Entre o Amor e a Música.
21 Capítulo 21
Notas iniciais
O resto do dia foi passando com um silêncio mortal e pesaroso. Ela nem mesmo o encarou e não fez questão de dormir, estava óbvio que a consulta seria adiada. No dia seguinte, as coisas começaram pior do que ele podia imaginar. Logo que ele saiu do banho ela estava com suas coisas arrumadas e pronta para sair. Sem o encarar e sem dar a ele qualquer oportunidade de falar ou algo do gênero, a porta foi aberta e logo ele estava sozinho naquele quarto outra vez. Por alguns minutos a sua reação foi permanecer parado onde estava; não sabia o que fazer, não sabia mais como agir com Hinata, nem mesmo conseguia mais acreditar que as decisões dele foram corretas.
Não demorou até que ela chegasse à estação de trem, iria voltar para casa, iria direto para a universidade desfazer tudo o que Naruto causou. Logo que ela comprou a passagem e se sentou em um banco para esperar o horário determinado, viu uma figura conhecida se aproximar.
— Fugindo? – ele disse com um sorriso.
— J-Jiraya?! – ele sentou ao lado dela.
— Eu sinceramente não consigo entender.
— Se você que é padrinho dele não o entende...
— Não falo apenas de Naruto. Falo de você.
Ela o encarou sem entender por alguns segundos. Ele, como sempre, mantinha um olhar vago e calmo e Hinata entendia que ele conseguia entender alguns pensamentos que ela não conseguia.
— Você não sabe o que ele fez. – ela disse tentando defender sua posição.
— Sim, eu sei. Eu já imaginava que aquele idiota iria meter os pés pelas mãos dessa maneira ao tentar proteger você.
— Me proteger? – ela se exaltou. – Me proteger de quê Jiraya?! Tudo o que ele fez foi pensar em mim como um objeto que ele pode controlar e –
— Se acalme, criança.
Essa foi uma das primeiras, se não a primeira vez que ela viu Jiraya mudar o tom de voz. Ele era sempre muito enérgico com os garotos, animado, confiante... Mas ele nunca havia sido tão sério com ela.
— Você é jovem, mas assim como sua mãe tem uma cabeça muito dura. É inteligente e muito perspicaz quando quer, mas quando se trata de você mesma, é completamente equivocada. Você acha realmente que depois de tudo, de todo o passado que há entre vocês, ele iria tratar justo você como um objeto? Você esteve tão acostumada a cuidar dos outros que se esqueceu de como é ser cuidada, querida.
— Do que você...
— Ora vamos... Não me venha com essas perguntas sem sentido, eu sou muito mais vivido que você, garota. Você precisa acordar para a sua realidade. Tanto tempo cuidando da sua irmã e da sua mãe e você realmente se esqueceu de como é quando cuidam de você.
— Eu não preciso que cuidem de mim.
— Está doendo, não é? – ele foi direto. – Dá para perceber, por mais que você tente disfarçar. Se você não estivesse com tanta raiva lhe desviando a atenção, você provavelmente não conseguiria andar metade do que você andou. Sakura me disse do seu estado com todos os detalhes que ela pôde me passar. Tendo isso em mente, eu vou ser direto. Você iria parar a faculdade, iria trancar os seus estudos, se demitir, ir ao médico, ver como seu corpo está e se preciso iria parar toda a sua agitada vida para se tratar? – ela não respondeu. – É logico que não iria... Você é alheia com você mesma. Naruto conhece muito bem esse lado e tanto eu quanto você sabemos que ele jamais tomaria uma atitude tão drástica quanto essa se ela não fosse realmente necessária.
— Mas isso não justifica!
— Pare de se esquivar Hinata! – ele elevou o tom da voz. – Agindo desse jeito você está cada vez mais parecida com Hiashi! E você não é nada parecida com aquele homem. Você está apenas fugindo da verdade, está com tanto medo da realidade que começou a se agarrar a cada chance de fugir da decisão que você tomou de seguir em frente!
Ele encerrou a conversa e levantou, ela iria falar algo, mas ele a interrompeu e apontou uma direção. Naruto estava lá na estação. Estava ofegante, mas imensamente aliviado por encontrá-la. E antes que ele fosse até ela, Jiraya veio em sua direção.
— Desculpe, eu havia lhe pedido apenas um favor e você acabou tendo que me fazer outro.
— Não precisa pedir desculpas. Você sabe que nem nossos pontos de vista unidos não seriam capazes de mudar a opinião dela tão fácil. E aqui está o que você me pediu. – Após vasculhar um pouco os bolsos, ele tirou um pequeno pacote e entregou a Naruto, que escondeu rapidamente.
— Obrigado... Eu vou ver o que eu faço aqui.
Ele deu um leve aperto no ombro de Naruto e deu um sorriso de encorajamento. Mesmo com toda a boa vontade do afilhado, nada seria muito fácil.
Acompanhando o padrinho, ele se sentou ao lado de Hinata, ocupando o lugar que Jiraya estava antes. Ficou calado, sem saber o que dizer. Novamente, o silêncio os rondava.
— Não vai dizer nada? – perguntou ela em um tom quase inaudível.
— O que você quer que eu diga? Porque eu não sei o que te falar. Não sei se me desculpo com você e tento te convencer a ficar aqui para que você vá ao médico amanhã, ou se deixo você fazer o que quer.
— Por que você não me consultou antes de tomar uma atitude dessas?
— E faria diferença? Você iria parar e pensar na sua saúde? Hinata, depois que Hanabi morreu, depois de tudo o que aconteceu, quantas vezes você foi ao hospital? Você se esqueceu dos avisos do médico que você teria que ir periodicamente fazer exames para termos certeza que o seu corpo não ia desenvolver a mesma doença que matou sua mãe e sua irmã?
— Eu...
— É lógico que você não foi. Eu perguntei ao médico que cuidou da sua irmã, ele disse que você nunca voltou lá. E pelo que a Sakura me disse, se você tiver alguma complicação... Você pode morrer. Você tem ideia do que isso significa?
Ela não respondeu. Naruto olhou para o bilhete que estava nas mãos dela logo que escutou um trem parar na estação. Era o dela.
— Você não vai me parar, não é?
— Não. Eu não vou te obrigar a ficar, não vou te obrigar a aceitar o meu ponto de vista... Não mais.
Ele disse algo que ela não entendeu, mas ele não repetiu quando ela perguntou o que ele havia dito. Sem dizer qualquer outra coisa, ela levantou do banco e pegando sua mala seguiu adiante para dentro do trem. Ele não esperou o trem partir, não esperou para ver se ela mudaria de ideia e deixaria aquilo tudo de lado para voltar com ele para o hotel. Ele sabia que ela não voltaria atrás.
Tentando ignorar os pensamentos que começavam a rodear sua cabeça, ele apenas voltou para seu carro e logo após para o hotel. Cada uma de suas emoções tinham simplesmente desaparecido, ele estava anestesiado. Não era como antes quando ele sentia raiva de tudo e de todos e ao mesmo tinha um amor confuso e machucado atrelado a isso. Ele estava sobrecarregado, não conseguia suportar mais nada, tinha ultrapassado seus limites há muito tempo. Uma hora estava se recuperando de um acidente grave, recuperação essa que ele vinha ignorando a ponto de sentir dores o incomodando... Em outro momento estava confuso com um quarto de bebê em sua casa e uma garota que ele inexplicavelmente conseguia odiar e amar ao mesmo tempo. Logo depois estava recuperando aquelas memórias e revivendo tudo aquilo. Então estava lidando – ou tentando lidar — com uma tentativa de suicídio dela... Esse era o seu limite, não conseguia ir mais além, isso estava claro, não entendia Hinata, não conseguia ver ou entender o que estava se passando pela cabeça dela.
Algum tempo depois Jiraya apareceu e por mais que ele negasse, acabou sendo arrastado para um bar perto do hotel.
— Pela sua cara as coisas não saíram nem um pouco como você esperava.
— Nem um pouco.
— Está mais que na cara que você está confuso... E admito que seja muito raro ver você assim, se sentindo impotente. – ele bebeu o resto de sua bebida e pegou a garrafa para encher o copo outra vez. – Bom, vamos lá, me diga... Você chegou ao seu limite? Chegou a um ponto onde você não sabe se avança ou se retrocede?
Ele ficou em silêncio por um instante, esperando por uma resposta que não veio. Naruto tocou em sua bebida e voltou a mirar o copo.
— Ninguém disse que seria fácil.
— E eu não pensei que seria tão difícil.
— Ela fez um aborto Naruto. Ela teve que conviver com Hiashi, ver a mãe e a irmã morrer e depois ainda teve que conviver com o seu ódio por ela. As palavras que você disse a ela naquele dia, e provavelmente tudo o que você disse quando recuperou suas memórias... Nem tudo pode ser curado com belas palavras e sentimentos calorosos.
— Mas estamos falando da saúde dela, Jiraya!
— E quem disse que ela seria racional? Você seria? Se você estivesse na situação dela, se do nada ela te tirasse a Midnight, Naruto? Isso depois de ter sido enganada pelo próprio pai e matado o filho que ela você já amava. Se ela te tirasse a Midnight depois da vida ter te tirado sua mãe e a mim, sem que você pudesse fazer nada, só assistindo. Se ela te tirasse a Midnight depois de tudo isso, depois que você tivesse perdido tudo?
— Eu...
— Você não consegue imaginar, não é? É lógico que não consegue, não com o amor que seus pais lhe deram. Escute, eu vou repetir isso apenas mais uma vez. Atitudes que funcionariam com qualquer um não irão funcionar com ela, Naruto. Você está tirando dela a única coisa que ela conseguiu conquistar na vida. É a única coisa concreta, a única coisa que não vai se perder de uma hora para outra. Assim como você tem a Midnight, ela tem o curso na universidade. Você tem que entender que nada, nem mesmo a saúde dela, irá a fazer entender que as suas atitudes são corretas. Depois de tudo o que vocês passaram e do quanto já machucaram um ao outro, você não pode exigir que ela te entregue sua alma e seu coração em uma bandeja de prata para que você cuide de ambos da maneira que bem entender. E você não está em condições de cuidar nem mesmo de você. Veja o seu estado, você está tão além do seu limite que não consegue nem mesmo definir o que está sentindo. O que vocês precisam agora é um suporte, vocês precisam aprender a partilhar e a caminhar juntos. O que passou não pode ser mudado, mas o futuro pode... Se você tentar pegar todos os problemas para você e suportar tudo sozinho, você só vai esgotar a si mesmo e cometer erros. Ela também é culpada pelo que aconteceu, vocês dois são igualmente culpados, da mesma forma que são vitimas da atitude de Hiashi.
— No final tudo o que eu fiz foi ser igual a ele. Eu simplesmente tirei o que ela conquistou sem pensar em mais nada. Eu me preocupei tanto em perdê-la, que não parei para pensar no resultado de tudo isso.
— Sim. E que isso sirva de lição. Não é apenas por causa da faculdade. Isso é responsável por grande parte da atitude dela, é verdade. Mas também, você passou para ela a imagem de que quando você julgar necessário irá privá-la de qualquer coisa que você considere inútil.
— Sabe, se você queria me animar... Conseguiu o contrário. – Naruto sussurrou, fazendo Jiraya rir.
— Eu não vim te animar. Eu vim fazer o que Kushina faria com você, esfregar o seus erros na sua cara e depois, de uma forma carinhosa, te mostrar o caminho certo. É verdade que eu não cheguei nem perto disso, mas é o melhor que eu posso fazer.
Assim que voltou para seu quarto, tudo o que Jiraya disse começava a se encaixar. Era exatamente como ele tinha dito, ele estava errado. Tendo isso em vista, ele fez a única coisa que poderia fazer naquele momento. Pegou o celular e ligou para ela e se sentiu surpreso por ela atender tão rápido por mais tarde que fosse.
— Foi tudo certo na viagem?
— Sim...
— Desculpe pela hora. Eu... Eu coloquei a minha cabeça no lugar... E eu sei que não tenho o direito de te pedir desculpas agora ou de ficar enchendo a sua cabeça com lamentações. Eu sei que eu errei, eu faria o mesmo se tentassem me tirar a Midnight... Eu cheguei ao meu limite e acabei fazendo as coisas da maneira errada. Mas eu só quero te pedir, por favor, vamos amanhã na consulta. Mesmo fazendo tudo errado, eu só quero te ver bem. Eu me preocupo tanto com você, com o que você pode fazer consigo mesma... – houve um longo silêncio na chamada.
— Eu não me sinto mal apenas pela faculdade. Naruto. Eu estou totalmente exposta a você e me sinto humilhada por isso. Você sabe de tudo o que aconteceu comigo e tomou a frente da minha vida, sem me perguntar de que forma eu queria que ela caminhasse. Mas eu continuo afastada de tudo, sem saber como você se sente, ou como a sua saúde está... Tudo gira apenas em torno do que eu fiz e de como isso reflete no que diz respeito a qualquer coisa que tenha a ver comigo ou conosco. Por mais que isso me faça ficar doente de tristeza, eu não vejo como podemos seguir assim. Está sendo tão... – Ela suspirou e Naruto percebeu o quanto ela estava chorando do outro lado da linha. – Tão desgastante. Eu estou tão cansada de ver que não há um final feliz esperando por mim... Eu não quero ir ao médico, Naruto... Eu não aguento mais... É sufocante.
— Hina, nós podemos nos consertar. – As lágrimas rolavam pelo rosto dele. – Não faça isso, não me afaste de você.
— Eu vou dormir.
— Hinata, escute, eu amo você. Eu vou estar aí em alguns minutos e nós poderemos conversar. Espere por mim, por favor.
— Eu estou em casa Naruto, estou a duas horas de você. Eu preciso ficar sozinha por hoje, por favor, eu preciso pensar. Colocar minha cabeça e meu coração no lugar. E você também precisa pensar no que eu te disse.
Não houve uma espera para a resposta dele, ela encerrou a chamada o mais rápido possível para evitar que toda essa conversa se prolongasse. Ele sabia, no entanto, que esse havia sido o correto; as palavras de Jiraya a pouco e agora a confirmação dela. Ele se preocupou tanto em protegê-la que acabou a envolvendo em uma esfera distante de tudo, inclusive dele mesmo.
— Tudo errado...
Ele sentou na cama e depois de alguns minutos deitou-se e ficou apenas olhando para o teto. Estava tudo errado, outra vez os mesmos erros bobos cometidos a partir de ações impensadas.
“Mas eu continuo afastada de tudo, sem saber como você se sente, ou como a sua saúde está...”
A quem ele queria enganar? Será que no fim ele apenas a afastou querendo poupá-la de seus problemas ou ele a distanciou por que ainda não confiava nela? Talvez ele ainda não tivesse uma resposta para isso.
O que as suas memórias realmente significavam? Ele havia mudado, era verdade, não era o mesmo de antes. Como deveria sentir-se em relação aos seus pais? O que deveria pensar de Hinata? Tudo o que havia feito foi agarrar aquelas memórias como uma desculpa. Se sentia tão frustrado por não conseguir se aproximar de Hinata como queria e no momento em que tudo voltou ele simplesmente usou aquilo como uma desculpa para fugir e extravasar a própria raiva. Ele pegou o celular outra vez e novamente ligou para ela.
— Naruto, por favor. Eu – ele a interrompeu.
— Eu sei não sei como reagir, eu não consigo diferenciar as coisas.
— Do que você está falando?
— Quando eu não lembrava, tudo o que eu conseguia sentir era um amor confortante... Misturado a uma raiva que eu não sabia de onde vinha, mas que aos poucos começava a desaparecer. Quando minhas memórias voltaram, esse amor estava tão grande... Era como se estivesse traindo a mim mesmo por te amar assim outra vez. E ao mesmo tempo eu traía você me esquecendo dos meus erros... Tudo está embolado, essa pessoa que eu me tornei nesse tempo sem memórias, a pessoa que eu era antigamente. E no meio disso está você... Meus pais... Droga eu nem mesmo sei o que eu sinto em relação a isso! – ele deu uma pausa. – Eu não sei se me sinto triste já que não os verei outra vez ou se fico feliz pelas memórias que tenho com eles. – houve uma pausa mais longa, ela sabia que ele tentava disfarçar o choro.
— Como está o seu corpo? – ela desviou o assunto.
— Meu braço dói um pouco... E às vezes fica difícil respirar...
— Eu tenho uma condição.
— Hã?
— Uma condição... Você vai me prometer uma coisa. Eu só vou à consulta amanhã se você também cuidar do seu corpo... Você faltou a várias seções de fisioterapia e tantos outros exames... E você não vai mais esconder nada de mim, se você pode suportar os meus problemas eu também posso suportar os seus. E então? – ele ficou calado por alguns segundos.
— Certo... Eu prometo.
— Bom, então vamos dormir.
— Ei...
— Hm?
— Realmente não posso ir até ai?
— Não. Amanhã nos vemos.
Novamente ela não esperou para encerrar a chamada. Ainda tinham uma noite inteira pela frente e a certeza de que muito dificilmente conseguiriam dormir.
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