"Darcy,


Pensei bastante antes de escrevê-lo. Pensei que talvez estivesse sendo precipitada, e o senhor poderia me achar uma louca por isso. Mas o fato é que ontem à noite quase não consegui pregar os olhos pensando em... nós. Acho que temos algumas coisas pendentes. Se não for um inconveniente, estarei te esperando na escola no final da aula de hoje.

Um beijo,

Elisabeta.”


Darcy passou alguns minutos apreciando aquela bela caligrafia. Era impossível esconder a euforia que invadia gradativamente seu peito ao ler aquelas linhas. Posteriormente, guardou o bilhete no bolso do paletó e rumou até o escritório que dividia com sua sócia. O dia seria intenso e de muito trabalho. Com a volta de Julieta à São Paulo, ficou a cargo de Darcy levar adiante as negociações das compras de terra, um plano que estava fadado ao fracasso, ele tinha plena certeza disso. Mas a Rainha do Café insistia que aquela seria a única alternativa que eles tinham para ampliar os negócios na cidade. Quando Darcy chegou à sala, Susana estava devidamente acomodada, à sua espera. Ela parecia mais entusiasmada do que nunca.


— Darcy, meu querido, que bom que você chegou. Tenho uma excelente notícia para lhe dar! — Disse Susana, aproximando-se dele e tocando-lhe o ombro. Darcy apenas encarou a mão dela, retirando-a dali.

— Pode falar Susana. Notícias boas são sempre bem — vindas! — Respondeu educadamente, afastando-se dela.

— Um dos produtores que visitamos entrou em contato e nos fez uma interessante proposta: negociar parte de suas terras. Eu marquei uma reunião para hoje. Estou sentindo que sairemos de lá satisfeitos e com negócio fechado. Depois de conhecer o "louco da espingarda" achei que o retorno de algum deles seria improvável. Mas fui agradavelmente surpreendida.

Darcy, que estava sentado levantou-se abruptamente. Em seguida levou uma das mãos até a testa. Essa atitude demonstrava que algo não lhe caía bem.


— Hoje? Que horas? – Perguntou ele. O rapaz começou a se sentir levemente preocupado com a ideia. Reuniões de última hora eram sempre desagradáveis, e quando ele tinha um compromisso importante, a situação piorava ainda mais.


— Durante toda a manhã e talvez boa parte da tarde. Afinal de contas a fazenda fica bem longe daqui.

— Susana... Eu não posso comparecer a essa reunião. – Disse ele, diretamente.

— Ora, e por que não? – Questionou ela, arqueando uma das sobrancelhas.


— Porque... — Darcy interrompeu a fala por alguns segundos. Ele não podia expor à Susana suas razões. Mas ao mesmo tempo seria irresponsabilidade dele não comparecer à reunião. — Eu tenho um compromisso importante com... com Charlotte. Vou à reunião mas precisarei me retirar antes.

— Está bem. — Apesar de acatar a justificativa, ela demonstrou estar desconfiada, pois estava percebendo Darcy agir de maneira atípica. — O importante é que você compareça. Entrarei em contato com Camilo e solicitarei a presença dele também. Não senti muita segurança naquele rapaz, mas Julieta insiste que ele esteja presente em tudo. Fazer o quê não é? – Perguntou ela, antes de dar uma risada sarcástica.


— Não seja precipitada Susana. O garoto está apenas começando. Dê um pouco de tempo a ele.

Susana assentiu e começou a apresentar a Darcy algumas estatísticas sobre as terras que eles estavam prestes a adquirir. Esse era o momento preferido dela. Pois nessas ocasiões ela nunca perdia a oportunidade de estreitar a distância física entre os dois. Aproveitando o fato de Darcy estar sentado na poltrona, ela resolveu colocar seu braço ao redor do pescoço dele. Inclinava o corpo mais do que o necessário e se exibia exorbitantemente. Darcy sentia-se desconfortável com a situação. As atitudes de Susana eram completamente humilhantes, pois ele não demonstrava o menor interesse nela. Ao contrário. Fazia de tudo para afastá-la. Mas ela parecia uma pedra em seu sapato.

As horas passaram-se rapidamente. Darcy, Susana e Camilo pareciam empolgados com as propostas apresentadas pelo produtor. Os resultados eram benéficos para ambas as partes. Darcy pensou no que Elisabeta havia dito semanas antes. Que os pequenos produtores eram irredutíveis e que eles deveriam mudar de estratégia. Por um momento ele tentou imaginar a reação dela ao saber daquela novidade. Darcy olhava compulsivamente para o relógio. Precisava dar seu jeito de sair dali. Elisabeta provavelmente já estava o esperando. Susana tentou segurá-lo por mais alguns minutos na reunião, mas o rapaz estava decidido a se retirar, assegurando que Charlotte estava à sua espera. Depois de muita relutância, Darcy conseguiu se despedir de todos, pegar seu cavalo e voltar à cidade o mais rápido que pôde.

•••


Elisabeta colocou uma das mãos acima dos olhos, na tentativa de bloquear a claridade dos raios de sol de meio-dia. A sua frente ela pôde avistar Darcy se aproximando, lentamente. Naquele momento a escola estava completamente silenciosa e vazia. A garotada já havia ido embora e só restava ela ali, sentada em um degrau, com alguns livros sobre os joelhos, esperando. Esperando sem saber se ele iria. Sem saber sequer se ele havia recebido seu recado. Darcy estava com as mãos para trás. Parecia esconder algo.


— Oi. — Disse ele. — Eu juro que sou pontual. Mas tive um imprevisto no trabalho, me desculpa? — Darcy fez uma careta divertida, formando leves expressões em seu rosto.

— Não tem problema. – Disse ela, timidamente. – Que bom que você veio.

Elisabeta colocou os livros no chão e levantou-se, ficando frente a frente com Darcy, mantendo ainda certa distância. Darcy fez questão de “quebrar” essa distância aproximando-se dela; examinando seu rosto minuciosamente, tocando-o com delicadeza. Era impossível não reparar o quanto seus olhos eram lindos. Um verde intenso e hipnotizante. Um brilho indescritível que ornava perfeitamente com seu sorriso aberto. Elisabeta sentiu sua perna tremer quando Darcy a abraçou. Ela pôde sentir novamente seu cheiro. Um cheiro que permaneceu com ela durante toda a noite anterior.


— Trouxe isto para você. Achei que seria totalmente deselegante aparecer em nosso primeiro “encontro” de mãos vazias. – A voz de Darcy era tranquila e suave.


— É linda! — Elisabeta aproximou a rosa para sentir o aroma. Fechou os olhos e um sorriso invadiu sua face – A rosa vermelha é a minha favorita.


Os dois se olharam ternamente por alguns instantes. Então Darcy segurou as mãos de Elisabeta, fitando-a. Ambos tinham muita coisa para dizer um ao outro. Darcy pôde perceber que Elisabeta estava inquieta para começar a falar. Mas ele precisou dizer algo antes:


— Acho que nós dois ficamos ligados ontem de alguma forma. Porque eu também não consegui pregar os olhos um segundo sequer. Se estar apaixonado é estar maluco, eu sou o maluco mais feliz do mundo inteiro Elisabeta.

— Pois somos dois malucos, Darcy. Eu nunca me senti assim antes. Você me transformou numa boba apaixonada, sabia?

— Apaixonada? – Perguntou, arregalando os olhos.

— Sim! Completa e absurdamente apaixonada.


Darcy aproveitou o fato de estar segurando a mão de Elisabeta e então a puxou para mais perto de si, de modo que ambos os narizes se encontraram. Elisabeta riu, envolvendo os braços ao redor do pescoço dele. Havia um forte magnetismo entre os dois. Darcy inclinou o rosto e tocou levemente os lábios dela. Era impossível para ele descrever a sensação de senti-la tão perto novamente.

— Elisa... – Darcy cessou o beijo, mantendo sua testa colada à dela. – Você e Morland...

Elisabeta afastou o rosto dele com as mãos, podendo observá-lo melhor.

— Acabou. John e eu não estamos mais juntos.

Darcy parecia incrédulo. Imaginava escutar tudo, menos aquilo.

— Mas vocês...

Elisa o interrompeu, continuando a explicar...

— Nós vivemos uma história. Ele fez parte de um momento muito importante da minha vida. Mas nós nos perdemos no caminho. Nos perdemos porque os objetivos e anseios dele estavam muito acima dos meus. Eu não tive escolha, não tinha como sustentar aquilo. – Elisabeta abaixou a cabeça, tentando conter algumas lágrimas. Darcy segurou delicadamente o queixo dela, tentando visualizar seus olhos. Em seguida a abraçou, buscando aliviar a tristeza que invadiu sua alma momentaneamente. – Então você apareceu na minha vida; como um divisor de águas. Mexendo com meus sentimentos, com minhas convicções. – Darcy direcionou seu olhar para ela.

— Eu sei que não é fácil. Mas eu estou aqui, com você! – Darcy depositou um beijo na testa dela. Nesse mesmo instante ela fechou os olhos, e o abraçou mais fortemente. Apertando os braços dele contra si com mais intensidade.

— Fica para sempre? – Elisabeta levantou o rosto, buscando o olhar dele. – Eu te amo, Darcy.

Darcy sorriu. Profundamente emocionado.

— Eu também te amo, Elisabeta. Desde o primeiro olhar.

Darcy a colocou nos braços e a levou até seu cavalo, que estava amarrado em uma árvore próxima de onde ambos estavam. Os dois seguiram juntos para um lugar onde a tristeza não tinha vez.