Entre o Amor e a Música.
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Ela permaneceu ali. Estática por um tempo que fugiu da sua compreensão; naquele instante ela apenas existia, seu cérebro e seu coração tinham simplesmente desligado, era como se o seu corpo estivesse sob os efeitos de um curto circuito. A realidade só retornou quando a voz de Sasuke falando com Naruto chegou até ela. Mas era tarde, era tarde para qualquer tipo de apelo que ela pudesse tentar, era tarde para convencê-lo a não partir. Naquele momento era como se aos poucos, centímetro a centímetro, segundo a segundo, as cores daquele quarto fossem desbotando; naquele momento tudo simplesmente ia embora com ele, e havia sido ela outra vez.
— Hinata?
A voz de Sakura veio baixa, em um tom cauteloso como se ela esperasse ver Hinata desabar ao chamá-la. Mas não foi isso que aconteceu. Em um primeiro momento, ela não teve nenhuma resposta de Hinata que estava sentada no chão encostada na cama. Preocupada, Sakura apenas ajoelhou-se frente a Hinata e o que ela viu era algo que ela não esperava. Não havia lágrimas, não havia nada. Não havia brilho naqueles olhos, não havia um sentimento ou desejo se quer, ela parecia apenas uma delicada boneca de porcelana que se mostra vazia por dentro ao quebrar.
— Hina?
Ela sacolejou a amiga de leve e novamente obteve uma reação totalmente inesperada: ela apenas levantou, e com passos claramente perdidos saiu do quarto. Era como se alguém puxasse as cordas de uma marionete. Passo após passo ela avançou pelo corredor até parar frente àquele quarto, o quarto que Naruto havia montado e preenchido com alegria e que após isso se tornou nada mais que uma ferida ainda aberta, um aviso sobre o passado. Um lembrete dos erros. E a dor chegou, de uma vez só, aguda e sufocante, apertando seu peito com força suficiente para lhe roubar o ar dos pulmões. Ela não abriu a porta, não conseguia, não controlava o próprio corpo. Ela percorreu o corredor, desceu as escadas, atravessou os cômodos do primeiro andar até chegar naquele objeto. O único objeto que ainda mantinha a cor em meio ao mundo cinza na qual ela foi aprisionada. Aquele piano era o único objeto que atraia sua atenção. Mas no momento em que ela sentou frente a ele, no momento em que tocou o instrumento e deslizou um de seus dedos por algumas teclas tudo veio à tona. A culpa, a falta, a tristeza, a solidão, as mentiras, o passado, o presente, um futuro deformado. E logo as lágrimas vieram, sem pudor. Sem controle. À medida que as cores voltavam, à medida que ela voltava a si o ar ficava cada vez mais pesado, a verdade martelando, as palavras de Naruto em sua mente.
Ela o enganou, ela omitiu, ela mentiu. Ela passou tanto tempo apegada aos próprios erros, se condenando por um passado que lhe foi imposto que ela esqueceu de confiar, de realmente confiar. Ela mentiu para Naruto desde que voltou para a vida dele após aquele acidente. Ela mentiu para si mesma dizendo em sua mente que confiava nele outra vez, que sua vida estava aberta. Mas era mentira, tudo ainda estava lá, perfeitamente espremido em um canto do seu coração. O desespero ao pensar que Naruto havia a abandonado, a esperança que morria a cada palavra de seu pai, o caminho até a clínica, cada segundo naquele inferno, cada momento, cada sensação... O quão violada foi. Estava tudo ali... O sumiço de seu pai após as ofensas de Naruto. A solidão, o silêncio em casa nos dias em que Hanabi era obrigada a passar no hospital. Os dias em que ela era obrigada a mergulhar na própria dor e não podia fazer nada além de sentir sua alma aos poucos se desmanchar. O início daquela semana, o primeiro dia do outono que marcou a contagem regressiva para o fim de Hanabi... A sensação de impotência dia após dia, a falta de sono, a falta de fome, o desespero. Até a solidão total que veio após aquele pôr do sol no hospital, tudo que devorou qualquer resquício de felicidade em seu coração quando ela atravessou aquela porta sabendo que não teria mais a companhia de Hanabi.
Dia após dia, tudo que ela fez foi “existir”. Viver uma vida falsa onde o dia e a noite tinham o mesmo cinza frio e triste. A relação complicada com Neji, a recusa dela em querer companhia, a insistência dela para que ele esquecesse o último pedaço daquela família desfigurada. E então vieram as discussões com Naruto, as acusações de um para o outro sempre que se encontravam... Até aquele dia que após meses sem vê-lo cara a cara ele apareceu na sua porta de madrugada trazendo com si tudo que ela havia perdido, cada uma das pequenas sensações que ele trazia consigo...
— Hinata... Você sabe que ele não te abandonaria... – disse Sakura sentando ao seu lado.
— Sakura... Lembra naquele dia, quando eu e Naruto nos separamos, quando meu pai sumiu e eu me afastei de vocês?
— Sim.
— Sabe por que eu fiz isso?
— Não...
— Não foi por vergonha por ter feito um aborto, não foi por negar a amizade com você e com as garotas, eu apenas queria que o meu corpo não resistisse. Que eu fosse morrendo dia após dia igual Hanabi. Estar com você, com a Ino só me trazia o desejo de continuar viva, de consertar os meus erros... Estar com vocês me fazia recordar de Naruto a todo momento. Eu fui egoísta. Eu me agarrei à morte da minha irmã, vi isso como uma forma de punir a mim mesma, de me destruir e eu nem mesmo percebia o quanto isso machucava Hanabi, o quanto machucava vocês... Aquelas fotos. – ela apontou para os álbuns sobre o sofá e a mesa de centro. – Não é apenas a lembrança da minha irmã que me machuca ao visualizar tudo aquilo.
— Como assim?
— Quando eu percebi que era a última semana dela, que era uma despedida, eu gastei todo o dinheiro que tinha comprando a melhor câmera fotográfica que consegui. Aquelas fotos para mim, são o registro do quanto eu fui feliz naquela semana. E elas sempre me lembram das coisas que Hanabi me dizia, uma coisa em especial. Ela dizia pra eu provar a Naruto, explicá-lo tudo, ir atrás dele porque eu ainda tinha tempo para fazer isso. E então ela se foi, e eu esqueci essas palavras, eu não lutei, eu nem mesmo tentei... E agora veja Sakura... Meu corpo está tão fraco que eu não consigo subir as escadas para voltar ao quarto... E céus eu estou grávida!
Ela não conseguiu mais falar, o choro a impediu de continuar, ela tentava em vão secar as lágrimas com uma mão enquanto a outra permanecia encostada na própria barriga.
— Ei... Você está alegre por esse bebê, eu posso ver isso! Não importa quanta dor e sofrimento estejam tentando te sufocar, eu posso ver essa felicidade tão claramente nos seus olhos... Muitas pessoas te confiaram muitas coisas, sejam elas boas ou ruins. O que te afeta não é a quantidade de dor ou sofrimento que você carrega, pois nos últimos tempos e mesmo agora com essa criança se formando você tem emanado felicidade! O que te afeta é a solidão Hina, você se acostumou a fechar o coração depois que Naruto foi embora e após Hanabi também partir você trancou as portas e jogou as chaves no lixo. Mas você tem que abrir, olha a chance que a vida te deu, mesmo contra todas as probabilidades e contrariando todo o seu momento você engravidou. Hinata vocês se machucaram muito no caminho, eu sei que em um outro momento Naruto diria palavras muito melhores que as minhas. Mas ele também se fechando, ele está no limite e você sabe disso. Perder Kushina e Minato em um momento em que ele nem mesmo conseguiria dizer o que sentia pelos dois... Por mais que Jiraya preencha uma parte disso, você sabe o quanto apegado ele era à Kushina e o quanto ele dependia de Minato. Você precisa mudar, não apenas por ele, não apenas pela gravidez. Mas por vocês três, em pouco tempo vocês serão uma família.
— Eu não tenho mais como guardar isso Sakura...
— Então não guarde. Deixe tudo sair não importa o quão doloroso seja, você tem a Naruto, a mim, a Sasuke... Ino, Gaara, Shikamaru, Temari... Jiraya. Eu vou estar aqui com você enquanto Naruto estiver fora, você não vai estar sozinha. Então, eu quero que você repense, que você lembre de quem você era antes daquele aborto, antes de toda aquela confusão. Se você achar que não vai conseguir, lembre-se de uma coisa; a sua chance... Não, a chance de você e Naruto recomeçarem está aqui. – ela tocou a barriga de Hinata. – E apenas você pode olhar para frente e transformar essa chance em realidade. Você lembra do que Kushina te disse logo após sua mãe morrer e Hanabi adoecer? Ela disse: “Encha a si mesmo com amor e alegria, afogue sua alma em felicidade de uma maneira que não sobre espaço para coisas como tristeza e solidão.”. E é isso que você tem que fazer, siga em frente, levante a cabeça e dê a esse bebê a chance de construir outro caminho para vocês.
O dia seguinte demorou a chegar, tanto Sakura quanto Hinata quase não dormiram, mas na manhã seguinte enquanto fazia o café ela foi pega de surpresa pela amiga que apareceu na cozinha arrumada.
— Sakura, você pode me levar até o hospital? Eu volto de táxi depois para não te atrapalhar. – Sakura sorriu e concordou.
— Então você termina o café? Vou me arrumar e avisar ao Naruto e...
— Não.
— Hã? Por que não Hina?
— Deixe-o por enquanto, Sakura. Ele precisa de um tempo longe dos meus problemas eu sei disso. Eu não vou morrer se ficar alguns dias sozinha.
— Tudo bem.
Após o rápido café da manhã logo elas estavam a caminho do hospital em uma viagem curta que durou pouco mais de vinte minutos.
Longe do consultório, Sasuke encerrava uma ligação para Sakura.
— Sabe, eu posso considerar você um tanto que desnaturado por perder a consulta dela.
— Não começa Sasuke.
— Ok, ok... Mas e então, era essa a sua ideia? Fazer esse teatro todo para ela acordar para a vida?
— Não exatamente... Não vou mentir para você dizendo que não pensei que ela estivesse me traindo. Eu quase enlouqueci. Todo o tipo de pensamento passou pela minha cabeça, Sasuke. Eu preciso colocar minhas ideias no lugar.
— E como exatamente você vai fazer isso?
— Vou me encontrar com esse tal de Neji daqui a pouco.
— Não acha que isso é muito precipitado?
— O que você quer que eu faça? Espere Hinata melhorar e deixe esse cara interromper tudo e confundir a cabeça dela da mesma forma que Hiashi fez? Não vou esperar as coisas chegarem a esse ponto. Se ele quer se aproximar de Hinata ótimo, eu não vou impedir, mas se ele acha que vai ficar perto dela para estragar as coisas, ele não vai.
Poucas horas após ele estava no local combinado. E como ele já esperava, lá estava, a mesma pessoa que encontrou Hinata. Vestido com um terno impecável e tão caro quanto as roupas que Naruto vestia. Havia um detalhe que ele não pode reparar antes: os olhos dele eram iguais aos de Hinata.
— Confesso que não esperava que você realmente viesse.
— E eu não esperava que você fizesse esse pedido.
— Muito bem não vamos perder tempo, Hyuuga Neji... Parece que você tem uma relação bem próxima com Hinata. Você ainda mantém contato com Hiashi ou só ela?
— Tio Hiashi é um assunto meu e de Hinata.
— É sério isso? Depois de tudo aquilo?
— Olha, ele é da nossa família. E está disposto a se redimir por tudo o que aconteceu. Eu, mais que ninguém, sei o que aconteceu, Hinata é a minha menina. Eu não a deixaria desamparada como você fez. Mesmo da Inglaterra eu estive com ela e apenas porque Hinata estava tão magoada que não me deixava entrar ou vir pra cá, ameaçando fugir e me deixar sem nenhuma notícia dela. Você tem ideia de como eu me senti? Tendo todos os recursos e vontade de ajudar a minha Hinata, que havia abortado um filho de um moleque irresponsável e sido deixada pelo próprio pai sem nenhum centavo com uma irmã e mãe mortas? Enquanto você, meu caro, estava fazendo sucesso pelo mundo, transando com todas que lhe ofereciam o traseiro e ganhando muito dinheiro. Hinata não aceitava muito dinheiro de mim e trabalhava como uma condenada. Tio Hiashi havia perdido até a casa, foi por isso que ela se mudou para o apartamento das amigas.
— Você não tem ideia de quem está acreditando... Ele não mudou! E eu sempre amei Hinata, sempre. Você não sabe da nossa história, você não tem o direito de falar de tudo o que vivemos. E pare de chamá-la de sua, porque ela não é.
— Hiashi não interfirirá na vida de Hinata nunca mais, eu estou pagando por isso. Ele ainda é o pai dela, ela o ama. É preciso fazer com que ele esteja acessível quando ela quiser vê-lo, e eu já estou cuidando disso. Ela já concordou com isso e se sente mais segura assim. Agora em quem eu não confio é em você, Uzumaki. Você a engravidou de novo e não esteve na consulta de hoje... Vai fugir de novo ou o quê? Eu preciso que você diga que estrago quer fazer dessa vez, porque eu estarei aqui para reparar. Se você não tivesse feito aquela porcalhada na nossa vida, Hinata teria ido morar comigo na Inglaterra. Mas depois de tudo, ela se fechou e só aceitou manter contato por um telefone... Isso quando ela o ligava.
— Eu não deixarei Hinata sozinha, ela e o bebê estão sob minha proteção.
— Eu não acredito em nada do que você diz. Aliás, como você teve a coragem de achar que ela estava te traindo? Como você se atreve, depois de tudo o que fez? Você sabe que ela acompanhava os seus affairs pela internet? Ela acompanhava toda a sua vida, você sabia? Eu me lembro de todas as ligações em que ela desabava no telefone e eu não podia reclamar, com medo de que ela desligasse o celular e ficássemos sem contato. Você fala em Hiashi, no grande mal que ele fez a ela, mas você foi um grande causador também. Você, para mim, é pior que ele. Hiashi pelo menos é mentalmente desequilibrado, já você tinha ciência de tudo o que fazia.
— Se você é tão incrível, por que só veio agora? – Naruto o ignorou.
— Eu soube que vocês estavam juntos outra vez. E Hinata é tão idiota que não fugiria tendo você por perto. Então eu vim o mais rápido que pude. Ela ligou o telefone e me contou que estava grávida.
— Volte para o buraco de onde você veio. Eu estou no controle da situação e não deixarei que você estrague tudo.
— E se eu não quiser? Acho que teríamos um empasse não é?
— Não, nós não temos. Eu não estou pedindo, eu estou dizendo que você vai embora.
— Parece que você não está entendendo... Então me deixe expressar as coisas em um tom mais claro. Eu vim para levar Hinata embora. Por mim, ela terá o bebê na Inglaterra mesmo. E não me venha você dizer o que irei ou não fazer, você é apenas um rapazinho impulsivo.
— Eu não sou nada disso do que você pensa e diz. A minha história com Hinata, apesar de não ser da sua conta, é muito mais complexa que isso. E eu te desafio a tentar. Você não sabe com quem está mexendo.
— Eu sei muito com quem estou mexendo Uzumaki.
— Bom, você está avisado. – Naruto quis levantar, mas Neji o fez primeiro.
— Ah, e logo que ela concordar, a criança terá o meu sobrenome.
— Só por cima do meu cadáver. – Naruto rosnou. – Você não vai levar a minha Hinata ou meu filho embora. Se quer comprar uma briga, você comprará.
— Então me responda, se você diz que luta tanto por ela e pela sua proteção, por que a abandonou naquela casa?
— Como você sabe do que se passa entre nós? Eu tenho certeza que Hinata não está conversando tanto com você.
— Não importa. Mas me responda, por que você a deixou com aquela mulher na casa? É assim que você diz que ficará ao lado dela? Apenas mais um conflito e você sai de casa? Você realmente não tem culhões para lidar com uma família como a Hyuuga, garoto. Estou lhe dando essa chance, saia limpo e sem culpa disso. Eu cuidarei de Hinata, nada faltará a ela. Amor, dinheiro, felicidade, nada faltará.
— Não se atreva. – Ele disse o encarando fundo.
— É uma questão de tempo agora. Você já está se cansando, fazendo o que ela tanto tentou me dizer que você não fazia: Deixando-a. Tudo o que ela vem tentando me dizer desde que eu cheguei aqui é que ela está melhorando, que você só se esforça por vocês dois, que ela está começando a se cuidar porque você está do lado dela... Já estou vendo que a situação não é mais essa e talvez nunca tenha sido.
— O aviso está dado. – E ele saiu.
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