O shopping era um pouco afastado da cidade então demoramos a chegar.

— Quantos anos você tem? _ Perguntava sem tirar os olhos da estrada.

— 16 e você Miguel? _ Emília tinha aquele sorriso sincero que me confortava de alguma maneira.

— 17. _ Entramos no estacionamento do shopping, coloquei o carro o mais perto da entrada.

Fazia tempo que não ia no shopping, era grande e luxuoso. Emília olhava o lugar como se fosse o paraíso eu ri baixo.

— Onde eu morava não tinha shopping. _ Ela aumentava cada vez mais o sorriso.

— Nem deu para perceber. _ Estava rindo baixo, coloquei as mãos no bolso e caminhei ao lado dela até a loja de celulares.

Comprei um parecido com o antigo sem muito luxo, então fomos à praça de alimentação.

— Porque veio para cá? _ Perguntei entrando em uma lanchonete ao seu lado.

— Meu pai recebeu uma proposta de emprego. _Era notável que Emília se entristecia ao falar do pai.

— Você vai gostar daqui, das pessoas nem tanto, às vezes elas podem ser cruéis. _Me referia a Catherine, nunca iria me conformar com o que ela é a família fizeram.

— Se essas pessoas forem iguais a você tenho certeza que vou adorar. _Ela voltou a dar aquele sorriso.

Logo que nossos sanduíches chegaram começamos a comer, aquilo tinha o gosto maravilhoso, talvez seria porque estava a dias sem comer direito, apenas bebendo.

Emília terminou de comer primeiro então pegou meu celular para mexer.

— Meu número já está salvo aqui, quando precisar pode conversar comigo. _Ela abriu a câmera e tirou uma foto minha, tampei meu rosto.

— Não faz isso. _Murmurei com a boca cheia e ela começou a rir, então tirou uma foto dela.

Terminei de comer ela se aproximou de mim e tirou uma foto nossa, ela estava sorrindo e eu fiquei olhando para ela. Era linda. Paguei a conta e fomos para o carro, já era tarde não queria que meu irmão e nem o pai de Emília pensassem que havíamos morrido.

Durante a volta Emília me contou sobre sua vida, que tinha um cachorro chamado Zeus e que ele estava com ela sempre é eu contei sobre minha vida, menos a parte que eu não sabia até ontem.

Logo que entramos na cidade ela me explicou onde morava então a levei até sua casa.

— Obrigado por me acompanhar Emília, você me poupou de um suicídio, espero que amanhã você esteja lá para me ajudar. _Virei para ela e ela estava rindo.

— Por nada Miguel, obrigado pelo dia maravilhoso. _Ela se esticou e beijou minha bochecha e desceu do carro, já na calçada ela acenou e eu segui meu caminho, já era 23:30.

Chegando em casa tudo estava silencioso, entrei pela porta da cozinha vi uma garrafa de whisky no balcão.

— Charlie bebendo o meu whisky. _Murmurei para mim mesmo.

Peguei uma garrafa de cerveja na geladeira e subi para o meu quarto. Bebi a cerveja de uma vez, aquilo era ruim. Tirei minha roupa e tomei um banho demorado, sai e vesti uma cueca box preta e me deitei, peguei o celular.

*Oi :) espero que seu pai não tenha ficado irritado.—Enviei a mensagem para Emília então abri a galeria e lá estava a foto dela, fiquei observando alguns minutos. Como era linda, parecia tão meiga e inocente.

*Oi, não ele não ficou. Na verdade, quando eu cheguei não tinha ninguém em casa para minha sorte. Você está bem?

Fechei a galeria com um sorriso involuntário e a respondi.

*Melhor e você?

*Cansada, mas estou feliz, você é uma ótima companhia.

*Digo o mesmo de você Emília, obrigado por me fazer esquecer tudo por alguns instantes.

*Foi um prazer, agora vou tomar banho. Boa noite, beijos.

*Beijos.

Logo que a respondi coloquei o celular de lado e me cobri. Quando estava quase pegando no sono o celular alertou que havia mensagem.

*Miguel, não sei o que está pensando de mim, mas eu não tenho culpa eu não fiz nada. Seu irmão nos contou tudo, me desculpa por não ter falado a verdade, eu sei que você me odeia, mas não me culpe por algo que não fiz.—Era Catherine.

— Eu vou matar o Charlie. _Revirei os olhos.

A carta que meus pais haviam escrito era clara, Blount Matteo, não havia outra explicação, eles eram caçados pela família da Catherine, agora eu e meu irmão também vamos ser, tudo porque nossos pais se amavam. A lembrança dos dois me fez suspirar. Peguei o celular e respondi Catherine.

*Vai para o inferno de onde nunca devia ter saído. Eu só te dou um último aviso, não chega perto de mim, nem do meu irmão. Eu te mato Catherine, como você e sua família fizeram com meus pais.

Desliguei o celular, como era sexta no dia seguinte não precisaria do despertador. Fiquei me revirando na cama até por fim depois de horas pensando em tudo que havia acontecido, adormeci.

Acordei tarde, como havia fechado as cortinas a luz do Sol não havia penetrado meu quarto o mantendo escuro, levantei, vesti uma bermuda e sai do quarto direto para cozinha, estava morto de fome. Lá estavam Charlie e Bianca, Bianca estava com um jeito preocupado e Charlie com a mesma cara de sempre.

— Bom dia. _Cumprimentei a empregada e Charlie, peguei um copo e coloquei suco. Ambos responderam juntos.

— Charlie precisa de ajuda com algo na fazenda? _Ele estava concentrado em seu café.

— Não, agora temos um gerente, ele cuida de tudo. Dei carona para sua namorada Catherine ontem. _Ele me olhou.

— Fiquei sabendo, pensei que não era para chegar perto. _Bati o copo com certa força na mesa.

— Miguel, elas não parecem culpadas de nada. _Ele me encarava.

— Pense o que quiser, eu sei que elas são e nunca vou esquecer isso Charlie. _Tinha perdido totalmente o apetite, me levantei e subi para o meu quarto, entrei e fechei a porta.

Peguei meu celular e o liguei, Catherine havia mandado várias mensagens pedindo para conversarmos então a bloqueei. Tinha outra mensagem, era Emília.

*Bom dia :)

*Bom dia princesa, como você está?—Respondi.

Ela então demorou um pouco para responder.

*Estou bem e você? Princesa? Gostei disso!

Sentei na cama sorrindo.

*Estou bem, a cidade está tão agradável como aqui no campo?

*Está horrível, espera, Miguel você mora no campo? Eu adoro o campo!

*Moro sim em uma fazenda alguns kms da cidade, quer vir aqui?

*Querer eu quero, mas meu pai não gosta que eu saia de casa :(.

*Tudo bem então princesa, outro dia você vem, eu prometo manter tudo como está hoje.

*Engraçadinho, agora eu tenho que ir. Até mais tarde.

*Ate mais tarde Emília Creek.

Peguei o livrinho de couro e o iPad, coloquei no tradutor do latim para o português, escrevi as primeiras palavras e então traduziu, peguei folhas e caneta, comecei a copiar.

[ Anjos Seth Clair, ligados ao anjo Gabriel mensageiro de Deus, linhagem especial, criada no começo de tudo. Dom da cura, inteligência, força e imortalidade humana, podem ser mortos com a faca dourada do sangue dos anjos.

Última linhagem Leonard e Valentina Seth Clair, com a promessa de não ter relação carnal apenas espiritual. A promessa foi quebrada, a linhagem Seth Clair está extinta do céu. Tratado entre Gabriel e Lilith. Qualquer ser sobrenatural caído sobre a terra deve ser executado em 40 anos de vida terrestre, mortos antes disso seriam perdoados por sua traição e assumir seu posto em ambos os mundos. ]

Senti um alívio pois se aquilo tudo fosse verdade meus pais estariam em sua casa novamente, mas esse alívio não durou porque se eles foram mortos antes do tempo, eu e Charlie também seríamos. Continuei a tradução.

[ caídos sobre a Terra, geraram filhos, Miguel e Charlie Seth Clair, não nomeados, filhos de sangue. Habilidades a serem aperfeiçoadas. Pedras do fogo e da água, fogo será destinado a Charlie e água a Miguel, ambos terão seus dons libertados aí tocarem suas respectivas pedras ].

Peguei as folhas e o caderno e sai correndo atrás de Charlie.

— Charlie! _Gritava pela casa.

— Ele saiu para a fazenda. _Bianca respondeu, ela estava limpando a sala de estar.

Sai de casa correndo pela fazenda, até acha-lo no estábulo.

— Olha isso. _Estava ofegante, Charlie então leu tudo.

— Onde você conseguiu isso Miguel? _Ele me olhou perplexo, entreguei o livro a ele.

— Estava dentro da minha caixa, eu o traduzi, a língua é latim. _Encostei meu corpo na parede.

— Se isso estiver certo estamos correndo perigo Charlie, não podemos confiar em ninguém. _Ele olhava atento o livro.

— Não vamos confiar em ninguém Miguel e aquela faca vai ficar escondida para caso precisarmos. _Ele se apoiou ao meu lado.

— Dentro de pouco mais de 20 anos seremos caçados por cada demônio que deve existir. Precisamos nos preparar. _Ele me entregou as folhas e o livro.

— E nós vamos, agora que nossos pais estão no seu lar novamente e sabemos disso, temos que nos preparar. Mas eu não faço ideia de como. _Nesse momento senti vontade de rir, somos anjos puros e não sabemos como ao menos poupar nossas próprias vidas.

Marcio então apareceu e chamou Charlie para o ajudar, ele estava aqui na fazenda a mais de 10 anos, ele não iria nos matar. Então voltei para casa, Bianca sempre muito calada estava na cozinha preparando alguma coisa com cheiro bom, subi até meu quarto peguei o celular e carteira, nem me preocupei de vestir uma camisa, sai de casa até a garagem e sai no meu carro. No caminho enviei uma mensagem para Emília.

*Estou chegando na sua casa. Vamos dar uma volta?

Coloquei o celular de lado e continuei o caminho até chegar à casa dela e ela não havia respondido, estacionei o carro e desci até a entrada, comecei a ouvir alguns barulhos de coisas se quebrando e um grito.

— Pai por favor não faz isso! _Era a voz de Emília, senti meu sangue aquecer e entrei na casa sem dificuldade com a porta trancada, não reconhecia mais a minha força.

Logo que entrei um homem velho e alto estava com uma faca de cozinha na mão e Emília estava caída chorando e tentando se proteger.

— Emília o que está acontecendo? _Aquilo me assustou, como o próprio pai estava ameaçando a filha daquela forma.

— Miguel me ajuda por favor. _Ela gritou desesperada.

Então o pai dela veio para cima de mim, estava notavelmente bêbado, tentei o segurar, mas antes disso ele conseguiu me esfaquear na barriga, a dor foi grande mas consegui o empurrar contra o chão e o fazer cair e bater a cabeça. Emília veio correndo até mim, eu me sentei no chão tampando o ferimento.

— Miguel o que você está fazendo aqui? _Ela estava chorando muito e encarando minha mão cheia de sangue, a dor foi cessando e então eu me lembrei que uma morte humana não me mataria, encarei Emília assustado.

— Eu vim te salvar ué. _Sussurrei já não existia mais dor e ela então tirou minha mão da minha barriga e se afastou.

— O que é isso? Você estava machucado e sumiu! _Ela me olhava assustada.

— Emília eu não sei o que é isso, por favor não conta para ninguém, eu prometo te explicar. _Levantei e me ajoelhei em sua frente.

Ela se acalmou um pouco e só conseguiu balançar a cabeça, aquilo me tranquilizou, a ajudei levantar, ela estava com o olho levemente roxo.

Então a levei até o carro e acelerei o mesmo, ela estava respirando ofegante, mas não dizia uma palavra.

— Eu não sei o que é isso, eu só sei que meus pais morreram por que eram iguais a mim. E agora que estou sozinho eu não posso confiar em ninguém mas eu não podia deixar seu pai fazer nada contra você, eu não me perdoaria. _Minha voz era um sussurro.

— Eu prometo não contar a ninguém Miguel, eu não sei o que é isso, o que você é. Mas tenho certeza que você não vai me machucar. _Ela colocou sua mão sobre a minha.

— Obrigado, o que aconteceu entre você e seu pai? _Deslizei os dedos entre os dela, ela voltou a chorar baixo.

— Ele tentou me estuprar, mas eu não deixei então ele disse que ia me matar. _Ela sussurrou com dificuldade, meu corpo gelou.

Como uma garota como ela passaria por isso? Emília não merecia a vida que tinha.

— Você me salvou. _Ela me olhou e sorriu, sorri de volta para ela.

— Sabe que não vou deixar você voltar para aquele lugar, certo? _Parei o carro no acostamento da estrada entre a fazenda e a cidade.

— Mas eu não tenho onde ficar, nem ninguém Miguel. _Ela balançou a cabeça.

— Você tem a mim Emília e você não vai voltar para lá. Vai ficar uns dias na minha casa, depois pensamos em algo. _Voltei a dirigir o carro até em casa.

O coloquei na garagem e desci, Emília logo desceu, o hematoma em seu olho estava mais visível. Segurei sua mão e a conduzi para dentro. Na cozinha estava Charlie e Bianca conversando, logo que me viu ele arqueou a sobrancelha.

— Charlie, Emília, Emília, Charlie meu irmão. _Puxei uma cadeira para Emília se sentar. Charlie se levantou subitamente e apontou para minha barriga, logo que olhei ela estava com uma marca negra de tamanho médio.

— Eu levei uma facada. _Sussurrei para que Bianca não a escutasse, então Charlie pediu para ela se retirar.

— Você o que? _Ele me olhava irritado. Então eu o puxei pelo braço para longe de Emília.

— Fui até a casa dela e o pai tentou a estuprar e ela se recusou então estava tentando a matar, quando cheguei ele veio pra cima de mim e eu não pude evitar. Quando me curei Emília estava perto, então ela sabe de um pouco da verdade. _Sussurrei e cruzei os braços, a mancha já estava diminuindo.

— Ela está bem? _Ele se aproximou de Emília.

— Apenas com alguns ferimentos que eu vou cuidar. _Ela sorriu para mim.

— Bianca arruma o quarto de hóspedes, por favor. _Gritei para Bianca que estava arrumando a sala de jantar.

— Miguel, sua responsabilidade. _Ele então saiu da cozinha.

Charlie não tinha gostado muito da ideia, mas ele sabia que não iria me fazer mudar de ideia, ajudei Emília a subir até o quarto que Bianca havia arrumado.

— Miguel o que eu vou fazer? Meu pai me odeia e provavelmente não vai me querer por perto. _Ela estava ameaçando começar a chorar. Me ajoelhei na sua frente.

— Você mora aqui comigo, simples. _Isso a tirou um sorriso.

— Cuidar de mim não é sua obrigação Miguel e seu irmão não gostou muito da ideia. _Ela colocou meu rosto entre suas mãos.

— Eu te salvei e acha que vou te jogar lá novamente? Você fica aqui o tempo que precisar, está decidido. Você precisa de alguma coisa? _Me levantei sorrindo.

— Se eu for ficar, vou contribuir em algo quando minha mãe morreu ela deixou uma boa herança para mim. Eu preciso de um banho e roupas. _Ela tirava seu tênis, parecia mais calma.

— Depois pensamos nisso então, eu vou procurar algo para você no meu guarda roupa e amanhã vamos dar um jeito de buscar suas coisas. Certo? _ Ela acenou positivamente.

Fui até meu quarto, procurei algumas roupas e peguei uma camisa de manga preta, fui até o banheiro abri os armários minha mãe sempre deixava uma escova de dentes reservada então a peguei para Emília junto a uma toalha branca, voltei até o quarto ela estava encolhida na cama dormindo, sorri e me aproximei sem fazer barulho para ela não acordar, coloquei as coisas no canto da cama, puxei o cobertor e a cobri, logo que sai apaguei as luzes e fechei a porta.

Fui direto para meu quarto, o dia tinha me tirado totalmente a fome, tomei um banho rápido vesti um moletom, a noite prometia esfriar, me deitei e fiquei olhando para o teto segurando minha corrente com a pedra azul. Logo adormeci, estava cansado, a facada não me matou mas fez com que minhas forças fossem pela metade.