Jane sabia que não era desejada naquela casa. Sua presença era quase um insulto para os Cullen. Quando chegou, algumas horas atrás, sentiu os olhares atravessarem sua pele como lâminas de gelo. Ninguém a recebeu com um sorriso. Ninguém se atreveu a estender a mão. Nem mesmo Carlisle, que sempre buscava manter o semblante gentil, conseguiu esconder o desconforto que sua presença provocava.

A atmosfera da casa estava saturada de tensão — como se o próprio ar rejeitasse a existência de um Volturi entre aquelas paredes. Jane, contudo, não se abalava. Caminhava com sua habitual elegância gélida, o rosto impassível, como se estivesse em sua própria corte. Seu casaco negro absorvia a luz da casa como um buraco no tempo, um lembrete constante do império sombrio ao qual pertencia.

Alice havia sido a única a conversar com ela de forma minimamente civilizada. E ainda assim, suas palavras tinham o peso cuidadoso de quem pisa sobre cacos de vidro. Jane percebia cada suspiro contido, cada olhar trocado em silêncio entre os membros da família. Mesmo Renesmee, que crescera cercada por diplomacia e delicadeza, se mantivera afastada. O escudo de Bella já estava erguido antes mesmo da Volturi cruzar o limiar da entrada — uma barreira invisível que gritava: "você não é bem-vinda aqui".

Jane ignorou tudo isso. Sempre soube o que provocava nas pessoas — ou vampiros, ou lobos. O medo era um aliado antigo. O desprezo também. Ela se sentou na poltrona de frente para a janela, de onde podia ver os flocos de neve caindo lentamente, e esperou. Como uma sombra paciente.

Sabia que Jacob não reagiria bem à sua presença. E era exatamente disso que precisava. Queria ver os limites daquela aliança esgarçada. Queria ver até onde a lealdade dos Cullen resistiria à raiva do lobo. Aro dissera que seria uma missão de aproximação. Mas Jane conhecia seu mestre. Sabia que cada movimento dele era um jogo de controle.

A reação de Jacob provocou nela seu instinto mais desafiador; ela adorava desafios, e lidar com Jacob sabendo que ele não poderia perder a cabeça com ela era uma das melhores coisas. Ficaria sozinha com ele boa parte do tempo, longe de Bella, mas não iria lhe causar dor, não com seu dom. Iria atravesar Jacob de outras formas, queria ver até onde sua irritação o levava, queria testar seus limites.

O som dos passos dele descendo as escadas ainda ecoava dentro da cabeça de Jane, mesmo depois que o silêncio voltou a se instaurar na casa. A porta havia batido com mais força do que o necessário, como se o impacto pudesse cortar os laços indesejados que o prendiam àquela aliança forçada.

Jane não o acompanhou com o olhar. Ficou parada, imóvel no centro da sala, como uma estátua esculpida em mármore negro, observando o vazio à sua frente. Sentia as emoções fervilhando sob a superfície — não as suas, mas as dos outros. Jasper lutava para manter a calma do ambiente, Bella segurava o escudo como se ainda esperasse um ataque, e Edward... Edward estava tenso demais até para traduzir pensamentos.

Mas Jane, por dentro, estava fria como a neve lá fora.

Jacob era previsível. Raivoso, impulsivo, instável. Mas também era forte, e essa força bruta, quase animalesca, era o que Aro queria ao seu lado. Jane o conhecia o bastante para saber que não havia controle possível sobre ele — apenas manipulação, estratégias cuidadosas, medo. E medo, ela sabia causar como ninguém.

A tensão na sala parecia respirar junto com eles, mesmo que a maioria dos presentes não precisasse mais respirar. Jane finalmente desviou os olhos, encarando o quadro familiar que os Cullen tanto protegiam. Um grupo artificial de vampiros vivendo como humanos, defendendo valores morais e fantasias de paz. Quase patético.

— Ele vai fugir. — Disse Rosalie, com amargura na voz.

— Não — respondeu Jane, virando-se lentamente, o capuz deslizando de seu ombro como uma sombra viva. — Ele vai voltar.

Alice a observava com um olhar indecifrável. Talvez já tivesse visto o que ela também sabia: Jacob Black era um guerreiro fadado à guerra.

— Temos uma casa de hóspedes ao sul — disse Esme. — Você poderá ficar lá até que consigam partir. Será bem-vinda.

Seu jeito doce e maternal irritava Jane, mas apenas por lhe trazer lembranças da vida humana. Sua mãe também fora assim — doce e gentil com todos, até mesmo com quem a matou. Só por respeito à própria memória, Jane se conteve para não ser ríspida com Esme.

— Está ótimo. Obrigada. — Respondeu com um sorriso.

Emmett a olhou com desconfiança, como se a enxergasse pela primeira vez na vida. Nunca tinha visto Jane ser agradável, ou sequer educada, com alguém antes.

Ao passar por Bella, sentiu o escudo dela pulsar como uma barreira invisível e instintiva. Jane a encarou de lado, sem sorrir, mas seus olhos brilharam com algo próximo de diversão.

— Cuidado com ele. — Sussurrou, como se dissesse a uma criança para não tocar o fogo. — Lobos não sabem a diferença entre morder e proteger.

Bella não respondeu, mas Jane sentiu a intensidade do escudo aumentar — uma resposta tão clara quanto um soco.

Do lado de fora, a neve continuava caindo, cobrindo o chão como um véu sobre um campo de ossos. Jane caminhou sem pressa até a casa que lhe foi designada. A escuridão não a incomodava. Ela era parte dela.

Lá dentro, em silêncio, ela acendeu uma vela — por ironia, uma que encontrou esquecida numa das gavetas. A chama tremeluzente refletiu em seus olhos vermelhos. Jane não era dada a nostalgia, mas naquela noite, sozinha, pensou brevemente no tempo em que ainda sonhava. Antes de Aro. Antes da dor. Antes de ser o que era agora.

Ela fechou os olhos, imaginando o reencontro com Alec. Seu irmão. O único ser neste mundo que ela realmente se importava. Ele estaria esperando por ela no ponto de encontro na Rússia, já preparando o terreno, ajudando a localizar os alvos. Alec era sua âncora, sua única conexão com algo que se assemelhava a afeto. Ele a entendia, via através de suas defesas, e era o único que ela permitia ver. Com ele, ela não precisava ser a guardiã implacável, a arma de Aro. Ela podia ser apenas Jane. A perspectiva de vê-lo era o único ponto positivo em toda aquela missão detestável.

Ela não se preocupava com Jacob. Ele era um peão, um meio para um fim. Sua raiva, seu desprezo, eram irrelevantes. O que importava era a missão, a demonstração de poder de Aro, a manutenção da ordem. E ela faria o que fosse preciso para cumprir sua parte, mesmo que isso significasse suportar a presença daquele lobo irritante.

A noite seria longa, e o amanhecer traria consigo não apenas as discussões sobre sua partida para a Rússia, mas o início de uma convivência forçada que prometia ser tão brutal quanto os lobisomens que iriam caçar. A tempestade estava apenas começando.

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O ar frio da noite de Forks não era o suficiente para aplacar o fogo que queimava em suas veias. Cada passo que dava na floresta era um resmungo silencioso, uma explosão contida de raiva e nojo. Ele podia sentir o cheiro dela ainda em suas narinas, o perfume gélido e metálico de Jane, misturado ao cheiro adocicado e nauseante dos vampiros. Era uma afronta pessoal, uma invasão de seu espaço, de sua vida, de sua sanidade.

Ele correu, deixando que a velocidade e o vento levassem um pouco da fúria. Não demorou para encontrar Sam, Embry, Quil, Seth, Leah e Paul na clareira habitual, onde a matilha se reunia. O cheiro deles – familiar, quente, de lobo – era um bálsamo para sua alma irritada. Sam, com sua postura imponente, foi o primeiro a sentir a tempestade que Jacob trazia consigo.

O que aconteceu, Jake? — A voz dos pensamentos de Sam era calma, mas carregada de preocupação.

Jacob parou abruptamente, o peito arfando. Repassou em sua mente, para que eles pudessem ver, tudo o que havia acontecido desde a ligação de Bella. Os pensamentos dos lobos se agitaram conforme as informações iam aparecendo como uma avalanche.

Embry e Paul trocaram olhares, a confusão estampada em seus rostos.

Lobisomens na Rússia? Que tipo de lobisomens? — Perguntou Embry, cauteloso.

Jacob explicou, a voz carregada de desprezo, as palavras de Alice ecoando em sua mente. Ele pensou fervorosamente em Jane. A dor que ela podia infligir, a facilidade com que ela poderia desmantelá-lo. Mas esse medo, em vez de paralisá-lo, acendia uma chama perigosa em seu interior. Uma necessidade de confrontá-la, de ir de encontro a essa ameaça. Ele queria ver até onde ela iria, se ela era realmente tão poderosa quanto parecia, se aquele olhar gélido e arrogante escondia alguma rachadura. Ele queria testar os limites dela, talvez os seus próprios. Era uma loucura, ele sabia, mas a ideia de recuar diante dela era ainda mais insuportável.

Você não vai ficar sozinho com ela e o irmão! — protestou Seth, a voz carregada de urgência. — Eu vou com você.

Nem pensar! Só se for por cima do meu cadáver! — rugiu Leah, o tom feroz reverberando na mente de todos como um trovão.

Não vou arriscar a vida de nenhum de vocês. Eu vou sozinho.

Seth tem razão, Jacob. — interveio Sam, firme. — Confiar demais em dois Volturi pode ser o seu fim... ou o nosso.

Jacob rosnou baixinho, a frustração escorrendo por seus pensamentos. — Seth, você tem que ficar. Se algo der errado... alguém precisa proteger Renesmee.

Houve um silêncio tenso por um instante, como se até os galhos das árvores esperassem a próxima palavra.

E alguém precisa permanecer aqui, vigiando a cidade. — continuou Jacob. — Se os Volturi armarem uma cilada ou se outros resolverem atacar... precisamos de defesa. Não posso levar todos comigo.

Ele está certo. — murmurou Sam. — Quil vai com você.

Ótimo. — respondeu Quil, sua mente vibrando com determinação.

E eu também. — acrescentou Embry, sem hesitar. — Não vou deixar meu melhor amigo ir sozinho pra boca do inferno. Nem que você tente me arrancar à força.

Jacob fechou os olhos por um breve segundo, como se pudesse conter o turbilhão de emoções que invadia a mente coletiva da matilha. Ele sentia o peso da liderança, o medo por todos, a raiva contida... mas também algo mais forte: o vínculo inquebrável entre eles. Eram seus irmãos. A luta por Bella fez ele quebrar vínculos que jamais imaginaria. A separação das alcatéias foi ideia dele, já que não queria voltar a seguir Sam por medo de suas decisões, mas hoje percebeu o quanto isso pesava em sua consciência. A vida de seus dois melhores amigos de infância estava em risco tanto quanto a dele; a de todos estavam. Mas ele não tinha como protestar. Jane poderia acabar com ele num piscar de olhos, e ele nem imaginava o que seu irmão poderia fazer. Fora isso, ainda tinham criaturas desconhecidas que conseguiam matar vampiros.

Sentia o sangue borbulhar em suas veias; de medo, de raiva, de entusiasmo. Parecia que era jovem outra vez, pronto para dominar ou matar o mundo. Sabia que esse caminho que estavam trilhando poderia não ter volta. Suas expectativas eram extremamente baixas. Mas ter seus amigos ao seu lado o faria lutar com mais vontade de vencer.