1

Me levantei da cama, era mais cedo que o habitual. Por um momento me senti atordoado, mas logo passou. Então me lembrei de ter apagado... Jade... Eu desejei com todas as minhas forças que ela estivesse bem.

Me arrumei o mais rápido possível, então desci as escadas, quando o fiz vi que Annelise estava lá embaixo, ela e Albert conversavam seriamente. Mas quando me viram ficaram em silêncio.

–O que faz aqui?- Perguntei me direcionando a Annelise.

–Vim ver como estava. E vim dizer que eu fiquei de olho na Jade... Ela esta bem.

–Ótimo. Vou falar com ela.

–Andrew!- Ela disse segurando meu braço quando eu tentei passar pela porta. -Não é seguro pra você lá fora.

–O que quer dizer?

–Você deve ficar aqui até que eu tenha certeza de que...

–Não. Eu não posso, tenho que cuidar da Jade, não posso deixa-la sozinha.

–Eu cuido dela pra você. Eu prometo que...

–Não. Eu sinto muito mas não vou ficar aqui de braços cruzados.

–Eu acho que ele tem razão... -Albert disse.

–Andrew você não vai sair daqui hoje!

Eu me virei, e rapidamente sai para fora, em seguida abri minhas asas, eu voaria o mais rápido possível até a escola. Provavelmente o sinal já havia tocado, e especialmente hoje eu tinha que chegar mais rápido. Afinal precisava ver Jade.

*

Assim que pisei no gramado me veio uma imensa ansiedade, mas eu sabia que tinha que ficar tranquilo se quisesse encontra-la. Então tentei me concentrar para ouvi-la, mas parecia impossível. Todos aqueles alunos falando sobre futebol e roupas na moda dificultavam as coisas para mim.

Respirei fundo, ouvi tudo que não me interessava. Mas aos poucos tudo foi ficando claro.

"Não disse que quero que vocês terminem, é só que acho que você está indo rápido demais Susan"

"Nós nos amamos Jade! Pode parar com isso!–Ouvi Jade falar com sua melhor amiga.

–Ainda não acredito que me deixou falando sozinha!- Annelise disse tocando meu ombro. Me fazendo virar para trás e parar de ouvir Jade.

–Desculpe. Mas eu não posso ficar longe dela.

–Os testes do time de futebol estão quase começando...

Ela disse começando a andar e dando a entender que me apoiava. Respirei fundo e caminhei até a parte de trás da escola até que cheguei no campo de futebol. Todos já estavam treinando.

–EU DISSE PRA VOCÊ PASSAR A BOLA, WAYNE! -O treinador gritava para um garoto de cabelos claros, e um físico não tão favorável.

Caminhei na direção dele, eu já estava bem perto quando Jade saiu da arquibancada e veio até mim. Ela estava linda, vestia um short jeans meio azul, com uma meia calça preta por baixo, e uma blusa branca por baixo de sua camisa xadrez vermelha.

–Andrew... Oi, eu achei que te encontraria aqui. Veio fazer o teste?

Ela falava tudo tão suavemente, por um momento me perdi em seus lábios. Quando recuperei minha atenção olhei em seus olhos, ela me encarava, eu poderia olhar aqueles olhos para sempre, pois me passavam toda a paz que eu precisava.

–É eu vim pelo teste... O treinador é sempre assim?

–Não... Ele vai piorando durante o ano. -Ela riu -Bem, não quero te atrapalhar, então, boa sorte. E saiba que estou na arquibancada torcendo por você.

Ela sorriu e se virou, então foi se sentar na arquibancada. Continuei andando até o treinador, que usava seu apito a todo instante. Seus cabelos eram curtos e ele tinha a pele escura, estava usando roupas comuns de um professor de educação física.

–KURT! O QUE VOCÊ É!? UM RAQUÍTICO!? CORRE ATRÁS DESSA BOLA MEU FILHO!

–Treinador. -Ele se virou ao me notar, então me olhou dos pés a cabeça.

–O que foi!?

–Eu vim fazer o teste...- Ele me interrompeu.

–Seu físico parece bom, como se chama garoto?

–Andrew.

Se vista e entre no campo Andrew... -Ele andou para frente e então gritou- KURT! EU NÃO VOU FALAR DE NOVO, SE MECHE!

*

Coloquei o uniforme, me aproximei do treinador e ele apitou. Então todos os jogadores se aproximaram.

–Este é Andrew, ele vai jogar no segundo tempo. Vamos ver se ele é bom... Precisamos de jogadores.

Todos foram para suas posições. Um apito fez o jogo começar, a princípio não entendi direito. Todos pareciam estar em um campo de guerra, mas não demorou até que eu percebesse a jogada.

Então consegui pegar a bola, eu estava com ela nas mãos, então comecei a correr, corri uma boa parte do campo, até que os adversários começaram a se jogar em mim, tentando me fazer parar.

Eu usei minha velocidade para passar por eles, não fui tão rápido a ponto que notassem. Então novamente o caminho estava livre, consegui chegar no final do meio campo deles.

–TOUCHDOWN!- O treinador gritou eufórico ao me ver marcar aqueles seis pontos.

Os que jogavam comigo comemoraram como se jogar futebol fosse o mais importante. Olhei para o outro lado do campo, então vi Chris e Jonathan me encarando. Jonathan estava com um olhar sério, eu podia sentir sua raiva sobre mim.

Eu o encarei, só então percebi que ele parecia diferente dos humanos daquela escola. Seu olhar passava algo sombrio. Ele também ficou me encarando, me olhava como se fosse soberano. Não sei o que teria acontecido em seguida se o treinador não tivesse apitado.

Todos voltaram as posições. Eu continuei marcando mais pontos que a maioria, percebi que o treinador estava prestando atenção em mim. E percebi também a raiva aumentando no olhar de Jonathan a cada ponto que eu fazia. Novamente o treinador apitou, todos se aproximaram dele.

–Ok, vocês estão indo muito bem. Este vai ser o último tempo, se querem entrar no time essa é a última chance de vocês. -Todos começaram caminhar de volta as suas posições, então o treinador segurou meu braço- Você tem talento rapaz, já está no time.

Acenti e então me virei, quando o fiz vi que Jonathan estava olhando pra mim. Ele jogou a bola no chão com raiva, e então trocou de posição com um garoto que protegia a "base" deles. Então com o apito do treinador o terceiro tempo começou.

Chris estava me marcando, até que consegui derruba-lo, então com um pulo segurei a bola. Mas Chris foi ágil, ele se levantou e se jogou em cima de mim com seus ombros um tanto levantados, fazendo com que a bola voasse de minhas mãos.

Eu corri e então com um pulo esperava ter pego a bola, seria um tochdown, se Jonathan não tivesse pulado de encontro comigo. Nós dois batemos de frente um com o outro. Ele havia batido com força demais em mim para um humano, realmente, havia algo errado ali.

A bola parou a metros de distância, enquanto eu e Jonathan caímos no chão um de frente para o outro. Ele levantou a cabeça e me encarou novamente com aquela raiva.

–MAS QUE DIVIDIDA! É ISSO AI GAROTOS. E parabéns Jonathan, está defendendo muito bem sua posição de capitão do time. -O treinador disse enquanto nós dois nos levantavamos- Aqui estão os nomes dos titulares. Agora se me dão licença eu tenho mais o que fazer!

Ele entregou uma folha para os jogadores, rapidamente eu vi meu nome nela. Então comecei andar até a arquibancada, antes de chegar em Jade vi Annelise. Então parei perto dela.

–Tem alguma coisa muito estranha com o Jonathan...

–O que!?-Annelise perguntou.

–Eu não sei...

–Vou checar isso.

Annelise saiu, ela começou a seguir Jonathan, enquanto isso eu caminhei até Jade, ela sorriu quando me viu, o que me fez sorrir de volta.

–Você foi incrível! Achei que não jogasse...

–Eu não jogo, é que eu aprendo rápido.

–Isso é o que vamos ver! A gente tem aula de química agora... E, as aulas do sr. Cross são quase incompreensíveis.

Ela voltou a sorir, então o sinal tocou.

–Vamos?- Eu disse sorrindo.

Ela acentiu, e nós começamos a caminhar para a sala de aula.

2

Eu não sabia ao certo o que Andrew quis dizer com "Tem alguma coisa muito errada com Jonathan". Mas eu tinha que checar, todos os alunos estavam indo para as salas de aula, enquanto ele continuou andando pelo gramado.

Eu o segui até que chegamos ao vestiário. Todas as paredes eram azuis, e havia mais de cinco corredores de armários. E apenas uma porta. Ele entrou e caminhou até o ultimo corredor. Caminhei devagar e então parei do lado oposto que ele estava e fiquei escondida atrás de um armário, olhando na direção dele.

Pensei que ele fosse fazer algo errado. Como matar alguém, ou tirar uma arma de uma passagem secreta no chão, o que Andrew disse a respeito dele fez minha imaginação aflorar.

Mas não, ele não fez nada errado. Ele apenas tirou o pesado uniforme do time de futebol, ficando com suas roupas normais, e em seguida ele tirou sua camiseta preta de gola v, o que revelou seu corpo todo malhado... Eu não entendi direito, mas não conseguia parar de olhar pra ele.

Por um momento me imaginei envolvida naqueles braços, imaginei o quão bom seria ao menos por um momento me sentir protegida por alguém, ao contrário da realidade que sempre vivo.

Depois de tirar a camiseta, ele levantou os braços, se alongando. O que o fazia ter um ar de atleta ainda mais aparente. Eu continuava com o olhar preso ao corpo dele, mas meu celular vibrou no meu bolso. O que me fez esbarrar no armário.

Ele olhou na direção do barulho, mas eu fui para o outro corredor. Então vi que ele andava pelo vestiário, parecendo estar decidido a encontrar quem estava ali. Ele entrou no terceiro corredor. E enquanto isso eu passei pelo corredor ao lado e corri até a porta.

Quando passei por ela, esbarrei de leve em alguma coisa, mas não era nada que me impedisse de continuar.

Sai de lá, eu precisava recuperar o fôlego, e esquecer aquele corpo... Mas também precisava ir o mais rápido possível para a sala de aula.

3

A aula havia começado, a sala estava cheia, mas eu só prestava atenção em Andrew. O jeito como ele escrevia... Eu não conseguia parar de olhar pra ele, e eu não conseguia parar de pensar nele. No fundo eu sabia que estava perdidamente apaixonada por ele. Mas me conhecendo bem como conheço, eu sabia que tinha que negar pra mim mesma.

–Jade!- Lucy disse batendo na minha carteira... Eu já imaginava o que ela queria.- Então, ta curtindo bem essa coisa de olhar a vida dos outros!?

Levantei meu olhar, ela usava uma mini saia pink, e um casaco beje. Revirei os olhos.

–Não sei. E você? Ta curtindo pegar o namorado dos outros!?

–Escuta aqui, se você acha mesmo que pode me prejudicar... -Eu a interrompi.

–Eu não vou te prejudicar, você é quem está se prejudicando tendo um caso com o Arthur. Quer saber, eu não sei porque estou perdendo tempo com você.

–SILÊNCIO!- Disse o senhor Cross dando um de seus gritos.

Lucy lançou seu último olhar soberano sobre mim e então voltou ao seu lugar. O professor voltou a escrever no quadro. Annelise entrou pela porta e sentou ao lado de Andrew, então começou a falar. Pelo movimento de seus lábios estava dando a ele a última novidade.

Minutos depois a aula começou a ficar muito mais entediante. Minhas folhas de desenho estavam no armário, tirei uma folha do meu próprio caderno... Só precisava encontrar algo para desenhar. Mas nada me inspirava.

Então lembrei daquele homem de sobretudo preto. Um calafrio correu meu corpo, mas mesmo assim me peguei desenhando seu rosto, e não demorou para que eu tivesse o desenhado inteiramente. O mesmo sobretudo, a mesma cicatriz. Era como se ele estivesse presente na sala.

Amassei a folha, eu não queria mais olha-la. O sinal para o intervalo tocou, eu precisava falar com Susan, eu ia tomar coragem e contaria a verdade sobre Arthur. Ela não podia mais ser enganada.

4

Eu tinha procurado meu colar por toda parte, mas não o encontrei. Eu me lembrava de estar usando ele quando comecei a seguir Jonathan. Provavelmente ele havia caído no meio de um dos meus cadernos na sala de aula.

Entrei na fila do refeitório. Peguei minha comida e comecei andar procurando por uma mesa vazia, avistei uma bem no fundo, caminhei na direção dela.

–Oi. -Disse Jonathan entrando na minha frente, ele sorriu parecendo flertar comigo.

–O que você quer!?

–Sabe, eu acho esse seu comportamento explosivo uma graça. -Revirei os olhos, então dei um passo a frente, mas novamente ele entrou em meu caminho- A propósito, da próxima vez que for me olhar trocar de roupa, não esqueça de pegar seu colar.

Ele estendeu a mão, me entregando o meu colar. Meu rosto corou, eu peguei o colar da mão dele. Então comecei a caminhar novamente até a mesa.

–Ei, eu só estava brincando!- Ele disse segurando meu braço- Da próxima vez que quiser me ver trocar de roupa, é só você pedir.

Eu passei por ele sem dizer uma palavra. Então finalmente me sentei. Ele já havia se juntado com Chris e alguns outros garotos, mas ainda olhava pra mim, quando ele percebeu que eu notei me lançou um largo sorriso. Abaixei minha cabeça... Era muita vergonha para apenas um dia.

5

Cheguei até Susan, ela e Arthur estavam se beijando. Eu não sabia como interromper aquilo, então me aproximei fazendo o maior barulho possível, Susan o largou e ambos olharam na minha direção.

–Jade!?- Ela disse espantada.

–Eu posso falar com você um minuto?

–Estamos ocupados.- Arthur respondeu.

–Ele tem razão, não pode ser mais tarde?

–Não, não pode, é urgente!

Segurei o braço dela, praticamente tirando ela de Arthur.

–Nossa!- Ela disse quando já estávamos afastadas de Arthur- O que é tão importante pra você me puxar deste jeito.

–Tenho que te contar uma coisa sobre Arthur.

–O que tem ele!?

–Não sei como dizer, então vou ser direta. Eu vi ele e a Lucy se beijando no estacionamento.

–O que!?

–Era pra eu ter te contado antes mas...- Ela me interrompeu grosseiramente.

–O que é isso Jade!? Vai começar a mentir agora!? Olha... Eu sei que seus pais são divorciados, e que a sua vida não deve prestar, mas não é por isso que você tem que ficar tentando estragar a felicidade dos outros! Eu estou bem com Arthur, então pare de inventar motivos pra me separar dele.

Ela se virou, me deixando sozinha no corredor, Arthur olhou para mim enquanto a abraçava, ele parecia satisfeito por ter uma namorada tão ingênua... Como era possível? Quando cheguei aqui eu e Susan eramos tão parecidas. Pelo visto é verdade, um bom amor pode mudar, já um amor ruim nos estraga.

Eu me virei, então respirei fundo... Era difícil acreditar que eu não tinha capacidade pra fazer uma amiga. Comecei a andar pelo corredor, então entrei no banheiro... Me arrependi no mesmo instante, Lucy estava lá, retocanco seu gloss.

Passei por ela sem nem ao menos encarar, então parei no espelho e arrumei o cabelo, mas Lucy começou a rir, uma risada discreta, mas que queria ser notada.

–Eai... Se cansou de ser o pombo correio?-Ela perguntou se virando para mim e jogando seu cabelo.

Revirei os olhos, eu não ia dar atenção a ela, eu havia acabado de perder minha melhor amiga, não podia deixar ela me fazer sentir pior.

–Eu to falando com você vadia!- Ela segurou meu braço- O que foi? O gato comeu sua língua?

–Vai pro inferno Lucy! Se quer ficar com o Arthur o problema é seu. Pra falar a verdade acho que ser a outra tem bem a sua cara, você é a única vadia aqui!

Puxei meu braço e sai do banheiro... Por um momento me arrependi, eu devia ter dado ao menos um tapa na cara dela... Era óbvio que ela merecia.

Tentei esquecer isso enquanto eu voltava pra casa, o sol estava se destacando no céu, isso era raro em Lockerwood... Mas ultimamente estava acontecendo com freqüência. Cheguei em casa, quando estava na varanda ouvi a televisão ligada no canal de esportes... O problema era que ninguém em casa via o canal de esportes.

Abri a porta, o cheiro de cerveja misturado com cigarro e lama me deixou enjoada. Passei pela porta, então vi o que eu menos desejava ver. Henry estava estirado no sofá, com a barriga para cima e roncando como um porco.

Fechei os olhos, desejei que não fosse verdade. Mas era, pensei, então passei pelo sofá e fui até a cozinha. Minha mãe estava arrumando, eu parei na frente da mesa e a encarei.

–Ah o que foi Jade!?

–O que foi? Vou dizer o que foi, aquele porco velho roncando no sofá!

–Eu e Henry estamos juntos agora, vai ter que se acostumar. Além do mais ele não é tão ruim assim.

–Para mãe! Para de se enganar, o Henry é um bêbado, um vagabundo! Você sabe que ele não é o cara certo!

–Ah por favor Jade, eu sou sua mãe, não preciso de seus conselhos! Vá já para o seu quarto e pare de implicar com Henry!

–Eu já disse que essa menina é insuportável Amélia, você devia colocar ela em um internato!-Henry disse parado na porta atrás de mim, me virei.

–Ela não me coloca em um internato porque não tem dinheiro suficiente, mas se é isso que você quer arranje um emprego pra ajudar a pagar um seu vagabundo!

–JADE!- Minha mãe gritou.

–Quem você pensa que é pra falar assim comigo?

–Quem VOCÊ, pensa que é!? Você não passa de um bêbado, um vagabundo, quero que deixe minha mãe em paz!

–JADE PARE JÁ COM ISSO! VAI PRO SEU QUARTO!- Minha mãe disse como se perder Henry fosse o apocalipse.

–Ai que droga! Eu não vejo a hora de ir embora desse inferno!

Passei por Henry, segurando minha bolsa perto de mim. Não queria que nada meu tocasse nele, seu rosto de meia idade e seu cheiro de álcool me causavam ancia, subi as escadas o mais rápido possível, então entrei no meu quarto.

Bati a porta e girei a chave, então joguei minha bolsa na cama, peguei meu celular, disquei o número do meu pai, eu ia voltar pra Nova York, não podia ficar nem mais um segundo nesta casa.

Mas... E Andrew? Pensei pouco antes de jogar o meu celular na parede e dar um grito de raiva. Eu não ia me render, se Henry queria guerra era o que ele teria. Uma lágrima ameaçou sair do meu olho, mas eu a limpei. Me levantei da cama e olhei de relance para a janela. O tempo havia fechado.

Sentei na minha escrivaninha e peguei uma folha qualquer, com um lápis preto comecei a pinta-la, sem nenhum traço específico. Acho que aquela era uma forma de descontar minha raiva. Com força minha mão deslizava pela folha.

Continuei pintando aquela folha por um bom tempo... Até que adormeci, quando acordei estava com a cabeça sobre a escrivaninha, me coloquei de pé e a folha grudou na minha bochecha, eu a tirei e então joguei no chão.

A casa toda estava em silêncio, sai do meu quarto, o corredor estava escuro. Andei até o interruptor e acendi a luz. Realmente a casa estava vazia... Desejei que minha mãe não tivesse ido me matricular em um colégio interno, pensar nisso me fez andar depressa pelo corredor, eu ia pra sala, checar mais uma vez se tinha alguém em casa, mesmo tendo certeza de que isso não era nada provável.

Eu estava bem próxima a escada, mas antes de descer vi algo que me chamou a atenção, uma bolsa muito grande, deixada no chão como algo qualquer. Fiquei de costas para a escada, e me abaixei para olhar, eu sabia que era de Henry.

Abri a bolsa, pronta pra encontrar algo que fizesse ele e minha mãe se separarem. Quando o fiz vi uma arma calibre trinta e oito, e umas outras três de calibres ainda mais fortes. Havia muitas balas, e quando olhei melhor havia... Havia sangue. Ele matou alguém! .Eu pensei.

Então abri ainda mais a bolsa, a quantidade se sangue aumentou... Mas não era sangue humano. Pois no momento seguinte toquei em algo, era um guaxinim... Provavelmente Henry caçava. Mas tocar naquele animal me fez tomar um susto tão grande que me levantei do chão e me afastei dando um passo para trás.

Quando o fiz vi que não havia apoio para meus pés. Rolei escada abaixo, até chegar na sala. Bati a cabeça em uma mesa de apoio que ficava na frente daquela escada idiota, fiquei atordoada, olhei para o alto da escada de relance, pensei ter visto alguém lá, um homem, olhando diretamente pra mim, mas estava escuro e eu não consegui identificar seu rosto.

Escuro... Mas eu havia acendido a luz, pensei, então ouvi um barulho de carro parando, devia ser minha mãe, pensei enquanto desmaiava...

6

Cheguei na cabana de Albert, o tempo estava fechado. Entrei depressa. Tudo estava quieto, olhei ao redor, não vi Albert.

Caminhei pela sala mas ele parecia não estar lá, até que olhei direito. Ele estava caído atrás do sofá. Seu nariz estava sujo de sangue, me aproximei o mais rápido possível.

–Albert!

Apoiei a cabeça dele, eu não podia usar o meu poder nele, isso me deixava cada vez mais fraco.

–Albert!- Chamei pela segunda vez, então ele abriu os olhos.

–Ele queria saber onde você estava...-Sua voz chegava a ser difícil de entender- Eu não disse... E ele ficou irritado...

–Quem Albert!? Quem ele era!?

–Um anjo... Não sei... Ele tinha asas mas não se comportava como um anjo...

–Como ele era!?

–A Jade... Ele vai atrás dela...

Ele desmaiou logo em seguida. Eu o segurei, então sai o mais rápido que pude para fora e abri minhas asas. Eu precisava leva-lo para o hospital, não demorou para que chegassemos lá, coloquei meus pés no chão e escondi minhas asas. Estávamos nos fundos, ninguém me veria descer do céu, pensei.

Abri as portas duplas quase carregando Albert. Duas enfermeiras vieram correndo em minha direção, então o tiraram de mim e o colocaram em uma maca.

–O que aconteceu!?-Perguntou uma delas enquanto a outra levava Albert para um leito.

–Eu... Eu não sei, eu cheguei e ele estava assim.

A enfermeira me ignorou e foi até o quarto que haviam colocado Albert. Por um momento minha concentração se desintegrou, tudo que eu conseguia ouvir era uma respiração, nem tão fraca e nem tão forte... Eu a conhecia. Jade, lembrei.

Porque ela estaria no hospital? Andei o mais depressa possível pelo corredor, sendo guiado por aquela respiração. Parei quando achei que estava próximo, havia ficado mais alto e eu sabia com toda certeza que Jade estava ali.

No quarto 101. Dei um passo a frente em direção ao quarto, mas alguém saiu de lá logo em seguida. Ele não virou seu rosto para mim, tentava se esconder... Era Jonathan. Mas o que ele queria com Jade? Pensei.

Caminhei até o quarto dela. Estava desacordada, eu voltaria para ve-la depois, mas agora precisava saber qual era a de Jonathan.

Voltei a andar pelo corredor, Jonathan estava distante de mim, e andava seguro, sem nem sequer olhar para trás, continuei seguindo ele. Até que ele virou para o outro corredor w entrou em uma sala. Eu não li o nome e apenas o segui.

Quando entrei a grande conversa que estava lá se silenciou e todos me encararam com espanto, eram os jogadores do time.

–Jonathan!-Eu segurei o braço dele.

–Ah é você...- Ele disse voltando o olhar pra mim- É Andrew não é?

–É... Mas o que faz aqui!?

–Não está vendo!? Viemos doar sangue.

Olhei ao redor, realmente, aquela era a sala de coleta de sangue, mas algo estava errado, eu sabia que algo em Jonathan não era certo, ele escondia alguma coisa.

–E o que você estava fazendo no quarto da Jade?

–Bom, eu soube que tinha uma aluna da nossa escola aqui... Pensei que ela estivesse acordada e fui ver se ela também queria doar sangue... Enfim, o que mais você quer!? Meu telefone?

Ele se virou e foi até os amigos dele. Eu sai de lá... Talvez ele fosse apenas outro adolescente burro que faz tudo pela sua carreira como atleta. Mas havia algo em mim que não conseguia acreditar naquilo.

"Mãe eu já disse que to bem"

Ouvi Jade dizer em meio aos protestos da sua mãe.

"Você tentou se matar!? Eu ainda não acredito Jade!"

"Quantas vezes tenho que repetir que eu só me desequilibrei?"

"Vou ligar pro seu pai"

" Não mãe..."

Ouvi quando a mãe dela saiu do quarto, eu precisava ve-la, então passei pelos corredores e cheguei até lá. Ela estava deitada olhando para o teto. Quando me viu ela sorriu, eu parei na porta, seu sorriso me fazia sorrir também.

–Andrew? Porque está aqui?

–Albert, o meu tio, ele... Bom, não sei bem o que houve mas quando cheguei em casa encontrei ele desmaiado.

–Espera... Albert!? O Albert que mora perto da estrada principal.

–Sim.

–Ele é seu tio!? Nossa, ele e meu pai foram os melhores amigos na faculdade! Só que... Não me lembro do meu pai ter dito que ele tinha um sobrinho.

Fui obrigado a mudar de assunto, ela parecia desconfiada de alguma forma.

–E você, porque esta aqui?

–Bom... Eu cai da escada acidentalmente.

Ela deu um sorriso frustrado, devia pensar que eu não gostava do jeito como ela era desastrada... Mas era o contrário eu gostava de cada defeito que ela tinha.

–Seu tio já acordou.-Disse a enfermeira atrás de mim.

Eu ia responder, mas antes que o fizesse a luz do quarto piscou, assim como a de todo o hospital segundos antes de apagar completamente. Fiquei na porta do quarto de Jade, estava claro que queriam leva-la, eu não podia permitir... Mas nada aconteceu. Então a luz voltou, e em seguida um grito ecoou pelo hospital.

Me aproximei, havia um homem caído no chão, em sua barriga havia uma inicial "J" . Era a marca de um assassino, eu tinha certeza, Jonathan! Pensei... Então corri até a sala de doação de sangue, ele estava lá... Provavelmente nem sabia do ocorrido, mas quando apareci na porta ele se virou, e então me lançou um olhar maléfico.

Eu ignorei, não sabia o fazer, precisava manter Jade em segurança. Então voltei ao corredor... Precisava falar com Annelise.

Notas finais
Peço desculpas pela demora.