Entre o Amor e a Música.
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Nos demais dias as coisas haviam mudado bastante. Hinata teve uma clara mudança em relação aos dias anteriores àquela viagem. Ela sempre sorria, às vezes surpreendendo até mesmo Naruto. Agora faltava apenas um dia. No dia seguinte eles voltariam para casa e após a tarde, seria a hora de saber a verdade.
— É mesmo! Seu aniversário está chegando! – Disse ela dando um pulo do sofá.
— Nossa, verdade... Eu tinha me esquecido completamente.
— Também é de se esperar... Com toda essa confusão que vem acontecendo.
— Ainda bem que você sabe, afinal, você é responsável por grande parte dela. – Respondeu ele começando a rir enquanto ela ficava emburrada.
Era bom ver que pelo menos por enquanto, tudo corria bem. Naquele momento, o único problema era dormir ao lado dela. Tê-la ao seu lado, entregue, dormindo com ele... Estava cada vez mais difícil resistir. Ele não podia ser hipócrita consigo mesmo e dizer que não a queria, que não pensava em outras coisas quando ela se agarrava a ele para dormir. Hinata era completamente irresistível e sedutora, mesmo que ela sequer pensasse nisso.
Naquela noite, ela estava estranha, calada, sempre perdida nos próprios pensamentos. Na verdade desde o fim da tarde ela vinha ficando um pouco mais fechada, como se não estivesse lá.
— Que cara é essa? – Perguntou ele enquanto saia do banho secando os cabelos com uma toalha branca igual a que tinha amarrada na cintura.
— Só estou pensando. — Ela respondeu de imediato surpresa pela presença dele no quarto. Ela sequer tinha percebido que o tempo havia passado desde que ele avisara que iria tomar banho.
— Em quê?
— Não sei. — Ela disfarçou.
— Como a pessoa não sabe no que ela mesma está pensando?
— Você tirou o dia para implicar comigo, não é? – Ela disse olhando torto para o Uzumaki.
— Não tenho culpa se você me dá chances de implicar. — Naruto fez uma careta, fazendo ela rir por um momento.
— Você quer realmente saber em que eu estou pensando? – Depois de um tempo em silêncio ela usou um tom mais sério. Ele suspirou e sentou na cama ao lado dela, incentivando-a. – Será que mesmo que os exames digam que eu não tenho nada nós conseguiremos ser um casal normal outra vez? Depois de tudo isso... Será que um dia tudo irá voltar ao normal?
— Você quer realmente falar disso?
— Sim, eu quero... Ou então quando falaremos sobre isso, Naruto? Eu sei que você quer esquecer as coisas um pouco e distrair a sua cabeça e não é como se eu não quisesse também, mas... Se nós não conseguirmos voltar a ser como um–
— Não é isso. – Disse ele a cortando. – Eu só tenho medo, Hinata. Eu não consigo parar de pensar em tudo o que aconteceu antes. Eu sei que isso não sai da sua cabeça também porque você passou por uma situação pior que a minha, você aguentou uma barra maior.
— Eu sei disso, eu também penso nessas coisas a todo o momento... E eu também tenho certeza de que a sua culpa não te impediu de se deitar com qualquer uma que aparecesse na sua frente nos últimos meses. Eu não sou cega, ou surda. Apesar das meninas sempre evitarem o assunto, mesmo que eu desligasse a tv e fingisse que ninguém te conhecia, era impossível não ver tantas mulheres em cada país que você ia. E eu ficava me perguntando porquê só você conseguia seguir em frente daquele jeito, porque eu sequer conseguia aceitar um convite para sair de algum amigo da faculdade.
— Você sabe que você não é qualquer uma. – Respondeu ele sério. – Com você não é assim... Nunca foi. Naquele tempo eu não sabia o que eu sentia. Ao mesmo tempo em que eu tinha raiva de você, eu ainda te amava e tudo o que eu fazia era procurar você em outras pessoas. Era tudo tão... Automático. Eu só queria te tirar da minha cabeça de qualquer forma, aliviar a culpa que eu sentia e jogá-la em cima de você. Era tudo tão paradoxal, que eu estava cansado de me sentir perdido por não saber mais o que eu sentia ou de quem era a culpa pelo meu mundo ter virado de cabeça para baixo. E apesar de toda a mágoa e raiva que eu sentia de você, eu te queria ao meu lado para compartilhar tudo o que eu e a banda estávamos conquistando.
— Eu estou aqui, não estou?
— Você sabe que não é simples assim. Vai me dizer que nada do que aconteceu antes te vem à cabeça? Vai dizer que você não espera que do nada seu pai apareça e ameace você para que nós fiquemos separados? Eu entendo que ele desapareceu que você se tornou independente mas ele é como um fantasma nas nossas vidas. Eu não pensei que seria desse jeito, mas é assim que está sendo. A todo o momento é como se ele fosse entrar por aquela maldita porta e te tirar de mim sem que eu possa fazer nada!
Ele sempre esteve tentando esconder tudo, sempre esteve mantendo escondido dela o desespero que todos aqueles pensamentos traziam. Como consequência, tentava também esconder todo o ódio que ainda sentia de Hiashi, e tentava negar para si mesmo que sentia algo como um rancor dela, uma decepção.
— Sabe... – Começou ela quebrando novamente o silêncio. – Eu nunca parei para pensar como seria se a gente um dia voltasse. Quer dizer, eu imaginava que do nada tudo começaria a dar certo, que por algum milagre você voltaria e tudo estava bem. Eu nunca pensei em como seria difícil ter a sua confiança outra vez. E não minta dizendo que você confia em mim como antes, porque eu também não confio em você como antes. Tudo o que a gente construiu com um amor puro está corrompido pelas nossas atitudes... Mas nós ainda nos amamos, não é? Se isso ainda vive, se os nossos erros não conseguiram desfazer o que temos um pelo outro, nós ainda podemos ser como antes, não podemos?
Parecendo alheio às palavras dela, ele levantou e andou até a janela onde por alguns minutos ficou apenas observando a paisagem. Ela acabou por levantar e ir até ele o abraçando pelas costas.
— Você ainda confia em mim? Pelo menos um pouco? – Perguntou ele.
— Você foi a única pessoa que eu desejei ao meu lado todo esse tempo. Você foi a única pessoa que me ouviu falar de Hanabi... Sempre foi você quem esteve ao meu lado antes, quando minha mãe morreu e nas vezes que a Hana piorava. Eu sempre confiei em você. Não confio em você como antes, cegamente, completamente... Não sou mais capaz de colocar a minha mão no fogo por você, porque eu fui deixada para trás com toda aquela carga para levar sozinha. Mas ao mesmo tempo, você é a pessoa em quem eu tenho a maior parcela de confiança de todos os que eu conheço. Apesar de tudo o que aconteceu, eu tenho depositado em você, esquecendo os meus amigos porque estamos falando de situações e sentimentos completamente diferentes, tudo o que eu posso confiar em alguém. — Ela falou e mais uma vez veio o silêncio.
— Hina, por que quando eu sofri o acidente... Por que você aceitou cuidar de mim? Você sabe que se você recusasse qualquer outro aceitaria ou então iriam pagar uma enfermeira, mesmo que eu não precisasse de cuidados sérios.
— No começo eu pensava que se estivesse perto de você, que se por algum milagre você esquecesse somente aquela parte do nosso passado, nós poderíamos ser felizes outra vez. Então eu percebi que você precisaria de alguém perto de você, não só por causa de tudo que você iria lembrar, mas também por que uma hora a morte dos seus pais poderia acabar com você. Recusar estar com você seria o mesmo que negar tudo que você já fez por mim e negar que eu te amava.
Ele afrouxou o abraço dela e virou-se a encarando. Por minutos ele continuou assim até que ela abriu a boca para falar algo mais e ele a interrompeu com um beijo. Não importava mais. Não importava os medos ou a mágoa e decepção que sentiu por ela. Nem Hiashi nem ninguém poderia tirá-la dele outra vez.
— Escutar que você quis cuidar de mim mesmo com tudo o que aconteceu é tão maravilhoso. Eu estava tão exausto Hina, tão exausto de procurar por você... – Ele encostou a testa na dela. – E estar aqui com você agora... Eu só quero me esquecer de tudo o que passamos de ruim, porque depois de tantos momentos difíceis, nós merecemos isso de todo. Nós só somos duas pessoas que querem paz de espírito e felicidade.
— Seria pedir demais? – Ela disse com os olhos lacrimosos.
— Sabe de uma coisa? – Ele a encarou. – Se for pedir demais, eu pago. Sabe por quê? Porque por você e pelo nosso futuro, qualquer que ele seja, eu rodaria o mundo, pagaria por ele até, pela nossa felicidade. – Ele a beijou, de uma forma que ia se aprofundando aos poucos. Ele não podia negar que só estar perto dela, já o deixava maluco, ainda mais louco por ela. Era verdade que tinha medo de machucá-la, por não saberem das consequências do aborto, mas ela estava tão entregue, que ele não se perdoaria se não tentasse um pouco mais. – Você me guiará para eu não te machucar, não é? – Ele perguntou depositando a cabeça na curva do pescoço dela, aspirando o cheiro que nunca havia mudado, ansioso.
— Você não vai me machucar. Eu estou fazendo uma aposta em você... Vou confiar tudo o que eu tenho dessa vez. – Ela disse, com a voz carregada.
Num misto de sentimentos, Naruto a ergueu e Hinata colocou suas pernas em volta da cintura dele. Unidos em um beijo intenso, ele a levou até a cama, deitando-a devagar sobre o colchão. Hinata iniciou um novo beijo, logo tratando de desatar o nó frágil que a toalha fazia em volta dos quadris dele.
— Não é muito justo eu só estar de toalha. – Ele riu.
— É melhor se apressar então. – Hinata escondeu um riso.
Devagar, Naruto tirou cada peça de roupa que ela usava. Eles estavam tão felizes, tão tranquilos, que o mundo parecia haver parado para que eles pudessem consumar o amor que mantinham um pelo outro outra vez. Naruto se lembrava de ter procurado por ela em várias mulheres... O cabelo negro e liso, a pele branca e sempre macia, os seios incríveis, os quadris bem torneados... Mas nenhuma delas chegava perto das características que Hinata tinha, do cheiro que ela possuía. Mesmo que as mulheres com quem ele dormisse se parecessem em alguma característica com ela, nenhuma podia ser comparada em beleza, sensualidade e pureza, ou qualquer outro dos muitos fatores que faziam Hinata única.
Era como uma outra primeira vez. O nervosismo, o medo, a ansiedade... Todo um misto de sentimentos inexplicável esteve presente em cada minuto daquele ato de um incompreendível amor. Os dois podiam sentir seus corações unidos através das respirações, dos corpos, dos olhares. Haviam passado tanto tempo sem ter um ao outro, que naquela noite nada parecia ser real e verdadeiro. Cada sonho interminável de suas noites sozinhas agora era realidade; a única diferença é que o final aterrorizante onde acordavam e percebiam que nada daquilo era real não estava mais presente. O único desejo deles era que esse final horrível nunca mais voltasse.
A manhã logo chegou e Hinata acordou. Ela sorriu ao sentir os braços de Naruto a apertando contra o peito dele, como se ele tivesse percebido que ela tinha despertado. Levantando um pouco a cabeça, ela pôde ver como ele dormia tranquilamente. Ele havia sido incrível... Aliás, ele era incrível. Ele era o homem da vida dela.
— Bom dia. – Ele disse com os olhos fechados e a voz rouca.
— Eu acordei você? – Ela sussurrou.
— Talvez. – Ele sorriu ainda de olhos fechados.
— Durma mais um pouco, eu preciso de um banho. – Hinata tentou se levantar, mas Naruto não deixou, apertando-a ainda mais contra ele. – Não me saia daqui agora, Hyuuga.
— Naruto, eu preciso de um banho. – Ela enfatizou. – Eu dormi logo ontem, não estou muito limpa. – Ela disse envergonhada.
— Ah, então é isso. – Ele riu. Uma risada muito gostosa, que Hinata sentia muita falta de ouvir. – Bem, se isso te convence, você fica ainda mais sexy com esse cheiro pós eu. – Ele riu ainda mais, sabendo que agora ela estaria um pimentão.
— Ora, pare com isso! – Ela disse, afundando o rosto em seu peito.
— Podemos tomar um banho juntos, o que acha? – Ele abriu os olhos e Hinata viu as pupilas azuis dilatadas como ficavam logo pela manhã. Como ela o amava!
— Formidável. – Ela sorriu.
— Então continue aí que eu vou preparar a banheira. – Ele falou se levantando e exibindo sua nudez.
— Você pode colocar uma toalha?
— Não acredito Hina. – Ele riu. – Depois de todo esse tempo?
— Naruto, por favor. – Ela afundou o rosto no travesseiro.
— No fundo você não mudou nada. – Ele a ignorou e continuou andando sem a toalha.
Na banheira, Naruto fez Hinata sentar entre suas pernas. Ele pegou o shampoo e lavou os cabelos dela, buscando por mais intimidade. Hinata contava a ele sobre algum processo do qual ela tinha participado enquanto isso. Ele não estava entendendo nada do que ela falava, artigos parágrafos júri, testemunhas, vítima... Só escutava a voz dela com um sorriso no rosto.
— ... Então o juiz sentenciou vinte e três anos para o acusado. – Ela disse, encerrando. – Eu acho que foi uma boa sentença visto que algumas das provas contra o acusado não eram substanciais para sentenciar um período de tempo como o promotor queria. De qualquer forma, logo estarei voltando à faculdade. Quando terminar ainda terei três anos de advocacia pela frente antes de poder prestar o concurso para o magistrado, então não quero perder tempo. – Naruto estava terminando de enxaguar a cabeça dela, quando ouviu isso.
— Você não voltará. – Ele achou que seria melhor dizer de uma vez.
— Pare com essas brincadeiras. – Ela riu.
— Hina... – Naruto colocou as mãos nos ombros dela.
— Naruto, isso não tem graça. – Ela ficou séria. – Não brinque com algo tão sério quanto isso. Meus estudos foram a única coisa que eu consegui seguir, mesmo que com muito esforço e trabalho. Eu trabalhava um período para conseguir me manter na faculdade em outro. Você não sabe, não imagina o quanto isso significa pra mim. Não cabe a você, não é seu direito dizer isso.
— Sinto muito, Hinata. Sua matrícula já está trancada.
— O quê??? – Ela se levantou em choque. – Repita isso, eu só posso ter entendido errado.
— Eu pedi para que Sakura providenciasse seu afastamento da universidade.
— Você perdeu a noção? – Ela não estava acreditando.
— Eu fiz o que era necessário. Você não está em condições de voltar para a universidade, Hinata. – Ele se levantou a acompanhando. – Depois de tudo o que aconteceu e ainda está acontecendo, eu tenho o direito sim de tomar as rédeas da sua vida. Aliás, eu já tomei. Você tentou o suicídio, ficou instável, não sabemos o que são essas dores e a qualquer momento irá se esconder de novo, colocar uma barreira contra mim. Desculpe, mas eu prefiro que nada disso aconteça de novo. Quando você estiver melhor, poderá voltar. Quem sabe semestre que vem? – Ele se aproximou tentando tocá-la.
— Não me toque!
— Hinata eu tinha que fazer isso, por favor, entenda.
— Você não pode fazer isso. – Ela disse indignada. – Você não estava aqui, você não viu o meu esforço para construir isso com minhas próprias mãos! Você não viu o quanto eu trabalhei para poder me sustentar enquanto cursava a faculdade... Você tem seu sonho Naruto... O que faria se eu o tirasse de você assim? Você sequer pediu minha opinião, apenas fez.
— Você precisa entender Hinata, que eu não sabia o que fazer quando você fez aquilo. Eu sei que se trata do seu sonho, mas não estou impedindo você de realizá-lo, só o atrasando um pouco. Eu não estava aqui vendo você trabalhar duro por ele porque você sabe o que aconteceu entre nós, então não coloque a culpa em mim. Desculpe por fazer isso sem te avisar, mas eu não me arrependo da minha decisão. Você não vai voltar até termos certeza de que está tudo bem com você. Eu fiz isso porque eu me preocupo com você mais que qualquer coisa na minha vida, entenda...
— Como você se atreve a tirar a única coisa que eu obti? – Ela não conseguiu segurar as lágrimas. – Depois que tiraram tudo de mim, depois que eu perdi tudo... Como você se atreve? Quem é você? – Ela se trancou no banheiro empurrando-o para fora.
— Hinata! Hinata não faça isso comigo! – Naruto se apavorou.
— Eu não vou me matar, Naruto. Cale essa boca e me deixe em paz. – Essa era uma Hinata que ele ainda não havia conhecido. – Não haja como se fosse meu pai, porque eu sequer tenho um.
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