O silêncio no castelo era quase absoluto. Nem mesmo o som de passos ecoava pelos corredores de pedra — espessos o suficiente para sufocar qualquer ruído. A única coisa que quebrou a quietude foi o leve rangido da maçaneta girando, quando Jane empurrou a porta do quarto de Alec com um gesto sutil.

Ele estava sentado na poltrona próxima à parede, com um livro aberto no colo e os olhos fixos, concentrados demais. Jane entrou sem pedir permissão — como sempre fazia — e encostou a porta atrás de si, mas não disse nada de imediato. Apenas ficou ali, parada por alguns segundos, observando-o.

Alec ergueu os olhos ao notar a presença da irmã e reconheceu, de imediato, a tensão em seus ombros. Um sinal claro de que algo a incomodava. Ele fechou o livro, marcando a página com um dedo, e esperou.

Jane caminhou até a cama dele com passos lentos e se jogou sobre o colchão, como costumava fazer quando eram crianças. Ali, naquele quarto ou no dela, não eram parte de nenhum clã. Eram apenas irmãos, despidos das formalidades e do peso de seus dons.

— Aro quer que eu leve Jacob para conhecer a cidade — disse ela, seca, como se cuspisse as palavras com desgosto. — Restaurantes, lojas, passeio. Um cartão ilimitado como prêmio. Quer que eu seja babá de um cachorro.

Alec não disse nada de imediato, mas o canto da boca se ergueu num sorriso discreto e divertido. Ele conhecia aquele tom. Sabia que a irmã estava irritada — e isso o divertia quando não envolvia algo realmente sério.

— Você vai ficar uma graça nessa nova função — provocou, a voz carregada de um humor leve.

Jane lançou duas almofadas contra ele, atingindo-o em cheio e fazendo o livro cair no chão. Alec riu, se aproximando para se sentar ao lado dela na cama.

— Por que ele está fazendo isso como se o Jacob fosse um hóspede? — resmungou Jane, os braços cruzados sob o peito, a expressão fechada. — Ele não pertence a este lugar.

— Não vai ser assim tão fácil. "Me aproximar dele para sermos amigos"? Marcus enlouqueceu.

— Aparentemente, quer enlouquecer o Cassius junto — Alec suspirou, divertido. — Ele passou duas horas enchendo o meu saco, falando o quanto isso era inadmissível e desrespeitoso — imitou a voz tensa de Caius, fazendo Jane rir.

— Desrespeitosa foi aquela declaração tosca dele para mim ontem. Disse que estava me protegendo, defendendo a integridade da sua amada. Se o clima não estivesse tão tenso, eu teria caído na risada — Jane deu de ombros, mais relaxada ao se lembrar da cena.

Alec inclinou levemente a cabeça, observando-a com atenção renovada, mas sem quebrar o clima leve.

— Você nunca ligou muito para quando ele dizia que te amava.

— Porque ele não ama. Só ama a si mesmo, e às vezes eu ainda duvido disso — respondeu Jane, sem hesitar.

Alec a estudou em silêncio, como se procurasse algo escondido por trás da expressão descontraída.

— Tem alguma coisa diferente em você — disse, os olhos semicerrados.

Jane, ainda sorrindo, empurrou o braço dele.

— Você está ficando louco como todo o resto.

Ela se levantou. Embora concordasse que todos ali estavam perdendo um pouco da sanidade, não poderia negar que também se sentia estranha e ao mesmo tempo "normal". E se sentir ela mesma naquele lugar — como se estivesse longe de tudo, inclusive do próprio castelo — era, no mínimo, esquisito.

— Vou pegar algumas roupas. Pelo barulho, nosso cachorrinho de estimação está no banho.

Alec apenas assentiu. Sabia que pressioná-la não adiantaria. Jane sempre levava tempo para entender coisas complexas sobre si mesma — às vezes, se recusava a entender.

— Volte logo. E cuidado para não ser mordida.

Ela revirou os olhos antes de sair, mas estava sorrindo.

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O vapor preenchia cada canto do box, quase como uma névoa protetora — uma pausa temporária do castelo frio e da pressão de estar ali. Jacob ficou debaixo da água por tempo demais, permitindo que o calor penetrasse em seus músculos tensos.

Seus pensamentos eram uma tormenta silenciosa.

Ele ainda não sabia ao certo o que estava fazendo ali. Jane havia lhe falado sobre alguns dons da guarda — dons que poderiam escravizar sua mente, prendê-lo ali para sempre. Mas saber onde estava pisando não tornava nada mais fácil.

Jacob respirava fundo tentando imaginar como manteria sua mente fechada, seus impulsos sob controle. Tentaria manter sua mente blindada o máximo que conseguisse. Queria que aquele castelo sentisse que ele não era uma peça fácil de mover. Que nem mesmo Aro conseguiria arrancar tudo dele.

Ele passou as mãos molhadas pelos cabelos, exausto de pensar demais. Sua barriga roncou alto, interrompendo a linha de raciocínio. Suspirou, resignado, e desligou a água. Enrolou a toalha na cintura e saiu em direção ao quarto, sem pressa. Estava indo até a poltrona onde havia deixado suas roupas, já pronto para se trocar, quando — sem aviso — a porta do quarto se escancarou.

Jane entrou com naturalidade, os olhos baixos, um sorriso tranquilo dançando nos lábios. Mas parou de repente. O olhar subiu rápido demais — encontrou o dele — e, antes que pudesse evitar, desceu pelo corpo à frente. Jacob estava ali, ainda úmido do banho, os cabelos desgrenhados pingando, gotas escorrendo pelo peito largo e abdômen definido. A única coisa entre eles era a toalha branca que ele segurava com firmeza, congelado no meio do quarto, a segundos de tirá-la, os olhos presos nos dela como se isso fosse o único ponto de equilíbrio.

Os olhos de Jane arregalaram ligeiramente, a expressão divertida sendo tomada por uma surpresa constrangida. Num reflexo quase cômico, ela virou-se de costas com brusquidão, como se quisesse sumir com a mesma naturalidade que entrou no quarto.

— Merda! — exclamou ela, com a voz abafada pelas mãos que levou ao rosto. — Desculpa! Eu achei que você ainda estava no banho!

Jacob respirou fundo, tentando ignorar o calor que subia pelo próprio rosto. Passou a mão pelos cabelos, fazendo a água respingar nos ombros.

— É, bom dia para você também. — disse, com uma voz carregada de ironia. — Esse tipo de recepção é normal aqui ou só para mim?

— Eu não costumo invadir o meu próprio quarto esperando encontrar um lobo sem roupa andando por aí — rebateu ela, ainda virada, a voz um pouco mais controlada. — Vim só pegar algumas coisas.

Jacob deu dois passos de volta para o banheiro. Ele olhou para ela por um segundo a mais do que deveria, tentando entender por que, em meio ao embaraço, também havia uma estranha vontade de rir.

— Relaxa. O quarto é seu, lembra? Só estou de passagem. — Respondeu, grato pela voz ter saído tranquila o suficiente para não pesar ainda mais o clima.

Jane ouviu o clique da porta se fechando, mas continuou ali, parada, encarando o chão de pedra, como se ele estivesse em chamas. Passou a mão pelo rosto, tentando apagar as imagens que ainda pairavam na mente — o corpo dele, a surpresa nos olhos, a naturalidade daquele momento.

Quando Jacob saiu do banheiro pela segunda vez, já vestido, encontrou Jane em frente ao guarda-roupa, passando algumas roupas como quem passa páginas de livros. A expressão no rosto dela estava serena demais para ser real. Quase como se quisesse convencê-lo — ou a si mesma — de que nada havia acontecido.

— Já pode se virar — disse ele, finalmente, com uma pontinha de divertimento na voz.

Ela se virou devagar, com a compostura recuperada como se nada tivesse acontecido. Mas seu rosto estava calmo demais. Neutro demais. E Jacob, mesmo sem conhecer todos os tons dela, percebeu que o silêncio tinha um peso diferente agora. Como se ela ainda estivesse digerindo o que tinha acabado de acontecer.

— Me desculpa — disse ela, evitando contato visual. Sua voz soava mais baixa, menos cortante do que de costume. — Vou tomar mais cuidado da próxima vez.

— Jane... o quarto é seu. — Jacob ajeitou a gola da jaqueta enquanto falava, a voz leve, quase casual. — Eu que não deveria ter ficado tão à vontade.

Ela o encarou brevemente. Não respondeu de imediato, mas havia algo na forma como seus olhos pousaram sobre ele — como se tentasse entender por que aquilo ainda estava entalado em sua garganta.

— Conseguiu dormir? — perguntou, desviando o foco como sempre fazia.

— Essa cama é melhor que aquele sofá velho da cabana — disse Jacob, rindo com sinceridade. — Aliás, tudo aqui é confortável demais.

Jane arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Só porque sou uma vampira significa que não posso gostar de conforto?

— Não por ser vampira. — Jacob sorriu. — Mas por ser você... talvez seja um pouco esquisito.

Jane revirou os olhos.

— Que bom que você ainda mantém a imagem fiel e horrível que tem de mim. Isso é reconfortante.

O silêncio entre eles foi quebrado por um som alto e involuntário: o estômago de Jacob roncando impiedosamente.

— Está com fome? — perguntou ela, seca.

— Um pouco — admitiu, com um meio sorriso.

— Não temos uma cozinha aqui, mas Aro quer que eu te leve para comer fora. E fazer algumas outras coisas.

Jacob estreitou os olhos, desconfiado.

— Que outras coisas?

— Coisas que eu não gostaria de fazer.

— Ah não... você não vai dar uma de Alice, vai?

— O que é "dar uma de Alice"? — perguntou, genuinamente confusa.

— Toda aquela babaquice de compras.

Jane levantou o cartão preto, balançando-o entre os dedos com um sorriso seco nos lábios.

— Acho que hoje meu nome é Alice.

Jacob colocou as mãos nos bolsos e fingiu pesar a decisão.

— Vai ter que me arrastar para isso. Literalmente.

— Não brinque, lobo. Eu consigo fazer isso. — Ele bufou, resignado. — Volto em alguns minutos. Esteja pronto.

— Se quiser, posso ficar só de toalha de novo. — respondeu Jacob, com um sorriso malicioso.

— Jacob! — Jane o repreendeu, tentando esconder o constrangimento repentino.

Mas ele já estava rindo, uma risada verdadeira que ecoou pelo quarto enquanto ela saía. Jane fechou a porta atrás de si e soltou um suspiro pesado no corredor, massageando as têmporas com a mão livre, se recompondo antes de entrar no quarto de Alec novamente.

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Uma batida suave ecoou na porta depois de uns vinte minutos. Jacob sorriu por instinto, sabendo que Jane tomaria cuidado a partir de agora.

Ele abriu suavemente a porta e se deparou com uma versão completamente diferente de Jane. Era como se estivesse vendo outra pessoa — uma que sabia, de maneira quase cruel, como dominar um cenário com a própria presença.

Jane vestia um sobretudo caramelo que caía até as coxas com elegância precisa. Por baixo, roupas escuras — uma blusa justa e calças pretas que moldavam sua silhueta com discrição — traçavam seu corpo de maneira sutil, quase estratégica. Um cachecol negro pendia frouxo ao redor do pescoço, como uma moldura suave e ao mesmo tempo imponente. Um boné preto e óculos escuros completavam o visual com um toque sofisticado e misterioso.

Mas o que realmente capturou Jacob foi o cabelo loiro caído sobre os ombros, solto, leve, contrastando com os tons fechados do resto do conjunto. Era estranho pensar, mas tudo nela parecia milimetricamente pensado, como uma pintura onde cada cor sabia exatamente onde deveria estar.

— Uau. — murmurou, sem conseguir segurar o impacto da imagem.

Jane arqueou uma sobrancelha por cima dos óculos escuros.

— Humano demais para você? — provocou, a voz carregada de ironia sutil.

Jacob se aproximou sem pensar muito e, com um gesto leve, puxou suavemente os óculos dela para baixo, o suficiente para ver seus olhos.

Jane sentiu o frio costumeiro de sua pele ser tomado pelo calor da pele de Jacob. Que, por sua vez, sentiu o ar ao redor da mão esfriar — mas não recuou. O frio da pele dela contrastava violentamente com o calor que queimava sob sua pele, criando uma tensão que os dois notaram de imediato. Mas, ainda assim nenhum deles recuou.

Ela o encarou pela fresta aberta dos óculos. Os olhos vermelhos fixos nos dele, como se buscassem respostas para perguntas que ela nem sabia que estava fazendo.

— Isso é tudo, menos humano. — Jacob deu um meio sorriso, puxando os óculos de volta ao lugar com delicadeza.

Jane bufou com um pequeno sorriso involuntário nos lábios. Foi contido, mas real.

— Vamos logo antes que eu me arrependa. — disse, já virando de costas para sair.

— Vai se arrepender do quê? De me levar para passear ou de ter me visto sem roupa?

— Jacob, eu juro que vou te matar se ficar o tempo inteiro lembrando disso! — Rosnou Jane. Beirando a impaciência. Mas, no fundo, aquilo a divertia.

Jacob riu baixinho, acompanhando o ritmo dos passos dela enquanto cruzavam o corredor em direção à saída da ala subterrânea.

Caminharam lado a lado pelos corredores, a tensão entre os dois se dissolvendo gradualmente em um tipo estranho de cumplicidade. Era como se tivessem feito um acordo silencioso — aquele dia, ao menos, seria suportável.

Eles desceram as escadarias da entrada principal e passaram pelos corredores amplos do castelo. Poucos membros da guarda estavam por ali, mas os que estavam pararam discretamente para observar o lobo passar. Jacob sentia os olhares. Nenhum deles era acolhedor. Mas o mais curioso foi que, ao lado de Jane, ninguém ousava se aproximar.

Do lado de fora, o céu nublado cobria Volterra com uma luz cinzenta, mas não chuvosa. O frio cortava o ar com delicadeza. Jacob não se incomodou. Na verdade, o clima ali era quase reconfortante — frio o suficiente para despertar os sentidos, mas não congelante como a Rússia. Era como se a cidade o estivesse testando, lentamente.

Jane caminhava com passos ágeis, acostumada a não esperar ninguém. Jacob precisou acelerar um pouco o passo para alcançá-la, o que arrancou dela um olhar de canto de olho, como se já tivesse previsto isso.

— Não precisa andar como se tivesse uma guerra para vencer. — ele comentou.

— Eu ando assim desde antes de você nascer. — respondeu, sem sequer virar o rosto. Mas desacelerou um pouco, ficando em um ritmo mais humano.

— Isso explica muita coisa. — ele disse, em tom provocador. — Tipo por que você parece sempre pronta para matar alguém.

Jane o ignorou, mas ele percebeu o sutil erguer de sobrancelha que indicava que ela havia gostado da provocação, mesmo que jamais admitisse. Ela caminhava com o queixo erguido, os ombros retos, uma presença que preenchia qualquer espaço. Mesmo ao lado dele, que era grande e quente, ela era quem parecia carregar o centro do mundo naquele lugar.

Jacob olhou para ela por um segundo, em silêncio. Naquele silêncio, conseguia ouvir o som de seu próprio coração. Era desconfortável para ele não ouvir ela dizer nada. Tudo ali se tornava desconfortável. Estava em um lugar desconhecido, pela primeira vez sozinho. E Jane era o mais próximo do que ele tinha de uma companhia. Quando ela ficava em silêncio era torturante para ele.

Ele passou a observar tudo ao redor. As construções de pedra antiga, as janelas enfeitadas por cortinas pesadas e os pequenos comércios que pareciam tão fora do tempo quanto a própria fortaleza dos Volturi. Tudo era elegante e misterioso, mas também sufocante.

Para Jane, a cidade era familiar. Já tinha traçado cada rota mil vezes. Mas tê-lo ali, ao seu lado, tornava tudo desconfortavelmente novo.

— Quantas pessoas nessa cidade sabem o que vocês são? — Jacob perguntou de repente, não conseguindo mais conter o silêncio dentro de si mesmo.

— Nenhuma. — respondeu ela, sem hesitar. — E as que desconfiam não duram muito.

Ele arqueou uma sobrancelha, não surpreso, mas incomodado com a naturalidade da resposta.

— Charmoso.

— Bem-vindo ao berço da diplomacia — murmurou Jane, sorrindo sem humor.

Pararam diante de uma pequena fachada de pedra escura. Era um restaurante de aparência discreta, mas nitidamente luxuoso, com mesas internas e externas, guardanapos de linho e um brilho dourado vindo das luminárias de teto. A placa dizia La Luna Nera. Jane empurrou a porta de entrada e esperou que ele entrasse primeiro. Jacob hesitou por um segundo, então passou. O interior era ainda mais refinado do que ele imaginava. Tinha poucas pessoas, todos em uma conversa quase silenciosa. O garçom surgiu com a precisão de um espectro, cumprimentando Jane com uma leve inclinação de cabeça.

— Queremos uma mesa. A mais afastada possível. — pediu ela, com seu charme italiano e expressão pétrea.

O homem não hesitou. Com um simples gesto, os conduziu até o fundo do salão. Conforme Jane passava entre as mesas, todos os olhares se voltavam para ela. Alguns surpresos, outros carregados de receio. Ela não demonstrou se importar. Parecia estar acima de qualquer julgamento.

Jacob se sentou à mesa, próximo à janela. Jane acomodou-se do outro lado, tirando o boné com elegância e o deixando na cadeira ao lado. A forma como ajeitou o cabelo fez Jacob prestar atenção demais. Porém manteve os óculos escuros, para evitar olhares.

— Peça duas refeições — sussurrou ela, sem olhá-lo. — Uma para você e outra por mim. Escolha a que mais gostar.

Jacob arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Não tem uma taça de O+ para você no cardápio? Que pena.

— Gosta da sua língua, Jacob? Posso arrancá-la com a mesma facilidade com que você corta um pedaço de carne.

— Estou tentando ser gentil com você.

— Então não tente. — rebateu ela com frieza, mas havia algo levemente provocador no fundo de sua voz.

O garçom chegou. Jacob fez os dois pedidos, optando por pratos típicos italianos, algo com massa e molho vermelho, o mais simples e seguro que poderia escolher. Entregou o cardápio de volta, e o silêncio recaiu por um momento.

Jacob observou Jane por alguns segundos. Ela parecia deslocada ali — e ao mesmo tempo, no controle de tudo. A forma como cruzava as pernas com elegância parecia perfeita demais para estar no mundo humano. E mesmo assim, ali estava ela. Existindo.

— Por que Aro quer que você me mostre tudo isso? — perguntou, sem ironia. Quebrando o silêncio. — Restaurantes, roupas, cartão... Ele quer que eu me sinta à vontade ou me esqueça de quem eu sou?

Jane encostou-se na cadeira, parecendo mais séria agora. Jacob desejou conseguir ver seu olhar.

— Ele quer que você perca a noção da ameaça.

Jacob soltou um riso baixo.

— Pena que ele subestima meu instinto.

— Não subestima. Só quer vencê-lo. — ela respondeu, quase como um aviso.

O garçom retornou com passos silenciosos, depositando cuidadosamente as duas refeições diante deles. Os pratos fumegavam, perfumando o ar com especiarias e molho quente. Jacob agradeceu com um aceno educado, enquanto Jane permaneceu imóvel, os olhos fixos no prato à sua frente. Ela não esboçou nenhuma reação ao cheiro — não era como se aquilo a enojasse, mas tampouco provocava desejo. Ainda assim, com movimentos discretos, quase ensaiados, fingiu garfadas ocasionais. Quando analisava não estar sendo observada, transferia a comida de seu prato para o de Jacob, em uma velocidade e cuidado impressionantes.

Jacob se manteve em silêncio. Sabia que era uma encenação, e mesmo assim, o gesto o agradou. Um tipo de esforço silencioso para manter as aparências.

O silêncio se instalou entre os dois, mas pela primeira vez desde que haviam pisado naquela cidade, não era desconfortável. Jacob se concentrou em comer devagar, saboreando cada garfada com a atenção de alguém que sabia que os momentos de paz seriam raros dali em diante. Jane, por sua vez, o observava. Com calma. Com um olhar entre a curiosidade e o estudo clínico, como se ele fosse uma equação que ela ainda não sabia resolver. Era raro, quase inédito, estar próxima de alguém vivo em Volterra — e mais raro ainda era se permitir observar com esse tipo de atenção. Ele parecia tranquilo. Não com o lugar, nem com a situação — mas consigo mesmo. Jacob tinha aquela energia contida de alguém sempre preparado para a guerra, mas que, por alguns minutos, escolhia não travá-la.

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Depois da refeição, seguiram direto para uma loja de roupas, como Aro havia solicitado. Era um lugar elegante, escondido entre os becos charmosos de Volterra, com vitrines discretas e iluminação suave. Jane guiava Jacob com naturalidade, movendo-se entre as araras com a segurança de quem conhecia bem aquele tipo de ambiente. Ele, por outro lado, estava visivelmente desconfortável.

Ela separou camisas de tecidos refinados, calças sociais e até alguns blazers escuros. Jacob odiava todas as opções. Cada peça lhe parecia um uniforme engomado, uma armadura que sufocava sua identidade. Mas, mesmo assim, aceitou levar algumas. Sabia que em Volterra não poderia andar de jeans rasgado e camiseta velha — e muito menos sem camisa, como preferia. Apesar do incômodo, fez o esforço sem reclamar.

Enquanto caminhavam de volta, Jacob se pegou observando Jane. Ela seguia mais ao seu lado agora, porém ainda em silêncio. O contraste entre sua aparência jovem e seu passo firme, quase imperial, fazia algo girar dentro dele — não de forma inquietante. Algo entre fascínio e receio.

Jane não dizia nada, mas estava estranhamente atenta à presença dele ao seu lado. Cada pequeno gesto, cada suspiro, era registrado silenciosamente. Era estranho demais ficar ao lado dela. E com estranho, ela não sabia identificar se era positivo ou negativo. Só era estranho... algo fora do comum que não conseguia nomear. Mas, de uma coisa tinha certeza: não queria voltar para o castelo ainda.

— Está pensando demais. — disse ela de repente, com a voz baixa.

— E você observando demais. — ele retrucou, um meio sorriso surgindo nos lábios.

Jane não respondeu, mas o canto de sua boca ameaçou ceder a um sorriso. Ela detestava o jeito que ele a fazia reagir. Era espontâneo e leve demais. Tudo depois da conversa deles sobre a transformação dela e de Alec parecia estranho, como se Jacob tivesse, naquele momento, deixado de ser um desconhecido. Como se, de uma forma que só ela entendia no momento, ele tivesse passado a ser íntimo dela.

Ela parou de andar, fazendo-o parar também.

— Ainda não quero voltar para lá. — sussurrou, tão baixo que ele quase não ouviu, como se estivesse confessando o maior segredo de todos.

Jacob a olhou, curioso.

— Por quê?

Jane tirou os óculos com lentidão, como se quisesse vê-lo de verdade. Seus olhos vermelhos o encontraram diretamente — e, por mais que já os conhecesse, Jacob sentiu o coração acelerar. Sempre o surpreendia ver olhos capazes de matar, decidindo, por alguma razão, não fazê-lo.

— Eu não sei. — ela respirou fundo, um gesto cansado demais, que Jacob sentiu algo apertar em seu peito. — Só não quero.

Ele a observou em silêncio por longos segundos. Havia nela uma vulnerabilidade silenciosa que não combinava com a Jane que conheceu na floresta, nos campos de batalha ou mesmo nas ameaças que trocavam. E, ainda assim, ali estava ela: um reflexo de tudo o que ele não entendia, mas, de alguma forma, sentia que queria se aprofundar mais.

Jacob conteve mais impulsos do que conseguiu contar. Impulsos que pareciam absurdos quando processados pela mente, mas que seu corpo gritava, urgentes e reais demais.

— Podemos ficar mais um pouco. — sugeriu, a voz tranquila. Jane assentiu com um leve movimento de cabeça. — Aonde você gosta de ir?

Ela pensou por um momento. Não era como se tivesse uma vida cheia de passeios ou rotinas fora das muralhas de pedra. Mas havia um lugar. Um ponto silencioso da cidade antiga que ela visitava, de vez em quando, quando precisava que a mente se calasse.

— Tem uma fonte aqui perto — respondeu.

— Então é pra lá que vamos — disse ele, com um sorriso leve, quase cúmplice.

Jane não respondeu, mas seus olhos acompanharam o dele por mais um segundo. Havia algo diferente naquele olhar — e no dela também. Ambos estavam cientes de que aquilo era incomum. Que caminhar lado a lado não era o natural, muito menos o previsto. Mas era o que estava acontecendo. Sem esforço ou planos. Inimigos, talvez. Mas, ali, naquele momento apenas duas pessoas cansadas de guerra e silêncio, buscando algo que nem sabiam nomear.

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A fonte ficava em um pátio escondido, entre muros cobertos de heras e antigos prédios de pedra. Era um daqueles lugares secretos da cidade que nem mesmo os guias turísticos conheciam, guardado como uma memória antiga. O som da água era constante e suave, como se aquele pequeno fluxo tivesse sido criado apenas para silenciar o mundo ao redor.

Jane parou diante dela e se sentou no parapeito de pedra, cruzando os braços. Jacob hesitou por um segundo antes de se sentar ao lado, deixando um pequeno espaço entre eles. Ficaram ali por alguns minutos, ouvindo o som da água e o leve vento que passava entre as pedras. Volterra parecia, por um instante, até mais leve.

— Eu fico me perguntando — disse ele, após um tempo. — Se você não fosse isso tudo... — ele gesticulou no ar, indicando ela, os olhos vermelhos, o porte, o nome Volturi. — quem você seria?

Jane o olhou curiosa pela pergunta, o que a fez demorar um pouco a mais para conseguir responder. O tipo de demora que fazia o tempo se alongar ao redor de uma pergunta difícil.

— Eu nunca pensei nisso. — respondeu por fim, com sinceridade. — Sempre fui isso.

— Ninguém é uma coisa só — rebateu Jacob, com um meio sorriso.

Ela desviou o olhar, desconcertada por dentro, mas sem mostrar nada por fora. A verdade era que aquela pergunta a corroía por dentro, mas não de forma ruim. Era desconfortável como algo que força portas fechadas há muito tempo. E Jacob, sem perceber, continuava empurrando uma a uma.

— Você fala demais — murmurou ela, sem muita firmeza. Mas não havia raiva. Só algo entre exaustão e admiração mal disfarçada.

— E você fala de menos — retrucou ele, inclinando-se um pouco para frente, olhando diretamente para ela e forçando contato visual novamente. — Ainda estou tentando te entender.

Os olhos castanhos dele não tinham medo, nem raiva. E isso, de alguma forma, a desequilibrava mais do que gritos ou confrontos. Jacob a olhava como se ela fosse um enigma que ele queria decifrar, não destruir. E aquilo era raro. Dolorosamente raro.

— Você nunca vai entender — respondeu ela, com a voz mais baixa, quase rouca. — Nem eu consigo.

Jacob não desviou o olhar.

— Talvez não. Mas eu quero tentar. — Jacob se surpreendeu com a própria sinceridade automática. Não calculou as palavras que usaria e só se deu conta quando as ouviu. — Preciso de você pra sobreviver a tudo isso. — Completou, tentando não parecer tão estranho quanto pareceu na primeira frase.

Jane sentiu as palavras a atingirem como uma corrente de vento gelado. Não por serem cruéis, mas por serem reais demais. Ela virou o rosto, encarando a fonte como se ela tivesse todas as respostas que precisava para fugir daquilo. Mas as águas só corriam, calmas e surdas. Sua mente gritava por controle. Sentia a necessidade urgente de colocar alguma barreira entre eles. Mas não achava que iria conseguir aquilo. Não naquele momento. Jacob era totalmente diferente de tudo o que ela conhecia. E isso, querendo ou não, também deixava ela confusa sobre querer conhecer mais dele.

— Isso foi dramático. — disse por fim, com um leve sarcasmo, como se quisesse diluir o impacto do que ouvira. Ainda assim, a frase não soou cruel. Parecia mais uma defensiva.

Jacob soltou um suspiro, abaixando o olhar por um instante.

— É, eu sou bom nisso. Dramático, impulsivo... péssimo em sobreviver a castelos cheios de vampiros com regras demais. — Ele deu um sorriso sem graça. — Por isso preciso de você.

Jane voltou a encará-lo. Não havia ironia no rosto dele agora. Nem insistência. Apenas aquele olhar sincero e inquieto, como se ela fosse a única coisa estável em um mundo que ele ainda não conseguia decifrar.

— A fonte já não é mais tão interessante quando tem alguém falando o tempo todo ao lado. — comentou, com leveza ensaiada.

Jacob a acompanhou, sorrindo de canto.

— Você só não está acostumada a conversas que duram mais de cinco frases.

Jane soltou um pequeno riso pelo nariz, quase imperceptível, mas autêntico.

— E você está acostumado a não ouvir quando deveria, então acho que estamos empatados.

— Parece justo. — respondeu ele, os olhos agora fixos na fonte, mas atento a cada nuance da vampira.

O silêncio voltou a preencher o espaço entre eles. Mas não era desconfortável — era apenas denso, carregado de pensamentos que nenhum dos dois ainda conseguia organizar. Jacob tentava entender a própria mente e o que se passava dentro dele. Era tudo tão estranho, tão deslocado do que deveria ser. Ele se sentia ele mesmo, mas ao mesmo tempo não entendia por que estava tão próximo dela. Ou pior, por que gostava de estar próximo dela. Era quase como se sua Cullen favorita, do dia para a noite, tivesse se tornado Rosalie. E, ainda assim, ele preferiria passar anos ao lado de Jane do que dez minutos conversando com a Barbie Cullen.

— No que está pensando? — perguntou ela, rompendo seus devaneios.

— Uma hora me manda calar a boca e, no segundo seguinte, me pede pra continuar? — rebateu ele, irônico, mas com diversão na voz.

— Seu silêncio passou a me incomodar. — disse, sem pensar muito.

— Você deveria ser mais constante.

— Está procurando constância na pessoa errada. — respondeu ela, com um suspiro leve. — Nunca vou poder te oferecer isso.

— E que tipo de coisa você consegue me oferecer?

Jane ficou em silêncio por um momento, pensando. Só era fácil se abrir quando era Alec, — e mesmo com ele, havia limites. Mas com Jacob algo se desenhava de maneira diferente. Como se cada vez que ela abria a boca, um pedacinho de seu controle escorregasse.

— Não muita coisa. — respondeu, quase com honestidade desconfortável. — Posso te proteger dos perigos. Posso te ajudar com roupas horríveis. Te emprestar meu quarto e meu chuveiro maravilhoso. E talvez um pouco de conversa.

Jacob sorriu olhando para ela. Olhando por tempo demais. A aba do boné dela fazia sombra sobre o rosto, moldando sua expressão com delicadeza. Havia algo de bonito em como a luz brincava com a palidez do seu rosto e o contraste do cabelo claro. Por um instante, ele não conseguia se mover.

Uma vontade surgiu do nada — como uma corrente de vento forte que te joga contra um muro invisível. Ele sentiu a respiração acelerar, o corpo se enrijecer. Era um impulso quase primitivo de tocá-la, de encostar sua mão na dela, ou no rosto, ou onde quer que fosse possível alcançar.

A tensão se instalou em seus ombros. O desejo era tão desconcertante que ele precisou enfiar as mãos nos bolsos da calça para impedir qualquer movimento involuntário. Era ridículo, errado e... confuso.

Jane o olhava, sem perceber o que se passava na mente dele. Mas seus olhos registravam as pequenas mudanças — o maxilar levemente travado, os ombros mais tensos, a respiração menos controlada. Ela franziu levemente a testa. Mas antes que conseguisse perguntar algo, Jacob se levantou abruptamente, desviando o olhar como se precisasse de ar.

— Acho melhor irmos embora agora. — disse, a voz baixa, controlada demais para não carregar algo escondido.

Jane o encarou por mais alguns segundos, tentando decifrar o que havia por trás daquela mudança repentina. Estava desconfiada, mas preferiu não insistir.

— Tudo bem. — respondeu apenas, com sua expressão voltando ao neutro.

Levantou-se com elegância, ajeitando o casaco e envolvendo o cachecol ao redor do pescoço de maneira mecânica. Jacob manteve os olhos fixos em frente, sem dizer nada. Os dois seguiram lado a lado pelas ruas de pedra, em silêncio, sob o céu cinzento de Volterra. O som dos passos ecoava nas vielas quase vazias, e a tensão entre eles permanecia ali, viva, mas contida.

Ela passou em um restaurante simples que tinha no caminho, para pegar algo para Jacob comer no jantar.

Ao se aproximarem do castelo, Jane soltou um leve suspiro, quase imperceptível. Jacob notou, mas também não disse nada. Percorreram o mesmo caminho. Notou que Jane voltou a ter a postura rígida e mais focada. Como se algo nela voltasse a ser apenas o que havia sido programada por anos para ser. Algo que ele, particularmente, detestava. Ela voltava a ser Jane Volturi, e não só Jane.

Quando chegaram à porta do quarto, ela apenas avisou que estaria com Alec no quarto da frente caso ele precisasse. E saiu. Jacob ficou ali por um momento, observando a porta se fechar lentamente atrás dela. Depois, passou a mão pelo rosto, como se isso pudesse afastar os pensamentos confusos. Respirou fundo e entrou também, sabendo que o silêncio do castelo o engoliria novamente — mas que, agora, já não seria o mesmo de antes. E isso o deixava mais desconfortável do que queria admitir.