Entre o Amor e a Música.
24 Capítulo 24
Notas iniciais
— Grávida???? – Naruto ficou estático.
— Sim. – O médico disse.
— Olhe, eu não entendo muito disso, mas aqueles enjoos não eram normais para apenas uma gravidez... E ela desmaiou muitas vezes e...
— Você tem razão quanto a isso. Hinata está com hiperemese gravídica. É uma complicação raríssima e causa esses vômitos excessivos. Os desmaios são por conta da desidratação, o que já estamos tratando.
— Quanto tempo de gravidez? – Ele perguntou.
— Eu não posso ser preciso... Mas meu palpite é de que ela esteja na quinta semana. A hiperemese gravídica só se apresenta nesse período e como parece que vocês não perceberam antes, acho que é mais ou menos isso. Ela ficará internada aqui para tratarmos a desidratação, mas logo ela poderá ir pra casa.
— Posso entrar?
— Claro que pode. – o médico sorriu. – Tenho que ir agora, mas qualquer coisa peça para a enfermeira me bipar.
Naruto abriu a porta do quarto onde Hinata estava. Ela estava deitada enquanto o medicamento e o soro eram administrados por uma enfermeira. Hinata estava com a cabeça virada para a senhora que lhe medicava, então não o viu entrando.
— Então você é a Hyuuga Hinata? – Ela perguntou.
— A senhora me conhece?
— Minha neta é apaixonada pela banda do seu namorado. – Ela sorriu.
— Então ela deve me odiar.
— Na verdade ela gosta muito de você. – Ela estranhou. – Por que alguém odiaria alguém tão amável?
— Vou me lembrar de perguntar a todas as fãs do meu namorado. – Hinata riu cansada.
— Bem, eu não conheço as adolescentes, só tenho contato com a minha neta... Acho que ela me falou algo sobre as pessoas não fazerem uma boa recepção a vocês, mas que ela te admira muito por ter ido cuidar de alguém que não tinha mais relação alguma com você. – Ela olhou para Hinata e sorriu. – E como ela sabe disso eu não faço a menor ideia. Hahahahaha
— Então agradeça a sua neta pelo carinho. É bom saber que pelo menos uma das fãs dele não quer minha cabeça em uma bandeja.
— Prontinho, querida. Os enjoos vão parar por conta do medicamento e você vai ficar tomando o soro na veia.
— Eles já sabem o que eu tenho? – Hinata perguntou.
— Você não sabe?
— Pode deixar. – Naruto se manifestou. – Eu converso com ela.
— Então deixarei vocês a sós. Esse botão chamará a mim ou à outra enfermeira. Qualquer coisa, pode apertar e alguém virá logo.
— Sim, obrigada. – Ela disse. A senhora logo atravessou o quarto, saindo pela porta pela qual Naruto tinha acabado de entrar. – Então, o que há de errado? – Ela perguntou.
— Hina... – Naruto sentou na borda da cama e pegou entre as suas mãos as de Hinata. O assunto era delicado. Da última vez que tocaram no tema, foi para falar do aborto. Até ele ainda estava digerindo essa história de gravidez, e não tinha sido ele quem passou por todo o acontecimento da antiga gravidez. – Você não tem a doença de sua mãe e de Hanabi.
— Então não há nada de errado? – Ela sorriu.
— Eu soube que os exames ficaram prontos, o médico teve que ligar para a sua ginecologista.
— Eu vi as ligações dela, mas estava com medo de atender. Eu iria te contar sobre isso, só estava arrumando coragem para irmos lá... É por isso que você está nervoso?
— Não, não é...
— Então o que há contigo?
— Você está grávida. – Ele achou melhor falar de uma vez.
— Naruto, você sabe que esse é um assunto muito sério. – Ela mudou de semblante. Estava irreconhecível. – Se você estiver falando de algo que não tem certeza ou-
— Por hipótese alguma eu falaria desse assunto se não estivesse completamente certo. Eu acabei de falar com o médico e ele me deu a notícia. Hina... – Ele percebeu que Hinata estava estática, prestes a chorar. Os olhos dela estavam focados em um nada que ele não conseguia penetrar.
— Eu... Eu preciso ficar sozinha um instante.
— Não, Hinata. – Ele apertou as mãos dela. – Você não está sozinha, nós estamos juntos nisso. Você não vai ficar sozinha um instante agora. Não é como daquela vez, querida. Eu estou aqui agora...
— Vai dar tudo errado de novo... Eu vou matar nosso filho de novo... Meu pai... – Hinata estava em choque. Grossas lágrimas desciam pelo rosto dela, ela aparentava não conseguir respirar.
— Hinata acalme-se! Hiashi não vai chegar perto de você, eu não vou deixar ele estragar tudo outra vez! Não vai ser igual a antes... Nada vai ser como antes. Eu prometo.
Levou dias para que Hinata fosse enfim liberada, mesmo assim sob avisos de que ela deveria receber cuidados devido à saúde dela e à gravidez. Porém as coisas não estavam indo como o planejado, dia após dia Hinata apenas piorava. Apesar das insistências de Naruto, ela não comia direito. Às vezes tomava algum suco ou um pouco de chocolate, mas isso era tudo. Ela estava tomando os medicamentos corretamente, mas com a péssima rotina que estava tendo, ainda estava muito fraca.
— Hinata, por favor você tem que comer alguma coisa. Você não comeu nada hoje, mal comeu nos últimos dias... Você quase não sai desse quarto. Por favor, você precisa se alimentar! – Naruto estava no quarto outra vez, tentando fazer com que ela almoçasse.
Ela não respondeu e muito menos olhou para ele, continuou apenas deitada e quando ele insistiu na conversa ela apenas puxou o cobertor até tapar o rosto. Ele apenas suspirou, colocou a bandeja com a comida no criado mudo e deixou o quarto. Assim que desceu as escadas viu que Sasuke o esperava na cozinha.
— E então?
Ele parou frente ao balcão da cozinha onde ficava uma coleção de copos e utensílios de vidro ou cristal e em um acesso de raiva, empurrou tudo, fazendo com que o grande barulho ecoasse pela casa.
— Sabe que ficar nervoso não adiantar de nada. – observou Sasuke.
— Só que eu já não sei mais o que vai adiantar, Sasuke! Eu já tentei tudo. Eu já tentei ser carinhoso, já tentei ser agressivo, já apelei para o lado emocional, para o racional... Não adianta! Ela simplesmente se fechou para o mundo e não fala comigo! Ela não disse uma única palavra desde que viemos do hospital. Ela se recusa a voltar na médica para fazer exames, se recusa a começar o pré-natal. Tudo o que ela faz é às vezes tocar na comida, beber um pouco de água e ir ao banheiro quando precisa vomitar! Pelo menos isso ela está fazendo menos, porque ela ainda toma os malditos remédios.
— Naruto, você não pode obrigá-la a ver o seu ponto de vista...
— Não é isso, Sasuke! Ela está grávida, não se trata apenas do meu ponto de vista! E você ouviu a ginecologista quando ela foi no hospital ver a Hinata. Você e Sakura ouviram o que ela falou, que o estado de saúde dela é delicado devido àquele maldito aborto e você ouviu que essa gravidez é de extremo risco!
Sem falar nada a Naruto, Sasuke levantou, sumiu por breves minutos na casa e voltou com uma pá e uma vassoura, tirou todos os cacos que estavam no chão e após jogá-los fora voltou para o balcão, sentou na cadeira que estava antes e voltou a encarar Naruto.
— Olha, eu realmente não sei o que te dizer, eu não sei o que você está pensando e pela sua cara eu aposto que nem mesmo você sabe em que está pensando... Mas a última coisa que você pode esperar dela é que ela seja racional, Naruto. Ela provavelmente só está tentando fugir disso tudo. E se você desistir, ela vai conseguir fugir disso. Ela logo vai perceber que, diferentemente da outra vez, você está ao lado dela e que os piores dias da vida dela não irão se repetir, e então ela irá te deixar entrar.
— Mas e se não for?
— Vai ser, Naruto! Pare de pensar negativamente sempre levando as coisas para o pior lado. Se você acha que eu estou errado ou que vai precisar de artilharia pesada para ajudar, ligue para Jiraya que ele provavelmente vai saber o que fazer. Ele te ajudou com o assunto da universidade então ele provavelmente vai saber como ajudar.
Após Sasuke ir embora o silêncio naquela casa parecia enlouquecê-lo. Pela cabeça dele passava apenas os pensamentos que ele tentava apagar. O passado, o modo como tudo teimava em caminhar para uma reedição daqueles eventos. Uma gravidez agora era tudo o que ele não esperava. E ainda sequer sabia o que pensava disso. Em sua mente, vinha tudo o que ele sentiu quando ele perdeu o filho que ainda não tinha sequer conhecido. A dor de deixar de ser pai antes mesmo de ser. Na época ele era tão diferente de agora, mas mesmo assim a ideia de ser pai de um filho dela o fez mover, ainda mais, mundos para que pudessem ser felizes. Agora ele estava diferente, tudo estava diferente. Ele sentia saudade do menino ou menina que era dono daquele quarto, se sentia culpado por não tê-lo salvo, uma amargura sufocante por Hinata ter sido fraca e mais culpa ainda por deixá-la sozinha antes, durante e depois dos episódios. Ele havia a deixado com complicações de um aborto, uma irmã quase morta e uma vida sem dinheiro algum. Ela, muito mais que ele, havia sentido a dor de ter seu filho tirado de sua própria barriga, ela viveu com a dor de não poder fazer nada para reverter aquilo. Ele não estava se recuperando, era verdade, mas estava levando com a Midnight e seus amigos, o que era uma anestesia. Ela estava tentando viver com a falta de dinheiro quando o pai fugiu, Hanabi, a mãe e um filho mortos. Essa era a hora dele mostrar que tudo ia dar certo. Fazer com que ela olhasse para ele e acreditasse que tudo ia ficar bem. Pensando nisso, Naruto foi em seu escritório e pegou as chaves do quarto que ele havia feito para o seu filho e foi em direção ao quarto que Hinata estava. Ao abrir a porta, ele viu que ela estava do mesmo jeito que ele a viu antes de sair de lá e a bandeja não havia sido sequer tocada.
— Hina, você não comeu? – Ele não recebeu nenhuma resposta, como já esperava. – Bem, vamos te tirar dessa cama. – Ele se aproximou, puxou as cobertas, fazendo com que Hinata se encolhesse e a levantou em seus braços. Não recebeu nenhuma recusa; ela se aconchegou em seu pescoço e o abraçou. Ela estava fraca, ele podia sentir.
Ele caminhou pelo corredor até chegar ao quarto. Destrancou-o e entrou, fechando a porta em seguida. No quarto havia um sofá branco perto da cadeira de balanço, rendado e acolchoado. Ele colocou Hinata lá.
— Nós estamos juntos agora. – Ele disse, olhando-a nos olhos. – Dessa vez eu estou aqui e nada vai me fazer ficar longe de você. Eu sei que o que aconteceu é quase um tabu para nós e eu também sei que nós dois estamos sempre nos culpando, mesmo que inconscientemente, pela saudade que sentimos de um filho que não pudemos conhecer. Nosso bebê está em um lugar melhor, longe daquele pesadelo em que ele iria nascer. Eu não estou dizendo que me sinto bem com o que houve, mas eu acredito que dessa vez nós temos a nossa segunda chance. A chance de fazer certo e de sermos felizes.
— Você... Acredita? – Ela disse em um sussurro.
— Em quê?
— Que o nosso bebê está em um lugar melhor? – Ela sussurrou ainda mais baixo. As lágrimas já caíam sem pudor.
— Eu tenho que acreditar. – Os olhos dele já queimavam, ele queria chorar, ah como queria.
— Eu... E se...
— Dessa vez não terá um “se”.
— Nós iremos esperar pelo irmão do nosso anjinho juntos?
— Claro que sim. Nada será como antes.
— Eu... Eu estou com tanto medo...
— É claro que está... – Ele a puxou para um abraço. – Você passou por muita coisa sem mim. Eu fui um covarde indo embora sem tentar resolver nada e só olhando o que acontecia com você de longe...
— Você esteve me olhando?
— Tudo o que era possível eu saber, eu sabia. Não era muito, tenho que confessar. Mas você nunca esteve cem por cento sozinha.
— E por que você fez eu acreditar que estava sozinha no mundo?
— Não sei... Eu tinha raiva de você, de mim, só queria fugir...
— E agora? Você quer fugir?
— Por nada nesse universo. – Ele tentou sorrir.
— Juntos? – Ela perguntou ainda incerta.
— Juntos.
— Vai ser difícil...
— Vai... Mas somos dois guerreiros, não somos?
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