Equalize
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Encarava ao meu celular com o coração apertado. Não havia como se acostumar com aquilo realmente, em receber uma resposta negativa para tudo o que você mais ansiava. Essa era a segunda ligação que informava que eu não havia passado no teste. Era difícil nesses momentos não começar a questionar se eu era realmente boa naquilo que fazia. A insegurança lançava pensamentos negativos dos quais eu já não estava mais acostumada. Quem sabe eu nasci apenas para ser Lyanna? Talvez eu fosse apenas um daqueles artistas que era como uma pequena faísca, tinha o tempo contado para ter a chama acesa.
Ao contrário de mim Jenny havia sido convidada, vejamos bem, ela nem precisou de um teste em si, ela foi chamada para patragonizar um papel principal em um filme de drama e romance. Um cujo enredo eu tinha certeza que faria o mais absoluto sucesso, ainda mais que seu par romântico seria o Channing Tatum. Ao que parecia, no elenco ainda iria ter outras figuras conhecidas, tornando o filme um dos futuros lançamentos que prometiam ser recomendados ao Oscar. Isso sem nem ter começado as gravações ainda.
Por um lado eu tinha um orgulho esmagador de minha namorada. Ela era realmente brilhante como atriz. Interpretava como ninguém, apesar de eu já saber lê-la por completo. Jenny possuía um brilho próprio que independia de qualquer outro fator, até mesmo os críticos mais azedos e carrancudos sabiam admitir isso quando se tratava de Jennifer Summer. Por outro lado, eu tinha um medo pequeno de que eu ficasse apenas a sua sombra, de que não fosse boa o suficiente para ser vista ao seu lado. Ter essa sensação de inferioridade tomando conta de meu corpo realmente me estragava por dentro, mas era algo que eu não poderia controlar ou impedir, era mais forte do que qualquer outra perseverança minha.
Meu celular tocou, a foto de Jenny abraçada a mim apareceu denunciando ser minha namorada. Soltei um suspiro e coloquei no silencioso, o deixando tocar. Estava em casa, afundada no sofá e sem estar nem um pouco apresentável. Usava roupas velhas e meu cabelo nem me dei ao trabalho de pentear. Não estava em um bom dia e estava entregando-me ao mar, deixando-me simplesmente levar pela correnteza. O celular tocou uma, duas, três vezes. Na quarta eu resolvi atender, antes que ela aparecesse na casa e me encontrasse daquele jeito.
–Amor? Tudo bem? Aconteceu algo? – Jenny disparou a questionar antes mesmo que eu pudesse falar “alô”.
–Tudo sim vida – tentei usar de meu melhor tom, nesses momentos eu agradecia por ser uma atriz porque eu realmente poderia tentar – Estava no silencioso e eu estava distraída, desculpe por isso.
–Certeza de que é apenas isso?
–Sim – menti e mordi o meu lábio, me odiando por estar mentindo para afastá-la de mim.
–Então, está um dia lindo e eu sei que você não tem nada programado. Que tal irmos a uma sorveteria discreta ou...
–Desculpa Jenny, eu estou com dor de cabeça, não queria sair de casa hoje.
–Então eu posso ir ai e cuidar de você bebê...
–Não precisa, eu sei que você está ocupada. É só uma dor de cabeça, já vou até tomar remédio, não se preocupe ok? Vou desligar aqui.
Desliguei a ligação e o aparelho. Eu me odiava por ser fraca naquele momento, mas eu não queria preocupar a garota e puxá-la para esse momento meio depressivo de minha vida. Realmente obriguei-me a tomar um analgésico porque a dor de cabeça logo se fez presente de verdade. O resto do dia passei ali, largada no sofá vendo televisão sem me fixar realmente no conteúdo. Adormeci de qualquer jeito, me permitindo sofrer um pouco para poder me erguer e ir para a batalha novamente.
Porém antes que eu encontrasse essa força, uma enchente me encontrou. Acordei assustada e caindo no sofá com o peito subindo e descendo denunciando o meu estado de choque. Meus olhos focalizaram Jenny de braços cruzados e Kevin com um dos meus copões na mão. Demorei alguns segundos para entender que ele havia me acordado jogando um copo de água gelada em minha cara.
–Mas que porra foi essa?! – gritei sem me importar com o mau humor, não me culpem, experimentem acordar dessa maneira antes.
–Eu que pergunto! – Jenny pousou as mãos na cintura, uma evidente pose que denunciava que estava brava – Você sumiu o dia inteiro ontem e não deu notícia a manhã inteira!
–Que horas são? – perguntei desnorteada, esticando meu corpo para sentar no sofá e prontamente ficando tonta – Ai que está tudo girando.
–Você bebeu? – Kevin indagou largando o copo sobre a mesinha a frente do sofá.
–Não – não bebi, mas também não comi, mas eles não precisavam saber disso.
–O que estava fazendo, Michelle?
Jenny fez a pergunta e sentou ao meu lado, segurou minha mão e olhou-me com ar de preocupação. Aquilo tudo fez com que meus muros desmoronassem. O que eu estava fazendo realmente? Eu pensei que já tinha superado aquela fase de me fazer de vítima por qualquer coisa, eu não teria um papel se não aguentasse algumas recusas! Porém era tão difícil! Jenny pareceu notar o quanto eu estava frágil e perdida, pois tudo o que fez foi soltar um suspiro e me puxar para seus braços. Eu me permiti ficar ali, usufruindo daquele calor e percebendo o quanto só de estar assim perto dela eu conseguia me acalmar e por a mente um pouco no lugar.
–Kevin me contou sobre os papeis – Jenny murmurou e eu encolhi envergonhada.
–Desculpa – eu pedi em um fio de voz.
–Pelo que, meu amor?
–Eu deveria estar comemorando com você o novo filme, eu deveria estar do seu lado e estou fazendo apenas a cena de garota egoísta e derrotada eu...
–Ei, ei! Nada disso! – Jenny segurou meus ombros e me ergueu de modo que eu pudesse olhá-la – Até mesmo eu recebo recusas para papeis. Eu sempre procuro pensar que eles não foram feitos para mim e que uma hora vou encontrar um que eu possa interpretar da melhor maneira possível.
–Mas você é incrível, isso não vale.
–Você é surpreendentemente talentosa e carismática, Michelle! Eu vi isso desde a primeira vez, quando tivemos de improvisar, lembra? Meu amor, não é a toa que eu sou sua maior fã e a pessoa que deseja estar ao seu lado em todos os momentos. Isso quer dizer nos momentos de glória e nos de fraqueza.
–Que saco Jenny, pare de ser tão perfeita, é insuportável.
–Oh que eu te largue na fossa e vá comemorar sozinha em uma balada?
–Não se atreva a ir a uma balada sozinha!
–Você pode estar em qualquer humor, mas ainda continua sendo possessiva. Isso te deixa estranhamente fofa mesmo estando um horror nessa roupa e cabelo meio molhado. Depois reclama de mim me chamando de Sammy.
Revirei os olhos e joguei uma almofada dela. Eu tinha sido uma verdadeira idiota ao tentar mantê-la longe quando tudo o que eu precisava era dela. Kevin pediu algum almoço para nós e Jenny praticamente me empurrou para o banheiro, cheia de provocações e perturbações em uma tentativa mascarada de melhorar o meu humor. Decidi deixar aquela baboseira de lado, eu precisava de um pouco de carinho e alguns elogios, então apenas me permiti ser cuidada e um pouco dependente de Jenny.
O resultado foi lindo. Ela me encheu de mimos e brincadeiras, fazendo-me voltar a sorrir e encarar as minhas negativas com outros olhos. Jenny estava se tornado a minha força e naquele momento eu não via como isso poderia ser uma coisa ruim. Por isso estava apenas me entregando. O almoço foi divertido, Kevin comentava besteiras e Jenny evitava falar dos planos para o filme, mas eu prontamente puxava para esse assunto e demonstrava o quanto estava sinceramente feliz por ela.
Pela tarde Kevin já estava rindo, Jenny estava sobre mim enchendo-me de cócegas exigindo que eu falasse que ela era a atriz mais gostosa que eu conhecia. O que de fato era, mas não iria estragar a brincadeira e deixar ela com essa pontada de dúvida. Sabia que no fim demonstraria no meu quarto o quanto ela era sensual e gostosa para mim. O meu celular estava tocando ao longe e Kevin o atendeu, Jenny ainda lutava sentada sobre meu quadril, mas parou imediatamente quando o meu agente fez sinal para a gente aquietar um pouco. Sentei no sofá ainda com ar de riso e deixei Jenny em meu colo, comecei a dar beijinhos suaves em seu pescoço e ela logo estava sorrindo.
–Sim, sim, isso mesmo – Kevin ia falando com ar profissional – Pode apostar que sim, mas verei com ela sim senhor. Para amanhã? Te dou uma resposta em meia hora. Sim, pois não, é um prazer – ele então desligou o celular e ficou estático.
–Quem era Kev? – Jenny saiu de meu colo e sentou ao meu lado.
–Michelle, querida, eu sinto muito em dizer isso – Kevin começou e eu já começava a ficar tensa, Jenny prontamente segurou minha mão com um pouco de força – Mas termos de viajar em breve.
–O que aconteceu? Fale logo ou eu atraso de propósito o seu salário! – ameacei sem muita paciência.
–Minha querida, você deveria me dar um aumento isso sim! Escute bem minha diva favorita, quem estava falando comigo era nada menos do que Michael Bay. Você acaba de ser chamada para um papel em seu novo filme!
Eu fiquei estática. Tipo, quais as chances do teste mais impossível ter sido o que deu certo? Quais as chances de eu estar indo trabalhar com Michael Bay? Um dos diretores e produtores mais bem sucedidos em Hollywood e com filmes consagrados que eu adorava? Jenny foi a primeira a reagir, ela gritou, me abraçou, começou a pular junto com o Kevin e eu continuava em choque. Tipo, eu estou sonhando, certo?
–Amor, amor! Reage! Nós precisamos comemorar! – Jenny segurou meu ombro e sacudiu um pouco.
–Isso não é um sonho? – indaguei incerta.
–Não amor, deixa eu te provar que não é!
Jenny então me deu um forte e rápido selinho. Eu pisquei várias vezes e finalmente soltei um grito. Surtei quase correndo pela casa toda e me joguei nos braços de Kevin quase o derrubando no chão. Depois de muito tempo calma, eu finalmente parecia compreender que iria gravar um filme realmente grande, com tudo o que tinha direito. Grande elenco, grandes produtores, grandes efeitos, grandes diretores. Kevin prontamente retornou a ligação garantindo que eu aceitava o papel, marcando um encontro com os produtores e diretores logo para o dia seguinte, em Los Angeles.
Naquele resto de dia eu expulsei Kevin de minha casa e abri uma garrafa de vinho para beber com Jenny. Ela descobriu que quanto mais eu bebia, mais ousada ficava e se deliciou com toda a comemoração que eu propus. Exploramos quase a casa toda, a felicidade que me tomava deixava-me eufórica e com uma adrenalina a mais, recuperando-me muito mais rápido depois de pensar que havia esgotado tudo o que tinha.
(•••)
Tudo ocorrera muito bem quando encontrei com Michael Bay e os produtores do filme, além do roteirista e outras figuras importantes. Conversamos um pouco sobre o meu papel e sobre o que eles pretendiam realizar. Michael era simpático e perguntava minhas opiniões, alegando que eu ainda não havia sido contaminada por Hollywood e por isso teria uma sincera e genuína argumentação de fã. Então fui sincera em tudo o que ele me perguntava, ficando um pouco tímida quando ele abria um sorriso de satisfação com o que eu dizia.
Meu papel não era o principal, porém não menos importante. O enredo era simples, mas não menos complicado de ser produzido, até onde sabia boa parte da verba estava indo para a parte técnica, já que o plano era tornar o filme cheio de efeitos super produzidos. O longa contava a história de um pai e de uma filha, ele era um ex militar que sabia coisas demais do inimigo e por isso fora obrigado a viver longe da família para protegê-la. A garota estava em plena crise, sem saber o que fazer da vida e tendo de cuidar da mãe que adoecia. O pai sempre a visitava no aniversário e foi em um desses que eles foram capturados e levados para uma história de fuga e sobrevivência, sem perder o drama familiar e a ação. Boa parte do filme a garota estaria capturada pelo inimigo, o que a tornava apenas um papel coadjuvante cheio de drama e luta. O meu papel!
Qual foi minha surpresa ao descobrir que quem seria o meu “pai” era o Henry Cavill. Simplesmente o novo Superman de Hollywood. Sem contar com as outras estrelas que estariam presentes!
Eu saí de lá em êxtase. Era uma grande oportunidade, uma grande chance e eu iria aproveitá-la com todas as minhas forças. Eu estava extremamente animada, ao chegar no hotel onde Kevin fez nossa hospedagem, joguei-me na cama e rolei de um lado para o outro rindo que nem idiota. Porém logo que um pouco de juízo foi posto em minha cabeça, peguei meu celular e liguei para Jenny, contando tudo detalhe por detalhe do que tinha acontecido. Ainda nos veríamos naquela noite, afinal tínhamos uma entrevista para fazer em um programa.
Foi algo decidido quando ela recebeu a notícia sobre o próprio filme que iria gravar. Iriamos nos assumir mais que oficialmente, mas também abertamente. Dizer com bom gosto para todo o mundo que somos namoradas. Isso evitaria especulações e intrigas enquanto estivéssemos afastadas uma da outra. Ou ao menos era esse o plano. Por isso concordamos de participar de um bloco de um talk-show.
Porém mesmo assim eu queria contar a ela, almejava que ela fosse a primeira a saber das coisas, que ela fizesse parte importante desse momento em minha vida. Então passamos quase duas horas de ligação, apenas para eu ter de desligar para me arrumar e ir para o set de gravações do programa. Fui a primeira a chegar ao camarim, mas lá já haviam rosas vermelhas e um cartão de Jenny dizendo parabéns. Eu sorri toda boba e fiquei ali admirando uma rosa em minha mão até que ela chegou.
–Que bom que gostou – Jenny sorriu lindo como sempre.
–Como não iria gostar? Eu tenho a namorada mais perfeita do mundo!
–Até pouco tempo atrás você estava reclamando de minha perfeição.
Acabei rindo e me jogando em seus braços. Um assistente logo bateu na porta e disse que em meia hora nós entraríamos. Assim tivemos de nos arrumar na maquiagem e cabelo. Jenny usava um vestido vermelho que colava em sua cintura e peito, porém era solto nas pernas. Usava salto alto agulha e por isso estava vários centímetros mais alta do que eu. O melhor de tudo? Ela estava usando o colar de meu pai. Eu preferi um estilo mais próprio, um short escuro com rasgo na coxa direita, coturnos brancos e uma blusa branca com detalhes em preto. Ficamos prontas a tempo e fomos para perto do set, estava um pouco nervosa com aquele dia agitado, mas Jenny prontamente segurou minha mão e sorriu me dando toda a confiança que eu precisava.
–Hoje para nossa alegria, finalmente vamos ter companhia do mais novo casal das telinhas que vem arrancando muito da imaginação dos fãs – a apresentadora Kate estava anunciando o bloco – Por favor senhoras e senhores, jovens loucos por Eternal, recebam Jenny Summers e Michelle Lopez!
Os aplausos começaram fortes e Jenny foi a primeira a se movimentar, saindo dos bastidores para o palco, consequentemente me levando junto. Sem querer entramos de mãos dadas, já que eu não a havia soltado de forma alguma. Na plateia havia vários fãs, alguns segurando cartazes e eu pude distinguir um em particular, ele tinha um coração e dentro dele estava escrito “Jennelle”.
–Boa noite Kate! – cumprimentei com a mesma simpatia de sempre.
Kate havia levantado para nos cumprimentar com beijos no rosto. Depois eu e Jenny sentamos em um sofá e ela em sua poltrona habitual. Jenny cruzou as pernas parecendo bem a vontade, enquanto eu estava tentando bater o meu pé de forma discreta, afinal o nervosismo retornou forte. Eu estava para assumir em rede nacional (e internacional talvez) que estava namorando uma atriz famosa.
–Eu não posso dizer que estou realmente surpresa, havia sempre uma suspeita entre vocês duas – Kate comentou com um sorriso singelo – Mas por favor, estamos todos curiosos para saber como foi que isso aconteceu.
–Então... – eu comecei e travei, olhei para Jenny e comecei a rir – Desculpa, vai para você, é mais difícil do que eu pensei.
–O que é difícil? – Kate logo se intrometeu.
–Uma coisa é você apresentar a sua namorada para seu pai, outra é pros Estados Unidos e mundo todo – expliquei e soltei um riso baixo – Então é melhor ela começar.
–Mas eu não sei realmente ao certo quando tudo começou a acontecer – Jenny me fitou em busca de respostas, mas eu dei de ombros, sem também saber ao certo quando tudo se transformou – Começamos como amigas, não tem como não fazer amizade com essa criatura. Até no mal humor matinal ela consegue ser cativante.
–O que não se pode dizer de você – falei baixo, mas o microfone estava preso na minha roupa, captando tudo o que eu falava.
–Ah por favor, não comece de novo – Jenny revirou os olhos – Estou tentando responder uma pergunta.
–Tudo bem – ergui as mãos em rendição – Ninguém quer saber quando você fez meu coração disparar e quase sair pela boca mesmo.
–Michelle... – Jenny começou com tom de ameaça.
–Espere, conte-nos melhor isso Michelle! – Kate estava animada com nossa interação.
Olhei para Jenny com um sorriso de culpa e ela revirou os olhos, desviando dos meus. Aceitei aquilo como um consentimento.
–Uma vez apagamos assistindo a um filme. Eu fui a primeira a acordar e logo depois foi a Jenny. Mas eu tomei o maior susto da minha vida! Ela estava levantando devagar e o cabelo estava todo bagunçado. Então imagine o que passou em minha mente quando eu vi essa coisa branca e de cabelos pretos levantando sinistramente em minha cama!
Kate não segurou o riso, a plateia também a acompanhou e Jenny cruzou os braços. Ela estava fazendo aquele bico fofo e emburrado que eu adorava desfazer com um beijo. Mas não faria isso em plena entrevista.
–Por isso ela agora tem o apelido de Sammy, de Samara, aquela garota do Chamado – expliquei e a escutei bufar – mas voltando ao tema principal – coloquei uma mão sobre o joelho de Jenny pela simples necessidade de precisar tocá-la – não houve um inicio certo, tudo foi nos aproximando aos poucos. Nossa amizade se mantem até hoje, o que eu acho lindo porque sei que posso depender dela de todas as formas. Eu posso dizer que tudo se intensificou em algum momento e as brincadeiras não eram apenas brincadeiras.
Jenny relaxou e pousou a mão sobre a minha, logo tratei de entrelaçar nossos dedos. A entrevista prosseguiu de maneira tranquila. Ela perguntava sobre nossos melhores momentos, coisas um pouco superficiais e sobre a perspectiva sobre o futuro. Tudo em si durou pouco mais do que quinze minutos, quando eu estava relaxando tinha já acabado as perguntas. No camarim recebi uma bela de uma mordida animalesca em meu braço, Jenny dizendo que era meu castigo por ter falado de seu lado Samara de ser ao despertar. No fundo sabia que se ela não fizesse isso iria ser estranho, não seria a minha emburrada menina branquela.
Depois dali seguimos para o meu apartamento já que Los Angeles e Burbank eram muito próximos. Jenny praticamente vivia lá apesar de ter a sua mansão. Uma vez ousei perguntar o por que de sempre acabarmos em minha humilde residência, e mais uma vez Jenny mostrou-se aquela mulher solitária ao falar de seu lar. Afirmou que aquela outra casa era grande demais e que preferia a minha, muito mais aconchegante e onde tudo lembrava a mim. Tinha como não me apaixonar mais por ela?
Quando chegamos, como sempre, notamos um paparazzi que ao menos tentava esconder-se. Jenny revirou os olhos e bufou, entrando na casa com a cópia de sua chave. Eu ainda virei e acenei um tchau para ele, custava nada, afinal ele estava fazendo o seu trabalho e provavelmente ele ficou nos esperando horas ali. Lá dentro, pedimos pizza e fomos tomar banho juntas. Um banho bem íntimo, mas sem nenhum grande acontecimento, vulgo sexo selvagem. Jenny já tinha um par de roupa em meu closet, assim como escovas e produtos de banho em meu banheiro. Assim ela pode escolher tranquilamente um shortinho e sua blusa do Bob Esponja. Propositalmente escolhi a minha do Patrick.
–Michelle? – Jenny me chamou.
Estávamos deitadas em minha cama depois de jantar, abraçadinhas e em silêncio fingindo ver televisão, apenas curtindo uma a outra. Ergui o meu rosto para poder prender meus olhos naquelas íris esverdeadas que me derretia em segundos. Daquela vez não foi nem um pouco diferente.
–Oi mô – respondi dengosa.
Ela suspirou e me deu um longo selinho. Sorri com o seu gesto e levei uma mão para ficar brincando com os fios negros de seu cabelo. Eu sabia que ela adorava que mexessem em seu cabelo, apesar de que permitia muitos poucos de fazerem isso.
–Você me distrai muito fácil, sabia? – ela acusou com um meio sorriso, mas logo ficou um pouco séria – Eu estava aqui pensando... Nós vamos para um novo passo em nosso relacionamento.
–Vamos? – indaguei para estimular ela a continuar a lógica que se formava em sua mente.
–Sim – Jenny deslizava os dedos pelo meu braço, estava tranquila apesar do semblante compenetrado – Vamos passar um bom tempo longe uma da outra, nos vendo uma vez no mês ou talvez menos, por causa dos filmes que iremos gravar.
–Está dizendo que irá morrer de saudades de mim?
–Não exatamente isso, mas também isso. Eu... Eu tenho um pouco de medo e insegurança.
–Eu estaria mentindo se não dissesse que também não estou. Eu nunca vivi algo tão intenso, assim como também nunca passamos muito tempo longe uma da outra.
–Essa é a parte mais chata e complicada de um namoro entre artistas. Mas eu não quero terminar com aquela desculpa de “incompatibilidade de agendas” ou coisa parecida.
–Daremos um jeito, mas acho que antes de tudo, para que dê certo temos de prometer sermos sinceras o máximo possível uma com a outra. Mesmo que seja algo desagradável e que gere desconforto momentâneo, deve ser dito.
–Isso eu concordo. Mas não vai ser tão ruim assim, teremos nossas folgas, poucas, mas teremos.
–E eu vou te ligar todos os dias. Se você não atender eu vou ficar realmente brava.
–Vou adorar imaginar você fazendo sua expressão de brava, fica realmente fofa e sexy ao mesmo tempo. Ah Deus, como eu pude esquecer? Amor, espera um pouco eu comprei algo para ti.
Ela saltou da cama e correu para fora. Minha curiosidade era muita, mas tudo o que eu fiz foi sentar na cama com as costas apoiadas na cabeceira. Jenny voltou menos de dois minutos depois, nos lábios aquele sorriso destruidor de mundos, nas mãos uma caixa de veludo retangular. Ela subiu na cama e veio sentar ao meu lado, depositou a caixa sobre meu colo e esperou com os olhos verdes brilhando que eu a abrisse. Eu não prolonguei a espera, estava mais curiosa ainda, portanto logo estava abrindo o meu presente, apenas para descobrir um lindo colar de ouro. O peguei com delicadeza e um sorriso que parecia querer rasgar meu rosto. O pingente revelou ser um pássaro, mas logo Jenny o pegou e mostrou a parte de trás. Lá estava a letra M e J entrelaçadas e dentro de um coração.
–Eu sei que não se compara ao que você me deu – Jenny falou segurando o colar com pena de meu pai – Mas... Eu queria algo que você pudesse usar e pensar em mim também. Eu cogitei escolher o que tinha pingente de tartaruga, mas você já tem o Otto.
–É lindo meu amor! – exclamei sincera e extremamente feliz com o presente.
–Também queria que significasse que nosso amor não é uma prisão, pelo contrário, é um voo pelo horizonte, livre e único.
–Idiota, um dia fará meu coração explodir com tanta coisa que o faz sentir.
A obriguei a colocar o colar em mim e logo depois a agarrei em um forte abraço e um beijo apaixonado. Que viesse a nossa nova fase de vida, pois nada me faria deixar de lutar por aquela mulher.
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