Notas iniciais
Voltei logo, não foi? uhu! Novamente queria agradecer muito pelos reviews e pela nova recomendação. Vocês são demais! É sério, queria que vocês imaginassem o quanto é bom saber que alguém lê e gosta do seu trabalho. Sobre esse capítulo, as coisas não ficarão menos emocionantes. Eu e o outro autor tentamos colocar, nesses últimos capítulos sobre a revelação do passado dos dois, tudo o que os personagens sentiam nas nossas mentes. Espero que estejamos fazendo um bom trabalho, porque não falta esforço e madrugadas construindo as coisas, já que moramos longe um do outro. Os últimos capítulos foram construídos ao som de Lullaby, do Nickelback. Seria legal se vocês escutassem lendo esse, o torna mais envolvente. O link estará no início da história, logo aqui embaixo! (: Outra coisa; pra quem acha que a história está acabando, pode tirar o cavalinho da chuva, tem muita coisa pela frente ainda. Hahahahahaha Beijo, obrigada e bom proveito! Vejo vocês nos comentários ( estou respondendo todos ). ♥

Nickelback — Lullaby:

http://www.youtube.com/watch?v=D3-2yOqRn9E&feature=fvst

Ele se calou, não havia mais nada a ser dito. Mais nada que não pudesse ferir mais que aquelas lembranças e aquele sentimento que insistia em respirar. Dando as costas para ela, seguiu para seu quarto e fechou a porta.

Ao entrar no quarto, pegou a caixa que continha o seu tesouro. Lá estavam guardadas as chaves e outra coisa.

Flash Back.

Naruto estava andando pelo shopping onde havia acabado de almoçar com um negociador e Gaara. Queria caminhar um pouco antes de ir correndo para o hotel e então, ter outra reunião. Ao passar por uma loja enfeitada de laços brancos, pôde ver que algumas mulheres grávidas estavam lá dentro escolhendo roupinhas e coisas para os seus bebês. Resolveu então, entrar.

Andou um pouco pela loja que tinha um tamanho considerável e viu uma vitrine enfeitada com bichinhos de pelúcia, o que lhe chamou a atenção. Lá, uma moça que aparentava acabar de ter completado a maior idade escolhia alguns sapatinhos.

— Você vai ser pai? – Ela perguntou curiosa.

— Sim. – Naruto sorriu envergonhado. – Estava passando em frente e decidi ver como funcionam as coisas.

— Ah, é o máximo.

— Foi difícil para você? – Naruto perguntou pelo fato de ter percebido o quão ela era nova. Quase como ele e Hinata.

— No começo, meus pais não aceitaram a ideia de eu ter engravidado cedo, mas agora estão ali escolhendo uma eternidade de roupas para o meu bebê. — Ela riu acariciando a barriga.

— Mal posso esperar para ver minha namorada assim. – Naruto estava encantado com o barrigão da moça. – Ela vai ser a mulher mais linda do mundo.

— Ok, está decretado: Todos vocês, homens, pensam da mesma forma. Você está falando com a atual mulher mais linda do mundo, de acordo com o meu noivo.

— Hahahahaha, você até que tá bonitinha, mas Hinata definitivamente ganhará. – Ele riu. – Nossa, que diferentes. – Naruto olhou para a vitrine e viu sapatinhos de bichinhos de pelúcia.

— Não são? Vou comprar um para o meu neném.

— Acho que... Vou levar um.

— Quer que eu ajude a escolher?

— Não precisa, eu acho que esse aqui ficará muito legal nele ou nela.

— Vai mesmo.

— Por favor, quero esse sapatinho aqui. ( http://img.alibaba.com/photo/255492785/plush_baby_shoes_in_bear_design.jpg ) – Naruto mostrou à vendedora, que logo embalou o presente.

Fim do Flash Back.

Ele não conseguia parar as lágrimas. Os sapatos eram tão pequenininhos que faziam seus dois dedos enfiados parecerem pernas nele. Na época em que havia os comprado, decidira que eles seriam os primeiros que o filho ou filha calçaria. E ele havia perdido as contas do tanto de vezes em que se pegava os segurando e rindo sozinho. Era uma sensação tão maravilhosa, a de você saber que havia feito alguém que iria proteger e cuidar junto de quem você mais amava no mundo. Vê-lo comer papinhas, dar os primeiros passos e cair, ir à escola pela primeira vez, ter os dentinhos caindo, brincar junto de tudo o que ele quisesse, ensinar as coisas boas e o que não devia fazer...

Mas num piscar de olhos, o sonho acabou e se tornou um grande pesadelo. Pesadelo este, que estava vivendo todos os dias desde aquele terrível dia.

Para ela não importava mais nada, não tinha nada mais a perder, já estava destruída por dentro há muito tempo e continuar guardando tudo aquilo apenas aumentava a dor. Ela caminhou, foi até a porta do quarto dele e a socou várias vezes.

— Abra Naruto! Você não vai fazer isso comigo! NÃO OUTRA VEZ! É verdade, eu fui uma imbecil eu sei, eu acreditei naquelas palavras vazias do meu pai quando ele só queria me usar para não ir preso. Eu me amarrei na esperança de encontrar uma cura milagrosa para Hanabi na última hora, eu acreditei nele, eu fiz aquilo... MAS O QUE ISSO IMPORTA, AGORA?! EU TIVE ESPERANÇA, E DAÍ? MINHA MÃE ESTAVA MORTA, MINHA IRMÃ MORRENDO AOS POUCOS A CADA DIA! VOCÊ ERA TUDO QUE EU TINHA E DO NADA EU ESTAVA PERDENDO VOCÊ TAMBÉM! VOCÊ NÃO SABE O QUANTO EU CHOREI NAQUELE DIA! O QUANTO EU IMPLOREI A DEUS A CADA SEGUNDO QUE VOCÊ APARECESSE E ME TIRASSE DE PERTO DO MEU PAI!

Ela parou, não conseguia respirar direito e seu corpo já perdia a força.

— Ver você na minha frente quando eu voltei para casa... Você não sabe o que eu senti! Uma parte de mim queria que você me odiasse, que você sumisse e nunca mais olhasse para mim. Mas outra parte queria que você me abraçasse e me perdoasse! Depois daquele aborto... Eu me sentia vazia e morta por dentro enquanto meu coração era sufocado por um maldito amor que eu nunca consegui matar!

Flash Back

A campainha não parava de tocar, mas ela não fazia menção de que sairia de seu quarto, atravessaria toda a casa para ir até a porta e abrí-la. Não havia por que fazer isso.

Por outro lado, Hanabi já incomodada com todo aquele barulho, levantou com certa dificuldade e seguiu para a sala. Ao abrir a porta deparou-se com Sakura e Ino aflitas.

— Hanabi! Onde está a Hinata? O que está acontecendo?

— Calma! Não vai adiantar essa bagunça toda. Entrem vocês duas.

Após as três sentarem-se no sofá Hanabi respirou fundo e preparou-se para as perguntas que certamente viriam.

— Em primeiro lugar, a Hinata está trancada no quarto e não adianta vocês irem até lá, estou tentando entrar há dois dias mas ela não abre a porta. E eu fui proibida de dizer o que aconteceu.

— Ela te proibiu? – perguntou Ino nervosa.

— Não, eu me proibi de falar nisso. Desculpem-me, mas por mais que vocês sejam amigas dela, eu não vou tocar nesse assunto. Nunca mais, eu espero.

— Hanabi, por favor, o que aconteceu? Diga-nos, por favor! Tanto ela quanto Naruto não nos dizem nada, desde aquela viagem repentina dela para o EUA nós não sabemos nada que está acontecendo!

— Desculpe, mas realmente não posso contar.

Ela estava com o ouvido colado na porta do banheiro. Então ele não tinha contado? Podia jurar que ele diria para todos, diria para todos o quão sem escrúpulos e imunda ela era. Mas por que ele simplesmente se calou?

Não parecia mais importar. Estava agora debruçada na pia do banheiro enquanto se encarava no espelho a sua frente. Encarava seu próprio olhar, encarava sua face outra vez. Tentava de todas as formas, pensar o que Naruto estaria fazendo, como se sentia, o que pensava dela naquele momento, se ele a odiava, se ele ainda a amava. Todos aqueles pensamentos se atrelavam tão fortemente aos sentimentos em seu peito que a fazia perder o ar. E ainda havia aquela sensação, aquele vazio imenso que vinha de seu corpo. Ainda sentia claramente a dor do ato que cometera, ainda se lembrava de como cada pedaço de corpo gritava implorando que ela voltasse atrás com sua decisão e parasse com aquilo. A cada minuto, a cada segundo aquilo gritava em sua mente ecoando por toda sua alma, sem limites e sem pudor algum. Sentia como se seu corpo a rejeitasse, tinha vontade de rasgar cada pedaço de sua pele, se sentia suja. Imunda. Não tinha o direito de estar ali de pé saudável e viva.

Tinha matado um ser, abortado uma vida quando ela mais precisava de sua compreensão. Então por que agora ela queria compreensão? Naruto estava certo, não estava? Ela não passava de algo imundo, algo que não merecia mais estar ali, desejando o amor de alguém, ansiando a companhia de alguém. Seus olhos estavam vazios. Restava apenas uma casca vazia daquela que um dia foi Hyuuga Hinata, da pessoa que teve tudo para nesse momento ser a pessoa mais feliz do mundo.

Teria como castigo viver. Viver para Hanabi, que era quem precisava dela naquele momento. Viver para pagar pelos próprios erros e conviver com as memórias que iriam lhe assombrar a mente para sempre.

Fim do flash back.

Ela terminou de falar, havia tocado pela última vez naquele assunto que ela queria para sempre esquecer. Tudo aquilo ainda a corroía, ainda a destroçava. Ela era apenas uma falha, uma pessoa quebrada que cometeu os piores erros possíveis e agora não tinha um caminho para voltar. E ele estava lá, a única pessoa viva que podia perdoar seus erros estava do outro lado daquela porta.

Hinata apenas encostou suas costas na madeira fria da porta e ali ficou. Estava de volta àqueles dias. Os dias sem sua mãe, sem Hanabi, sem seu filho e sem Naruto. Os dias em que estava envolta apenas pelo frio e pela tristeza. Estava novamente presa àquele mundo sem sol e sem vida, e o que mais doía era saber que depois de todos os seus pecados serem expostos, depois de tudo que foi dito, apenas um simples sorriso naquele rosto seria suficiente para aquecer seu corpo e sua alma. O que mais doía era que agora, se ela pudesse apenas vê-lo, tudo ficaria bem.

Não podia mais continuar ali, não conseguia mais suportar aquilo. Era simples, já não tinha mais forças para lutar ou para esperar um perdão que jamais viria.

Levantou devagar e foi até seu quarto, remexeu um pouco suas coisas até achar uma cartela com alguns comprimidos. De volta ao corredor, ela parou frente à porta do quarto que sempre estivera trancado e continuava assim. Era uma pena, pois ela realmente queria olhar aquele quarto outra vez. Ignorando aquela vontade, apenas seguiu para o banheiro. Entrou, trancou a porta, despiu-se e entrou na banheira cheia de água quente. Precisava pensar, precisava tomar uma decisão.

— Eu realmente preciso fazer isso, não é?

Ela deu um meio sorriso enquanto levava a mão à barriga e sem hesitar, tomou todos os comprimidos que haviam na cartela.

Não era sua vontade morrer, nunca foi. Mas ela sempre soube que enquanto estivesse viva, não poderia consertar aquele erro. Não era como se houvesse uma borracha mágica que a fizesse esquecer-se de tudo.

Depois de tanto tempo no escuro, ela só queria paz. Queria dormir para sempre, sem pesadelos. Dormir como a pequena sereia, talvez assim ela virasse bolhas e tudo aquilo passasse. Queria encontrar a mãe, Hanabi e quem sabe seu filho do outro lado... Naquele momento, instintivamente, colocou ambas as mãos na barriga.

— Sabe, às vezes eu me pergunto como teria sido. Você teria o quê? Iria ter quase um ano, certo? E eu não estaria no meio de tudo isso. Eu teria você comigo, ele teria você... No fim, eu acho que só atrapalhei tudo, não é? Naruto planejou tudo. Fez tudo o que podia para me deixar livre. Comprou uma casa linda, iria me pedir em casamento... Ele montou até um quarto para você! Eu devo isso a você e devo a ele também, eu acabei com a vida de vocês dois. Quem sabe se eu não estiver aqui, ele consiga recomeçar com outra pessoa e quem sabe você até venha viver com ele, não é? Mas eu só queria saber se um dia vou conseguir o seu perdão... O seu e do seu papai...

O sono já começava a tomar conta do seu corpo, sentia o mesmo cada vez mais pesado. Porém já não se sentia suja como antes. Estava fazendo o certo, tirando sua vida, compensando seu erro.

— Eu estraguei tudo. Ele sempre esteve lá... Eu deveria saber que ele não iria me deixar. Mas eu fui fraca, eu deixei me levar pela situação e tudo terminou dessa forma. Eu achei que poderia recomeçar, que teria outra chance. Mas eu estava enganada... Todo esse tempo serviu apenas como uma maior punição, só para tudo vir abaixo... Eu perdi minha mãe, eu matei você. Eu perdi Naruto, eu perdi Hanabi, não tive sequer o amor do meu pai. Eu não tenho mais nada agora além dessas lembranças e dessa culpa, eu não posso continuar nessa casa, não posso continuar com ele. Eu não tenho mais para onde voltar. Não posso voltar para as garotas, não posso obrigá-las a cuidar de uma inútil como eu... Seria bom se tudo tivesse sido diferente, se apenas eu tivesse ficado doente, se apenas eu tivesse morrido, Hanabi não teria passado por aquilo tudo, meu pai não teria enlouquecido, e eu não teria matado você, não teria destruído Naruto.

Ao fim das palavras, ela apenas adormeceu enquanto seu corpo afundava na banheira. Estava com medo. Estava apavorada. Uma parte dela queria naquele momento parar tudo aquilo, voltar a respirar. Mas não podia, tinha tomado uma decisão que não poderia ser desfeita, agora não se tratava mais daquela criança, nem de Naruto, nem de sua mãe ou de Hanabi. Agora se tratava apenas dela. Dos erros dela. E daquele amor que tanto doía.

Em pouco tempo ela iria apenas desaparecer, iria se esquecer dos momentos que teve, de tudo que passou, de tudo que fez. Naquele momento ela só conseguia pensar no quanto ela amava Naruto e no quanto ela o machucou. Só conseguia pensar nas palavras dele, no quanto ele a odiou, no quanto ela o destruiu.

Não importava se seus pensamentos eram repetitivos, não precisaria mais chorar, nem amar, nem odiar. Era apenas o fim de Hyuuga Hinata.

“Caso você volte para ele, você poderia apenas fazê-lo feliz? Da maneira que eu tenho certeza que teria feito caso eu não tivesse matado você? Eu sei que você provavelmente teria o sorriso dele, o olhar dele e seria tão forte quanto ele... E agora, só agora, pela última vez... Por favor, me perdoe?”

— Hinata? Você está me ouvindo? Preciso falar com você. – Naruto havia voltado atrás. Eles podiam conversar melhor, podiam resolver aquilo... Não era para isso que tinha ido ao apartamento dela antes do acidente?

Ele estava parado em frente à porta do banheiro. Havia escutado ela abrir e fechar a porta do quarto em direção a ele, devia estar tomando um banho... Mas ela não respondia. Não importava o quanto ele batesse e chamasse, ela só o ignorava.

— Hinata? Ei, está me ouvindo?

Já estava um tanto nervoso pela demora dela em responder. Ela teria coragem de fazer alguma coisa?

— Hinata! Se você não responder eu vou entrar! – O pensamento de que Hinata tiraria a própria vida por conta de uma conversa mal acabada o dominou apavorantemente.

Ele a chamou mais algumas vezes, mas não houve resposta e aquilo começou a deixá-lo cada vez mais nervoso, até que sem pensar em mais nada ele se afastou e com toda a força que encontrou chutou a porta. Pôde-se ouvir o barulho da madeira rompendo perto da maçaneta e a mesma abriu. Quando ele olhou para dentro do banheiro, a viu dentro da banheira cheia d’água.

Sem pensar em mais nada, correu até ela e a puxou. Pegou-a nos braços e a estendeu no chão gelado do banheiro. Ao checar o pulso, confirmou que ele estava fraco, quase inaudível.

— Merda!

Sem perder tempo, ele esticou o pescoço dela e tapou seu nariz fazendo respiração boca a boca. Uma, duas, três vezes e ele sentiu ela se mexer querendo cuspir a água. Mais uma vez e ela colocou toda a água para fora, mas havia algo errado. Ela não acordava, ele olhou em volta e no chão havia uma cartela de compridos vazia.

— Não Hinata! Não!

Ele a cobriu com outra toalha ao mesmo tempo em que a colocava nos braços e deixou o banheiro correndo. Foi até seu quarto, pegou seu celular enquanto a depositava na cama. Discou alguns números e por longos minutos ouviu o sinal de chamada.

— Naruto? Está tarde, já é madrugada.

— Sakura, eu preciso que você venha até aqui em casa, agora!

— O que houve? – perguntou ela já preocupada.

— Apenas venha para cá, por favor, e não fale com ninguém, apenas com Sasuke! Venha preparada para uma desintoxicação, quando você chegar eu explico.

Sakura chegou em poucos minutos acompanhada de Sasuke. Naruto havia pedido para ela trazer o que fosse necessário para uma desintoxicação, mas não explicou nada. A preocupação estava estampada na face do casal.

— Certo, você pode me explicar o que houve? – Ela entrou na casa.

— Hinata tentou se matar. – Naruto disse dolorosamente. – Por favor, resolva isso logo, depois prometo que conversamos.

— Certo. – Sakura agiu profissionalmente. – Agora me diga o que aconteceu.

— Quando arrombei a porta do banheiro, ela estava desmaiada na banheira, tentou se afogar. Fiz um procedimento de respiração boca a boca e ela cuspiu toda a água, talvez algum dos remédios, eu não sei, estava muito nervoso e eles eram minúsculos.

— Ela tomou algum remédio?

— Uma cartela deles.

— E então?

— Continuou desmaiada. Eu vesti um pijama nela e a coloquei na minha cama, agora ela parece estar semiacordada. – Naruto, que antes estava caminhando com o casal pelo corredor, agora abria a porta do quarto para que eles pudessem ver uma Hinata meio acordada, com os olhos semicerrados.

— Talvez não tenha dado tempo dos remédios fazerem efeito no organismo dela. De qualquer forma, vou examiná-la e se necessário iniciar um processo de desintoxicação. Vocês podem esperar na sala e você, Naruto... Espere por uma longa conversa entre nós dois.

Naruto desceu com Sasuke, jogou-se no sofá e esfregou o rosto com as mãos. Ele estava visivelmente abalado. Um misto de sentimentos passava pelo fundo da alma dele, agora. Culpa, raiva, remorso, medo, choque, frustração, horror... Ele podia ficar horas tentando listá-los.

— O que houve? – Sasuke interrompeu o silêncio.

— Não é óbvio?

— O que a levou a fazer isso? – Ele estava mais sério do que Naruto jamais tinha visto. – Hinata conviveu com tudo o que ela sentia todo esse tempo, mesmo que estivesse submersa em um universo afastado de nós... O que a levou a tentar se matar logo agora, Naruto?

— Eu sinto nas suas palavras o quanto você está me acusando, Sasuke.

— Você deve estar fazendo o mesmo, porque sabe que é verdade.

— A culpa é minha mesmo... Eu falei horrores a ela... Eu... Estou me sentindo um monstro, Sasuke... Eu a amo e mesmo assim... O que eu fiz?

— Não importa o quanto eu pedi para considerar o lado dela, não é?

— Eu não consegui pensar em outra coisa! O que ela fez... Ela matou meu filho, Sasuke...

— Eu sei que é difícil porque é totalmente diferente para nós homens, Naruto... Mas tente imaginar... Hinata tinha acabado de perder a mãe e estava sendo vendida pelo pai para tentar curar a doença que levaria sua irmã também... Hiashi não dava a mínima para ela, a família estava ruída... E então ela fica grávida. Uma moça-menina que não tem mais nada de repente se vê uma mulher grávida e não acha o pai do filho que antes tinha dito que iria ampará-la... Ela não tinha ninguém. Ela olhava para os lados e só via aquele filho da puta... Ela foi guiada pela ingenuidade, pelo homem que ela acreditava que devia ser, pelo menos uma vez, quem devia protegê-la.

— Eu...

— E mesmo assim, depois que ela ouviu tudo de você, depois que você a deixou... Ela continuou lá por Hanabi. Vendo a irmã mais nova padecer na sua frente enquanto ela não podia fazer nada, só esperar pelo pior. Então Hanabi morreu e ela teve o que restava do coração despedaçado. Eu imagino que nesses últimos tempos, ela estivesse tentando se estabilizar com você, mas de repente... Tudo desabou de novo.

— E agora ela não era mais necessária aqui... – Naruto completou o pensamento do melhor amigo.

— Isso. Agora não tinha Hanabi precisando dela, não tinha ninguém. Ela devia estar achando que sua vida seria muito melhor sem o peso da dela...

— Eu... Sasuke... Eu juro que não foi essa a minha intenção... Ah meu Deus... Você sabe, você sabe que eu a amo... Você sabe que eu a amo mais que tudo na minha vida, Sasuke... – A dor estava estampada na face dele.

— Eu sei... Eu também posso estar sendo machista dizendo isso, mas ela é uma mulher, Naruto. E ainda mais, é a Hinata. Ela sempre foi a mais sensível de todos nós, a mais ingênua, mais doce... Mesmo que você tente se colocar no lugar dela, não sentirá um terço do que ela sentiu. Eu sempre, sempre estive do seu lado para tudo, mas dessa vez... Se algo acontecer, a culpa será sua.

Após algum tempo de espera, Sakura apareceu na sala. O silêncio havia se instalado desde a última frase de Sasuke, Naruto não tinha como rebater um argumento que ele mesmo julgava estar certo.

— Eu sei que você quer conversar comigo, mas eu preciso falar com ela.

— Naruto... – Sakura tentou pará-lo.

— Por favor, Sakura. Eu preciso. – O olhar dele denunciava o quanto eles precisavam conversar. Olhos inchados e vermelhos, cabelo mais bagunçado que o normal. Aquele, definitivamente, não era o grande astro da Midnight.

— Não posso te garantir que ela irá conversar com você, porque não soltou uma única palavra enquanto eu estava com ela. Ainda assim, não force. Ela precisa de descanso, por favor.

— Sasuke, você pode contar tudo à Sakura. – O loiro deu um sorriso triste. – Podem ir para casa, vocês devem estar exaustos...

— Tem certeza? -Sasuke perguntou.

— Tenho. Qualquer coisa eu ligo, obrigada. – Falou enquanto os acompanhava até a saída.

Ao abrir a porta, seu coração se contorceu por inteiro dentro do peito. Hinata estava deitada, coberta por um grosso cobertor com apenas um braço de fora com soro entrando pelas suas veias. Os olhos, abertos, fitavam o nada enquanto lágrimas não paravam de cair.

Naruto, vagarosamente, puxou uma poltrona para perto. Tinha medo de sentar na cama e quebrar a moça de alguma forma. Com muito receio, tocou o braço dela, atraindo o olhar triste da mulher para si.

— Eu... Eu... Por favor, me perdoe... Meu Deus... – O choro voltava com tudo. – Eu planejei essa conversa tão bem antes do acidente... Mas hoje eu estraguei tudo. Não me coloquei no seu lugar, não pensei com clareza... Não faça isso, não vá para longe de mim outra vez. Pelo amor de Deus, eu estou te implorando. Não me assuste assim, não me deixe... Eu estou aqui... Você não está sozinha, Hina...

Tinha a mais pura dor em suas feições suaves quando ela fechou os olhos, sem dar a Naruto uma única palavra em resposta.

— Por favor... – Naruto abaixou a cabeça e a apoiou na cama enquanto soluçava. – Eu imploro... Olhe para mim, diga que vai ficar tudo bem... Diga para mim que você nunca irá fazer isso outra vez... Eu te amo... Eu te amo mais que tudo...

— ...

— Céus, fale comigo, Hina... Por favor... Por favor, querida...

— Você... – Naruto sentiu seu coração falhar quando escutou um fio de voz. – Algum dia... – A voz dela estava baixa, quase inaudível. – Você será capaz... De me perdoar?

— A culpa não foi sua... A culpa não foi sua... – Naruto levantou o corpo dela com cuidado e sentou-se na cama, abraçando-a protetoramente, como se a qualquer momento fossem tirá-la de lá.

— Eu... Não aguento mais... – Hinata agarrou-se à blusa dele. – Não posso mais... Suportar...

— Nós vamos superar isso juntos, Hina.

— Quero acabar com essa dor... Por favor... – Hinata se emudecia em meio aos soluços. – Eu matei... Eu matei nosso filho... Eu sou um monstro... Você nunca vai me perdoar... Nem ele... O meu filho... Nosso filho... Nosso bebê... – Ela estava muito abalada. Naruto se desesperava enquanto ela falava palavras desconexas.

Ele não sabia o que fazer. A cada soluço que escutava vir dela, maior o medo de nunca mais vê-la sorrir e de volta ao normal ficava. Ele a abraçava o mais forte que podia, tratando-a como uma criança em seus braços, na esperança de levar toda aquela dor que ela sentia embora. A mulher que sempre lhe deu a imagem de um anjo em sua vida agora estava em pedaços, encurvada em seu colo enquanto chorava.

— Você não é um monstro... Nosso filho está em um lugar melhor agora... A culpa não é sua... Eu não vou te culpar mais, eu prometo... Continue comigo, nós vamos superar isso querida...

— Ah... Você não entende... Você não sabe como dói...

— Tente dormir, querida... Tente dormir. Nós vamos virar essa página, nós vamos construir um final perfeito juntos... Agora feche os olhos e tente dormir.

— Você vai ficar... Comigo?

— Para sempre, meu amor. Vamos dormir? – Naruto se esforçou para dar um sorriso a ela, mostrar que estava segura agora, que tudo iria ficar bem. Então puxou o cobertor para deitar ainda com ela no colo. Colocou a mulher numa posição em que ela não saísse completamente de cima dele; as pernas estavam enroscadas nas suas, a cabeça apoiada em seu peito e ela continuava agarrada à sua blusa.

Agora ele alisava os longos cabelos azulados dela. Já não estavam molhados e caíam em uma cascata lisa pelo travesseiro e colchão. A posição em que estava não era muito confortável, mas não queria perturbar a paz de Hinata. Ela havia demorado um bocado para ficar daquele jeito, mais calma. Estava num sono tão tranquilo, que ele compraria o mundo para fazê-la dormir daquele jeito todas as noites. Ao lado dele.