Eram seis e cinquenta e sete, me levantei da cama. Era estranho, fazia calor pela primeira vez em Lockerwood desde que me mudei. Vesti minha saia branca com comprimento um pouco acima do joelho e minha camisa xadrez de manga três quartos, por fim calcei minhas botas marrons e sai do quarto.

Embora ontem tivesse discutido com minha mãe eu me sentia bem... Ainda não sabia como Andrew sabia onde eu morava, mas vê-lo me fez ficar feliz, sair com ele então, me deixou mais feliz ainda... Mesmo que minha fixa ainda não tenha caído. Eu estava extremamente anciosa para vê-lo de novo. Terminei de me arrumar e desci as escadas.

–Jade! -Minha mãe disse me fazendo parar.

–O que foi Amélia. -Respondi esperando que ela pedisse pra eu voltar lá pra cima e fazer minhas malas.

–Odeio quando me chama assim... Mas acho que tem razão... -Ela parecia estar arrependida- Olha... Sobre ontem, me desculpe. Acho que uma parte de mim têm medo que você acabe como eu... E outra parte têm medo que você tenha algum problema emocional por ter pais separados...

–Eu aceito suas desculpas... Mas não, eu não tenho problema emocional.

Ela me abraçou em seguida sai de casa.

*

Assim que cheguei na escola Susan veio correndo na minha direção. Ela parecia aflita... Provavelmente começaria uma conversa sobre todas as coisas desnecessárias que eu não precisava saber.

–Jade! -Disse ela ainda ofegante.

–Eu.

–Você já sabe quem está de volta?

–Não... Quem?

–Como pode não saber? Quer dizer, fala sério você... -Eu a interrompi bruscamente.

–Diz logo quem é!

–Ta bem... Não estressa. -Ela sorriu com uma felicidade que exalava em seus olhos -O Chris!

Fiquei estática. Ele odiava essa cidade, porque teria voltado... Talvez fosse por mim, o que me deixava irritada, Susan interrompeu minha linha de pensamentos.

–Então? Seu ex namorado gostoso voltou pra cidade, não têm nada a dizer? Tipo... Vou ir atrás dele pra fazermos as pazes...

–Sério Susan? Afinal o que o Arthur fez com você? Lavagem cerebral? Ou você só está ficando burra mesmo? Você sabe o que ele fez pra mim, e não têm a miníma chance da gente voltar. Agora tenho que ir... -Eu disse seguindo em frente, mas ela segurou meu braço.

–Eu sei... Desculpe, é só que... Que eu quero te ver bem.

–Acredite. Estou muito bem sem ele!

Soltei meu braço das mãos dela e continuei andando, quando ela tinha se tornado tão insensível? Entrei na escola e vi Arthur. Ele estava com Lucy e suas amigas, todos riam. Quis ir lá e perguntar porque ele não estava com Susan... Mas achei que não era problema meu.

Acelerei meus passos, tinha que pegar alguns livros em meu armário. Não demorou para que eu chegasse lá. Peguei meus livros e segui em direção a sala de matemática, que ficava no outro corredor.

Quando cheguei lá a sala inteira me encarou. Desviei o olhar de todos, procurei por Andrew mas ele não estava lá, abaixei a cabeça e me sentei na penúltima cadeira. Em seguida Lucy entrou acompanhada por suas amigas, ela olhou pra mim e revirou os olhos. Suspirei com raiva enquanto ela se sentava.

A professora entrou na sala fazendo com que todos ficassem em silêncio. Era a dona Magolly, ela era com certeza a professora mais severa. Ninguém costumava desobedece-la.

–Quero que abram no primeiro capitulo do livro. -Disse ela, e em seguida começou a ler.

Eu estava acompanhando a leitura, até que uma bolinha de papel vindo do outro lado da sala me fez perder o foco, ela acertou em cheio na minha cabeça. Fiquei furiosa e olhei para a direção que ela havia vindo, meu olhar chegou em Susan, que em silêncio sinalizava para que eu abrisse a folha. Assim que o fiz vi o que estava escrito.

Olha pro lado!

Fiquei confusa, mas mesmo assim obedeci. Quando o fiz vi Chris, os mesmos olhos verdes escuros, a mesma pele... Seu cabelo estava mais curto, mas a cor castanha ainda predominava. Ele sorriu pra mim, o mesmo sorriso de sempre... Que nem de longe significava gentileza, hoje eu entendia que ele era apenas outro cafageste qualquer.

–Jade! — Disse a dona Magolly -Porque não me diz em que página estamos?

–Ah...

–Página quarenta e um. -Chris disse salvando minha pele. A dona Magolly olhou pra ele.

–Muito obrigado. Jade.

–Disponha. -Ele disse fazendo com que todos rissem.

Mas pra mim não importava o que qualquer um dissesse sobre ele, minha opinião continuaria a mesma, ele me fez sofrer muito quando me deixou. Sua única justificativa foi "A gente precisa correr atrás dos nossos sonhos." Em seguida vieram todas as frases que a gente diz quando vai terminar um namoro. Então ele foi embora e eu jurei nunca mais entregar meu coração pra alguém.

*

O recreio chegou rápido, me levantei da minha cadeira.

–Jade! -Eu ouvi Chris dizer enquanto eu saia da sala com passos rápidos, queria evitar qualquer contato com ele.

Porém não conseguia passar pelo corredor, justo hoje parecia que todos os alunos decidiram se amontoar nele. Então senti uma mão forte segurando meu braço.

–Então é isso? Vai me ignorar agora?

Me virei, era Chris, revirei os olhos e tentei me soltar, mas ele estava decidido a não me deixar ir.

–O que você quer Chris?

–Quero que você me ouça.

–Se eu ouvir você vai me deixar ir?

–Claro.

Os corredores haviam ficado desertos novamente, o que me deixava sozinha com ele. Devagar senti a mão dele soltar meu braço, então ele começou a falar.

–Olha eu sei... Magoei você, fui um idiota...

–É você foi... Já terminou?

–Voltei por você Jade. Eu esperava um pouco mais de compaixão da sua parte.

–Teve compaixão quando terminou comigo?

Ele estava respondendo, porém eu vi Andrew no final do corredor, então parecia que tudo ao meu redor havia sumido e eu só enchergava ele. Nossos olhares se encontraram, ele sorriu com um jeito doce.

–Então...? -Chris disse em um tom alto me fazendo voltar ao planeta terra.

–O que?

–Não ouviu nada que eu disse?

–Não. E acho que não vale a pena que você repita... Agora tenho que ir. -Eu disse dando um passo a frente. Sorri para Andrew, que parecia estar me esperando.

Antes que eu desse outro passo Chris segurou meu braço, em seguida me puxou pra perto dele e começou a me beijar como se eu fosse a última garota do mundo. Obviamente não fechei os olhos, então vi quando Andrew abaixou a cabeça e saiu andando.

Eu usei toda a força que tinha para empurrar Chris, fiz com que ele se afastasse, em seguida levantei a mão e dei um tapa na cara dele que foi acompanhado por um estralo e uma vermelhidão instantânea em seu rosto.

Sai correndo pelo corredor atrás de Andrew... Mas ele parecia ter desaparecido, continuei procurando. Então cheguei no refeitório, abri a porta dupla fazendo um barulho tão alto que todos olharam para mim. Meus olhos percorreram todas as mesas rapidamente. Ele não estava lá, me virei rapidamente pronta para começar a correr novamente, mas antes que o fizesse esbarrei em Annelise com muita força.

–Nossa Jade! Onde vai com essa pressa!?

–Desculpa... Eu tenho que achar Andrew... -Eu já ia começar a correr novamente quando ela disse.

–Acho que ele está na arquibancada do campo de futebol...

–Sério? Obrigado...

Cheguei o mais rápido que pude no campo, quando o fiz vi Andrew sentado na arquibancada... Ele parecia triste e estava distante. Me aproximei devagar e sentei ao lado dele. Olhei para ele, mesmo assim ele permaneceu com o olhar fixo no céu. Coloquei a mão no braço dele, então ele parecia ter acordado de um transe.

–Ta tudo bem? -Perguntei.

–Claro...

–Vi você no corredor... -Ele olhou pra mim -Queria dizer alguma coisa?

–Não... Quer dizer... Não era nada. Espero não ter chateado você e seu namorado.

–Meu namo... Ele não é meu namorado, ele... -Eu vi o jeito que ele me olhava, não era um olhar muito bom -Quer saber!? Eu explico no caminho.

Segurei a mão dele e comecei a correr, ele me acompanhou.

–Pra onde está me levando!?

–Bom. Ontem você me levou pro seu lugar preferido. Hoje eu te levo pro meu.

–Matar aula? -Ele disse parando de andar. Então fiquei na frente dele e disse com a mão na cintura.

–Ah qual é, vai dizer que está com medo!?

Ele sorriu.

–Eu sou novo. Tenho medo é que peguem você.

–Eu me viro -Sorri e voltamos a correr.

*

Minutos depois chegamos ao cruzamento, então entramos na floresta. Em pouco tempo estavamos no topo da montanha. Quando chegamos lá parei olhando para o longe. Eu desejava que ele gostasse daquele lugar, porque se isso não acontecesse ele poderia me achar patética. "A maluca que anda pela floresta".

–O lugar é esse! -Eu disse anciosa. -O que achou!?

–É perfeito. -Ele me respondeu timidamente.

Ele sorriu, me fazendo sorrir de volta, por um momento me senti patética... Era como se eu realmente precisasse dele. Algo em meu coração me fazia sentir viva quando estava com ele.

Perto dele eu me sentia muito mais que "A garota dos pais separados". Eu sentia que era importante.

–Então, quem era o cara que você estava beijando no corredor?

Suspirei e me deitei na grama, ele se deitou do meu lado, olhei para o céu, estava tentando encontrar as palavras certas pra responder a pergunta dele. Mas antes que isso acontecesse eu me virei para o lado dele. Passei a encara-lo, ele me surpreendeu quando fez o mesmo. Quebrei o gelo e comecei a falar.

–Aquele era Chris Paladino... Ele acabou de voltar pra cidade. E não, ele não é meu namorado.

Ele ficou olhando nos meus olhos por um tempo, em seguida um raio de sol bateu no lugar em que ele estava, ao sol seus olhos chegavam parecer transparentes.

–Não é? -Ele perguntou.

–Não, ele terminou comigo um tempo atrás... Disse que eu atrapalhava o sonho dele de ser atleta. Ai agora ele cismou que quer me reconquistar.

–Você o amava? -Ele disse de imediato... Aquelas palavras me fizeram refletir. Nem eu mesma sabia o que responder.

–Bom, naquela época eu era de Nova York... Eu só queria ter um namorado... Achava isso a coisa mais importante, e o Chris, o Chris era o garoto mais popular da escola... Jogava bem, tinhas boas notas... -Dei uma pausa -Todos os dias eu dizia pra mim mesma que amava ele.

–E era verdade?

–Não. No fundo eu sabia que não... Quer dizer, a gente não tem nada a ver um com o outro. Sabe aquela coisa que dizem que a gente só é completamente feliz quando...

–Quando encontra a nossa outra metade?

Foi estranho... Ele parecia saber o que eu sentia, mas mesmo assim acenti com a cabeça, então ele sorriu e continuou me encarando.

–E sua família? -Ele perguntou.

–Pais separados, irmão briguento... Mas e você? Me fala um pouco de você, não sei quase nada de você. -Ele sorriu.

–O que quer saber?

–Hum... Eu já sei que você é daqui... Mas tinha se mudado não é? Porque voltou?

–Eu... Bom, digamos que eu desobedeci meu pai, e ele mandou me colocarem pra fora.

–Nossa! Ele é do tipo severo?

–Sim... Mas tem um ótimo coração.

–Você tem irmãos?

–Tenho.

–Quantos? -Ele parecia confuso em responder.

–Mais de três. -Ele me olhou... Havia algo vago naquela resposta. Achei melhor mudar de assunto.

–O que esta achando da escola?

–Acho que vou demorar um pouco pra me acostumar.

–Sabe o que eu acho? Você devia fazer amigos... Porque não faz teste pra entrar no time?

–Acha que jogo bem?

–Você pegou a bola que mandei aquele dia que estavamos jogando queimada... Devia tentar entrar pro time.

–Vou aceitar a sugestão.

Eu sorri. Nós nos encaramos por um tempo, então percebi nossos lábios se aproximando. Olhei para os dele, pareciam convidar os meus, eu realmente queria beija-lo. Então me deixei levar, parecia que esvamos em um tipo de transe, nossos lábios estavam mais próximos que nunca, quase nos beijamos... Teria acontecido, se um trovão não tivesse atrapalhado, ele havia caído e assolado a floresta.

Nós dois encaramos o céu, meu rosto corou, mas não conseguia me arrepender por querer beija-lo.

–Eu tenho que ir.

–Vamos. Te deixo em casa.

Ele se levantou e estendeu a mão, quando a segurei ele me levantou. Então começamos a andar pra fora da floresta, era estranho, ele parecia já ter decorado o caminho. Comecei a prestar atenção no jeito como ele andava, era tão sútil, era discreto e notável ao mesmo tempo.

A cada passo que ele dava eu reparava mais ainda em seu jeito. Fazer isso me fez escorregar, eu já me via de cara no chão, mas antes disso Andrew segurou meu braço, evitando minha queda. Quando recuperei o equilíbrio arrumei o meu cabelo colocando uma mecha atrás da orelha, então olhei pra ele.

–Me desculpa. -Eu disse sem graça. -Você deve me achar uma idiota desastrada.

–Não. Idiota não.

Ele deu risada, me fazendo rir também. Então continuamos andando.

*

Me despedi de Andrew, por dentro eu queria que ele ficasse, eu me sentia tão estranha... Aquele tipo de sentimento nunca havia me ocorrido. Eu estava confusa, não sabia ao certo o que sentia por ele... Só sabia que não conseguia parar de pensar nele.

–Namorado novo? -Minha mãe perguntou quando entrei... Provavelmente ela tinha me visto pela janela.

–Não...

–Esse não parece mais um "Infelizmente não".

–Acho que estou confusa...

–Me ajude a fazer o jantar. Ai eu ajudo com meus conselhos de mãe.

Fui até a cozinha onde ela estava, então comecei a picar o alho, minha mãe me encarou.

–Então, você gosta dele?

–Não sei... Estou confusa, mas quando estou com ele, meus problemas simplesmente desaparecem... Você já sentiu isso por alguém?

–Já. Apenas por uma pessoa, James Harker.

–O papai?

–Sim. Eu sei como se sente... Parece que vai ser eterno não é?

–E não vai?

–Talvez... Isso depende.

–Depende de que?

–Do tempo... De você, do seu coração. Mas se ama-lo, não pode deixa-lo ir.

Fiquei pensativa... Tive medo que acabasse, que ele me deixasse, ou que simplesmente o tempo o levasse pra longe. Subi as escadas e fui pro meu quarto, tranquei a a porta e me joguei na cama.

Mesmo com aqueles pensentos medonhos, eu pensei em Andrew, então sorri ao lembrar de nossos momentos juntos. E pensar nisso fez o medo ir embora... Talvez nem fizesse sentido, talvez ele não fosse me deixar