Entre o Amor e a Música.
7 Capítulo 7
Notas iniciais
A dor de cabeça que ele havia tido pela manhã foi avassaladora. Após tomar o remédio que o médico prescreveu, Naruto preferiu não sair da cama e durante a tarde, já que Hinata voltara para a faculdade, ele ficaria sozinho na casa.
As lembranças que vieram à sua cabeça durante o sonho na última noite ainda incomodavam, não queria falar sobre aquilo com Hinata, mas às vezes a curiosidade o fazia querer correr até ela e perguntar tudo que queria perguntar.
Uma surpresa de Sasuke chegou pelo correio horas depois. Um caderno com algumas cifras e letras da banda. Aquilo distraiu Naruto por horas, e em todo o tempo com aquele caderno na mão, ele ficou na varanda, enrolado em um grosso cobertor, com uma garrafa térmica cheia de chocolate quente ao lado enquanto a neve começava a preencher o lugar de branco.
— Naruto? – A voz distante de Hinata o chamava dentro da casa.
— Aqui fora! – Gritou ele percebendo que realmente já era bem tarde.
Pouco depois ela apareceu na varanda.
— Oi... Ah! Onde encontrou esse caderno?
— Sasuke me enviou pelo correio. Você o conhece?
— E como não conheceria? Perdi a conta de quantas vezes você me deixou falando sozinha enquanto escrevia coisas aí.
— Nossa... Eu sou tão neurótico assim?
— Eu não diria neurótico, e sim dedicado. Quando você sentava para escrever era difícil sair do seu canto sem escrever pelo menos uma música.
— Hm... E o seu dia?
— Normal e bem corrido. Vamos entrar? Está ficando muito frio.
— Ok.
Aquele dia foi estranho para Naruto, estava acostumado a ter Hinata a todo o momento na casa, agora com ela fora por grande parte do dia era estranho. E depois de um rápido jantar ela mal conversou com ele e foi direto para seu quarto dormir.
A noite, porém não foi nada amigável com Naruto que não conseguiu pregar os olhos. E após todas as tentativas frustradas de dormir, ele olhou ao redor. Por algum motivo não suportava estar sozinho naquele quarto e isso o incomodava cada vez mais. Sem que conseguisse evitar, a lembrança que conseguiu de volta da noite com Hinata dominou seus desejos por alguns momentos.
— Tá bom... Vamos saindo daí, se ela já reage mal quando falo com ela, imagine se eu a chamasse para dormir comigo...
Perto da cama estava seu violão, que Sasuke já havia trazido... Havia também o caderno com as músicas e cifras que ele compôs para a banda. Havia naquele caderno também a música que Hinata o impediu de comentar... A música que no momento dominava suas vontades, precisava tocar aquela música... No fim não conseguiu resistir à tentação, logo estava sentado na cama, com seu violão no colo e o caderno aberto na sua frente.
Após as primeiras tentativas ele estava completamente perdido, as notas não vieram espontâneas como foi quando tocou com Sasuke. Sentia aquela espontaneidade com outras músicas, mas com aquela era como se tudo travasse. Muitas tentativas depois, as primeiras notas saíam.
(http://www.youtube.com/watch?v=Q7Em4fUOrZo— The Red Jumpsuit Aparatus, Your Guardian Angel)
Com as primeiras notas tocadas, a música fluía automaticamente e logo ele a cantava também.
Do outro lado do corredor, sentada na cama em meio a livros, cadernos e anotações, a atenção de Hinata foi roubada pela música que vinha do quarto de Naruto. Assim que o ritmo da música começou, sentiu seu coração apertar.
— Essa música...
Ela deu um pulo da cama, espalhando livros e cadernos no chão do quarto. Saiu do mesmo descalça, e só de camisola atravessou o corredor, abriria a porta do quarto de Naruto o mais rápido possível, mas travou quando segurou na maçaneta, parou para ouvir aquela música que só ouvira outras duas vezes. A música que ele nunca gravou e que ela nunca teve acesso. Ela ficou parada frente à porta apenas ouvindo a música, apenas esperando que a mesma chegasse ao seu final, e foi o que ela fez, a medida que a mesma chegava ao fim ela abria vagarosamente a porta do quarto sem que Naruto percebesse. Ao fim da música ela estava de pé na porta olhando para ele, e só nessa hora ele a percebeu.
— Hinata? Ah desculpe pelo barulho, eu não conseguia dormir e... – Ele parou, ela estava estranha, mais estranha do que o normal. – Hinata? O que houve?
Ele deu um pulo da cama, foi até ela e acendeu a luz do quarto, ela o encarava com um sorriso no rosto, mas o mesmo molhado de lágrimas.
— O que está havendo Hinata? – Perguntou ele confuso.
— Essa música... Eu te pedi para não cantar.
— Desculpe, eu... Eu estava sem sono e fui tocar algo. Esqueci disso.
— Por favor, não cante mais essa música...
Ele não entendia, ela sorria e chorava ao mesmo tempo e parecia não falar com ele, parecia estar perdida em pensamentos. Quando ele a tocou, Hinata despertou e afastou-se.
— Você está bem? – perguntou ele novamente.
— Sim... Desculpe. Mas por favor, não toque essa música novamente.
No dia seguinte, após a noite perturbadora, a manhã foi um tanto que tranquila. Como ninguém havia conseguido dormir direito, a cara de sono ao saírem dos quartos estava inegável.
— Bom dia.
— Dia... – Respondeu ele sem nem conseguir falar direito.
Como sempre ela acordou primeiro e já tinha arrumado a mesa do café, mas para a surpresa de Naruto, ela se ausentou da mesma, pegou uma caneca cheia de café, alguns pãezinhos e foi para o sofá da sala onde uma montoeira de livros a aguardava. Ele, curioso, não esperou por um convite que não viria, pegou sua caneca com chocolate, pães e seguiu Hinata sentando no sofá frente a ela.
— Você faz faculdade de?
— Direito.
— Hm... Falta muito para terminar?
— Não.
— Você gosta?
— Sim.
Ele perguntava rápido entre um gole e outro em seu chocolate enquanto tentava irritar Hinata para que ela parasse de olhar os livros.
— Não tem vontade de fazer outra faculdade?
— Não.
— Por quê?
— Porque tenho o concurso de magistrado pela frente.
— Por quê? – perguntou ele fazendo Hinata fechar o livro e bufar olhando para ele.
— Pronto Naruto, minha atenção é toda sua.
— Quero te fazer perguntas.
— Você sempre me faz perguntas!
Ela foi grossa, e fez questão de ser, queria deixar claro para Naruto que nada que ele fizesse a aproximaria, ou mudaria o que aconteceu. Infelizmente, a curiosidade dele era ainda maior que sua indisposição com as respostas grosseiras que ganhava.
— O que você tem contra aquela música? – Ele foi direto.
— Qual o motivo da pergunta? – Ela tentava desviar enquanto olhava para seus livros.
— Hinata... Eu não tenho a menor ideia de quem eu sou. De quem eu fui. Eu não sei quem você é ao certo. Eu não sei quem você era. Não sei o que tínhamos. Não faço a mínima ideia do que houve entre nós. E eu quero saber o que houve.
— Esqueça isso, apenas esqueça!
— Não! Eu não vou esquecer! Não vou deixar isso para lá! — Naruto urrou furioso.
Era uma das primeiras vezes que gritava com ela, e era a primeira vez que ela via aquele brilho forte nos olhos dele novamente em tanto tempo.
— Eu não sei que merda aconteceu entre nós! Não sei qual foi a sacanagem que fiz com você para ser tão odiado! Eu quero saber quem eu sou. Independente de quem seja esse Naruto de antes. Então, apenas RESPONDA! O que você tem contra aquela música? – Ele estava exaltado, perdera a paciência com Hinata pela primeira vez.
— Nada. Eu não tenho nada com aquela música. Só que ela me traz lembranças de tempos que não vão voltar. Ela me lembra da época que começamos a namorar, foi essa a música que você fez para mim. Ontem foi a terceira vez que eu ouvi essa música.
— Eu não a gravei?
— Não. Você nunca escreveu sobre ela em qualquer outro lugar, apenas nesse caderno que Sasuke lhe entregou. Agora se já tem sua resposta, posso continuar estudando?
Ele levantou do sofá e voltou para a cozinha onde pegou mais chocolate, e após pegar seu caderno e seu cobertor ele seguiu para a varanda.
Hinata acabou não indo para a faculdade, a nevasca que caiu naquele dia foi simplesmente absurda, assim como o frio que veio de brinde. Naruto, no final da tarde, dormia em seu quarto enquanto ela continuava na sala estudando. De repente, ao olhar para o piano que ficava na sala, uma vontade imensa de tocá-lo veio à cabeça.
— Já que não tem jeito...
Ela deixou os livros de lado, pegou seu casaco já que fora do ninho que fizera com seu cobertor, estava frio demais. Seguiu adiante na direção do piano e sentou sem cerimônia, pensou por alguns segundos e logo começou a tocar a primeira música que veio à mente.
O que ela não percebera foi o fato de Naruto estar acordado e sentado na escada que dava para o segundo andar. Na hora em que descia ele viu Hinata indo em direção ao piano e decidiu ficar parado na escada.
( http://www.youtube.com/watch?v=aixFIwHqPjI Utada Hikaru – First Love. )
Aquela música mexeu com ele, tanto no emocional como no físico. Sua cabeça doía, sua respiração estava difícil, ele subiu a escada o mais rápido que conseguiu, os flashes vinham rápidos e fortes, sem aviso, sem trégua. Um a um inseriam memórias grandes e pequenas, tristes e alegres, não só lembranças, mas sentimentos e sensações, tudo vinha concentrado, comprimindo o que já estava no corpo dele, lutando por um espaço em sua cabeça e no seu peito.
— Droga! O remédio! Onde está essa merda?!
Ele revirou o criado mudo e o seu armário até encontrar o vidro com os comprimidos, tomou três de uma vez na esperança de que a dor parasse. Mas não foi imediato, não antes que os flashes parassem, não antes que toda aquelas memórias fossem socadas para dentro de sua mente da maneira mais bruta possível.
Vários minutos passaram. Vários minutos até que a dor parasse, até que as memórias ocupassem seu lugar naquele quebra cabeça ainda tão incompleto. E à medida que elas iam se tornando visíveis e claras para ele, tudo vinha doloroso demais, tudo carregado de emoções e sensações que ele não tinha experimentado depois que saira do hospital. As lágrimas corriam enquanto ele permanecia sentado no chão com as costas encostadas na cama, não havia reação aparente. Não havia o que dizer naquela hora.
No momento em que ela entrou para seu quarto e dormiu, foi o momento em que ele deixou o seu quarto, muito estava claro, e várias outras toneladas de perguntas assolavam sua cabeça. Fazendo o menor barulho possível ele pegou a chave que veio na caixinha que Sasuke lhe entregou e sem conseguir controlar a própria ansiedade abriu a porta do quarto que estava trancado e entrou, fechou a porta logo após e só então ele olhou para o interior do quarto. Então, quase que de forma imediata os flashes voltaram, um atrás do outro, assolando seu cérebro e seu coração. Estava tudo ali, muita coisa estava de volta, os sentimentos por Hinata, a amizade com Sasuke, a figura dos pais, como eram, quem eles eram... Tudo estava voltando aos poucos tentando completar o grande quebra cabeças.
Ele se lembrou do amor por Hinata, lembrou-se do ápice daquele sentimento quando assumiram um compromisso. Lembrou-se da amizade com Sasuke e de muitas das coisas que passou ao lado do amigo, incluindo momentos da banda. Lembrou-se também dos seus pais. Lembrou-se de quem eram Uzumaki Kushina e Namikaze Minato. Foi tomado por aquela mágoa por Hinata, aquela asquerosa mágoa entrelaçada àquele amor tão forte que lhe roubava o ar. Foi assolado pela conclusão de que não veria os pais novamente, pela afirmação de que estava sozinho, que não teria mais os conselhos, as broncas e os sorrisos dos pais... Algo havia acontecido a eles para não terem-no visitado. E agora o interior daquele quarto fazia total sentido para ele enquanto algo amaçava seu coração. Tinha que sair dali. Tinha que deixar aquele quarto naquele momento.
E foi o que ele fez, saiu de lá o mais rápido que conseguiu, o mais rápido que pôde, trancou o quarto, escondeu a chave nos bolsos e seguiu para seu quarto. Não conseguindo sustentar o corpo devido à forte dor que sentia, Naruto foi mais uma vez ao chão produzindo o som de um baque forte. Os passos pesados e apressados que vinham do quarto ao lado indicavam que Hinata estava acordada, e que ouviu Naruto caindo. Antes que ele a visse sair do quarto, antes que ouvisse a voz dela, tudo começou a apagar. Um a um seus sentidos falhavam enquanto sua lucidez era roubada pela dor.
Quando voltou a sentir seu corpo e conseguiu abrir os olhos, ainda sentia certa dor no corpo. Pela luz fraca vinda da janela já era manhã. Tentou levantar, mas só então percebeu que não estava sozinho, levantou o cobertor e a encontrou ali. Aninhada em seu corpo, abraçada a ele e dormindo. Nunca a viu com uma expressão tão calma. O rosto belo, os cabelos macios e com aquele brilho azul que lhe encantava, a boca rosada, pequena e macia. Ao mesmo tempo em que tudo nela o atraía, também o repelia, parte de suas memórias estavam de volta como um filme com o arquivo corrompido, conseguia visualizar apenas uma parte do que era tudo aquilo. Com todo o cuidado do mundo para não acordá-la, ele deixou a cama e seu quarto indo em direção à cozinha.
Não demorou para que ela acordasse, muito menos para que reparasse o fato de estar no quarto de Naruto, na cama dele e de que ele já não estava mais lá. Não conseguiria esconder sua noite de fraqueza, aquela noite em que a preocupação com ele superou sua mágoa com o rapaz. Porém ela demorou a levantar, fazia tempo que não dormia tão bem. Que não se sentia tão bem ao acordar. Foi a primeira noite tranquila que teve em tempos.
O cheiro dele estava lá, impregnando o lugar, os travesseiros, as cobertas e a cama. Ainda podia sentir o toque da pele dele, ainda podia sentí-lo ali. Só poderia estar ficando louca. Só poderia ser isso por considerar a remota chance de tentar outra vez, de mais uma vez tentar ser feliz com Naruto.
Já na cozinha ela encontrou a mesa do café pronta, ele, porém permanecia terminando de fazer o seu chocolate enquanto o café dela já estava na xícara. Eles tomaram o café, conversaram... E ele não tocou no assunto da ultima noite o que começou a deixá-la curiosa. E após ele tirar a mesa do café, ela não resistiu.
— Hm... Naruto?
— Eu. – Respondeu ele enquanto lavava a louça.
— Sobre a noite passada...
— Não precisa falar sobre o que não quiser. – Ela o olhou curiosa.
— Você está bem? Normalmente iria me encher de perguntas...
— Eu me lembrei de algumas coisas ontem.
Não precisava olhar para ela, ele podia sentir o quão tensa ela ficou quando ele disse aquilo.
— Lembrei também de alguns momentos loucos com o Sasuke. Lembrei-me dos meus pais... – O tom de voz dele diminuiu.
— Você já deve ter percebido que
— Para eles não terem me visitado, é porque algo aconteceu. – Naruto disse sério. – Mas não quero falar sobre isso agora.
— Você se lembrou de mais alguma coisa?
— Não, nada sobre o que aconteceu conosco. Apenas do dia em que começamos a namorar.
— Nossa... – Hinata sorriu. – Você realmente se lembrou disso?
— Sim e da diferença do seu humor comigo antes e agora. De meiga a cavaleira das trevas é uma mudança e tanto. – Os dois riram.
— Não tenho culpa, é automático.
— É eu sei, eu sinto isso... Como se o amor e o ódio brigassem por um espaço.
Ele terminou de lavar a louça e se aproximou dela a encostando contra o balcão.
— E devo confessar que nesse momento o amor está ganhando.
Ela não tinha como resistir, não queria resistir, apenas permaneceu parada enquanto sua respiração acelerava. Ele levou uma mão a sua cintura e a outra ao seu rosto enquanto mexia no seu cabelo e a encarava com o rosto próximo do seu. Ele sorria enquanto mordia o próprio lábio.
— Dê apenas uma razão para eu não te beijar agora.
— Não podemos.
— Essa não vale. Sugiro que elabore uma resposta convincente o suficiente.
— Daqui a pouco os outros vão estar aqui e não queremos perguntas que não podemos responder.
— Outros?
— Nossos amigos, eles querem ver como você está.
— Não tem aula hoje?
— Não, feriado...
— Hm... Mas daqui a pouco não é agora. Última chance.
Ela o encarou, pegou a mão dele que estava em sua cintura e a segurou firme entrelaçando seus dedos aos dele.
— Desisto.
Ele riu e tomou seus lábios da forma que queria desde que as lembranças da noite do hotel vieram á sua mente.
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