Charlotte mal podia conter a emoção ao terminar de se vestir. A garota se olhou no espelho alguns instantes a mais antes de deixar o quarto. Darcy esperava a irmã no andar de baixo, impaciente. Olhou o relógio de bolso, três vezes seguidas. Percebeu que o carro de praça estava prestes a chegar e nada da menina aparecer. Quando Charlotte finalmente se aproximou, ele pediu que ela desse uma volta; estava incrivelmente bela, com o sorriso radiante e o olhar esperançoso novamente. Darcy também estava elegante, embora se sentisse desconfortável usando o traje social completo. A roupa e a cor da gravata haviam sido escolhidas sob a supervisão de Charlotte. Terno preto, gravata vermelho bordô com listras transversais finas e brancas. Ela examinou o irmão por alguns segundos. “Você está arrebatador!”, disparou ela. Dando uma piscadela e deixando Darcy corado.

Minutos depois o carro chegou e ambos partiram rumo à mansão Benedito. Era absurdamente estranho para Darcy engolir a ideia de ir àquela festa. Apesar de nutrir forte admiração por Felisberto Benedito, o rapaz não tinha contato com aquele senhor. O máximo de interação que ambos haviam tido não passavam de breves cumprimentos em escassas reuniões de negócios que presenciaram. Conhecia menos ainda a respeito dos demais integrantes da família; apenas sabia que o homem tinha cinco filhas e uma esposa. Havia visto Ofélia e as quatro irmãs Benedito em alguns eventos sociais. E a outra filha, Elisabeta, havia cruzado seu olhar pela primeira vez outro dia, não tão distante, na paróquia. A moça passou pelo corredor como um furacão, veloz. Não sabia nada a respeito dela, apenas que ela se interessava pelas coisas da cidade, pelos menos favorecidos; ao menos fora essa primeira impressão que ela deixou transparecer para ele naquele dia.

•••

Antes que pudesse pôr um dos pés no degrau da propriedade, Darcy sentiu uma mão tocar-lhe o braço. Virou-se abruptamente e deu de cara com Susana Adonato, sua sócia. Ela estava, como de costume, vestida de maneira provocativa. Ou era seu eterno estilo? Charlotte imediatamente revirou os olhos ao observar o rosto da mulher se aproximar do rosto do seu irmão, para lhe dar um beijo na bochecha. Os cumprimentos de Susana eram demasiadamente abusivos. Sem muita cerimônia, a mulher entrelaçou seu braço ao de Darcy, fazendo sinal com a cabeça para que os três seguissem em direção à porta principal. Charlotte sentiu seu estômago revirar com a cena. O movimento na mansão dos Benedito foi se intensificando pouco a pouco. Bebidas e petiscos eram servidos para todos os lados. A festa presumia ser farta e agradável.

Logo que adentrou na sala de visitas, Susana pegou uma taça de champanhe do primeiro garçom que passou por sua frente. Darcy antecipadamente sentiu-se preocupado. Iria aquela dama se exceder nos drinques e dar algum vexame durante o evento? Sacudiu a cabeça tentando se livrar daqueles pensamentos negativos voltando, então, sua atenção para a escadaria de onde desciam gradativamente as garotas Benedito, em fileira. Uma vestia rosa, esbanjando simpatia; a outra vestia verde e exibia um sorriso tímido, porém encantador; a de trás vestia laranja, era vivaz e mostrava todos os dentes num só sorriso; e a última vestia azul, sorria discretamente e acenava para os convidados de forma contida. Susana fez um comentário deselegante a respeito da tradição das meninas com relação a seus figurinos. Darcy e Charlotte fingiram que não haviam escutado. Naquele momento, algo de maior importância chamara a atenção de Darcy, pois nenhuma daquelas moças era a que ele, mesmo sem entender, esperava ansiosamente avistar. Felisberto e Ofélia apareceram logo atrás das meninas. O casal se aproximou dos convidados, cumprimentando um a um. As meninas aos poucos se afastaram uma das outras. Cecília parecia procurar alguém em meio à multidão, provavelmente Rômulo; Lídia trocava olhares provocativos com alguns oficiais que circulavam por ali; Mariana permaneceu conversando com Jane; certamente tentando avistar o tal rapaz interessante que por ventura poderia aparecer. A música era agradável, a comida também. Darcy e Charlotte só não podiam dizer o mesmo da conversa que mantinham desde que chegaram à festa. Susana era, definitivamente, uma desagradável companhia. Alguns momentos depois, Ofélia, fazendo uso de sua voz proeminente, fez um breve discurso sobre a razão de ser daquela reunião. Os convidados aplaudiram por cerca de um minuto. A causa era nobre, nobríssima.

Alguns momentos depois, a matriarca solicitou a presença de Elisabeta ao centro da sala. A moça, portando um belíssimo vestido vermelho com detalhes em renda e os cabelos presos em um coque baixo aproximou-se lentamente da mãe. Diferente dos demais Benedito, ela já se encontrava naquele andar a algum tempo. Provavelmente em um dos cômodos vizinhos. Ela estava de mãos dadas com John. O rapaz parecia mais nervoso do que o normal. Ele passava as mãos nos cabelos compulsivamente. Elisabeta desprendeu-se da mão do namorado e segurou a mão de Ofélia. Em seguida, falou algumas palavras que havia ensaiado durante quase todo o dia. Nunca se considerou muito boa para fazer discursos em público. “Empatia”, “inclusão”, “progresso”, “respeito”, “futuro”; foram algumas das palavras que nortearam sua fala. Susana assistia ao pronunciamento com cara de enfado. Charlotte parecia completamente encantada, concordando com cada palavra que saía da boca de Elisabeta. Darcy parecia atônito. Parecia atônito desde o momento que vira Elisabeta se aproximar de mãos dadas com aquele homem. Um homem que fez questão de permanecer ao lado dela; fixo tal qual uma parede, olhando para ela com deslumbramento, com verdadeira devoção.

Quem seria ele? Um primo? Um amigo? Mais um sócio da família? Muitos parentescos surgiram em sua mente, mas ele evitava cogitar, a todo custo, a possibilidade dele ser namorado, noivo ou esposo dela. A opção esposo ele descartava, pois nenhum dos dois usava aliança alguma. Céus, o que estava acontecendo? Por que ele estava se martirizando daquele jeito? Mal a conhecia e não encontrava razões plausíveis para se sentir daquela maneira. Aquilo nunca havia lhe ocorrido antes. Sua curiosidade com relação ao parentesco do rapaz permaneceu intacta até poucos segundos depois; quando Elisabeta terminou de falar e beijou discretamente o homem que estava ao seu lado. Eles deram as mãos novamente, entrelaçando os dedos. Mantinham um sorriso cúmplice nos lábios. Darcy engoliu em seco; precisava de outra taça de champanhe urgentemente.

— Darcy! – Charlotte estava a alguns segundos chamando a atenção do irmão. Enquanto isso Susana o observava, com desconfiança. Darcy parecia distante, perdido em seus próprios pensamentos. O rapaz estava paralisado, olhando fixamente para Elisabeta e, ao que tudo indicava... para o namorado dela

. “Descoberta número um: Elisabeta Benedito era comprometida.”

— Meu Deus! Nunca o vi tão absorto. Terra chamando Darcy Williamson. – Charlotte continuava falando. Por alguns momentos Darcy sentiu vontade de sair do salão. Ir até o jardim, buscar um ar diferente daquele. Algo o sufocava; ou talvez a gravata parecesse mais apertada do que o normal. Ele não conseguia compreender o que estava acontecendo. Voltando a si, lentamente, direcionou o olhar para as duas mulheres que estavam ao seu lado.

— Acho que a bebida está começando a surtir algum efeito negativo sobre mim... – Foi o mínimo que ele conseguiu dizer, encarando a taça em sua mão.

— Darcy, meu querido! Você apenas degustou duas taças de champanhe. Já bebemos juntos — várias vezes— tenho certeza de que sua sobriedade segue intacta.

— Pela primeira vez tenho que concordar com Susana, Darcy. É muito mais fácil eu me embriagar com esta taça de suco, do que você com essas duas de champanhe. – Ela sorriu, tocando de leve o braço do irmão.

O rapaz balançou a cabeça, desta vez desviando o olhar de Elisabeta. Estava a um fio de ser descoberto. Mas descoberto de quê? Ele não tinha resposta para essa pergunta. Pois nem ele mesmo sabia decifrar seus sentimentos. Darcy foi surpreendido com a voz de Charlotte:

— Olha só, Elisabeta Benedito é belíssima! Estou me segurando para ir até ela, lhe agradecer por trazer as aulas de volta à escola. Mas ela é tão requisitada... há tantas pessoas a sua volta. E ela atende a todos com tanta presteza. Essa mulher nem é gente, é anjo.

Darcy podia concordar plenamente com aquela constatação. Susana apenas revirara os olhos; “quantos exageros em uma frase só”, pensava ela.

•••

Não foi necessário que Charlotte se dirigisse até a anfitriã da festa. Elisabeta se aproximava em passos ligeiros. Ela estava com o padre Carlos ao seu lado. O religioso apontava para Charlotte; parecia estar falando algo sobre a moça à senhorita Benedito. Algo bastante positivo, inclusive, pois Elisabeta mantinha um sorriso nos lábios. Darcy sentiu um frio percorrer sua espinha, subitamente. Aquela sensação, completamente desconhecida, estava assombrando-o. Susana institivamente segurou o braço de Darcy; como se quisesse protegê-lo de uma predadora. Uma predadora de vestido longo rubi e olhos esverdeados. Darcy queria se esquivar. Odiava o modo invasivo com que Susana o tocava, mas em seguida resolveu compactuar com o ato; ao menos isso o entreteria de pensar nas sensações que seu corpo começara a apresentar com a presença tão próxima daquela moça, que o desconcertava completamente. O perfume de Elisabeta era de um aroma intenso, agradável e inebriante. Seus modos eram delicados e completamente encantadores.

— Estes são os irmãos Darcy e Charlotte Williamson, senhorita Elisabeta. Ambos são bastante dedicados nas ações que desenvolvemos aqui na cidade. – Padre Carlos fez a gentileza de apresentá-los, esquecendo-se completamente de citar Susana Adonato. A mulher, sentindo-se despeitada, prontamente estendeu a mão para Elisabeta, antes que os outros dois o fizesse.

— Acho que já nos conhecemos de vista. – Susana ponderou, segurando de leve a mão de Elisabeta e mantendo um sorriso falso. – As meninas Benedito são muito famosas aqui na cidade.

— Creio que sim... passei um bom tempo fora, mas seu rosto não me parece desconhecido... – Elisabeta soltou a mão de Susana com delicadeza, direcionando a atenção para Charlotte. A menina sorria para ela, completamente encantada.

— Senhorita Charlotte, ouvi ótimos comentários a seu respeito. Suponho que seremos boas colegas de trabalho. – Elisabeta cumprimentou a menina, com um firme aperto de mão.

— Farei o possível para não desapontá-la senhorita Benedito. Mal vejo a hora de darmos início aos trabalhos.

Por um momento Darcy desejou, profundamente, possuir a postura firme e determinante que sua irmã apresentava falando com Elisabeta. Nunca foi de se sentir acuado diante de uma presença feminina. Não até conhecer Elisabeta Benedito.

— Você não vai cumprimentar a moça, Darcy? – Charlotte perguntou, quebrando o breve silêncio e desestabilizando ainda mais o irmão. Darcy então soltou o braço de Susana, ficando frente a frente à Elisabeta.

— É uma honra conhecê-la, senhorita Benedito. – Darcy curvou-se a ela, segurando a mão dela e levando-a a centímetros de sua boca.

— Como é mesmo o seu sobrenome? – Ele certamente esperava uma resposta mais gentil da moça. Talvez um: “É um prazer conhecê-lo também, Sr. Darcy”.

“Descoberta número dois: Elisabeta Benedito era incrivelmente imprevisível.”

— Williamson. Chamo-me Darcy Williamson. – Disse ele, soltando a mão da dama e voltando à sua postura normal. Darcy era absurdamente alto. Possuía uma presença que, a primeiro momento, intimidava. Principalmente a alguém de estatura não tão expressiva, como era o caso de Elisabeta.

— Que interessante. – Interessante? Ele? O que ela queria dizer com aquilo? A ansiedade de Darcy fez com que sua cabeça criasse diálogos bobos e fantasiosos, a partir daquela prévia afirmação. – Eu pesquisei por bastante tempo a origem da sua família. Os Williamson e sua intensa participação no início da Revolução Industrial inglesa. O senhor não imagina quanto tempo fiquei submersa na história de seus antepassados. Apesar das noites em claro, o trabalho me rendeu uma nota agradável no meu último período acadêmico. – Darcy escutava as palavras de Elisabeta completamente deslocado. Susana parecia perdida e desinteressada na conversa.

— Esses foram os tempos de glória dos Williamson, senhorita. Um passado absurdamente distante. – Darcy pensou bem no rumo que aquela conversa seguiria caso ele entrasse no assunto da quase falência. Dessa forma, resolveu limitar-se a emitir um único comentário. – Hoje as coisas são bastante diferentes. Minha geração trocou as máquinas pelos grãos de café.

Elisabeta sorriu. E, com aquele sorriso e uma breve reverência afastou-se deles. John a esperava do outro lado da sala. O rapaz segurou-lhe a mão, com cumplicidade. Parecia querer conduzi-la para uma dança. Estranho. Aquilo não era um baile. Não havia pista, nem nada. Era apenas uma festa de negócios. Tudo pareceu fazer sentido quando Darcy viu Elisabeta se mover graciosamente por aquele espaço improvisado que em pouco tempo parecia ideal para uma dança. O vestido de Elisabeta se movia no mesmo ritmo em que seus passos perdiam a timidez. “Descoberta número três: Elisabeta Benedito era uma excelente bailarina.”

A moça parecia flutuar como uma pluma. Uma pluma que se distanciava cada vez mais da realidade de Darcy Williamson. Ele pôde constatar isso ao observá-la sorrir para o namorado, mais uma vez. Elisabeta literalmente esbanjava felicidade. E Darcy desejou, nem que fosse por um segundo, ser o motivo dela.