Entre o Frio e o Fogo | Twilight Saga
2 O Veneno de Aro
A neve, teimosa e implacável, se agarrava aos recantos mais sombrios do campo onde, anos atrás, o destino de duas espécies pendeu por um fio. As pegadas da quase-batalha haviam sido apagadas pelo tempo, mas o silêncio que pairava era o mesmo: denso, desconfortável, carregado com o peso de tudo o que fora engolido para que a carnificina fosse evitada. Jacob Black nunca mais havia retornado àquele lugar. Até agora.
Decidiu voltar ao local para verificar se ainda sentia raiva o suficiente de todos os vampiros que estiveram ali. Lembrava exatamente de tudo o que aconteceu — o medo que sentiu de morrer quando encarou todos aqueles olhos vermelhos, a raiva que sentia de Bella e Edward por terem causado tudo aquilo, raiva de Renesmee, de Seth também. Se ele não tivesse tido o imprinting com ela quando impediu Jacob de matá-la nos braços de Rosalie, após seu nascimento, nada disso teria acontecido.
Ele tocou a neve, que derreteu rapidamente sob suas mãos quentes. Já haviam se passado 2 anos após a trégua com os Volturi, uma trégua necessária, segundo Alice, para evitar que muitas vidas fossem perdidas — inclusive de Jacob. Várias vezes se pegou pensando se não seria melhor ter morrido naquela batalha concretizada ao invés de viver como estava vivendo. Se sentia como Leah; alguém que não cabia mais em uma felicidade alheia.
Depois que a paz provisória voltou a reinar, ele se afastou. Ficou meses longe de todos, principalmente dos Cullen. Fez o que já havia feito antes, quando descobriu sobre o casamento. Passou meses andando de um lado para o outro, sempre na forma de lobo. Não queria conversar ou conviver com pessoas. Ligava esporadicamente para seu pai, só para tranquilizá-lo de que estava tudo bem. Deixou Embry — que saiu da matilha de Sam — como seu beta em sua própria matilha, tomando todas as decisões que eram necessárias sem o mínimo de comunicação com ele.
Sabia que nada adiantaria ficar lembrando do passado. Afinal, ele fazia isso o tempo todo e seu futuro nunca se diferenciava. Em segundos explodiu no grande lobo. Tinha que seguir para a casa dos Cullen, onde Bella havia indicado que Carlisle precisava conversar com ele. Pelo seu tom de voz entendeu que era algo sério. A amizade deles estava como o tempo — congelada. Mal se falavam mais, e quando falavam era algo superficial. Ela queria se aproximar, retornar com a amizade deles, mas ele sempre se afastava. Nem se lembrava da última vez que havia ido até a grande mansão Cullen.
Enquanto corria tentava pensar nas possibilidades dessa conversa. Sentia que algo de errado havia acontecido, mas não conseguia pensar em nada que fizesse sentido. Renesmee estava a salvo, considerando o fato de que Seth não lhe comunicou nada, então sua mente não conseguiu brincar de advinhação de forma realista.
Ao chegar, demorou um pouco na floresta para se vestir apropriadamente. Carliste estava esperando por ele na porta, uma expressão preocupada fingindo estar relaxado.
— Oi, Jake. Obrigado por ter vindo. — Seu tom, como sempre, muito cordeal.
— Eu tinha escolha? — Respondeu ríspido, se arrependendo no mesmo instante. Carlisle sempre foi extremamente gentil com ele, quase acolhedor, como um pai, mas não podia evitar de sentir uma sensação dolorosa sempre que visitava aquela família.
Carlisle deu um sorriso fraco para ele, apontando para as escadas.
No segundo andar estavam todos reunidos na sala. A mesma sala onde haviam concordado que iriam lutar contra Aro e não apenas testemunhar. Jacob se lembrava bem desse dia. Ver todos ali, com a mesma rigidez, lhe causava uma sensação estranha. Ele olhou para todos com cuidado e pousou seu olhar em Bella, que estava à frente de todos os outros. Jacob ficou em alerta.
— O que aconteceu?
Percebeu que todos enrijeceram, assim como ele. Sentiu a tensão maior em Bella, que estava mais concentrada do que o normal. Edward estava em alerta. A cabeça de Jacob estava a mil em pensamentos mas não sabia muito bem o que pensar, só sabiam que havia algum perigo. Bella trocou um olhar silencioso com Edward, como se discutissem internamente quem deveria falar primeiro. Jacob odiava quando faziam isso — essa comunicação silenciosa, intensa e irritante. Ele franziu a testa, impaciente.
— Aro entrou em contato. — foi Alice quem quebrou o silêncio, sua voz suave contrastando com a tensão no ambiente. Jacob prendeu o ar. O tratado com os Volturi. Sabia que os Cullen estavam sempre vivendo em uma completa corda bamba; Aro formalizou um acordo mas já haviam se passado 2 anos e nenhum sinal de vida foi dado. Até agora, aparentemente. — Ele precisa de nós.
— E o que eu tenho a ver com isso? — Bufou irritado.
— De todos nós. — Enfatizou, Jasper. — Você faz parte do acordo tanto quanto o restante da família.
Ele lançou um olhar de lado para Carlisle. Seu corpo tenso, os músculos rijos sob a jaqueta de couro. O vampiro, como sempre, mantinha uma expressão de serena compostura, mas até sua habitual calma parecia tingida por uma tensão incomum.
— Vocês estão falando sério? — Jacob rosnou, a voz um trovão abafado, a incredulidade e a fúria lutando por espaço em seu peito.
— É isso ou guerra, Jacob — Carlisle respondeu, a voz suave, mas firme. — Uma nova trégua foi proposta. Melhor dizer, imposta.
— Por Aro — Jacob cuspiu o nome, como se fosse veneno. — Se a vida dele está em perigo, ótimo! Eu espero que piore.
— A vida de todos nós está. — Disse Alice, ríspida. — Não só porque fizemos uma proposta para não morrermos a dois anos atrás, mas também porque agora é muito mais sério do que imaginavamos.
Ele olhou para todos na sala, novamente sentindo a tensão. Ninguém parecia estar contente com tudo aquilo. Ele suspirou. Estava cansado e mal havia chegado. Toda aquela tensão de guerra já havia ficado para trás, ou pelo menos era o que ele achava.
Jacob não era tão novo quando esteve em diversas batalhas pela vida de Bella. Sua última havia sido aos 18. Mas percebeu, no tempo em que ficou no Canadá, que todo esse drama o haviam envelhecido rápido demais. Ele se sentia exausto mesmo aos 20 anos. Não queria ser um garoto comum que está na faculdade com essa idade, gostava da sua vida. Mas não queria lutar mais batalhas para os outros.
Bella se posicionou mais a frente, quase cobrindo Edward com seu corpo pequeno. Ela fechou a cara e se concentrou ainda mais.
O escudo.
Emmett se colocou na frente de Rosalie, em proteção. Jacob sentiu um cheiro diferente entrando no ar. Não estava mais acostumado com o cheiro familiar dos Cullen mas sabia reconhecer qualquer cheiro de um deles, e aquele definitivamente não era um. Frio, metálico, antigo.
Ele se virou com rapidez e se assustou. Não esperava dar de cara com um visitante inesperado e muito menos que fosse um Volturi.
Involuntariamente deu um passo para trás. Sentiu um arrepio na espinha. Sentia o lobo querendo sair, como forma de proteção. Se Jane estava na casa dos Cullen então ela havia sido convidada. Bella estava com seu escudo então não havia como ela causar nenhuma dor à qualquer pessoa naquela sala. E parecia estar sozinha, já que nenhum outro apareceu atrás dela.
O cheiro dela o enojava. Seus olhos, antes tão cheios de uma fúria controlada, agora estavam calmos, o rosto sereno. Mas cada fibra de seu ser exalava controle, um ódio contido, uma arrogância que se manifestava como um perfume gélido.
— Isso é uma piada — Ele resmungou, voltando a encarar Carlisle. — Me diz que é uma piada.
— A proposta veio de Aro. — Carlisle reiterou, a paciência uma virtude que ele possuía em abundância. — Se não aceitarmos, ele considerará a trégua quebrada. E isso traria consequências imediatas para todos.
— Incluindo sua preciosa alcateia. — Jane completou, a voz sem emoção, os olhos vermelhos fixos nos dele. Jacob travou a mandíbula, a raiva borbulhando. — Você concordou com isso naquele dia. A existência de transmorfos é uma afronta à nossa espécie. Todos vocês estariam mortos se não fossem por isso. — Seu sotaque italiano chegava a irritar Jacob apenas com a mínima pronúncia. — Aro quer mostrar que está disposto a colaborar com vocês se colaborarem conosco.
— Por que um deles está aqui? Na nossa cidade?! — Gritou irritado. Estava perdendo o controle. Nesse instante sentiu o pedo do olhar de Jasper o acalmando. O vampiro sabia que ele perderia o controle e se transformaria, então teve que intervir.
— Aro não está sendo completamente altruísta, é claro. Alice começou, seu tom de voz mais calmo, como se fosse um encontro entre amigos. — Ele quer mostrar aos clãs menores que a aliança Volturi-Cullen-Quileute é forte e funcional. E que ele tem controle sobre as ameaças que surgem. — Ela fez uma pausa, olhando para Jacob e Jane, um sorriso enigmático brincando em seus lábios. — Temos uma ameaça real acontecendo, muito maior do que qualquer coisa que já enfrentamos. — Jacob tentou pensar em tudo o que já havia enfrentado, e por enquanto só conseguiu pensar em vampiros psicóticos sedentos por vingança. Seu olhar se voltou para Jane para confirmar esse pensamento. — Alguns Clãs foram atacados violentamente nos arredores de uma cidade da Rússia. Não só vampiros, mas principalmente a quantidade de humanos mortos e esquartejados está crescendo a cada dia. E nenhum vampiro é responsável por isso.
— O que? — Jacob perguntou surpreso, tentando processar todas as informações de Alice.
— Filhos da Lua. — Jane prosseguiu. Ele voltou seu olhar pra ela. — Lobisomens de verdade, não como os seus. — Seu tom parecia tão enojado quanto a cara que Jacob estava fazendo enquanto ouvia ela falar. — Os antigos. Aqueles que só se transformam nas luas cheias. Brutais, instáveis. Matam por instinto, não por escolha.
— Você já tinha ouvido falar deles, Jacob? — Perguntou Carlisle.
Eles estavam em suas lendas, mas eram apenas isso: lendas. Eram tão antigos quanto os primeiros vampiros, deveriam ter sido extintos a muitos anos.
— Não atualmente. — Respondeu. — Dá pra irem direto ao ponto? — Ele se voltou pra Jane. Sempre se voltava pra ela, como se precisasse enfrentá-la. — Por quê você está aqui e o que eu tenho a ver com isso?
— Você, teoricamente, é um lobissomem. — Ela deu um leve sorriso sarcástico. — É da sua espécie que estamos falando. O primeiro vampiro da nossa existência é tão antigo quanto o primeiro lobissomem. Sempre fomos inimigos mortais e isso não mudou. Achavamos que eles estavam extintos mas começou a surgir essas mortes desenfreadas pela Rússia. Um Clã local se refugiou em nosso país quando metade de seus vampiros foram massacrados pelos lobissomens. — Ela deu um passo a frente, despretenciosa, como se estivesse em território familiar. — Nós não conseguimos rastreá-los. O cheiro deles sempre foram imperceptíveis para os vampiros. Mas não para outros lobissomens, como você.
— Não! — Bufou. — Não vou pro outro lado do mundo só pra proteger vocês. Não vou mandar meus amigos pra isso.
Jane revirou os olhos, impaciente.
— Não queremos os outros membros das alcatéias Quileutes, só precisamos de você. E quero lembrá-lo de que não existe a possibilidade de não aceitar. Não é um pedido, é uma ordem.
O tom autoritário de Jane causava arrepios em Jacob. Ele sentia medo dela, apesar de que nunca admitiria isso pra ninguém. Odiava qualquer tipo de vampiro, mas quando se tratava de um Volturi isso não era apenas ódio. Viu o que eles fizeram com Irina, viu como o dom de Jane agia, e entendia o porque dela ser temida por todos. Sabia que ela não conseguiria fazer nada com qualquer um daquela sala mas mesmo assim sentia um desconforto beirando à vontade de sair correndo.
— Isso não vai dar certo. — Protestou.
— Então você irá morrer tentando. — Jane deu de ombros.
Jacob estava prestes a responder quando Carlisle interveio, antes que a tensão explodisse em violência.
— Vocês dois terão que passar um tempo aqui. Alice viu para onde os verdadeiros lobisomens se moveram. Há rotas. Mapas. Estratégias.
Jacob sentiu o peso de Jasper novamente, o acalmando. Nesse momento ele olhou para Bella. Sua expressão era de dor. Isso fez com que ele sentisse ainda mais um incomodo dentro de si. Ela era a única pessoa que poderia dizer que aquilo era loucura, que ele não iria fazer isso pois colocaria sua vida em risco, mas não disse nada. Continou olhando para ela, tentando buscar respostas e alternativas. A sala pairava num silencio profundo.
— Eu sinto muito, Jake. — Ela murmurou. — Se tivessemos outra alternativa nós fariamos. — Ele sabia que sua vida vinha abaixo de Renesmee agora. Ela faria qualquer coisa para salvar a filha. Mas dessa vez a ameaça não eram os vampiros maus; eles também estavam em risco.
Jacob desviou o olhar de Bella, engolindo seco. Aquela não era a primeira vez que se sentia descartável — útil apenas quando convenia. Mas ver a expressão dela, cheia de culpa contida, fez com que algo em seu peito apertasse de forma dolorosa.
— Quando? — Ele perguntou, a voz agora baixa, sem energia. O tipo de rendição que não vinha da aceitação, mas da exaustão.
— Em dois dias. — respondeu Alice, com delicadeza. — Eles vão se mover novamente. Se perdermos essa janela, talvez não tenhamos outra.
— E eu vou sozinho? — perguntou, encarando Jane mais uma vez.
— Vai comigo. — disse ela, sem hesitar. — Meu irmão estará lá também. É só disso que precisamos.
Jacob soltou uma risada seca, amarga.
— Você me odeia.
— Isso nunca me impediu de fazer meu trabalho. — Jane respondeu, séria. — E você me odeia mais ainda. Isso também não importa.
— Parece promissor. — murmurou, sarcástico.
Carlisle se aproximou, os olhos fixos nos de Jacob, como se quisesse fazê-lo entender algo mais profundo, algo que as palavras não conseguiriam alcançar.
— Jake... você não está sendo jogado nisso como um peão. Sabemos que é pedir demais. Esses lobisomens não são só monstros. Eles têm uma origem. Uma lógica própria. E se estamos mesmo diante de uma ameaça que remonta às raízes da existência de vampiros e lobos, então talvez você tenha a chance de entender o que está por vir. Não é só rastrear e eliminar. É descobrir. Antes que seja tarde demais.
Ele sentiu o ar ficar mais pesado. De repente, tudo parecia maior do que ele — do que todos ali. Uma guerra silenciosa, invisível, muito mais antiga e complexa do que qualquer outra que já havia enfrentado.
— E se eu me recusar? — perguntou, mesmo já conhecendo a resposta.
— Então Aro entenderá isso como uma ruptura na trégua. — Edward respondeu, finalmente. — E ele não hesitará em agir. Não só contra nós, mas contra La Push. Contra sua família.
Jacob apertou os punhos, os olhos fixos no chão de madeira da sala. Sabia que não podia colocar todos em risco. E, apesar de odiar admitir, parte de si — a parte inquieta, selvagem, que rugia em seu peito — queria enfrentar aquilo. Precisava de um propósito. Nem que fosse se lançar para a morte tentando salvar algo maior do que ele mesmo.
Ele ergueu o olhar e o cravou nos olhos de Jane.
— Dois dias. — murmurou. — Mas eu não confio em você. Se tentar alguma coisa, eu acabo com você.
Jane deu um leve sorriso, como se tivesse esperado exatamente aquela resposta.
— Mal posso esperar para passar dias trancada com você em uma floresta congelada. — disse, seca.
Jacob bufou e virou as costas. Ia seguindo seu caminho para a escada, pronto para ir embora. Já tinha ouvido e vivenciado o que era necessário. Não via a hora de sair daquela casa.
— Jake. — Bella chamou, a voz quase um sussurro. Ele parou, mas não se virou. — Só... tome cuidado.
Ele não respondeu. Apenas saiu pela porta, o coração pulsando forte, o lobo inquieto sob a pele. Sabia que não havia mais volta.
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