Entre o Céu e o Inferno
2 Um Lugar Desconhecido.
Um ano.Para ser mais preciso, 362 dias para o dia de finados.
O tempo na verdade passa rápido quando se pode fazer o que quiser e criar lugares maravilhosos.A maior parte do tempo passei em minha cidade natal, no interior do Japão mesmo.O pôr-do-sol que sempre acabava após uns minutos, aqui, nunca acabaria se eu quisesse.
Por mais magnífico o lugar fosse, ou se você encontrasse outras almas para conversar, ainda faltava algo para mim.Às vezes nada poderia suprir essa vontade de estar com ela, talvez seja isso a famosa saudade na qual nunca experimentei em vida e agora teria para o resto da minha morte.
Nos conhecemos naquele mesmo ano, tínhamos dezessete anos e estávamos no último ano do colegial.Ela era uma garota nova, a típica garota da cidade que odeia minha tão adorada vila de interior.
Os rapazes que sempre ficavam de olho nas meninas, não a acharam tão bonita, mas o suficiente para desejá-las.Talvez por isso, comecei a me interessar por ela.Não porque meus amigos a queriam, mas por ela ser normal e diferente das demais.
No começo ela me ignorava, foi quando ela veio até a minha casa devolver meu caderno que havia esquecido na sala e antes que fosse embora, perguntei por que não gostava de cidades de interior.
Aquela foi a pior resposta que eu pude ouvir.“Não há nada de bom nessa cidade”.Ela era atrevida e petulante, tinha de admirar.E essa foi a nossa apresentação.
Todo dia mostrava a ela como havia coisas maravilhosas na cidade.Quando fez um mês que ela havia se mudado para a minha escola, procurei as flores mais bonitas e das mais variadas cores e dei a ela.Quantas mulheres poderiam não gostar de flores?
Ela.Ela era alérgica ao pólen das flores.Mas após tomar seu remédio, demos boas risadas e guardou três flores dentro de livros para que ressecassem e não ter mais problemas com o pólen.
E esse foi o início de tudo.Não sei se ela ainda odeia a cidade, mas começamos a freqüentar mais lugares arejados com flores e matos pelo caminho. Ela usava máscara e repelente, mas ainda assim, para uma garota da cidade, já era um grande avanço.
Apesar de nos conhecermos onze meses, estávamos namorando oficialmente por sete meses.O bom de ter um curto romance, é que você só possui memórias boas, o ruim, é que você sempre sentirá falta disso.
E foram esses sete meses no qual fiquei relembrando até o dia chegar.Voltava várias e várias vezes a minha antiga escola, o caminho calmo de casa, as praias e as montanhas onde a vista era perfeita.
Quando o dia finalmente chegou, Ryo veio me ver.Ele continuava com a mesma aparência, mas desta vez sem a prancheta.
–Preparado para descer a Terra mais uma vez senhor Yamap? –ele sorria calmo, mas o “senhor” ainda me incomodava.
–Claro, mas pare de usar esse “senhor” na frente do meu nome.
–Refere-se ao pronome de tratamento?Isto é uma questão de educação senhor... –provavelmente ele deve ter visto meu humor mudando quando ele repetiu a palavra, por isso se auto corrigiu. –mas se não quiser, não o usarei mais, Yamap.
Sorri e voltei ao assunto principal.A ansiedade já estava tomando o meu corpo.
–Como farei para descer a Terra? E ela também vai retornar certo? Como vou encontrá-la?
Ryo fez um gesto brusco para eu cessar as perguntas, então ele pensou um pouco e respondeu-me.
–Você descerá assim que der meia noite em ponto.Não se preocupe em como, os superiores cuidarão disso.E quanto a Hikaru, não há certezas. –antes que eu recomeçasse meu questionário ele se apressou e continuou. –Só retornam a Terra aqueles que tem esse desejo de rever alguém, como você.Se ela não quiser retornar ou estiver muito satisfeita onde está, ela não irá.Simples assim.
Olhei minha frente e um enorme contador digital se materializou faltando dez segundos contados de trás para frente, então percebi que era a contagem regressiva.
–Onde posso encontrá-la? –perguntei rapidamente antes que o tempo terminasse.
–Não sei, terá de procurar si mesmo.Onde você acha que ela estaria?
E então tudo foi sumindo, quando olhei minhas mãos, não as vi.
E aos poucos quando reabri meus olhos, estava parado em frente a minha casa.As luzes estavam apagadas, provavelmente minha família estaria dormindo, afinal, em cidades assim, todos dormem cedo.
Quando olhei a rua iluminada pelos postes de luzes percebi que havia outras almas se materializando ao mesmo tempo e que eram transparentes, assim como eu estava.
Após contemplar este espetáculo de luzes descendo a Terra retomei a minha jornada principal. Hikaru.
Apesar de sermos tão próximos estávamos sempre em um lugar diferente, e pela primeira vez, senti-me como se não a conhecesse tão bem a ponto de não saber seu lugar preferido no qual gostaria de retornar.
Como não sabia, corri primeiro para a casa dela que não era muito distante dali.
A casa, de madeira velha por fora, não havia mudado nada após um ano e as luzes estavam acesas.Só para testar meus poderes atuais, resolvi atravessar a parede e todos estavam sentados em almofadas no chão em volta de uma mesa baixa rezando.
Visto que ela não estava lá, resolvi sair sem querer me intrometer mais na família dela, afinal, aquele era um momento intimo deles.
Sem saber onde ir, resolvi ir a escola, não só para procurá-la, mas também porque sentia uma terrível falta dos professores carecas e dos meus amigos bagunceiros.Após uns minutos de caminhada, lá estava eu no portão de ferro e então, atravessei-o sem maiores problemas.
A escola a noite não era assustadora quando você é aquele que na verdade a assusta.Jurava que estaria só neste lugar, mas encontrei outros alunos no local, e um deles eu reconheci.Era um garoto no qual disseram ter se suicidado há três anos. Ele estava parado olhando para o prédio de três andares sentado no chão de concreto.
Resolvi não incomodá-lo, mesmo porque eu tinha pressa.Então entrei no prédio e fui em direção a minha sala e chegando lá, bateu-me uma nostalgia que eu poderia ter permanecido ali para o resto do dia tendo a lua iluminando a minha antiga carteira.
Mas então foi quando ouvi um choro feminino, sem pensar, saí a toda da sala dando um último olhar de adeus ao quadro negro e percorri todo o corredor iluminado pelo luar.
Chegando ao fim e virando para a escada lateral para subir ao terraço que, penso eu, ter escutado vindo de lá o choro, me deparei com uma garota magra de cabelos negros lisos até a cintura sentada na grade de ferro olhando para baixo.
Da mesma for repentina como a esperança me veio logo se esvaiu.Provavelmente ela deveria ter sido outra garota suicida daquele colégio.
Chegando perto dela e apoiando-me a grade também, olhei a vista de cima e vi a cidade com uma parte cheia de florestas e montanhas e ao longe, a baía da praia, foi então que me dei conta e pensei “qual o seu lugar favorito Hikaru?”.
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