Entre o Céu e o Mar: Amor, confiança e compreensão
9 Confiança - Parte 4.
Notas iniciais
"Cada demônio tem a sorte que Deus lhe permite."
Repetia essa frase na minha cabeça enquanto repassava os últimos acontecimentos com Emma. A frase, proferida pelo capitão Nelson muitos anos antes, tinha relação com o momento vivido por mim. Para quem não sabe, Capitão Nelson foi um bêbado pouco confiável que quase derrotou a França na Revolução Francesa. O que isso se relacionava comigo? Imagine que eu sou Capitão Nelson, Emma é as tropas napoleônicas e o nosso amor é a Revolução. Eu queria derrotar o nosso amor, mas, para isso, era preciso derrotar ela.
Não no sentido literal da palavra, óbvio.
Se era possível derrotar ela? Não, não era possível. Se era possível acabar com o nosso amor? Também não era possível. Pois é, Deus não tinha me dado tanta sorte assim.
Aquele jantar tinha sido um desastre. Se eu soubesse que a família convidada era a família Swan, eu nunca teria pisado naquele condomínio naquela noite. Nós trocamos farpas durante o jantar inteiro e deixamos claro, uma para a outra, que não estávamos prontas para reatar o relacionamento.
O pior da noite foi, obviamente, o nosso beijo. O nosso beijo era capaz de gerar mais energia do que todas as mitocôndrias do mundo juntas, não importava se fosse um beijo intenso ou um beijo leve, como tinha sido. De qualquer forma, assim que fui rejeitada por ela, voltei para casa e, com a desculpa de que estava com muito enjoo, subi para o meu quarto para descansar.
Ouvi uns risinhos maliciosos vindos de minha mãe, que achava que eu poderia estar grávida. Me benzi internamente, repreendendo a ideia de ter um filho com o Robin. Quanto ao meu namorado e seu filho de outro relacionamento, Roland, chamei para dormirem comigo, por pura educação, porém, pelo pequeno ter aula no dia seguinte, Robin preferiu leva-lo para casa.
Voltando à revolução francesa, me pergunto se, em algum momento, os líderes guilhotinados se arrependeram de tudo o que fizeram. Eles sucumbiram à sua própria revolução, assim como eu estava sucumbindo à revolução que acontecia dentro de mim.
Depois de tanto pensar, caio no sono, sendo embalada pela imagem de uma loira cinco anos mais nova do que eu.
– SQ –
Já havia se passado uma semana desde o incidente do jantar e hoje eu tenho mais aula com Emma Se eu estou pronta para dar aula? Sim. Se eu estou pronta para ver ela? Definitivamente, não.
Tomo um banho demorado e lavo os meus cabelos com meu shampoo favorito de maçã. Ele cheirava a big apple e eu, de alguma forma muito estranha, adorava aquilo. Para trabalhar, escolho uma calça jeans apertada, uma sapatilha Louis Vuitton branca e blusa social azul claro. Não passo maquiagem, apenas um batom leve nos lábios. E, para completar, coloco meu anel de ouro branco favorito, um que Emma tinha igual, pois era a nossa aliança.
Nunca me desfiz de nenhum dos presentes que ela tinha me dado e, aquelas alianças, mesmo não tendo sido um presente dela, eram absolutamente importantes para mim. Quem olhasse de fora nem perceberia que era uma aliança, então não me liguei muito.
O percurso entre a minha casa e a faculdade era grande, portanto saio mais cedo de casa e dirijo, perdida em meus pensamentos. Chego no campus da universidade e estaciono, não antes de retocar o meu batom e verificar o meu celular, vendo uma mensagem de meu pai que pedia que eu fosse ao escritório quando saísse de lá.
Corro para a sala de aula, sabendo que já estava atrasada. Eu, mais do que tudo, odiava atrasos, e deixava isso claro para todos os meus alunos. Entro na sala e vejo que eles se calam ao perceber a minha presença. Corro o ambiente com os olhos, procurando por Emma, e a vejo sentada logo na primeira fileira vertical, bem de frente para mim. Contenho um sorriso, que teima em escapar. Peço desculpas à turma pelo atraso e começo a dar aula.
A aula segue de forma normal, os alunos tiram as duvidas características e, assim que eu termino, vou arrumar minhas coisas para ir para casa. Nesse dia Emma não tinha ido falar comigo, nossa interação havia sido estritamente profissional, ela perguntando e eu respondendo, como se nunca tivéssemos nos visto antes.
Estava pronta para ir para casa quando vejo a minha ex- namorada com a cara enfiada dentro do capô de seu carro. Ela havia conseguido comprar aquele fusca amarelo bizarro que tanto queria, e agora ele, aparentemente, tinha a deixado na mão.
Emma usava calças jeans muito coladas ao corpo, botas de cano baixo e uma regata branca, também justa. A jaqueta que ela usava antes estava repousando no encosto de cabeça do banco do motorista. Seus braços definidos estavam à mostra e eu suspiro ao lembrar de como era bom ter eles me envolvendo.
Desço as escadas da entrada e vou até ela.
– Emma? – A chamo.
– Ah, oi, Regina. – Seu tom de voz é calmo, porém ela não levanta o rosto para me olhar.
– Está precisando de algo? – Me aproximo dela, com cuidado para não encostar no carro e sujar minha roupa.
– Não, não. – Emma levanta o rosto e olha para mim, sorrindo genuinamente. – É só essa lata velha que resolveu não pegar justo na hora de voltar para casa.
– Vixe. – Falo com um sotaque baiano engraçado, desde nossa viagem para a Bahia, um bom tempo antes, eu tinha pegado a mania de falar essa expressão baiana. Ela dá risada e volta a mexer em alguma coisa ali dentro. Me junto a ela e observo aquelas máquinas, entendendo nada sobre aquilo.
– Ainda não perdeu o hábito de falar essas expressões baianas? – Pergunta, mexendo nas engrenagens.
– Algumas coisas nunca mudam, né? – Eu não percebo o peso das minhas palavras até que elas são ditas. Um silêncio é instaurado e eu, percebendo que ela não vai conseguir consertar, pergunto. – Você quer uma carona?
– Não, Regina. Não precisa se incomodar.
– Você nunca foi um incômodo. – respondo.
Ela se vira de frente para mim e prende os cabelos em um coque alto.
– Se for assim, então eu aceito.
– Ótimo, vamos. – me afasto, esperando ela pegar sua mochila e sua jaqueta dentro do carro.
Pode parecer estranho falar, mas, na hora, nós duas nem percebemos. Andamos de mãos dadas em direção ao meu carro.
– SQ –
– Você vira aqui, ó. – Emma disse, quebrando o silêncio que havia se instaurado desde que entramos no carro.
– Eu ainda lembro o caminho, Emma. – respondo, virando na esquina que ela havia mandado. Assim que viramos a esquina, o céu começou a cair. Não, não literalmente, mas uma chuva torrencial que deixou difícil que eu dirigisse até o prédio. Com muito cuidado e atenção, consegui estacionar em frente ao local que eu costumava morar.
– Nem fodendo que eu vou deixar você dirigir para casa nessa chuva. – Emma fala antes de qualquer coisa. – Você vai subir comigo e esperar a chuva passar.
– Ah, não precisa não... Não quero incomodar.
– Você nunca foi um incômodo. – Me responde usando a mesma frase que eu havia usado alguns minutos antes. – Vai, Regina, você sobe, a gente pede uma pizza para jantar e, quando a chuva parar, você vai embora.
– Realmente, não precisa, dá para eu ir para casa. – abro o cinto de segurança e olho em seus olhos. Ela desvia o olhar.
– Não precisa ter medo, Regina. – diz baixo e eu sinto a mágoa em sua voz. – Eu não vou te machucar. – Estende a mão e alisa o meu rosto. Eu fecho os olhos e me inclino em direção ao seu toque, respirando fundo.
– Tudo bem então. – Me inclino para pegar a bolsa no banco traseiro e ela me interrompe, dizendo que é para eu estacionar na garagem do prédio, na vaga que sempre me pertenceu.
Estaciono no lugar indicado e nós descemos do carro em silêncio. Pegamos o elevador e, ao chegarmos no apartamento, Emma abre a porta, me dando preferência ao entrar.
Percebo o quão diferente tudo ali dentro está. Agora está mais mobiliado, e um pouco mais bagunçado também. Antes que eu falasse qualquer coisa, minha ex se precipitou.
– Perdoa a bagunça, tá? – ela diz, meio envergonhada. Acho que ela percebeu minha timidez naquele lugar e continuou falando. – Senta aí que eu vou tomar um banho e já volto.
Eu assinto com a cabeça e me direciono ao sofá, porém algo me chama a atenção: os porta-retratos.
Bem alinhados em cima de uma prateleira, haviam diversas fotos, algumas novas, outras antigas. Sorrio ao ver uma foto de Emma quando criança, seus cabelos loiros caindo em cascata por sobre os ombros e seu sorriso amarelo a deixavam ainda mais bonita. Passo para outra foto, essa, mais atual. Logo reconheço o local e a data, eu tinha tirado aquela foto durante a nossa viagem pela Bahia, ela sorria enquanto o sol se punha lá atrás, na Baía de Todos os Santos. A terceira foto que eu vi foi a mais bonita de todas, claro, era eu e ela abraçadas, também na Bahia.
Eu lembro daquele dia, estávamos, furtivamente, andando por trás do farol da Barra, esperando o por do Sol. Ela queria tirar uma foto comigo, porém nenhuma ficava boa, até que uma menina, muito educada, se ofereceu para tirar. Emma, então, se encostou na amurada e me puxou contra seu corpo, de forma que eu fiquei encostada a ela. Sempre fui menor em estatura, então ela apoiou seu queixo em meu ombro e me apertou contra si, sorrindo para a foto.
Nossos braços estavam entrelaçados sobre a minha barriga e eu não tenho lembrança de quando eu estive tão feliz. Sou puxada de meus devaneios por um pigarreio, me viro e vejo Emma, usando uma camisa masculina que ficava gigante nela e nada, além de calcinha, por baixo. O cheiro de seu shampoo invade minhas narinas e eu passo mais tempo do que o necessário encarando suas pernas.
– Essa é minha foto favorita. – Aponta, com o queixo, para a foto em minhas mãos. – Aquele dia foi massa.
– Foi sim. – sorrio, genuinamente, lembrando de tudo que havia acontecido naquele dia. Passo as mãos nos braços e ela percebe que eu estou com frio.
– Tá com frio, né? – Pergunta e eu faço que sim com a cabeça. – Quer tomar um banho? Posso te emprestar algumas roupas minhas se quiser.
– Eu não sei se devemos, Emma...
– Não devemos o quê? – Indaga e se aproxima de mim. – Não devemos ser cordiais uma com a outra?
– Não devemos isso. – Aponto para mim e para ela, deixando as palavras morrerem em minha boca quando sou surpreendida por seus lábios colados aos meus. Ela reclama meu corpo para si e eu permito me envolver em seus braços fortes, enlaçados em minha cintura.
Quando estava pronta para algo a mais, ela me afasta
– Eu não sei se devemos, Regina... – Usa a minha frase contra mim. – Vá tomar banho, eu vou pegar uma toalha e alguma roupa para você. – Emma sai e me deixa sozinha na sala. Sem saída, me dirijo ao banheiro e deixo a porta aberta, sabendo que ela voltaria.
Tiro as roupas que vestia e ajusto o termostato para o mais quente que tinha, Emma gostava de tomar banhos gelados, mesmo quando estava fazendo frio. Prendo meus cabelos em um coque e alguns fios caem pela minha nuca, mas não me incomodo. Deixo a água cair sobre a minha pele, me aquecendo por alguns instantes.
Na falta de sabonete, uso o de Emma, e o reconheço pelo cheiro de canela que emana dele.
– Tá aqui a... – Ela para de falar quando eu me viro e ela tem uma visão de mim nua. – A toalha tá aqui, e eu peguei uma blusa e uma calcinha minha, se você não se importar, óbvio. – Diz, gaguejando e olhando para o chão. Eu sou obrigada a me controlar para não rir.
– Emma, olha para mim. – Peço.
– Melhor não, Regina...
– Não é como se você nunca tivesse me visto nua antes.
– As circunstâncias eram outras... – Ela faz uns gestos com as mãos mostrando o quão desconfortável ela estava. – O espírito está se esforçando...
– Mas a carne é fraca. – Completo o ditado. – Obrigada pelas roupas e pela toalha. – Termino o banho e abro o box para me esticar e pegar a toalha que ela me oferecia.
– Eu vou deixar isso aqui e, enquanto você se troca, vou pedir algo para comermos, pode ser? – Pergunta, enquanto deposita as roupas na pia.
– Pode sim, te encontro na cozinha. – respondo e assisto ela sair correndo.
Visto a blusa que ela tinha separado para mim e inalo sua gola, sentindo seu cheiro, que não havia mudado nada desde que nos separamos. Visto a blusa, a calcinha e não consigo parar de pensar no quão sexy era aquilo.
Me observo mais uma vez no espelho, antes de sair do banheiro para encontrar a minha ex-namorada. Eu não sabia naquele momento, mas, a revolução que o nosso amor fazia dentro de mim, estava prestes a acabar.
“Então você está confusa com os seus sentimentos. Ele apareceu tão de repente na sua vida, com aquele brilho manso no olhar, com aquela meiguice na voz, sem pedir coisa alguma, meio como um pequeno príncipe caído de um asteroide. A principio, você nada percebeu de diferente. O susto veio quando você se lembrou das palavras da raposa, explicando ao Pequeno Príncipe o que era ficar cativo: É assim. A principio você senta lá e eu aqui. Depois a gente vai ficando cada vez mais perto. Os passos de todos os homens me fazem entrar dentro da minha toca, mas, os seus, me fazem sair.”
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