Equalize
19 Capítulo 19
Notas iniciais
–Não Kevin, eu preciso pedir desculpas para ela, me solta!
Apesar de meu agente e amigo me segurar pelo ombro, eu lutava mais contra aquela lerdeza que acometia todo o meu ser por causa do sedativo. Eu conseguia erguer meu corpo e me sentia vitoriosa por distanciar meu corpo alguns centímetros da cama... Então vinha o Kevin e me fazia voltar para o lugar.
No momento que pensei na brincadeira, parecia a coisa mais divertida do mundo. Meu cérebro processou que poderia ser engraçado ver a cara de minha namorada ao achar que eu tinha perdido a memória. Então atuei de acordo e logo depois estava rindo feito idiota, porque realmente, a expressão de susto de Jenny havia sido impagável. Além dela ter conseguido ficar mais branca do que já era e isso sim era um feito milagroso até. Porém quando ela gritou comigo, eu me senti uma criança acuada, como se tivesse feito algo errado e agora se arrependia profundamente.
–Espere alguns minutos e eu vou procura-la ok? – Kevin pediu e eu o fitei, demorando alguns segundos para focá-lo – Ela só está assustada.
–Mas eu não perdi a memória! – reclamei ainda em meu estado letárgico.
–Eu sei meu anjo. Porém você deixou Jenny Summers bem preocupada, de verdade. Ela ficou que nem uma leoa protegendo seu filhote quando você desmaiou. Chegou a gritar com o enfermeiro que iria te acompanhar na ambulância, que iria com você porque era sua namorada.
–Ela fez isso?
–Sim, e depois não saiu do hospital, ficava andando de um lado para o outro parecendo aqueles insetos irritantes.
–Eu quero minha namorada!
Eu estava choramingando agora. Minha cabeça estava explodindo, meus sentidos não estavam cem por cento, mas a única certeza que eu tinha era de que precisava ver Jenny e pedir desculpas.
–Sobre isso que quero conversar. Você está bem para discutir algo um pouco sério? Eu prometo que depois disso irei chamar a Summers – Kevin fitava-me mais sério que o normal.
–Se você trouxer minha vida eu faço qualquer coisa!
–Ok. Agora vamos aos negócios. Jenny sem querer acabou anunciando o namoro de vocês e agora a frente do hospital está lotada de repórteres. O seu acidente vai ser noticiado em muitos locais, assim como a atitude da sua namorada. Podemos inventar uma história ainda, dizer que ela só falou aquilo para poder acompanhar você e...
–Não. Ela é minha namorada – neguei fazendo um movimento de cabeça, mas só aquilo me tirou uma careta de dor – Iria acontecer a qualquer momento mesmo. Agora eu quero minha Jenny.
–Você tem certeza...
–Eu a quero agora! Você prometeu! Eu juro que vou atrás dela sozinha, eu vou Kevin!
Eu tentei levantar novamente e dessa vez consegui até sentar, mas tudo começou a girar e a girar que eu estava prestes a passar muito mal novamente. Escutei a porta abrindo ao fundo e uma conversa distante, mãos me seguraram e eu arfei pronta para brigar com Kevin, mas quem apareceu em meu capo de visão foi uma mulher de cabelos negros e olhos verdes.
–Jenny... – choraminguei o nome dela.
–Estou aqui bebê – Jenny falava com delicadeza, ela me deitou e passou a mão em meu rosto – Você tem de descansar, não seja teimosa.
–Mas eu queria... – tive de buscar ar, minha respiração estava irregular depois que o mundo resolveu dançar ao meu redor – Eu queria você. Pedir desculpas e...
–Não precisa amor, não foi sua melhor brincadeira, mas eu exagerei um pouco, não devia ter falado com você daquela forma.
Ela segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Concentrei no calor que se espalhava na palma de minha mão e nas sensações que me assolavam só porque ela estava me tocando. Então eu realmente comecei a melhorar um pouco mais. Soltei um suspiro cansado e fechei os olhos por um tempo, tentando ordenar minha mente para poder não fazer nenhuma nova besteira. Então eu senti um beijo carinhoso em minha testa e abri meus olhos. Eu só soube que estava realmente tudo bem quando vi aquele sorriso que eu tanto amava.
–Soube que você disse que era minha namorada – falei com um sorriso tímido – Queria ter visto você gritando com o enfermeiro, ele deve ter ficado com medo.
–Ninguém iria me impedir de ficar do seu lado – Jenny suspirou e apertou minha mão – Você me deu um belo de um susto.
–Desculpe, me esqueci de dizer que sou um pouco desastrada as vezes.
–Acho que posso conviver com isso.
–Desculpa interromper as divas – Kevin pigarreou para chamar a atenção – Jenny, posso entrar em contato com seu agente e sua assessora de imprensa para confirmar a história. Michelle sofreu um acidente durante as gravações, você deu a louca e admitiu ser namorada dela e agora estão tão melosas que as abelhas de toda Los Angeles devem estar vindo para cá.
Ri fraco e fiz uma careta breve. Jenny me olhou um pouco preocupada, deu um beijo rápido na ponta de meu nariz e começou a fazer carinho em meu cabelo. Ah aquilo definitivamente me fez muito bem, pois meu corpo começou a relaxar de verdade.
–Eu agradeceria se você fizesse isso Kev – Jenny falou.
–Eu merecia um aumento – Kevin aproveitou para acrescentar.
–Você recebe um aumento se eu receber um aumento. Então trate de cuidar muito bem de minha carreira – falei com um sorriso sonolento.
Uma enfermeira apareceu, pelo que eu escutei se chamava Megan. Ela informou um pouco sobre minha situação, que eu teria de passar a noite no hospital apenas para os médicos poderem acompanhar a minha melhora de perto. Jenny prontamente anunciou que iria ficar ali comigo, mesmo que eu tivesse insistido para ela ir já que a poltrona que se encontrava no quarto não parecia agradável de qualquer forma. Mas ela se negou, indo para casa apenas para tomar banho e buscar o seu tablete. Enquanto isso Oliver ficou me fazendo companhia e logo depois Zack e Ian apareceram para uma visita.
Eles adiantaram as cenas para não perderem o prazo. Mas eu até recebi flores do Chris Grimer. O show deveria continuar, até porque havia sido realmente apenas um acidente. Jenny retornou resmungando, agitada e com um olhar bravo. Tinha uma simples mochila nas costas e a sua blusa estava toda amarrotada.
–Esses jornalistas estão parecendo piranhas assassinas – ela resmungou e olhou para mim, prontamente sua expressão suavizou – desculpe a demora, eles realmente complicaram a minha entrada.
Eu estava sozinha no quarto até aquele momento. Tinha cochilado um pouco e finalmente estava me sentindo bem apesar de minha condição. O braço ainda latejava um pouco, porém o maior incomodo ainda vinha da parte detrás da cabeça. Jenny aproximou e me deu um selinho carinhoso, o suficiente para me deixar com um sorriso nos lábios. Ela puxou a poltrona para ficar bem do lado de minha cama, jogou a mochila no chão e pegou de dentro dela o tablet dela e o meu celular.
–Meu bebê! – peguei o aparelho com um enorme sorriso – Obrigada por trazê-lo.
–Entre nas suas redes sociais, há muitos posts e comentários de seus fãs.
Prontamente fiz o que ela mandou. Alguns apenas mandavam melhoras, diziam que estavam preocupados. Outros faziam textos grandes e tocantes, falando de como haviam recebido a notícia e como estariam esperando por notícias minhas. Respondi os que eu gostei e então tive a ideia de mexer nas redes que eram destinadas a “Jennelle” e acabei rindo de alguns surtos dos fãs.
–Eles realmente já sabiam de nós e ainda assim parecem fazer carnaval só com a sua confirmação nada tradicional – comentei quando recebi um olhar curioso da Jenny.
–Que tal uma selfie? – Jenny sugeriu – Para eles verem que você está bem? Eu realmente só fui acreditar quando vim aqui te ver.
–Só se você aparecer comigo.
Jenny concordou e logo estava inclinada ao meu lado, seu rosto bem próximo do meu. Coloquei a câmera frontal e logo a imagem de nós duas estava aparecendo na tela de meu celular. Eu estava pálida e com olheiras abaixo dos olhos, mas quando Jenny virou o rosto e colou os lábios em minha bochecha, eu abri um enorme e sincero sorriso e bati a foto. Postei a foto em meu instagram agradecendo a todos pela preocupação e dizendo que eu tinha a enfermeira mais gostosa do meu lado para cuidar de mim. Jenny riu e não conseguiu conter o comentário de que eu deveria ter algum fetiche sobre isso. Ligamos a televisão e colocamos em um canal de filmes, eu estava quase adormecendo quando virei o rosto em direção a ela.
–Jenny – chamei e logo ela olhou para mim – Eu acho muito improvável que eu vá me esquecer de você um dia. Mas se isso acontecer, meu coração irá reconhecer o amor da vida dele, tudo bem? – ela abriu um lindo sorriso e acariciou meu rosto – Ele vai saber que te ama e vai informar para minha mente que você é a pessoa mais especial de minha vida. Então nunca irei me esquecerei de você realmente.
–Você é o ser mais importante de minha vida Michelle – Jenny disse emocionada – Eu te amo.
–Eu sei.
Sorri de maneira convencida e ela revirou os olhos. Mas logo me surpreendeu com uma mordida forte em meu braço. Eu gritei em choque e em dor, ela nunca era delicada naquelas mordidas. Megan logo apareceu no meu quarto, ela estava de plantão naquele dia.
–Não é nada – Jenny abriu um sorriso soberbo – Apenas castigando uma criança por ter feito uma brincadeira idiota.
–Certeza? – Megan olhou para mim, eu estava esfregando o braço no local da mordida em uma tentativa de minimizar a dor.
–Tudo bem, já estou acostumada – sorri de lado – É a forma desse animal demonstrar carinho mesmo.
–Idiota, quer outra mordida?
Megan riu de nossa interação e saiu. Eu e Jenny começamos a conversar daquela nossa maneira de sempre, divertida, provocativa e extremamente carinhosa. Não demorei muito para pegar no sono, mas apenas apaguei quando comecei a sentir um carinho dengoso em meu cabelo.
(•••)
No dia seguinte já estava pronta e agitada para ir para casa. Eu não era muito fã de hospitais e talvez por isso não gostasse de seriados como Grey’s Anatomy e Dr. House. A única coisa que me fazia aturar aquele momento de uma maneira mais tranquila era a presença constante de Jennifer. Ela me distraía e me mimava de um jeito que era só dela, em um momento estávamos aos beijos, no outro rindo de alguma coisa idiota ou provocando uma a outra de alguma maneira.
–Tudo pronto? – Jenny entrou no quarto e eu acenei com a cabeça – Ok, não vamos sair pela frente, está um inferno lá fora. Mas mesmo assim chamei dois seguranças.
–Não está exagerando?
–Não, quando eles virem você, ou melhor, quando nós virem juntas, eles vão vir pra cima feito zumbis famintos. E seu braço ainda está muito sensível algo poderia facilmente acontecer e te machucar. E claro, eu também não quero matar alguém hoje e eu realmente faria isso se algo acontecesse com você.
–Ainda bem, não acho sexy aquelas roupas laranja de presidiárias – comentei e fiz uma cara pensativa – Se bem que uma policial sexy é outra coisa.
–Você ta se provando uma verdadeira safada – Jenny riu e ofereceu a mão – Mas não estou reclamando, não mesmo.
Revirei os olhos e peguei na mão dela com minha mão boa. Não havia nada meu no quarto além do meu celular que estava em meu bolso. Dez minutos atrás tinha conferido o meu insta e descobri que a minha foto com a Jenny estava bastante popular, sendo disseminada como um vírus pela internet. Jenny me guiou pelo hospital e antes de entrarmos pelo elevador encontramos com o primeiro segurança, um homem branco e de cabelos negros com um rosto tão mal que me lembrava um russo vilão dos filmes antigos americanos. Era impossível não ficar encarando o homem e tentar ficar fazendo piadinhas para ver se ele mudava a expressão. Jenny não se aguentava ao meu lado, me mandava calar a boca e eu o fazia, para cinco segundos depois já está com algo na ponta da língua. Porém era uma guerra perdida, pois ele não mudava a expressão séria por nada nesse mundo.
Fomos levadas até a saída dos fundos, onde o segundo segurança esperava. Esse já era um ruivo muito simpático que tinha um sorriso fácil, mas era alto e forte. Eles nos guiaram até um carro e eu pensei que estava em vitória, até que alguns jornalistas nos encontraram e correram em nossa direção.
–Michelle! Por favor, espere! – um deles implorou.
–Vamos, entre, ainda há tempo de fugir! – Jenny começou a me puxar.
–Mas Jenny eles deveriam receber algo por ter nos encontrado – eu realmente não era má com os jornalistas.
–Vamos!
Ela entrou no carro e praticamente me puxou para dentro. Resmunguei e a ignorei, abri o vidro e dei de cara praticamente com um dos jornalistas com seu câmera lutando para ter um bom ângulo de mim.
–Hey! – cumprimentei de uma maneira simpática, escutei Jenny bufar ao meu lado e a ignorei – Tudo bem? Porque eu estou maravilhosa.
–Então não foi nada demais, Michelle? – ele questionou apressadamente, pois o carro começou a andar.
–Claro que não foi, eu sou cabeça dura demais para certas coisas, sabe? – disse em um tom divertido, pondo a língua para fora e a mordendo de maneira sapeca.
–E você e a Jenny?! – o jornalista estava praticamente correndo.
–Ah, você fala do amor de minha vida? – ri baixinho do jeito que ele ficou surpreso pela minha colocação – Ela continua chata como sempre!
E então o carro acelerou quando conseguiu chegar à pista. Estava rindo quando encostei direito no banco e comecei a fechar a janela. Quando olhei para o lado Jenny estava com os braços cruzados e um jeito emburrado extremamente fofo. A cutuquei na cintura e nada, a chamei e ela apenas resmungou. Ah como eu adorava quando ela se fazia de difícil, pois assim eu poderia jogar muito baixo! Eu abri o meu sorriso mais travesso e do modo mais rápido que eu consegui sentei no colo dela, com as pernas viradas para lateral.
–Michelle... – ela falou meu nome em tom de ameaça.
–Você deveria mostrar seu lado mais doce, meigo e fofo para o público sabia? – comentei começando a dar beijinhos no rosto dela.
–Não! – Jenny prontamente negou e começou a desviar o rosto – Saí daqui. Ou melhor, você não faz nada do que eu mando mesmo.
–Que mentira! – ri do jeito resmungão dela – Se você fala, me ame pelo resto da sua vida, eu vou amar, se você manda eu te beijar, eu vou te beijar. Agora as outras coisas idiotas eu só ignoro mesmo.
–Não vai me enrolar com frases fofas ok?
Porém minha namorada já havia parado quieta no lugar e agora estava me encarando. Lutei contra um sorriso debochado, pois sabia que a tinha vencido, ela só era teimosa demais para admitir. Encostei meu nariz no dela em um beijo de esquimó e escutei um pigarrear alto vindo da frente. Jenny voltou a resmungar e eu não evitei o riso baixo. Escorreguei para o seu lado, saindo de seu colo, mas ficando bem pertinho. Ela me envolveu com seu braço e ficou fazendo carinho na minha cintura, algo inocente e sem malicia que conseguia me relaxar completamente.
Não demoramos muito para chegarmos a minha casa. Infelizmente havia alguns paparazzi ali e os seguranças tiveram de entrar em ação. Eu abria um sorriso e acenava com minha mão boa, enquanto Jenny mantinha o olhar para frente e uma expressão neutra. Entramos em casa e só deixei os seguranças irem embora só depois de experimentarem o meu cappuccino, como um agradecimento pelo que eles fizeram.
–Amor – Jenny falou quando terminou o próprio cappuccino, os seguranças ainda esperavam na sala a pedido dela – Eu vou aproveitar a carona e ir para casa, eu preciso trabalhar em algumas coisas.
–Tudo bem, eu sei me virar sozinha, não é a primeira vez que me machuco assim – dei de ombros e salpiquei um beijo rápido nos lábios dela – Depois eu te conto todas as minhas traquinagens de quando era pequena.
–Eu venho mais a noite, posso dormir aqui?
Ela me olhava de maneira hesitante, como se temesse mesmo que eu fosse recusá-la. Dessa vez a beijei de uma maneira mais demorada e apaixonada, sendo prontamente envolvida por aqueles braços que me fizeram encaixar perfeitamente nela.
–Vou pedir comida chinesa, já que não vou poder cozinhar para você – falei quando nossos lábios se separaram.
–Você sabe cozinhar? – ela indagou curiosa.
–Não, mas poderia comprar a comida e fingir que fiz só pra te ver orgulhosa de mim – respondi sincera a fazendo rir – Agora vai logo antes que eu não consiga te deixar ir.
Jenny abriu um enorme sorriso e me abraçou forte antes de se afastar. Ela partiu e eu já podia imaginar a expressão de má que ela fazia para tentar espantar os paparazzi de plantão na porta de minha casa. Se pudesse eu voltaria no tempo e retiraria o que tinha dito a ela, preferia que só eu conhecesse aquele lado meigo e doce dela, que apenas eu a tivesse por inteiro. Soltei um suspiro, não sabia quando eu tinha ficado tão possessiva e protetora, mas agora que nosso namoro foi anunciado e oficializado, eu sabia que seriam raros os momentos de plena paz.
Fui para o meu quarto e agachei para poder pegar de debaixo da cama uma caixa preta de tamanho mediano. A coloquei sobre a cama e sentei próxima ao item. Respirei fundo tentando controlar as emoções que me assolavam sempre que eu ia mexer naquilo. Abri a tampa e abri um sorriso fraco ao ver a primeira coisa que continha ali dentro. Uma foto minha e de meu pai, abraçados e exibindo um enorme sorriso em um dia de inverno. Soltei um suspiro e fiquei olhando algumas coisas que mantinha guardadas ali, meus pequenos tesouros. Olhei algumas fotos e lembranças de algumas viagens legais que eu fiz, até mesmo quando estava no Brasil. Até que eu finalmente encontrei. A corrente de ouro de meu pai com o pingente de uma única pena também de ouro.
Fiquei encarando o pingente contra a palma de minha mão, o friozinho na minha barriga era um reflexo de como minha mente estava agitada. Temia ser cedo demais, porém sentia que talvez fosse o momento certo para fazer algo desse tipo. Só esperava que Jenny também pensasse assim.
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