As coisas pareciam estar sob controle na festa, exceto para Darcy e Charlotte. Susana estava começando a ficar bastante alegre; daquela etapa para um show de deselegância bastava um piscar de olhos. Darcy tomou a iniciativa de soltar a oitava taça de champanhe da mão de Susana. Nas suas contas aquela podia ser a décima; o comportamento desorientado dela também indicava isso. Susana era um tipo de pessoa que não sabia se controlar quando se empolgava na bebida. O efeito do álcool rapidamente subia à sua cabeça, e então ela começava a proferir frases e palavras sem sentido algum. Ao perceber os pares começarem a dançar; Susana pôs as mãos ao redor do pescoço de Darcy, na intenção de dançar com ele. Ela estava se desequilibrando, quase não conseguindo manter-se de pé.

— Não Susana definitivamente nós não iremos dançar. – Darcy começou a se sentir constrangido com o comportamento daquela mulher. Os olhares curiosos pareciam se intensificarem sobre eles. Charlotte, por àquela hora, já não fazia esforço algum de esconder sua cara de desaprovação.

— Acho que por hoje já deu, não é mesmo? – Disse a menina, olhando seriamente para o irmão. Darcy assentiu com a cabeça, fazendo esforço para sair dali sem chamar muita atenção. O que parecia ser impossível.

— Às vezes eu tenho a sensação de estar lidando com uma criança, não com uma mulher madura e...

— Chega Darcy! Você não é meu pai para me repreender dessa forma. Poderia ser meu marido. Mas você não quer... – Susana o interrompeu, passando a mão pelo colarinho da camisa de Darcy. Ambos estavam no automóvel de aluguel. Darcy deu sinal para que o motorista seguisse viagem. Charlotte por um segundo sentiu vontade de sair daquele carro. O que presenciou na festa havia sido suficiente. Mas Darcy insistiu para que ela ficasse. As coisas não mudaram muito durante o percurso. Susana prosseguia falando asneiras; Darcy tentava controlá-la e Charlotte tapava os ouvidos. Primeiro Darcy deixou Susana em casa, ficando sob os cuidados da empregada, Petulia. Em seguida voltou para casa com a irmã.

•••

O corredor estava parcialmente escuro e silencioso. Exceto pelo barulho oriundo de um dos quartos daquele andar da mansão. A porta rangeu e pouco a pouco as Benedito foram se agitando. Lídia fora a primeira a se levantar e colocar a cabeça para fora do quarto. Em seguida, Cecília fez a mesma coisa; Jane e Mariana fitavam as duas irmãs, do outro lado do corredor, pelo canto da porta.

— Parece que Elisabeta recebeu uma visitinha. – Comentou Lídia, em um cochicho.

— Pode ter sido a mamãe, para dar um beijo de boa noite. – Jane acrescentou, tentando amenizar as tensões.

— Pode até ser, mas eu estou curiosíssima por descobrir. – Mariana exclamou, roendo as unhas.

— E se for um bandido? Tudo agora parece muito silencioso e calmo minhas irmãs. Mamãe não permaneceria quieta por tanto tempo assim. Será que Elisabeta foi amordaçada? Será que está à mercê de algum criminoso? – Cecília começou a agitar-se e a criar diversas teorias malucas.

— Estamos no Vale do Café, Cecília. E não dentro de um romance gótico que você tanto gosta. Acho que a senhorita anda lendo Udolpho demais. – Replicou Lídia, revirando os olhos.

Após alguns minutos, as meninas tiveram um sobressalto ao perceberem que a porta do quarto de Elisabeta se abrira novamente. Ambas entraram rapidamente em seus quartos, mantendo o olhar atento para o lado de fora, através da fresta da porta. A sombra de um rapaz era revelada em uma das paredes. As meninas se entreolharam, soltando cochichos e risadas nervosas.

— Eu sabia, eu sabia! – Exclamou Lídia ao constatar que a pessoa que estava no quarto era exatamente quem ela intuía desde o início do mistério.

— E agora, o que fazemos com a informação? – Mariana perguntou, em meio a um bocejo.

— Podemos guardá-la e voltarmos aos nossos aposentos. Hoje foi um dia bastante exaustivo. – Decretou Jane.

— Eu concordo com Jane. – Exclamou Cecília em um tom discreto.

—Não sei vocês, mas eu vou agora mesmo fazer uma visita de cortesia à Elisabeta. – A garota saiu caminhando na ponta do pé. As outras irmãs pediam que ela voltasse, mas Lídia deu de ombros. As meninas resolveram, então, segui-la. Embora desaprovando a ousadia da caçula.

Elisabeta abriu a porta e encarou Lídia severamente. Seu olhar demonstrava irritação.

— Posso saber o que a senhorita deseja dona Lídia? – A irmã mais velha estava com as duas mãos sobre a cintura e mantinha a expressão séria. Lídia sabia perfeitamente o significado daquilo; Elisabeta estava extremamente chateada.

— Eu fiquei muito preocupada com você. Ouvi barulhos esquisitos vindo daqui. – A menina se defendeu, percorrendo o olhar por todo o cômodo.

— Até parece que eu não te conheço, não é? Vamos. Volte já para o seu quarto! Não há problema algum aqui e eu estou ótima. – Disse Elisabeta, empurrando apressadamente a irmã.

Ao se aproximar da porta, Elisabeta se surpreendeu novamente ao dar de cara com suas outras três irmãs. Elas pareciam completamente envergonhadas e arrependidas.

— Ora, ora! Então há cúmplices?

As meninas estavam constrangidas. Ambas olhavam fixamente para Elisabeta. Um silêncio significativo pairou naquele lugar.

— Vocês não acham que estamos muito grandinhas para brincarmos de festa do pijama? – Elisabeta fez uma careta.

— Dizem que a criança interior nunca morre. – Jane respondeu e todas as outras assentiram, em cumplicidade. Elisabeta fez um sinal com o olhar, indicando que todas podiam entrar em seu quarto.

— Elisabeta você não pode fugir! Sua sentença foi decretada. Vamos, diga. Você e John estavam a sós aqui. Não adianta negar! – Lídia parecia bastante à vontade em suas palavras. Sem imaginar que Elisabeta estava morrendo de vontade de lhe dar uns bons cascudos pela audácia.

As meninas estavam todas sentadas na cama, conversando como nos tempos passados.

— Quer dizer que agora eu tenho espiãs. Que agradável... Qual será o próximo passo? Me seguir e me vigiar em todos os lugares? – Elisabeta tentou manter a seriedade, mas ao encarar aqueles olhares ingênuos e curiosos, sorriu.

— Não, Elisa! Foi tudo uma grande coincidência. Jamais invadiríamos sua privacidade dessa forma. – Disse Jane. Havia sinceridade no olhar da moça.

— Exatamente. A menos que a senhorita queira compartilhar alguns segredinhos por livre e espontânea vontade. Somos todo ouvido. – Lídia não percebia que já estava esgotando sua cota de atrevimento.

— Não há segredo algum, meninas! John veio até aqui pra me desejar boa noite; conversamos um pouco sobre o quão agradável foi a festa que idealizamos, e só. – Disse Elisabeta, tranquilamente.

— Que fofinhos. – Cecília derreteu-se.

— Desculpe desapontá-las. Sei que essas cabecinhas salientes imaginaram outras coisas. – Elisabeta fitou as irmãs com desdém.

— É que... Você e John estão juntos há tanto tempo... Sempre estiveram livres dos olhares incisivos da mamãe. E... – Mariana começou, sendo interrompida precocemente.

— E nada! John e eu ainda estamos no primeiro passo. Nunca aconteceu nada demais. Aliás, quase. – Elsiabeta riu, de maneira travessa, cobrindo o rosto com o travesseiro.

— Ah, chega de suspenses por hoje. Você vai ter que contar essa história de quase. – A curiosidade de Lídia era algo exorbitante.

— Universidade, fim de semana, festa, bebidas, comemoração de notas boas... Extrapolamos um pouco e tive que expulsá-lo do meu apartamento. Não estava preparada para aquilo... – Elisabeta parecia se divertir ao relembrar o fato, embora colocasse as mãos sobre o rosto, demonstrando constrangimento. Sua face já começava a ruborizar. – Não queria que, no dia seguinte, nem ele nem eu não nos lembrássemos de nada que havia acontecido na noite anterior. Isso aconteceu apenas uma vez. Depois desse episódio nunca mais me excedi na bebida, e consequentemente, nossos corpos nunca mais ficaram, digamos, tão calientes. Foi a primeira e última vez que passamos um pouco do limite.

— Uau. – Jane parecia surpresa com a afirmação da irmã. Aquilo definitivamente havia sido ocultado de suas correspondências.

— Eu quero que, quando acontecer, seja algo especial. Vocês sabem que casamento é uma coisa que não está nos meus planos mais urgentes. Se por acaso eu me sentir preparada antes, pode ser que aconteça. – As meninas olharam para Elisabeta com perplexidade. Todas sabiam que ela tinha a cabeça aberta, mas aquela Elisabeta estava bem mais à frente de seu tempo do que elas imaginavam.

•••

Se fosse possível, Darcy preferiria esquecer aquela noite fatídica. Esquecer o fardo chamado Susana Adonato; esquecer os olhares curiosos em torno dele e, por fim, esquecer o fato da moça que invadia seus pensamentos ser comprometida. De toda aquela lista de descartes, o último item parecia o mais complexo de ser alcançado. A lembrança de Elisabeta Benedito de mãos dadas com Morland, o momento em que os lábios dela encontraram-se com os dele; sua vivacidade e seu sorriso transparente enquanto rodopiava por todo o salão nos braços do namorado não saía de sua memória. Darcy encarava o teto do quarto; estava esparramado na cama vestido, ainda, em trajes sociais. Sentia a cabeça latejar um pouco e o corpo pesar. Ao fechar os olhos ele podia rever, claramente, as cenas se repetindo como um filme. Em toda a sua vida ele jamais se lembra de ter vivenciado algo parecido. Seus sentimentos e relacionamentos sempre foram bastante condizentes com sua maneira de enxergar o mundo e as pessoas ao seu redor: de forma racional e categórica. Não entendia como, em menos de uma semana, podia se ver completamente rendido por alguém que mal conhecia. Darcy Williamson havia se encantado por uma moça à primeira vista. Era completamente estranho digerir aquela constatação. Que espécie de feitiço Elisabeta Benedito possuía? Essa pergunta rondava sua cabeça compulsivamente. Antes daquela festa havia uma ponta de esperança de aproximação por parte do rapaz. Mas após o choque de realidade que sentira aquela noite, uma frustração invadiu sua alma. Precisava decididamente arrancá-la de seus pensamentos. Elisabeta parecia apaixonada pelo namorado. Ou pelo menos os seus modos denunciavam a hipótese. Há quanto tempo estariam juntos? O relacionamento deles parecia tão sólido. Às vezes Darcy se sentia infantil por levantar aquelas hipóteses e preferir se afastar da moça à manter uma possível amizade com ela. Mas ao mesmo tempo questionava-se se seria firme o suficiente para encará-la de uma forma que seu olhar não o traísse e não denunciasse seus sentimentos. Sentimentos que nem ele mesmo compreendia. E que, a cada novo encontro, parecia se intensificar cada vez mais em seu interior.

•••

“Vamos, você não é mais um adolescente de 15 anos; é um adulto emocionalmente equilibrado”, Darcy mantinha um diálogo interno enquanto dirigia-se com Charlotte até as instalações onde as aulas aconteciam. Durante o percurso a menina tagarelava ininterruptamente. Falava sobre sua ansiedade, sobre as atividades que havia elaborado para aplicar naquele dia, sobre o entusiasmo por começar a trabalhar ao lado da senhorita Elisabeta. Elisabeta... De maneira súbita a atenção de Darcy se voltou completamente para a irmã; apenas por o fato de ouvir o nome da mulher que roubava seus pensamentos. Darcy tinha visto o rosto de Elisabeta Benedito de perto pela primeira e única vez há duas semanas, na festa. Desde então aquela imagem permaneceu grudada em sua mente, aonde quer que ele fosse. Parecia uma fixação. Se os amigos da faculdade de Darcy soubessem o que estava acontecendo com ele, diriam que a aposta havia sido ganha: uma mulher havia lhe roubado o coração. Ele ainda relutava para digerir a ideia, mas quanto mais o tempo passava, a vontade de estar perto dela, de conhecê-la melhor, de observar e se perder dentro do seu olhar, crescia a cada momento.

— Bom dia senhorita Elisabeta! – Charlotte cumprimentou-a. O sorriso que Elisabeta deu fez o coração de Darcy errar as batidas. – Conforme combinado cá estou eu, pontualmente às sete.

As duas trocaram um abraço. Se não soubesse da história, Darcy podia jurar que ambas eram amigas de longa data.

— Bom dia senhorita Charlotte. Vejo que nós duas caímos da cama hoje. Será a ansiedade?

— Provavelmente sim! Lá em casa sempre é Darcy quem me acorda; especialmente hoje fui eu quem o acordei. – Elisabeta e Charlotte encararam Darcy, que permanecia de pé, com as mãos no bolso observando-as.

— Eu não sei como é a experiência de ter um irmão, mas dizem que em geral eles são sempre bastante controladores. – Elisabeta sorriu e olhou para Darcy. O rapaz continuava calado, mas podia sentir o rosto arder perante tal comentário. Elisabeta achava-o controlador?

— Digamos que somos um pouco cuidadosos além da conta. – A voz de Darcy era serena e, ao mesmo tempo, séria. – Acho controle uma palavra um tanto inadequada.

— Desculpe Sr. Darcy, não foi minha intenção julgar a relação de vocês... – Elisabeta sentiu o rosto corar; aquilo sempre acontecia quando ela ficava nervosa ou constrangida perante alguma situação embaraçosa.

— Não se desculpe senhorita, eu entendi perfeitamente o que quis dizer. – Respondeu Darcy, sem entender como aquela conversa inicialmente agradável tinha ido parar naquele desconforto. – Charlotte, por exemplo, é uma menina muito independente. Eu prezo muito pela segurança dela, me preocupo quando ela sai de casa, dou muitos conselhos, mas mesmo se quisesse, sei que nunca teria a chance de controlá-la. – Darcy encarou a irmã trocando um olhar cúmplice com ela.

— O senhor se sentiu ofendido com meu comentário? Se sim, não fiz por mal. – Elisabeta sentiu seu humor mudar. De envergonhada a constrangida. Sempre se considerou cautelosa com as palavras, mas sentia que o comentário dirigido à Darcy havia sido fora do tom.

— De maneira alguma senhorita. A propósito, o que foi que disse mesmo? Já não consigo me lembrar... – Darcy passou a mão pela cabeça; jamais imaginou que estaria fazendo brincadeiras com aquela que, a pouco tempo, era a mulher que fazia seus pensamentos se confundirem por completo.

— Eu acho que é melhor não lembrarmos. – Ela enfim sorriu. E ele lhe sorriu de volta.

— Onde posso guardar essas coisas senhorita Elisabeta? – Charlotte quebrou o silêncio que havia se instalado naquela sala; Darcy e Elisabeta desviaram o olhar um do outro. Charlotte carregava duas sacolas contendo livros e material escolar. Elisabeta apontou para alguns armários que estavam no interior da sala de aula vizinha. Charlotte fez uma reverência e se dirigiu até lá.

— Bom, acho que já cumpri minha obrigação. A jovem voluntária está entregue. – Darcy permanecia de pé, encarando Elisabeta de forma enigmática, como se estivesse tentando descobrir algo a respeito dela.

— E eu agradeço imensamente. Charlotte apesar de jovem tem bastante experiência neste lugar. Vai me ajudar muito. Acho que seremos uma ótima dupla.

— E eu estarei torcendo pelo sucesso das duas. – Darcy mantinha um sorriso torto. Ela lhe retribuiu um sorriso aberto. Talvez um dos mais bonitos que ele lembra ter visto em toda a vida. Se pudesse, Darcy prolongaria aquele momento para toda a eternidade. Mas, como tinha uma reunião horas depois com seus sócios, teve de se despedir dela.

— Sr. Darcy! – Elisabeta se levantou, dirigindo-se até a porta. Darcy estava prestes a sair quando ouviu sua voz de longe.

— Pois não, senhorita? – Seus olhos estavam surpresos. Em poucos segundos estava novamente de frente a ela. A boca meio aberta e o coração acelerado mais do que o normal. Aquelas sensações pareciam virar rotina quando pensava, sonhava e estava perto dela.

— Por que o senhor saiu da festa tão de repente? Sua namorada parecia indisposta... Aconteceu algo com ela? – A voz de Elisabeta era doce, parecia música aos seus ouvidos.

Darcy por um segundo pensou ter ouvido errado a pergunta. Cogitou mentalmente pedir que ela repetisse, mas lembrou-se que na ocasião da festa ele estava acompanhado. O raciocínio de Elisabeta, embora equivocado, era plausível; ainda mais se levando em conta as investidas de sua sócia durante parte da noite.

— Susana Adonato? – Darcy deu uma risada solta e nervosa, o que fez Elisabeta se sentir idiota e, ao mesmo tempo, apreciar a beleza daquele sorriso. – Ela não é minha namorada, é minha sócia. E passa bem, apesar de ter exagerado na bebida.

— Ah, que bom! Eu não pude deixar de notar que ela estava de fato um pouco exaltada. – Elisabeta respirou fundo, parecia aliviada com a resposta do rapaz.

— Susana x bebida é uma combinação um tanto perigosa. – Disse ele, mantendo um sorriso. – Senhorita, quisera ser uma daquelas crianças para sentar nessa cadeira e poder permanecer a manhã inteira aqui com vocês, mas infelizmente tenho que ir. Uma reunião me espera daqui à uma hora. – Darcy elevou a mão de Elisabeta, na intenção de beijá-la. Ela apenas assentiu, mantendo um sorriso discreto. Antes de se retirar, Darcy acenou para Charlotte.

“Não, Elisabeta. Susana não é minha namorada. Mas John Morland, sim, esse é o seu namorado. Você o ama?” Essa havia sido a resposta e a pergunta previamente formulada na cabeça de Darcy. Ele teve de pensar duas, três, quatro vezes antes de apagar aquilo da mente e responder outra coisa. Não queria ser invasivo. Não queria ser na vida de Elisabeta o que Susana era na sua. Não queria ultrapassar e destruir a linha tênue que começava a unir os dois. Apesar de querer se aproximar dela, de querer puxá-la para si e sentir o corpo dela colado ao seu num beijo apaixonado, controlou-se para parecer o mais tranquilo possível, alguém perfeitamente normal por fora, embora se torturando por dentro.