1

Na noite passada entrei no quarto de Jade. Eu estava com um pressentimento ruim, então precisava vê-la. Entrei pela janela silenciosamente, ela dormia tranquila, mas seu sono era leve e provavelmente ela ouviu eu me mexendo pelo quarto, pois, instantes depois ela abriu os olhos. Permaneci lá, afinal eu sabia que ela não me veria, pois não estava olhando para a janela, onde eu estava.

Seus olhos azuis pareciam atordoados, ficaram um tanto inquietos por um tempo, mas depois se fecharam e ela voltou a dormir. Eu sai de lá, voltei pra casa de Albert, então acabei adormecendo.

Acordei as sete em ponto com o despertador. Me levantei, então coloquei minha calça jeans escura, escovei os dentes. Eu não me lembrava onde havia deixado minha camiseta e minha jaqueta. Procurei pelo quarto, então me lembrei que desta vez havia deixado no lugar certo. Dentro do guarda-roupa, eu ia demorar pra me acostumar com aqueles hábitos.

Me vesti e então desci as escadas até a cozinha. Albert estava com uma xícara de café nas mãos e lendo o jornal. Me aproximei, eu não estava com fome. Pra falar a verdade raramente sentia fome... Provavelmente isso tinha a ver com o fato de eu ser um anjo.

–Parece pensativo. É por causa do teste pro time de futebol? -Albert me perguntou, me fazendo recuperar a consciência. Pra falar a verdade não. O teste era o que menos me preocupava.

–Sim. -Eu menti.

Achei que não devia atormenta-lo dizendo que estava com um pressentimento ruim. Já devia ser estanho suficiente pra ele ter um anjo morando sob o mesmo teto.

Ele me encarou, me sentei á mesa na frente dele, percebi que ele ainda me encarava. Era aquele olhar de quem quer ler seus pensamentos.

–Bem, eu acho que você vai passar no teste não é? Afinal nessas horas ter força e velocidade sub-humana faz toda a diferença.

Ele fez um ar brincalhão, provavelmente aquilo tinha sido uma piada, ou apenas algo que tivesse a intenção de me fazer sorrir. Mas não esbocei reação, pelo contrário, fiquei sério.

Albert abriu a boca, provavelmente iria falar alguma coisa, mas ele a fechou antes que o fizesse. Pois alguém batia frenéticamente na porta. Ele se levantou um pouco estressado.

–Estou indo seu maluco perturbado! -Disse ele começando a andar.

Olhei em direção a porta, então aquele pressentimento ruim voltou com uma intensidade tão forte que eu senti um embrulho no estômago. Nesse momento percebi um cheiro no ar, ele estava um tanto... Camuflado. Mas mesmo assim eu ainda conseguía senti-lo, respirei com mais intensidade, eu conhecia aquele cheiro... Mas não me lembrava de onde.

Então uma clareza veio em minha mente. Era como se meus pensamentos tivessem sido iluminados, me lembrei de que era aquele cheiro. Enxofre.

–ALBERT! -Gritei. Porém ele já havia abrido a porta.

No momento seguinte dois caras altos, com sobretudo preto entraram pela porta. Eles não disseram nenhuma palavra sequer. Um deles parou em frente a porta de braços cruzados, com um olhar aniquilador, enquanto o outro olhou para Albert com desprezo e caminhou até mim.

–Andrew. Venho a mando do meu pai em missão de trégua. Agora você é um de nós, você pode se tornar mais forte, mais rápido, muito mais poderoso. Só que tudo tem um preço. Dez anos de servidão no reino de Lúcifer, então poderá retornar a terra como um... -Ele continuaria falando, mas eu o interrompi com raiva.

–Como um ser desprezível, alguém das trevas. Um demônio. Não é isso? Nada tentador para alguém que raciocina. Vou ter que recusar.

–Me alertaram sobre isso, disseram que você é todo certinho. Mas caso eu não tenha mencionado, ou você se junta a nós, ou morrerá.

–Ele não vai a lugar nenhum! -Albert disse tentando me proteger. Mas quando ele o fez, o demônio que estava parado em frente a porta esticou o braço na direção dele, e sem nem encostar o jogou longe. Ele voou por cima dos móveis e bateu na parede, em seguida fechou os olhos e ficou entregue ao chão.

Eu dei um passo na direção dele, mas o demônio que estava perto de mim entrou na minha frente me deixando cercado. Eu ia confronta-lo, mas antes que o fizesse ele olhou em minha direção e então falou quebrando o silêncio.

–Ostende te!

No momento em que ele pronunciou estas palavras eu tentei me controlar, mas não consegui, minhas asas se colocaram para fora. Tentei segurar, fazer com que elas não saíssem. Mas isso só me causou uma dor inexplicável, cai no chão me contorcendo.

–É uma pena Andrew, você teria sido um bom soldado.

Ele tirou um facão, que tinha várias inscrições, parecia um grande texto, mas era uma língua nada comum, era aramaico antigo. Desde o céu eu não via aquele idioma, reparei também que ele tinha uma cicatriz extremamente profunda na mão direita, então recuperei a atenção. Minhas asas não se fechavam, estavam tomando conta de todo o cômodo, o demônio aproximou aquele facão das minhas asas, então o levantou, eu já imaginava qual seria a sensação de tê-las cortadas.

Mas Annelise entrou pela porta, fazendo com que ele parasse e se virasse para ela.

–Descendit! -Ela disse enquanto apunhalava o demônio que estava na porta.

Quando ela o fez ele sumiu deixando apenas uma nuvem negra que instantes depois desapareceu, dando espaço a um forte cheiro de enxofre.

O outro demônio olhou para mim uma ultima vez, então sumiu envolto em uma nuvem negra um pouco mais densa do que a anterior.

Quando ele o fez me senti no controle novamente, guardei minhas asas, então me senti tonto mas levantei mesmo assim. A tontura aumentou, me fazendo perder quase todo o equilíbrio, me apoiei em um móvel qualquer evitando minha queda.

–Você esta bem!? -Annelise perguntou.

–Estou...

Eu fui até Albert, me abaixei e estendi a mão sobre ele, então usei meu poder para cura-lo. Quando o fiz ele abriu os olhos e se levantou assustado. Enquanto isso eu perdi o controle do meu corpo e acabei me sentando no chão. Tentei me levantar, mas aquela tontura voltou, então me encostei na parede. Annelise me encarava, ela parecia preocupada.

–Quem eram esses filhos da puta? -Albert perguntou indignado.

–Demônios. -Annelise respondeu vindo em minha direção. Ela segurou meu braço, parecia ver se eu estava bem.

–Ta, seja lá o que forem impregnaram minha casa com esse cheiro!

Albert olhava ao redor, ele com certeza estava assustado.

–Vai ficar tudo bem Albert... -Eu disse com o melhor tom de voz possível. Mas quando falei senti minha tontura piorar. Então comecei a ficar extremamente pálido.

–Você precisa se deitar. -Annelise disse.

–Não! Eu tenho que encontrar a Jade, eles podem ir atrás dela...

–Vou cuidar disso. Agora suba.

Ela pegou o meu braço e colocou sobre seu pescoço me fazendo levantar, percebi que realmente ela era forte, pois me levou até o quarto sozinha. Então me deixou na cama.

–Vou ajudar você Andrew. Irei encontrar a Jade. Cuidarei pra que ela fique em segurança.

Acenti com a cabeça, eu não concordava com aquilo. Eu era o anjo da guarda dela, meu dever era protege-la. Eu iria me levantar assim que Annelise fosse embora, porém aos poucos senti meu corpo leve. Então simplesmente apaguei...

2

Eu continuava sentindo aquele aperto no coração, e o mesmo pressentimento ruim vagava pela minha cabeça. Já faziam exatos vinte minutos desde que o teste pro time de futebol havia começado. Eu estava sentada na arquibancada, Andrew disse que viria... Mas nada, talvez ele tenha me achado atirada, e nem gostasse de esportes.

Só que eu não conseguia me sentir decepcionada por nada, só preocupada. Me levantei, não queria mais ficar ali. Assim que cheguei no gramado senti um vento forte, as árvores balançavam do lado de fora.

Senti vontade de desenhar uma daquelas árvores, foi um desejo intenso, porém passageiro suficiente para que eu continuasse andando.

Entrei na escola, fui até o meu armário, deixei todos os meus desenhos lá, provavelmente choveria, eu não podia correr o risco de que eles estragassem.

Sai da escola, eu tinha razão, pois uma forte chuva começou. Eu estava no gramado, apressei meus passos, porém quando estava na calçada meu pé simplesmente deslizou pra frente, me fazendo cair em cheio naquele chão molhado. Meu pé doeu instantaneamente, achei que tinha torcido, mas foi só uma impressão. Me sentei no chão e peguei minha bolsa.

Então levantei meu olhar, e vi Luce, ela estava no estacionamento, em uma parte coberta... O problema é que ela não estava sozinha, ela estava beijando um garoto... Eu levaria isso como algo normal se este garoto não fosse Arthur... Ele havia a escostado na parede e os dois se amassavam como se não houvesse nada mais importante que aquilo a se fazer.

Me levantei com raiva, por mais que Susan tivesse mudado ela não merecia passar por aquilo. Eu dei alguns passos na direção dos dois... Mas ai decidi não ir até lá... Eu precisava pensar. Mas de alguma forma Luce percebeu, ela olhou em minha direção perplexa enquanto parava de beijar Arthur. Ele também se tocou, então os dois se olharam espantados, mas mesmo assim Luce não havia perdido sua pose. Eu vi quando ela mandou Arthur vir até mim.

Ele andava em minha direção com passos apressados, mas eu não esperei, me virei e continuei meu caminho.

–Jade! -Olhei por meus ombros enquanto andava ainda mais rápido -Espera! A gente tem que conversar.

Eu evitaria aquela tal conversa a todo custo. Então comecei a correr, ele corria atrás de mim, não ia demorar para que ele me alcançasse. Então virei outra esquina, mas não consegui atravessar a rua, pois um caminhão me impediu. Senti uma mão apertando meu braço com muita força, me virei, era Arthur. Ele continuava segurando meu braço.

–Me solta! O que você quer!?

Ele sorriu, e seu sorriso desapareceu logo depois, dando espaço a um rosto que me encarava como se eu fosse insignificante. Ele me colocou contra a parede e segurou meus braços.

–Você ta me machucando! Me larga Arthur!

–Eu só quero conversar. Só isso!

–Eu sei o que você quer... Você quer que eu fique quieta não é? Que eu esconda da Susan o que você está fazendo!

–É JADE! E É ISSO QUE VOCÊ VAI FAZER! SE NÃO... -Eu o interrompi.

–SE NÃO O QUE!? -Dei uma joelhada nele, e assim que ele se afastou dei o tapa mais forte que consegui em sua cara- Eu não sou a Susan. E saiba que eu não tenho medo de você.

–SUA...

–Precisa de ajuda menina?

Me virei e vi um carro com a porta do passageiro aberta bem ao nosso lado. Acenti com a cabeça e entrei mesmo sem ver quem era o motorista. Os casos de estupro não eram frequentes em Lockerwood, pensei enquanto colocava o cinto. O carro já havia saído quando olhei para o lado, o motorista usava um sobretudo preto. Seus olhos eram da mesma cor de seus cabelos, pretos.

Vi que ele tinha uma cicatriz na mão direita, era muito profunda.

–Nossa! O que aconteceu!?- Eu disse e em seguida encostei naquela cicatriz por impulso.

Quando o fiz, foi como se um filme passasse por meus olhos, eu vi um lugar em chamas, e ouvi gritos. Tirei minha mão perplexa.

–Ta tudo bem menina? -Ele me perguntou ao ver meu espanto.

–S-Sim...

O medo tomou conta de mim. De alguma forma eu sabia que havia algo muito errado com aquele homem. Eu tinha que descer, tinha que sair daquele carro.

–Obrigado pela carona... Mas... Eu moro logo ali... Então já vou descer.

–Imagina. Eu levo você até lá.

–É que eu...

–Já disse que te levo!- Ele aumentou a voz... Não tanto pra ser ameaçador, mas o suficiente pra me deixar com mais medo.

Olhei pra porta, eu ia pular, só precisava de um pouco mais de coragem. Mas ele percebeu, e travou todas as portas, respirei fundo, então logo a frente vi vários outros carros parados, uma árvore caída impedia o trânsito. O homem desceu, ficou parado segurando a porta. Estava um tanto distraído, mas ao mesmo tempo com raiva e aflito.

Aproveitei aquilo e destravei a porta, então sai correndo pela rua molhada. Ainda chovia muito, olhei para trás umas sete vezes até chegar em casa, já estava me sentindo paranóica.

Abri a porta da frente e entrei, ninguém estava em casa, me encostei na porta, eu respirava ofegante. Ainda não havia recuperado o fôlego, afinal o que havia sido aquilo!? Aquele homem a cicatriz... Nada fazia sentido.

Alguém bateu na porta, me fazendo dar um pulo... Era ele! Pensei, então vi que realmente estava paranóica. Abri a porta... Era... Annelise.

–Oi. -Ela disse.

–Oi.

–Oi... -Ela disse como se pensasse em um assunto pra comversarmos.

–Como... Como sabe onde eu moro?

–Eu perguntei.

Pelo visto eu era mais conhecida do que pensava.

–Eu vim até aqui porque... Porque queria te ver.

–Ah! -Eu sorri... Era bom vê-la, lembrar de como é ter uma amiga. -Entre!

Sai da porta e ela entrou, então me enviou um sorriso. Ela era espontânea e transmitia uma certa doçura em cada gesto... Mas aquela situação me fez lembrar de Arthur... Eu não sabia qual era a atitude que eu devia tomar. Mas realmente tinha que fazer alguma coisa.

–Você esta bem? Parece distante.

–Sim... Estou, é que hoje foi um dia cheio. -Realmente eu estava distante, mas não queria encher a cabeça dela com meus problemas.

–Bom... Porque não me fala alguma coisa sobre você?

–Que tipo de coisa?

–Qualquer coisa... Como, o que tem entre você e Andrew?

–Na-nada... Não tem nada, eu... Eu só...

–Ele fala muito bem de você.

–Como assim? Vocês conversam!?- Quando essas palavras saíram da minha boca senti o ciúme na minha voz, quando isso aconteceu minhas bochechas coraram, afinal não tinha motivo pra ter aquele ciúme, Andrew não era nada meu... Por mais que me chateasse dizer isso.

–Bom, eu e Andrew somos... Somos muito amigos... Tipo... Irmãos.

–Ah... -Eu respondi aliviada -E de onde vocês se conhecem?

–Longa história... Mas posso dizer que sei muito sobre ele, e que ele nunca falou tão bem de uma garota.

Eu sorri, estava um tanto envergonhada, mas estava mais lisongeada... Parei por um tempo pensativa, mas depois voltei a falar.

–Falando no Andrew, ele não foi a escola hoje. Ta tudo bem?

–Ah... É... Ta, ta tudo bem sim.

Ela foi um tanto confusa na resposta, mas não encarei como algo ruim. Ela abriu a boca, parecia querer dizer algo. Mas seu celular vibrou em seu bolso, eu vi que era uma mensagem de texto.

–Eu tenho que ir. -Annelise disse se levantando do sofá -Até mais!- Ela disse fechando a porta.

Levantei uma das sobrancelhas... Aquilo havia sido estranho. Mas eu nao dei importância. Subi as escadas, eu precisava de um banho...