Entre o Céu e o Inferno
1 Morte inesperada.
Quando a conheci, não imaginava esse final para a nossa história de amor.
Sabe, talvez acabasse de uma maneira idiota, como um tapa na cara, ou então, comigo bebendo até o meu fígado apodrecer, mas invés disso, estávamos na beira de um precipício, eu segurava sua mão que já se escapava da minha, quando eu tive a burrice de me inclinar mais ainda sobre o parapeito da montanha, já cedendo ao nosso peso, para usar minha mão livre para pegar a outra dela.
E foi quando caímos.
Não morremos de imediato, lógico. Durante a queda que durou por volta de três segundos, abracei-a o mais forte que pude, foi quando uma dor agonizante atingiu minha cabeça em cheio e senti meu corpo gelar aos poucos.Alguns diriam que era a morte vindo, mas era só a água fria do mar que estava nos cercando mesmo.
Com a visão terrivelmente ruim, conseguia ainda assim, ver o rosto frágil dela com um batido horrível sobre a testa que manchava todo seu rosto branco do mais intenso vermelho carmim.
Antes que nos perdêssemos por completo, ela ainda conseguiu sussurrar fraca para mim:
–Acha que nos vemos no céu?
Quando eu pretendia responder, fomos engolidos de vez pela maré forte nos afastando das rochas na qual colidimos, mas se tivesse tido a chance, teria respondido “Talvez eu não vá para lá.”
E foi assim que morremos.
Bom, aqui estava eu, morto, porém em estado perfeito. Certo, isto não fez sentido, quis dizer que estava finalmente regressando para o outro mundo.
Eu estava com a mesma roupa quando tudo aquilo aconteceu.Meu querido uniforme escolar.Não quero ser chato, mas se eu soubesse que teria que usá-lo até aqui, teria me vestido de outra forma naquele dia.
Interrompendo meus pensamentos, um homem de cabelos negros que usava um terno branco me chamou a certa distância, já a diminuindo vindo em minha direção.
–Senhor Yamashita Tomohisa?É você certo?
Ele verificava a prancheta fazendo anotações.
–Isso, mas não me chame assim, é feio. –Ele levantou uma sobrancelha então continuei. –Yamap, era como meus amigos chamavam.
–Ah, certo. –Provavelmente ele devia ter anotado isso também.
–Bom, eu sou Ryo, sabe onde está senhor Yamap?
Provavelmente ele não entendeu que era para me chamar só pelo apelido, sem o “senhor”. Mas quando ele me disse isso, olhei a minha volta e percebi que estava em um local todo branco. Não havia chão nem teto, muito menos paredes, era simplesmente... branco.
–Parece bem claro e calmo para ser o inferno. –dei uma risada, mas isso fez a cara de Ryo mudar drasticamente, então preferi ficar quieto.
–É o céu senhor.–quando ele disse, o maior portão que já vi na minha vida se materializara atrás dele, e aos poucos fora se abrindo ofuscando minha vista com tamanha luz.
Quando olhei de novo, o homem que se chamava Ryo já estava entrando, então o segui.Foi quando reparei que estávamos num tipo de selva.
Isso mesmo.O paraíso é tipo uma selva.Mas terrivelmente bonito igual nos meus sonhos.
Quando ele parou na beira de um rio cristalino se virou para mim já com a feição suave. E percebi que não havia ninguém ali, a não ser os animais e nós dois.
–Senhor Yamap, quero lhe explicar como funciona este lugar.Aqui é o seu paraíso.E é a sua mente que a cria.Basicamente o senhor deve tê-lo idealizado como uma “selva” e por isso está aqui.
Aquilo me deixou sem graça.Muito.Quantas pessoas imaginavam seu paraíso uma selva, por mais bonito que fosse?
–Não se preocupe, muitos imaginam que é assim, mas na verdade, é a sua mente que cria seu próprio paraíso.E se, por exemplo, duas almas imaginarem seu paraíso de um mesmo lugar, elas estarão no mesmo plano.E como pode ver, o paraíso destes animais é a selva, por isso pode se encontrar com eles aqui, porque estão no mesmo plano e compartilhando a mesma imagem de seu paraíso.
Enquanto ele explicava e eu olhava a minha volta, tentava imaginar como ela idealizava seu paraíso. Então resolvi perguntar.
–Aquela garota que morreu junto comigo, em que lugar, plano ou sei lá como vocês chamam este sistema, onde ela está agora?
Ele me olhou nos olhos e verificando sua prancheta, e passando de várias a várias folhas, voltou a primeira e me respondeu calmo:
–O nome dela é Utada Hikaru certo? –confirmei com a cabeça e ele continuou. –Ela não está na lista.
Dei uma risada nervosa –Como assim ela não está na sua lista?Procure direito, vamos.
Ele estava sério e sabia de algo então tomou seu fôlego e respondeu.
–Não preciso procurar de novo, ela não está na lista de mortos recentes que foram encaminhados para o céu, e parece que, ela foi para o inferno.
Aquilo fez minha cabeça girar, e todo o lugar começou a se distorcer.A Hikaru não foi para o céu e eu estou aqui?Pensando assim, sentia-me como se houvesse roubado seu lugar aqui.Mas o problema não era este.Eu queria vê-la.
Tirando-me dos meus devaneios, Ryo chamava-me pelo nome e quando me dei conta aquele lugar já não havia mais animais ou qualquer criatura viva, parecia que estávamos em um quadro borrado, mas antes, tivesse sido pintado distorcidamente.Foi quando ele estalou os dedos e tudo aquilo sumiu e voltamos ao lugar branco.
–Seus pensamentos criam seu lugar, então controle-se senhor.
Eu estava sem fala, sentado no chão (caído na verdade) olhando-o sério para mim.
–Eu sei toda a sua vida Yamashita Tomohisa, e sei que quer vê-la e que a ama e sente que roubou o lugar dela no céu, mas está enganado. –Ele se agachou, diminuiu o tom de voz e prosseguiu. –Ela não é tão boa quanto parece, ela teve suas chances de provar, mas ignorou-as, o senhor sempre foi muito gentil, apesar de ninguém saber desta sua bondade.
Eu queria perguntar se a veria de novo, se havia algum meio, mas tudo o que consegui, foi abrir a boca, e como se captando meus pensamentos, logo respondeu.
–Há uma forma de se verem mais uma vez. –Ele sorriu, mas de repente pude ver um demônio nele de tão assustador que aquele sorriso ficou. – No dia dos mortos.
–Como?
–Dia dos mortos, dia de finados, dia dos fieis defuntos, ou o jeito que preferir chamar –ele fez uma expressão como se aquilo fosse óbvio, mas eu quis dizer como eu faria isso, e ele continuou sua explicação. –Nesta data, dois de novembro, é o único dia do ano em que os mortos voltam a terra.Isso inclui todos aqueles que já se foram.Você pode vê-la neste dia.
Refleti por uns segundos.Aquela era a minha única chance e a minha esperança.Mas se me recordava bem, eu havia morrido no dia cinco de novembro, três dias depois da data.
–Isso vai acontecer daqui um ano. –comentei cético daquilo.
–Infelizmente.Mas sua estadia aqui no paraíso poderá durar décadas, talvez milênios até que se reencarne de novo, por isso não se apresse senhor.Um ano é pouco. Um dia menor ainda.
Notas finais
Espero que estejam gostando *----*
Nao esqueçam, deixem reviews pra titia ficaar feliz =D
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