Entre o céu e o inferno
8 Mensageiro do céu
1
Rolei para lado esquerdo da cama e abri meus olhos, só então me dei conta de que estava com um sorriso bobo nos lábios. A razão eu já sabia, Andrew. Eu não conseguia tirá-lo da minha cabeça, e isso havia se tornado pior depois do nosso beijo de ontem.
Eu me sentia feliz, a mudança para Nova York havia sido adiada por conta do aeroporto ter sido enterditado... Pra falar a verdade eu não havia entendido direito, pois quando minha mãe me pediu para desfazer as malas eu parei de prestar atenção.
O quarto estava escuro e a casa em seu completo silêncio. Em minha cabeça imaginei que seriam sete e alguma coisa, mas olhei para o relógio e ele marcava três em ponto, fechei os olhos por um instante, tentando dormir, porém foi em vão, meu sono havia se perdido.
Me levantei da cama e acendi a luz do quarto, olhei de relance para o espelho do guarda roupas, eu estava vestindo meu pijama azul fraco. Meu cabelo estava solto, mas eu o prendi em um coque bem acima da cabeça. Então fui até a janela, olhei para a rua, não havia ninguém, o silêncio era inquietante, e tudo estava iluminado pelas várias luzes dos postes.
Fiquei ali por um breve momento, observando o silêncio da noite, mas então senti uma leve dor na cabeça, porém ela aumentou gradativamente. Até que me senti tonta e sentei na cama, inclinei meu corpo para frente e coloquei a cabeça nos joelhos. Respirei fundo e a dor desapareceu, me levantei.
Quando olhei para o espelho novamente vi sangue saindo pelo meu nariz, coloquei dois dedos naquele sangue, e olhei para eles. Então sai do quarto correndo até o banheiro. Chegando lá lavei o máximo possível, até que parou de sangrar completamente.
Voltei ao quarto, com a sensação de precisar fazer alguma coisa. O problema era que não havia nada que eu precisasse fazer as três da madrugada. Olhei para a mesa onde focavam meus desenhos, me sentei na cadeira, os observei por um tempo.
Então peguei uma folha limpa, e com um lápis preto comum fiz um rabisco. Eu não tinha idéia do que era, então deixei minha mão por "conta própria". E pouco tempo depois já haviam vários rabiscos, que ainda assim não formavam um desenho. Pensei um pouco, parei de desenhar mas continuei ali. Segundos depois posicionei o lápis na folha novamente.
Não passou muito tempo e eu havia desenhado uma parte da rua. Porque eu estava desenhando a rua? Meus olhos não cooperavam, eu estava com sono novamente, e com certeza eu devia dormir, pois havia combinado de me encontrar com Andrew as nove horas, o que eu usaria? Pensei. E então foi inevitável lembrar dele, e como era bom lembrar dele.
2
Eu estava perto, muito perto. Então me escondi atrás de uma árvore, aquela floresta era realmente assustadora a noite, ele se virou, "coragem Annelise", pensei, mas eu não conseguia controlar a respiração. Ele havia acabado de descer do céu, não havia caído, como era comum, ele havia descido. Estava com os joelhos no chão, um mais para frente que o outro. Uma de suas mãos fechadas e posta sob o solo frio, suas asas extremamente brilhantes como sempre. E enormes, realmente enormes.
Ainda havia um brilho que o envolvia, porém ele foi desaparecendo. E segundos depois ele estava na forma humana, com suas asas guardadas. Seus cabelos loiros um tanto enrolados estavam quase iguais a última vez que o vi. Mas desta vez uma mecha caia sobre seus olhos, aqueles olhos brilhantes, tinham um tom esverdeado, porém não era verde de fato.
Ele se colocou de pé, era alto. Olhou ao redor, observando tudo provavelmente estava um tanto nervoso, já fazia tempo desde a última vez que ele esteve na terra. Seu olhar ainda assim permanecia arrogante.
No fundo eu temia o que ele faria comigo se me encontrasse, então decidi que devia sair dali o mais rápido possível. Dei um passo, porém quando meu pé parou no chão eu pisei em um graveto, ele fez um barulho, um pequeno barulho, mas que no meio daquela escuridão silenciosa foi o bastante para chamar a atenção.
Me encostei na árvore novamente e olhei na direção que ele deveria estar, não me surpreendi ao ver que ele havia sumido, me virei novamente para frente. Então ele já estava ali, parado a menos de vinte centímetros de mim, me encarando com total desprezo e arrogância.
–Annelise, não é nada educado ficar bisbilhotando por aí. -Disse ele, passando uma falsa calma em sua voz.
–Eu... Eu só... Só estava de passagem. -Gaguejei.
–Já faz tempo não é, mas... Você não mudou, continua em sua forma normal... Desnecessária.
–Se não fosse eu, quem mais daria uma segunda chance a todos os nossos irmãos?
–Você não é minha irmã Annelise. Você não é mais um anjo, pois ajuda os caídos. Só que também não é um demônio, pois talvez retorne ao céu... Você é um meio termo entre as duas raças, um desprezo para ambas.
–Nosso pai me criou, porque tem compaixão por nós. E essa compaixão você nunca vai ter, só que deveria. Ou seja, se existe alguém que deixou de ser um anjo, este alguém é você.
Eu mal terminei a frase e senti o ódio dele sendo derramado sobre mim, ele me segurou pelo pescoço e me levantou do chão. Nossos olhos se igualaram em altura. Ele se aproximou do meu ouvido, minha respiração acelerou.
–Você é uma vergonha para o céu. -Ele terminou a frase e eu senti seu punhal em minha barriga.
Aquele punhal era uma das armas mais fortes do céu, nas mãos dele se tornava relativamente mais forte, ele poderia ter me matado, mas não adentrou tão fundo em minha barriga. Eu não o conhecia tão bem, mas sabia que ele nunca iria descumprir uma ordem. Ou seja, não haviam ordenado que me matasse.
Ele me soltou no chão, e eu o vi indo embora, o sangue saia pela minha barriga em uma quantidade considerável, eu sabia que iria me curar, porém um ferimento feito por aquela arma era um pouco mais difícil de ser cicatrizado. Aos poucos fui perdendo a consciência, e tudo o que eu sentia era o frio daquele chão gelado.
3
Havia um sobrado bem em frente da minha casa, ele fazia com que o sol demorasse a entrar no meu quarto. Portanto quando um raio de luz bateu em meu rosto já eram nove e meia. Eu ainda estava sentada na cadeira, havia adormecido na mesa enquanto desenhava.
Me levantei, abri o guarda roupas. Eu não tinha ideia do que iria vestir, então optei por uma calça jeans, uma regata preta e minha camisa azul. Fui até o banheiro. Tomei um banho rápido e coloquei minha roupa. Voltei ao quarto, calcei meu tênis. Então peguei o meu celular, me virei e quando ia sair do quarto olhei de relance para a mesa dos desenhos.
Me aproximei, eu havia desenhado aquilo!? Segurei uma das tantas folhas, eram desenhos de ruas, casas, postes de iluminação. Eu reconheci apenas um lugar naquele momento, a minha rua. Estava real, muito real, porém tentei não dar importância, mas não pude deixar de reparar que todos os desenhos tinham algo em comum. Todos eles eram ruas, casas, sem iluminação.
Soltei a folha, aquilo era o que menos me preocupava. Sai do quarto, desci as escadas e sai de casa. Matt devia estar dormindo, minha mãe trabalhando... E Henry... Eu não o via já tinha mais de um dia. Isso com certeza era ótimo.
Andei até a floresta, e caminhei até onde havíamos combinado de nos encontrar, era bem em frente ao anjo, aquele havia virado nosso ponto de referência. Mas Andrew não estava lá, olhei para o meu celular e já eram quase dez horas. Talvez ele tivesse cansado de esperar.
Se fosse este o caso eu era a culpada, tinha estragado as coisas entre a gente. Mas aquele pensamento foi embora quando senti duas mãos quentes tamparem meus olhos. Eu sorri, já tinha a completa certeza de que era ele.
–Andrew. -Eu disse e ele tirou as mãos dos meus olhos.
Me virei, ele estava lindo, seu sorriso deslumbrante em seu rosto, seus olhos brilhantes me encarando. Estávamos tão próximos.
–Desculpe, eu dormi, e acabei me atrasando.
–Tudo bem. -Ele disse e seus lábios tocaram os meus em um beijo suave. -Quero te mostrar uma coisa.
–Que coisa?
–É surpresa, feche os olhos.
Eu sorri, fiquei olhando para ele por um tempo, então fechei meus olhos, como ele havia pedido.
–Não vale olhar!
Acenti com a cabeça, e sorri novamente. Ele segurou uma das minhas mãos, e colocou sua outra mão ao redor da minha cintura. Então começamos a andar.
–Acho que preciso te lembrar, que sou um desastre.
Ele riu.
–Não hoje.
E nós continuamos andando, não demorou muito e eu não tinha ideia de onde estava pisando. A única coisa que eu sabia era que ainda estávamos na floresta. O dia estava ficando mais frio, e o vento na floresta era gelado.
–Eu realmente quero saber qual a surpresa.
–Se você soubesse perderia a graça. -Ele riu.
–Isso é tortura. Falta muito?
–Não, falta pouco.
–Pouco quanto?
–Pouco; pouco.
Nós dois rimos, ele beijou meu cabelo. E continuamos andando, minha curiosidade aumentava, mas eu não ia olhar, não podia. Ou podia?
–Chegamos. -Ele disse, soltou minha mão e tampou meus olhos. Dei cerca de três passos.
Então ele tirou as mãos dos meus olhos, e ficou ao meu lado.
–Agora pode olhar.
Abri meus olhos. Sorri instantaneamente, havia um pano no chão, era branco, sob ele haviam várias almofadas, elas eram coloridas, com estampas diversas e estavam apoiadas nas árvores. E a frente delas, haviam cestas com frutas, e em cima do pano doces, comidas e todas as besteiras que eu sempre amei.
–Nossa! -Eu ainda estava sorrindo- Fez tudo isso sozinho?
–Sim, o que achou?
–Eu... Eu amei, está lindo Andrew!
Ele sorriu, e sinalizou para que eu me sentasse, quando o fiz ele sentou do meu lado, encostado nas almofadas assim como eu.
E estávamos ali, olhando um para o outro com um sorriso apaixonado no rosto, um olhar intenso. Desejei ficar com ele ali para sempre. Me aproximei e o beijei, ele me puchou para seu peito, me envolvendo em seus braços. Eu nunca havia me sentido tão protegida.
Ele me beijou, levei minha mão até seu cabelo, era macio. Seus olhos se abriram depois que nossos lábios se separaram. Eu sentia meu mundo completo quando estava com ele, me sentia mais viva. Eu tinha que dizer, porque aquilo era tudo o que eu tinha a dizer naquele momento.
–Eu te amo.
Ele sorriu.
–Também amo você.
–Não, é sério, eu amo você! Nunca amei alguém assim antes.
–Nem eu.
Eu sorri.
–Eu quero que todo mundo saiba Andrew. Eu seria louca se gritasse?
–Não, mas não vai gritar antes de mim!
Ele me olhou divertido e travesso. Retornei o olhar, e então enchemos nossos pulmões.
–EU TE AMO JADE!
–EU TE AMO ANDREW! -Gritamos ao mesmo tempo.
Nossos gritos cortaram a floresta, e ecoaram. Nós nos olhamos e rimos, então era isso? Dois bobos apaixonados? Isto era bom, era ótimo. Eu o amava tanto, que mal conseguia tirá-lo da cabeça. Nos beijamos novamente.
–O que foi? -Ele perguntou ao ver que eu estava quieta.
–Não sei... Talvez eu esteja louca, e você nem seja real, ou talvez isto seja um sonho.
–Devo te beliscar? -Ele riu. -Eu sou real, posso provar. -E ele me beijou- Sentiu isso?
–Senti. -Eu sorri- E sinto que tem sorvete nesse pote.
Ele riu, e me deu o pote. Enquanto eu o abria ele pegou duas colheres. Demos as primeiras colheradas ao mesmo tempo, aquele era o meu sabor preferido... Como ele sabia? Não sabia, pensei, ele só havia escolhido aleatoriamente no supermercado.
–Então o que pretende fazer quando terminar a escola? -Ele perguntou.
–Bom... Eu acho que seria uma boa desenhista, mas também já pensei em escrever quadrinhos. -Dei uma pausa comendo mais sorvete- Acho que qualquer coisa que me tire daqui.
–Não gosta de Lockerwood?
–Nunca me dei tão bem aqui... A não ser agora, não é? Afinal se não estivesse aqui não teria te conhecido. -Ele sorriu para mim- E você, o que vai fazer?
–Não sei... Acho que não tenho talentos.
Eu ri.
–Baseado neste lugar em que estamos sentados, você daria um belo decorador... Ou psicólogo.
–Psicólogo?
–Sim. Quer dizer, sempre que estou triste você me ouve, me entende, e me ajuda... Com certeza seria um bom psicólogo.
–Uma desenhista, e um psicólogo. Somos compatíveis?
–Claro! Posso até desenhar seu consultório. Doutor Andrew, e quem sabe você acabe encontrando a cura pra alguma doença grave.
–Ou então pro seu desastre. -Ele riu, me fazendo rir também.
Peguei uma colher do sorvete, e passei em seu queixo. Então continuei rindo.
–Você fica bem assim. -Disse sarcástica, então continuei falando em tom divertido- Viu só como me defendo... Talvez eu não seja tão indefesa.
–E talvez eu não seja cavaleiro!
Ele pegou uma colher do sorvete e passou na minha bochecha. Abri a boca em descrença, nós dois estouramos em riso, então passei mais sorvete pelo seu rosto. E em resposta ele passou outra colher cheia em meu rosto. Eu peguei mais uma colher, mas antes que chegasse perto de seu rosto ele segurou meu braço.
Então me beijou, os dois ainda com o rosto sujo de sorvete, eu sorri enquanto o beijava. Nos separamos um do outro e eu fiquei de pé, em seguida estendi a mão, ele segurou quando se levantou.
–Pra onde vamos?
–Lavar o rosto. -Respondi divertida.
–Sabe mesmo pra onde está indo?
–Ei! -Eu sorri- Conheço essa floresta de uma ponta a outra.
4
Lentamente meus olhos se abriram, sendo ofuscados pela luz. Onde eu estava!?
–Até que enfim acordou. Vai me dizer o que aconteceu? -Olhei para o lado esquerdo, seguindo aquela voz... Então meus olhos encontraram o garoto do vestiário... Jonathan.
–O que... Como...?
–Vou adiantar as coisas, eu encontrei você caída no chão da floresta umas oito e alguma coisa... Então te trouxe pra cá... O doutor disse que você não acordaria hoje. -Sua voz abaixou- O que é estranho...
Ele olhava pra mim, eu sentia que devia me afastar. Porém ele não era ruim. Ele não sabia que eu era um anjo, ou seja, fez uma boa ação.
–Obrigado.
–Fiz o que qualquer um faria. -Ele disse não medindo esforços para disfarçar a arrogância. -Mas pelo que me agradece? Afinal o que aconteceu? O doutor disse que a pele da sua barriga havia sido perfurada, quem fez isso com você?
E neste momento o doutor entrou no quarto, com sua roupa branca. Ele se aproximou de mim, sem nem ao menos pedir licença levantou minha blusa, deixando uma parte da minha barriga a mostra. Porém obviamente não havia ferimento nenhum, eu havia me curado.
–Mas que... -Eu o interrompi.
–O que foi?
–Espera. -Jonathan se levantou- O outro médico disse que ela tinha um ferimento na barriga.
–E foi isso o que a enfermeira me disse também. -O médico respondeu em concordância a Jonathan.
–Foi só um erro médico. -Me defendi- Eu me lembro do que aconteceu, eu... Eu bebi demais ontem a noite, e acabei desmaiando na floresta. Mas agora estou bem. Posso ir embora?
Eles olharam um para o outro em dúvida. O médico disse qualquer coisa sobre estar indo providenciar minha alta, então saiu do quarto. Mas Jonathan ainda me olhava incrédulo.
–Que!? -Perguntei irritada.
–Fui eu quem te carregou da floresta. Eu vi o sangue Annelise... Tinha sangue no chão também.
–Então não era meu. Estou bem, não está vendo?
–Que seja. -Ele disse e saiu do quarto.
Então ele me salva, me trás ao hospital, demonstra se importar, e vai embora... Não faz sentido, qual o problema dele!?
5
Sai do hospital, ainda confuso. Peguei meu celular e disquei o número de Jezabel.
–Jonathan!? -Disse ela, com a voz de sempre, que me enjoava.
–Sim. Como vai o plano?
–Tudo certo... E a garota?
–Não sei, tem algo muito estranho com ela, mas não é da sua conta Jezabel.
–Eu sei, vou cuidar da minha parte.
–Que seja.
Desliguei o telefone, Jezabel era de fato intrometida, porém como o seu superior eu a colocava na linha. Mas e a garota do hospital? Eu tinha visto sangue, vi até mesmo o ferimento, ela realmente estava ferida. Um humano teria acreditado que era um erro médico, mas eu não era idiota, ela havia se curado.
E aquele ferimento não era um ferimento qualquer. Eu já havia visto aquilo... Embora tivesse muito tempo, aquele ferimento havia sido causado por uma arma angelical. Um arcanjo poderia ter feito isso a ela, mas eles não costumam fazer mal a humanos.
E se tivessem feito, não ajudariam ela a se curar. O que me da a certeza de que ela não é humana. E isto explica tudo, inclusive o porque ela anda com Andrew... Porém eu não tinha conhecimento dela, eu nunca havia visto ela no céu... Como era possível?
Eu realmente teria que falar com meu pai... Embora achasse um tanto exaustivo ir ao inferno.
6
Jade parou na frente do lago, com as mãos na cintura e um sorriso de "eu disse que encontraria". Ela era linda, vinte e quatro horas por dia, todos os dias, ela realmente era linda.
–Definitivamente, estou limpa. -Ela disse depois de passar água pelo rosto.
Eu sorri e também limpei meu rosto. Então me aproximei, e ela colocou os braços em volta do meu pescoço.
–O que acha de ver como está a água? -Eu perguntei, ela fez uma cara de dúvida. Então a segurei e ameacei jogá-la no lago, ela gritou com o susto, então deu risada.
–Nossa! Que horas são!? -Ela perguntou preocupada.
–Não faço ideia, porque?
–Eu tenho que estar em casa antes da minha mãe... Ou então vou receber um sermão.
–Eu te levo pra casa. -Estendi a mão e ela segurou.
Caminhamos pela floresta, estava quase começando a escurecer. Mas não demoramos a chegar na saída. Abri a porta do carro para Jade, era um mustang preto, eu havia conseguido recentemente.
–Gostei do carro, combinou com você.
–Obrigado.
–Então... Você e Annelise são muito amigos, ela sabe que estamos juntos?
–Não, pra falar a verdade eu não consegui falar com ela hoje. E ela não retornou minhas ligações.
–Será que ela está bem?
Eu acenti, mas no fundo estava preocupado, ela sempre atendia minhas ligações. Eu tinha que falar com Albert, se ele a havia visto... Do contrário, eu teria de encontrá-la.
Parei o carro na frente da casa de Jade. Ela desceu, eu a acompanhei, então paramos na calçada.
–Obrigada pela carona. -Disse ela com seu sorriso encantador- Ah claro, e pela surpresa também.
–Não tem de que. -Sorri- Mas eu tenho mais uma surpresa pra você.
Ela inclinou a cabeça, divertida, e me olhou com dúvida. Coloquei a mão no bolso, e tirei o colar. Ele era feito do mesmo metal que minha cruz, já que não poderia estar com ela todo o tempo, desta forma ela estaria mais protegida. Ele era prata, e tinha um pequeno pingente com o símbolo do infinito.
–Nossa Andrew, é lindo. -Ela disse depois que eu o coloquei em seu pescoço.
–Ficou ainda mais lindo em você.
Ela sorriu, olhou pra sua casa. Então seu olhar retornou a mim, aqueles olhos azuis, me lembro da primeira vez que os vi. Desde aquele dia eu não conseguia parar de pensar naqueles olhos.
–Eu preciso entrar.
Eu acenti, ela sorriu e colocou os braços em volta do meu pescoço, me inclinei, e a beijei. Nossos lábios colados um ao outro, eu não pensava em mais nada, seu cheiro, sempre convidativo.
Então tive a certeza de que havia valido a pena cair, eu cairia de novo, e de novo por ela, só pra sentir o seu cheiro mais uma vez.
–Obrigada pelo colar. -Ela beijou minha bochecha- Tchau!- Ela sorriu e acenou docemente.
Entrei no carro. Eu realmente estava preocupado com Annelise, tentei ligar novamente, nada. Onde ela havia se enfiado!?
*
Parei o carro na frente de casa. Entrei, sendo recebido pelo olhar de Albert.
–Você viu... -Ele me interrompeu.
–Na sala, sentada no sofá, esperando você.
Ele se virou, foi para a sala, eu o segui ainda confuso. Mas quando passei pela porta vi Annelise no sofá, se o seu olhar não fosse tão preocupado eu diria que ela estava furiosa.
–Você está bem? -Perguntei- Eu liguei várias vezes mas... -Ela me interrompeu.
–Andrew, ele está na cidade... Não atendi suas ligações porque perdi o meu celular na floresta.
–O que estava fazendo na floresta!?
–Andrew eu o vi descer do céu, estava na floresta porque tinha que ver com meus próprios olhos para acreditar, mas quando ele notou minha presença me acertou com seu maldito punhal.
–Quem Annelise? Quem desceu do céu?
–Gabriel, ele está na cidade.
E naquele momento minha cabeça girou, o que ele fazia aqui!? Gabriel desde sempre foi o encarregado de trazer mensagens do céu. O que talvez alguns não soubessem era o porquê... Mas a resposta era que ele era um dos anjos mais vorazes do céu, suas mensagens sempre eram entregues.
Porém o céu tinha outros anjos que poderiam trazer uma mensagem. Mas se Gabriel havia vindo, significava que poderia ou não ser uma mensagem. Era provável que fosse um aviso.
–Ele disse alguma coisa? -Perguntei.
–Fora sua demonstração de "Ei, eu sou um otário". Não, ele não disse nada. O que pretende fazer?
–Não sei... Não acho que tenha nada que eu possa fazer, a não ser esperar.
Ela suspirou com irritação, e preocupação ao mesmo tempo. Mas não havia com o que me preocupar naquele momento, ao menos não sobre Gabriel. Ele não seria capaz de encontrar Jade... Aquele colar foi entregue em uma boa hora. Mas mesmo que encontrasse, não acho que faria mal a ela.
7
–Só chegou agora? Onde estava? -Matt perguntou quando entrei. Ele estava sentado no sofá, com um balde de pipoca ao seu lado, vendo um filme.
Me sentei ao seu lado, tirei o tênis e coloquei os pés no sofá. Em seguida peguei um pouco da pipoca e comi.
–Eu tive um encontro.
–Hum. -Ele respondeu não tirando os olhos da televisão.
–Ah qual é, sua irmã sai em um encontro e tudo o que tem a dizer é "hum" !?
–Bom, pra falar a verdade ainda estou ocupado demais pensando no meu encontro.
–Espera, você teve um encontro!?
–Porque o espanto? -Ele olhou pra mim. Pegando mais pipoca.
–Por nada... Quer dizer, como foi? Vocês estão namorando?
–O encontro foi ótimo, ela é bem interessante. Quanto a namorar, sim maninha, eu tenho uma namorada. -Ele sorriu como se acabasse de ganhar o Óscar.
–Nossa, pelo visto milagres são reais. -Ele me jogou um monte de pipocas e depois riu, me fazendo rir também.
–Mas então, e você?
–Não sei como dizer... Mas achei o cara perfeito Matt... -Ele me interrompeu.
–Todos ficam perfeitos quando estamos apaixonados.
–Não está feliz por mim?
–Claro que estou, só não quero que acabe como da última vez.
–Não vai. O Chris era um idiota.
Ele deu de ombros. Eu subi para o meu quarto, me joguei de costas na cama. Estava sorrindo, relembrando de tudo o que havia acontecido... Sem duvida aquele tinha sido o meu melhor sábado em Lockerwood. Segurei o pingente do colar, ele era tão lindo, e o melhor, me fazia lembrar Andrew. Continuei sorrindo, e pensando nele... Eu já sentia saudades.
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