar e...
–AI DEUS!
Sim, ela gritou, me agarrou e me encheu de beijos. Eu estava rindo da animação dela, eu nunca tinha visto Jenny tão feliz quanto naquele momento. Ela estava quase fazendo alguma dança tosca da vitória. Mas no fim acabou apenas abraçada a mim, me mantendo em seus braços enquanto me enchia de beijos rápidos e selinhos longos. Tão rápido brigamos, tão rápido reatamos. Isso parecia loucura até mesmo para mim. Porém quem seria eu a reclamar quando a tinha tão feliz ali e também me fazendo feliz? Eu precisava daquela dose de amor que ela estava me oferecendo, não seria orgulhosa a ponto de não aceitar o que eu mais queria. Até porque, ela tinha se explicado, contado a sua história para mim e agora eu a entendia muito melhor do que antes. E isso me fazia amá-la ainda mais.
–Nós vamos para Chicago, ok? – ela propôs – Quero viajar com você, ter um tempo só com você e ao mesmo tempo te dar a chance de ir para casa um pouco. O que acha?
–Que você está se saindo muito melhor do que o pedido.
Ela riu e me beijou. Um beijo que foi apenas o primeiro de muitos, até eu lembra-la que precisávamos comprar as passagens. Eu não podia acreditar que tudo estava se encaixando daquele jeito. Mas só de vê-la ali, toda contente enquanto usava meu notebook para comprar as passagens, eu sabia que era a coisa certa. Porque meu tolo coração se tornava feliz apenas por vê-la feliz. Era a maldição dos apaixonados.
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