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10 Capítulo 10
Notas iniciais
Eu não sabia se era dia ou noite. Passaram-se horas ou se apenas alguns minutos desde que acordei. Não sentia fome ou sono. Talvez estar morta era bem próxima daquilo. Provavelmente a minha depressão estava retornando. Às vezes eu ficava bem, outras a dor vinha como uma onda enorme e destruía qualquer resquício de que eu estava me reconstruindo.
Foi em um nesses momentos de queda que eu me descobri sentada sozinha no piso da sala, as costas apoiadas no sofá e sobre a mesinha de centro o gilete. Usava a minha blusa mais velha e uma calcinha box apenas. Meu estado era lamentável, olheiras debaixo dos olhos, cabelo extremamente bagunçado e eu não havia me dado ao trabalho de tomar banho. Seria fácil, muito fácil, pegar aquela lâmina e provocar uma dor que iria desviar minha atenção. Aquela dor eu poderia controlar, eu poderia suprimir os pensamentos infernais e me concentrar apenas naquele sofrimento físico. Mas eu olhava para meu pulso e hesitava. Havia quase morrido daquela vez, se não fosse por minha meia-irmã ter me encontrado. Eu jurei para mim mesma que nunca mais me cortaria... Porém naquele momento eu estava tão miseravelmente fraca que minha mente se recusava a pensar nessa promessa.
Peguei o gilete e olhei para a sua ponta. Onde deveria me cortar? Provavelmente em um lugar discreto, onde ninguém fosse ver a cicatriz. Não iria querer responder perguntas desnecessárias. Porém de que isso importava? Eu não queria ir para o estúdio, eu não queria vê-la. Mas eu ainda a amava. Deus, apenas naquele momento eu percebia que eu a amava de verdade. E como eu sabia disso? Porque estava doendo absurdamente cada palavra que Jenny tinha proferido com tanto ódio.
Foda-se.
Coloquei a lâmina sobre a pele de minha coxa. Bastaria deslizar, apenas um movimento sutil e...
–MICHELLE!
A voz de Oliver me causou um susto tão grande que eu me cortei sem querer. Foi um choque vê-lo ali, com a porta de minha casa aberta e com aqueles enormes olhos arregalados em minha direção. Prontamente o homem correu até mim e tirou o gilete de minha mão. Ele olhou para minha perna e tirou do bolso um lenço. Claro, ele era um daqueles homens que sempre tinha um lenço para socorrer uma dama. Felizmente o corte não era nada profundo ou grande, apenas ardia.
–D-desculpe – eu gaguejei totalmente envergonhada.
–Você não pode decair dessa forma, não por uma briga tão fútil – Oliver ralhou comigo, mas me olhava com uma preocupação e carinho que aqueceu meu coração frio.
–Ela não podia me dizer aquelas coisas, não ela! – eu desabafei e logo estava chorando feito uma criancinha, soluçando e me embolando nas palavras – Ela estava falando como minha mãe. Gritou coisas ruins para mim, ela me odeia!
Eu o abracei. Abracei com todo o resto de força que eu tinha. Precisava de alguém para me apoiar porque naquele momento eu não saberia cuidar de mim mesma. E Oliver mostrou ser a pessoa exata para isso. Ele me fez tomar um banho e preparou café e comida para mim. Não me perguntou nada, apenas ficou comigo em silêncio e não foi embora.
Eu estava recomposta.
A dor não havia ido embora. Permanecia ainda ali em cada batida de meu coração, mas ao menos eu conseguia não pensar de uma forma tão negativa. Chamei Oliver para sentar no sofá e depois de quase dez minutos de silêncio eu resolvi que desabafar iria me ajudar.
–Eu sou filha bastarda – comecei e respirei fundo – Minha mãe me teve fora do casamento. Uma traição que nem ela e nem meu padrasto perdoaram. Até onde eu sei eles tinham brigado, ela foi para uma festa, bebeu um pouco além da conta e dormiu com meu pai. Nove meses depois veio o resultado – mordi o canto do lábio, dando-me um tempo para aguentar a onda de lembranças que me atingiu – ela nunca me quis realmente, na verdade, pensou em abortar e sempre deixou isso muito claro para mim. Só não o fez porque meu padrasto é bem religioso e abomina o aborto.
O choro veio sem permissão. Minha mãe nunca me amou, sempre soube disso. Mas meu tolo coração sofria por causa da falta de um carinho tão importante. Eu sempre esperei quando pequena fazer as coisas certas para ganhar um elogio que fosse. Oliver me abraçou forte e eu precisei de mais alguns minutos para me recuperar.
–Não foi nada fácil. Ainda mais quando Vanessa nasceu, ela sim era a sua filha. Aquela mulher acabou com minha infância e parte de minha adolescência. Deixava bem claro que eu era um lixo, que eu não deveria existir, que eu seria uma vadia no futuro. Ela repetia isso, repetia e repetia. Mas eu a amava, queria que ela me notasse, me elogiasse e por isso tentava, apenas para cair em castigos cada vez mais absurdos. – respirei fundo e dessa vez não notei quando estava chorando novamente – E a Jenny... Ela disse exatamente isso. Que eu era um lixo como todas as outras, que eu era uma vadia. Ela tinha raiva nos olhos, tanto ódio que eu fiquei com medo, Ollie eu fiquei com medo de que ela fosse me bater como minha mãe fazia!
Eu não consegui contar mais nada. Minha voz travou em minha garganta graças a um caroço enorme que cresceu ali dentro e me impedia até de respirar. Oliver ficou comigo, eu o via abalado pelo que eu tinha acabado de revelar. Ah se ele soubesse que isso era apenas metade das cosias que tinha acontecido comigo em um passado não tão distante quanto eu queria.
Oliver ficou comigo o máximo que pode. Chegou até a dormir em minha casa e eu agradeci a Deus por isso, pois ele me obrigou a comer e a beber água. Houve um momento em que ele atendeu a uma ligação em meu quarto, falava baixo por provavelmente pensar que eu estava dormindo.
–Não ouse vim para cá agora – ele falava ríspido – Você quebrou a menina, Jennifer... Ah eu concordo que você estava sendo muito estúpida e idiota... Dê um tempo para Michelle, ela precisa recuperar a força dela... Não, você não vai falar com ela, finalmente está dormindo... Sim Jenny, claro que eu estou cuidando dela!
Depois disso ele desligou e saiu do quarto. Eu não estava preparada para enfrentar aquela situação. Não ainda. Precisava ficar naquela gaiola mais um pouco, curando minhas asas para poder voar novamente. No dia seguinte Oliver teve de me levar para as gravações. Era bem nítido que eu não estava bem, eu não estava cumprimentando Deus e o mundo. Eu tentava, tentava mostrar que eu estava ok, mas era muito fácil meu olhar perder-se em meio ao nada.
Estava sendo fraca. Caída novamente no mesmo poço de anos atrás, eu sabia exatamente como escalar para fora, só não tinha forças para isso. O mesmo aconteceu no dia seguinte. Gravei a minha parte com o máximo de profissionalismo que poderiam exigir de mim. Não importava o quanto machucada eu estava, eu havia conquistado aquele meu espaço e lutaria por ele mantendo o meu nível tão alto quanto possível.
Jenny tentou se aproximar de mim duas vezes. Uma eu literalmente fui para o lado contrário, lançando a ela um olhar frio que deixava bem claro que eu não queria conversar. Na segunda, Oliver a impediu. Eu escutei os dois discutindo, mas não fiz questão de entender o que estavam falando. Em um dos intervalos, Kevin estava me mandando mensagens alertando sobre a programação de minha agenda. Encontrei uma mensagem de um número desconhecido e hesitei alguns instantes, porém poderia ser algo importante, certo? Encostei meu ombro na janela e toquei a tela para abrir a mensagem.
“Eu não tenho palavras para dizer o quanto eu sinto muito, eu sei que exagerei no meu ciúme e não deveria ter agido daquela forma. Eu sei que você não olharia uma mensagem minha...”
Assim que notei que a mensagem era de Jenny meus olhos embargaram. Eu sentia um misto de raiva e de dor que eu não podia controlar. Por que ela simplesmente não poderia me dar um tempo? Por que ela não entendia o quanto havia me machucado com aquelas palavras? Apertei o celular com força e por puro impulso de raiva eu o joguei forte contra a parede. Não queria ler o resto da mensagem, não queria uma desculpa vazia. Não queria lembrar tudo mais uma vez e decair em um poço profundo onde a única forma de sair dele seria me machucando fisicamente. Infelizmente nesse momento eu estava no set de filmagens, mesmo que meio escondida da movimentação, o som do celular sendo quebrado chamou a atenção de todos. Eu estava ofegante, minhas narinas abertas e meu rosto vermelho pelo sentimento forte de raiva que fazia meu coração disparar.
Eu vi Oliver e Ian se aproximando. Mas eu não precisava deles naquele momento, tudo o que eu queria era ficar só para me recompor, juntar meus pedacinhos e colar com super-bonder. Dei meia volta nos calcanhares e corri para o meu ônibus-trailer, sem me importar com a atenção que estava chamando. Artistas possuíam o seu direito de surtar de vez em quando, não é? Então me permiti ficar trancada ali dentro, tendo minhas crises no silêncio. Oliver chegou a bater na porta e perguntar se eu estava bem, porém eu implorei para que ele me desse espaço. Bom amigo do jeito que era, ele obedeceu a minha súplica e alertou que tinha salvado o meu chip dos destroços do celular. Naquele dia ninguém ousou se aproximar de meu trailer.
Se eu estava exagerando também? Talvez apenas para os olhos daqueles que tinham uma família unida, bem conservada; para aqueles que não tiveram de fugir de um país a procura de um desconhecido para que lhe desse carinho e forças. Ou talvez para aqueles que não tivessem encontrado a maior dificuldade de sua vida em si mesmo, por causa de uma baixa autoestima e insegurança. Que não saberia o que é se agarrar a um filete de esperança e se erguer por completo. Não importava que eu só tivesse dezenove anos, a vida não escolhe um período certo para apresentar os seus mais cruéis desafios. Então eu precisava daquele tempo sozinha, precisava lidar com a dor cruciante de ter alguém que amava falar as mesmas coisas da pessoa que era o seu pesadelo vivo.
Eu só fiquei bem realmente quando escutei uma música vinda do celular de alguém, dois dias depois do episódio do celular, em um intervalo de ensaio. Era Endless Love, uma das baladas favoritas de meu pai. E foi o pensamento dele que me fez ter todas as minhas forças novamente. Ele ficaria decepcionado se me visse naquele momento e eu não poderia deixar que isso acontecesse. Passei um tempo calada relembrando todos os bons momentos que eu tive com aquele homem que me amou com todas as suas forças. Respirei fundo e pus um sorriso em meus lábios antes de voltar para o ensaio.
Eu era uma atriz. Estava cansada de preocupar a todos e deixar aquele clima pesado por minha culpa. Então mesmo que fosse necessário atuar sobre mim mesma, eu iria fazer. Em algum momento talvez eu convencesse a mim mesma de que estava tudo bem.
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