Entre o Amor e a Razão
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Elisabeta ouvia duas vozes internas. Uma lhe dizia para não largá-lo; que continuasse em seus braços sentindo o turbilhão de sensações até então desconhecidas. A outra voz lhe dizia para ir embora. Para sair correndo dali o quanto antes. Mas o toque e os beijos de Darcy eram intensos demais para que ela pudesse definir com clareza qual caminho seguir. A mão de Elisabeta descia e subia percorrendo as costas de Darcy, explorando com devoção aquele espaço. Ela permanecia recostada na parede, como uma prisioneira refém de seus próprios desejos. Enquanto isso, Darcy traçava um caminho de beijos, começando pelo pescoço descendo até a extremidade do ombro e passando pelo colo dela. Ao sentir o calor da boca dele em contato com sua pele, Elisabeta deixou escapar, involuntariamente, um gemido. Darcy parou de beijá-la e a encarou por alguns instantes. Os olhos dele expressavam paixão. E, além disso, despertavam também receio.
— Elisabeta. — Disse ele, encostando a testa no ombro dela. Sua respiração estava ofegante, e a voz saía frágil, com dificuldade. — Eu acho que nós...
—Shhh. — Elisabeta o interrompeu, colocando um dos dedos sobre os lábios dele. — Eu sei exatamente o que você irá dizer e a resposta é não. — Ela o puxou novamente para si, dando-lhe um beijo de tirar o fôlego e qualquer ideia de recuo.
A parede, antes um espaço favorável para impedir qualquer tentativa de fuga era, agora, um lugar pequeno para os dois. A vontade de explorar ainda mais o corpo um do outro aumentava a cada segundo. Darcy e Elisabeta começaram a caminhar, em meio a beijos, até um dos quartos daquele andar da casa. Elisabeta desabotoava, com urgência, a camisa de Darcy. Suas mãos ansiavam para senti-lo por debaixo daqueles trajes. Darcy, embora confuso com a situação não relutou e começou a baixar as alças do vestido de Elisabeta. Sua urgência por tocá-la também era algo surreal. Ambos estavam sedentos um pelo outro. Quando beiravam a soleira da porta do quarto, um barulho começou a apontar do lado de fora da casa. Buzina. Sr. Matias. 21h00. Elisabeta havia esquecido completamente que seu motorista iria buscá-la, conforme combinado, naquela hora. Ela encarou Darcy, completamente desconsertada.
— Péssima ideia ter pedido para Sr. Matias vir me buscar. É uma pena eu não imaginar que uma hora dessas estaríamos assim. — Disse ela, com a voz ofegante, ajeitando o vestido, o cabelo, a postura. Elisabeta mantinha um riso nervoso. De fato jamais pensaria que estaria nos braços de Darcy Williamson. Embora a cena já tivesse acontecido em alguns de seus sonhos mais recentes.
— Eu também acho. — Respondeu Darcy, passando as mãos pelos cabelos. — Essa noite foi a mais surpreendente que já vivi em toda a minha vida. E olha que nós nem... — Ele a encarou, mantendo um sorriso torto.
— É mesmo? – A voz de Elisabeta saiu provocante.
— Me diz que não estou sonhando Elisabeta Benedito, me diz? – Darcy a puxou novamente pela cintura, olhando fixamente nos olhos dela.
— É real Darcy. É maravilhosamente real. – Ela rapidamente depositou um beijo nos lábios dele. Os olhos de Darcy demonstravam dúvida. E aquela dúvida possuía nome e sobrenome: John Morland. Elisabeta podia presumir isso sem precisar que ele dissesse algo a respeito. Mas ela sentia que aquele não era o momento ideal para falar sobre seu relacionamento. Darcy relutou quando ela quis se despedir. Ele queria sentar e conversar sobre o que havia acabado de quase acontecer entre eles. Era algo importante demais para se adiar. Ele precisava ter certeza que aquilo não havia sido apenas um impulso, um capricho. Que não havia sido apenas um momento de fraqueza por parte dela. Ele precisava saber se ela sentia por ele o mesmo que ele sentia por ela.
— Eu preciso ir Darcy. — Disse ela, desprendendo-se dos braços dele. — Sr. Matias está me esperando lá fora. E já está tarde. Embora eu seja adulta meus pais ainda mantêm algumas ordens e regras de conduta lá em casa. ,
— Quando podemos conversar? Eu não vou ter paz enquanto não nos falarmos. — Perguntou ele. Darcy parecia ansioso. Não estava cem por cento seguro quanto a atitude de Elisabeta.
— Em breve. Não se preocupe. Eu não vou fugir do senhor, Darcy. — Ela colocou os braços em volta do pescoço dele, antes de lhe dar um beijo de despedida.
Elisabeta entrou no carro apressadamente. Da janela ela pôde avistar Darcy de pé, recostado na porta da casa. Quando o carro partiu ela acenou para o rapaz e ele lhe retribuiu a ação com um sorriso escancarado. O coração de Elisabeta palpitava como o coração de uma adolescente ao dar o primeiro beijo. Darcy lhe despertava sensações novas, e aquilo estava mexendo bastante com ela. Sr. Matias era um senhor de meia idade muito simpático. Sempre fora bastante brincalhão com todas as meninas Benedito. Especialmente com Elisabeta. Sempre que ele ia buscá-la na escola, ela lhe contava as aventuras do dia durante todo o percurso de volta à mansão. Através do humor da garota ele podia imaginar como ela estava se sentindo. Se havia brigado por alguma causa, se havia ido mal nas provas, se havia se machucado feio durante o intervalo... Quando Elisabeta entrou no carro naquela noite, Matias não pôde deixar de notar que a moça estava diferente. Estava bem mais feliz. O seu sorriso denunciava mais do que tudo no mundo.
•••
— Elisabeta Benedito. Posso saber onde a senhorita esteve até essa hora? — Jane estava de braços cruzados, imitando a voz e as expressões da mãe.
— Estava na casa de amigos, mamãe! – Respondeu ela, dando em seguida uma gargalhada.
— Silêncio Elisa! Já estão todos dormindo. Fiquei de guarda esperando você chegar. Minha irmã, o que houve com seu cabelo? Está todo desgrenhado. – Jane fez uma careta enquanto tocava alguns fios de cabelo de Elisabeta.
— DW, maninha. Uma nova tendência da moda! — Elisabeta pronunciou as letras mantendo um sotaque britânico, fazendo charme para a irmã.
— DW? É uma tendência europeia? Por que se for eu quero passar bem longe.
Elisabeta não pôde deixar de rir ao escutar o comentário de Jane.
— Jane você é uma figura! Vamos, pois eu preciso conversar com a senhorita urgentemente. – Elisabeta saiu puxando a irmã escada acima.
— Elisabeta do céu. Quer dizer que foi Darcy Williamson o autor dessa tragédia no seu cabelo? Vocês se beijaram? Eu não estou entendendo mais nada. A senhorita deve estar completamente maluca. Mal conhece esse rapaz e já está com essa intimidade toda? – Jane ficou em choque ao descobrir o que havia se passado entre Elisabeta e Darcy naquela noite.
— Jane eu já me arrependi de muita coisa nessa vida. Mas de me render ao desejo de beijar Darcy Williamson eu não me arrependeria nunca.
— Cadê o termômetro? Você deve estar delirando Elisabeta. Eu não estou te reconhecendo. – Jane estava de pé, tocando a testa da irmã que permanecia deitada na cama, suspirando ao relembrar os acontecimentos vividos horas atrás.
— Jane, sente-se aqui minha irmã. Eu não sei explicar. Mas Darcy e eu estamos completamente apaixonados um pelo outro. Você está confusa assim por que nunca se apaixonou perdidamente por ninguém. Eu mesma estou perplexa porque também nunca tinha experimentado de fato esse sentimento assim, com tanta intensidade. Pude ter certeza disso hoje.
— Ok Elisabeta. Está tudo muito romântico, está tudo muito lindo... Mas e o John? Vocês estavam juntos há anos. Você parecia feliz ao lado dele.
— Eu adoro o John. Ele é um homem maravilhoso. Mas não sei se ele é o homem ideal para mim Jane. Você viu a reação dele quando nos despedimos. Ele voltou a insistir para que eu viajasse com ele. Ele não pretende largar os negócios na Europa para construir uma vida aqui comigo. A vida dele lá é mais importante do que eu. Isso ficou mais do que claro. Por isso nós decidimos terminar nossa relação, dar esse tempo para nós dois. E no fundo ele não pareceu triste. Você deve ter percebido.
—
— Olha, pra ser sincera eu achei que ele estava triste sim. Não vou negar. E também não acho que ele tenha entendido o término de vocês como término definitivo. Afinal de contas são seis anos Elisabeta. Você conhece Darcy Williamson há quanto tempo? Um mês? Mas uma coisa é certa: eu jamais aceitaria que John levasse você de mim. Imagina, você morando fixamente na Europa? Inadmissível! – Ela se aproximou de Elisabeta, abraçando-a.
— Ele sabe perfeitamente que isso nunca esteve nos meus planos. Meu lugar é aqui. Minhas raízes estão fincadas aqui.
— Aham. E pelo visto o seu grande amor também não é? O homem capaz de fazer Elisabeta Benedito cometer loucuras.
Elisabeta encarou a irmã, sorrindo. Era mais do que evidente que ela estava morrendo de amores por Darcy. Só estava precisando reconhecer aquilo. E aquela noite havia sido a ocasião ideal para que a ficha caísse.
— Eu juro que eu tentei resistir Jane. Eu lutei até o último momento. Eu lutei tanto que acabei perdendo todas as minhas forças. E lá estavam os braços fortes de Darcy Williamson para me amparar. — Elisabeta jogou-se na cama, parecia completamente fascinada com as próprias palavras. Jane apenas jogou uma almofada em Elisabeta. Que revidou a brincadeira na mesma moeda.
— Realmente minha irmã, eu nunca a vi tão abobaiada. Esse Darcy enfeitiçou você completamente. Você parece tão feliz. E eu fico tão contente com isso. Só espero que essa felicidade permaneça e que em hipótese alguma você sofra por essa escolha.
— Ai, Jane. É uma felicidade que não cabe no meu peito. Mas eu quero te pedir uma coisa. Quero que você mantenha esse assunto só entre nós. Ainda não sei o que Darcy e eu somos. É tudo muito recente. Papai, mamãe e as meninas não podem sonhar que isso está acontecendo, está bem?
— Claro Elisa. Deixe-me ver... Segredo 38263 guardado com sucesso. — Jane respondeu, sorrindo. Elisabeta tocou delicadamente o rosto da irmã. Mais uma vez as duas compartilhavam um segredo. Mais um de tantos. Elisabeta decidiu tomar um banho longo antes de ir dormir. Os efeitos do toque de Darcy ainda estavam presentes por todo seu corpo. E ao que tudo indicava não sairiam tão cedo.
•••
— Hum... Que sorriso mais contagiante. Acho que alguém viu um passarinho verde hoje. Ou será que foi ontem? — Charlotte encarou Darcy enquanto ele se aproximava para tomar café da manhã com ela.
— Bom dia para você também minha irmã. Vejo que acordou ótima! Vai à escola hoje? – Perguntou ele, dando um abraço carinhoso na irmã.
— Lá vem você desconversando... E então Darcy? Como foi a conversa com Elisabeta? Quando ela saiu do quarto eu já estava pegando no sono graças ao remédio que vocês me empurraram a força. Nem vi quando ela foi embora.
— Nossa! Quanto drama; quanta expectativa... Nós conversamos um pouco mais e então ela se despediu.
— Só isso? – Charlotte questionou, sentindo-se desapontada.
— Claro! O que mais você queria irmãzinha? — O olhar de Darcy para Charlotte foi um tanto desestimulante. Ela pensou que a ideia de deixá-los a sós poderia ter sido péssima e só piorado a situação deles. Dessa forma ela resolveu mudar de assunto antes que começasse a se sentir culpada.
— Não. Eu não vou à escola hoje. Ainda sinto dor de garganta. Não serei muito útil por lá.
— Pois então senhorita, continue em casa repousando. Essa poeira lá fora faz muito mal. Promete que não vai inventar de sair a cavalo por aí de novo enquanto não melhorar?
— Prometo! Não aguento mais ficar só em casa. Vou fazer o que for preciso para melhorar logo.
Darcy deu um beijo na cabeça de Charlotte e saiu apressadamente. Pensou em passar na escola e conversar com Elisabeta, mas imediatamente desistiu da ideia. Não queria apressar as coisas; embora estivesse obstinado a entender o que estava acontecendo entre eles e se aquilo tudo tinha futuro ou sentido. Mas sua consciência alertava que ele precisava dar um tempo. Precisava esperar alguma resposta dela. E a resposta veio mais rápido do que ele imaginava.
— Senhor Darcy Williamson?
Darcy acarinhou a cabeça do menino que se apresentou em sua frente. Em seguida recebeu o envelope no qual havia seu nome e, no verso as iniciais: EB.
Darcy sentiu seu coração arfar e um sorriso se formou instantaneamente eu sua face ao ler o conteúdo daquele bilhete.
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