Entre o Amor e a Espada
7 Capítulo 7 PAIXÕES PROIBIDAS...
Notas iniciais
“Lua de prata
desejos indecentes
corpos suados de luz”
A respiração acelerada acompanhou o despertar de Camus. Seu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito. Ele abriu os olhos e sentiu o toque de Milo em seu ombro. As sombras ainda dominavam a cela e alguns dos archotes já haviam se apagado.
Camus sentou-se abruptamente, tentando controlar a dor que sentiu na altura das costelas.
— É cedo ainda. Eu ia deixar que dormisse mais um pouco, mas você parecia estar tendo um pesadelo. Tome um pouco de água. – disse Milo estendendo o copo a Camus.
— Não me lembro de nada, só da sensação de perder algo... Mas, agora preciso voltar para o interior da domus. – respondeu Camus aceitando o copo que Milo lhe oferecia e levantando da cama.
Milo se aproximou, abraçando-o por trás, beijando e mordendo-lhe o pescoço com suavidade.
O efeito da carícia era devastador nos sentidos do ruivo e ele sorriu, esquecendo a angústia que o sonho havia lhe despertado.
— Ainda tem tempo... – sussurrou Milo.
Camus não resistiu, cerrou os olhos e deixou-se abraçar e beijar de um modo lento e convidativo. Seu corpo reagiu e ele desejou, mais uma vez, sentir o prazer que somente Milo conseguia despertar...
— Ainda sente dor, eu sei. Me contento em te ter assim, entregue em meus braços e te dar prazer. Eu posso te chupar de novo... – sussurrou Milo entre os beijos que distribuía.
Camus jamais acreditara nas paixões e nem que um homem pudesse colocar seu sangue em fogo apenas com beijos. Na verdade, Milo não precisaria sequer de beijos... A forma com que ele o tratava e a proximidade dele bastava para fazê-lo arder de desejo e desfazer as barreiras que se autoimpunha para não sofrer.
Sentindo um formigamento no baixo ventre e também querendo dar prazer a Milo, ele decidiu ficar mais um pouco.
— Para o inferno a dor. Eu quero você em mim... – disse Camus tocando a face de Milo e puxando-o de encontro ao corpo.
Os olhos de Milo faiscaram e sua boca desceu até a de Camus num beijo alucinado e nenhum dos dois conseguiu deter o desejo que os tomou com a mesma impetuosidade dos ventos que voltavam a uivar por entre as portas e grades.
Por mais incômodo que fossem as dores de seu corpo, ter Milo em si parecia fazê-las evaporar e Camus mais uma vez se entregou a voragem do desejo. Moveu a língua envolvendo a de Milo em meio à saliva e, os lábios do gladiador sugaram os seus com fome e precisão.
Os dedos de Milo percorriam as costas de Camus descendo cada vez mais, alcançando as nádegas e espalmando sem muita força para então apertá-las. Voltaram para a cama e Milo segurou a cintura de Camus com cuidado e o fez virar-se, deixando os olhos viajarem pelas costas e colocando-o de bruços.
O corpo forte do gladiador reduziu a distância e os dedos percorreram as nádegas de Camus, apertando-as enquanto a boca tocava as primeiras vértebras, mordendo-as e lambendo a pele clara e macia.
Camus sorriu ao ser virado de costas, e se ajeitou com um pouco de dificuldade para não pressionar o abdômen. No ato, se ergueu levemente, deixando suas nádegas bater contra o membro do outro que já pulsava sozinho. Milo gemeu deliciado ao senti-las roçar em seu falo e Camus moveu-se de propósito, adorando a reação do amante.
— Você me enlouquece, ruivo... – gemeu Milo, deslizando os lábios nas nádegas alvas para depois lamber e mordiscar.
Camus suspirou e começou a ofegar quando sentiu dedos grossos e longos sendo inseridos dentro de si, explorando-o, levando-o a um prazer estonteante, ao mesmo tempo em que diminuía a dor da invasão.
Seus quadris começaram a se agitar no ritmo dos toques profundos do gladiador. Sua respiração foi acelerando cada vez mais, enquanto era penetrado com os dedos e, ao mesmo tempo, sentia a mão forte deslizar pelo seu membro rijo numa masturbação lenta, enquanto a língua quente de Milo percorria a sua pele e depois adentrava a sua boca possuindo-o de todas as formas possíveis...
Camus agarrou-se ao corpo forte de Milo gemendo e ofegando, imerso no prazer que exigia mais... E, quando o ardor tornou-se fisicamente devorador, Milo tocou a entrada do amante com o falo rijo e o penetrou. Aspirou o ar próximo da pele dele e afundou mais do membro, movendo-se com um pouco mais de facilidade, embora sentisse a pressão e o aperto dos músculos se contraindo ao redor do seu sexo.
Um ofego de dor escapou dos lábios de Camus no mesmo instante em que Milo gemeu de prazer. Ambos ficaram imóveis, acostumando-se à união dos corpos, sentindo o pulsar do coração na pele...
Aos poucos, Camus se contorcia, fechando a sua entrada, envolvendo ainda mais aquele falo, pressionando, deixando o caminho mais estreito e mais prazeroso para Milo que deixou suas mãos deslizarem pelo corpo de Camus, queimando-o com o seu calor.
Camus gemeu e se moveu contra o corpo de Milo fazendo com que ele o penetrasse ainda mais fundo. Em resposta, o gladiador ofegou entrecortado e começou a mover-se dentro de Camus, apoderando-se do interior quente, chocando seu quadril nas nádegas firmes, sentindo seu membro ser apertado e acolhido num prazer indescritível...
Camus mordeu o seu lábio inferior para não gritar de prazer, esquecendo o machucado, mas não adiantou. O som saiu do fundo de sua garganta quando o falo de Milo tocou-o nas profundezas e a sensação prazerosa de sentir-se preenchido por completo uniu-se ao pulsar do falo de Milo dentro do seu corpo.
Milo grunhiu ao sentir a proximidade do clímax e, num esforço hercúleo parou com os movimentos. Camus ficou um tanto confuso, porém, Milo saiu de dentro dele virando-o de costas sobre a cama.
— Quero ver você gozar... e quero que me veja gozar dentro de você... – disse Milo e então o invadiu novamente, penetrando-o ainda mais fundo, enquanto Camus erguia os quadris e enroscava as pernas em torno da sua cintura e um grunhido de prazer abria caminho por entre ofegos e gemidos.
O falo rijo de Milo apoderou-se, novamente, do corpo voluptuoso de Camus e ambos moveram-se com sincronia e desespero. Os tremores se insinuaram pelos corpos unidos e já umedecidos de suor.
Milo fechou os olhos erguendo a cabeça e mantendo os dedos pressionados naquele corpo... Era esplêndido ter Camus daquela maneira. Alongava-se no movimento de penetração e saía, não tirando o membro de todo e pronto para voltar e arrancar mais gemidos de Camus, deliciando-se com a entrega e com o prazer explícito no olhar intenso que ele lhe lançava...
Era prazeroso tomá-lo, mas ainda mais satisfatório sentir-se envolvido em algo maior, um sentimento que permanecia após o orgasmo e se fortalecia em cada toque, olhar e intimidade.
O ruivo passava as mãos pelas costas de Milo, repetidas vezes, marcando a pele dele com os dedos, inalando o cheiro da pele ardente, buscando a boca carnuda para beijar e provar da saliva que cobria os lábios...
A língua de Milo avançou dentro da boca de Camus, entrelaçando-se na língua do amante, enquanto continuava investindo feroz e impetuosamente, se enterrando por completo e cada vez mais rápido dentro de seu corpo.
Camus começou a se contorcer, os tremores do orgasmo irrompendo, a boca se abrindo num grito alto e rouco. Seus quadris se ergueram na direção do corpo do gladiador e seus músculos internos se contraíram, prendendo-o com força dentro de si.
E então, mais uma vez, aconteceu. O gozo, a explosão, o sêmen quente e abundante derramando-se no abdome de Milo, enquanto o gladiador jogava a cabeça para trás e gritava, gozando também...
Camus sentiu o falo de Milo enterrar-se numa última estocada e preenchê-lo com seu prazer, enquanto segurava-o com força e tomava a sua boca com uma paixão feroz.
— E, além... de me enlouquecer... Você faz... com que eu sinta muito mais... que prazer... Camus. – disse Milo enquanto seu corpo ainda estremecia e seu sêmen inundava o corpo do ruivo.
Milo esboçou um sorriso em meio aos ofegos que os lábios soltaram ao finalizar com o nome de Camus. Acabara falando o que surgiu na mente, não medindo as palavras, mas não importava. Era assim que sentia e a força das suas emoções era sempre explícita, fosse para matar ou... amar.
Camus ouvira o que Milo dissera, mas mesmo assim não tinha palavras no momento. Era difícil expressar seus sentimentos com tanta espontaneidade. Neste aspecto, era diferente de Milo que não possuía reservas, nem medo de mostrar o que sentia. Havia paixão em si, mas também medo e dor. Medo em perder, mais uma vez, quem lhe era caro e dor por ver-se em uma realidade imersa em selvageria e servidão.
Ele sentiu o seu estômago roncar de fome, logo após o orgasmo. Não era um momento nada apropriado e acabou rindo baixinho, como se tivesse sido salvo pelo estômago.
Buscou os lábios de Milo e os beijou. Tocou o rosto afogueado do amante e olhou-o com ternura, levantando em seguida.
— Tenho que ir. Obrigado por tudo, por ser... você! — disse Camus.
Milo sorriu, embora esperasse que Camus dissesse algo mais, e continuou deitado na cama. O corpo gloriosamente nu e molhado de suor e sêmen. Olhou para Camus, cujo corpo mostrava as marcas das agressões sofridas e agora algumas que as suas mãos e boca haviam deixado.
— Você virá hoje à noite? – perguntou o gladiador.
— Você ainda tem dúvidas? – respondeu Camus com um sorriso sugestivo.
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Saga sentiu o pano úmido tocar-lhe a testa e abriu os olhos. Havia um cheiro de chuva no ar e a primeira coisa que seus olhos focaram foi o semblante preocupado de Kanon.
— Irmão?— balbuciou ele, sentindo a garganta áspera.
— Sim, Saga, sou eu. Como se sente? – perguntou Kanon.
— Bem, dentro do possível. Devo minha vida a você e Aiolia. Mais uma vez é você que cuida de mim, ao invés do contrário.
Kanon sorriu. Era mais novo por apenas alguns minutos, porém Saga sempre se vangloriava de ser o mais velho.
— Levei os corpos e deixei-os entregues ao senado. Haverá uma investigação para saber quem são e de onde provém. – disse Kanon oferecendo uma taça com vinho para Saga.
— Foi tudo uma armadilha. Eu senti o perigo, mas não acreditei em meus instintos.
— Confia demais, meu irmão. A casa de Gemini adquiriu força e expressão nestes últimos anos. Existem muitos inimigos desejando vê-la desabar.
— Quando fui atacado, de imediato pensei em Minos. Mas, algo me diz que existe algo, além disso.
— E o que seria?
— Isso é o pior de tudo. Eu não sei. – disse Saga fazendo menção em se levantar da cama.
— Deixe que eu o ajude. – disse Kanon e no instante exato, June entrou.
— É melhor que continue o seu descanso, meu marido. – falou a domina sentando ao lado de Saga.
— Estou cansado desta cama. Preciso cuidar dos negócios. – disse Saga.
June olhou para Kanon que a encarava com um ar interrogativo. Havia algo no olhar daquela mulher que lhe sinalizava engano e perigo. Às vezes, pensava que era apenas ciúme já que ela possuía o amor que ele desejava para si e que jamais poderia ter.
— Com licença, domini. Uma visita os espera no grande salão. – disse Shina entrando no aposento.
— Uma visita?
— Sim, domina. O cônsul Minos veio ver dominus Saga e lhe trouxe uma ânfora de vinho mediterrâneo. – respondeu a escrava.
Ambos os olhares se estreitaram e um clima de mal-estar se formou. Saga e Kanon por desconfiança e June por raiva.
— Vou recebê-lo. Cunhado, por favor, cuide de meu marido e não permita que saia deste quarto. Vou ver o que esta víbora veio fazer em nossa casa. – disse June.
— Não! Eu faço questão de recebê-lo. – disse Saga. – Se ele tiver algo a ver com isso, quero que saiba que falhou.
— Mas, meu amado...
— Sem, mas, June. Receba o nosso visitante, enquanto Kanon me ajuda a vestir algo adequado. – falou Saga com firmeza.
June obedeceu e foi ao encontro de Minos. No salão, o cônsul esperava com uma expressão fingida e um sorriso falso.
— Soube do ocorrido e vim trazer meus préstimos. Lamentável que não tenhamos segurança, mesmo na civilizada Roma.
— Meu marido agradece a gentileza. – respondeu June, seca.
— Oh, mas vejo que já está quase recuperado! – disse Minos vendo Saga adentrar a sala.
— Como pode ver, Minos, não foi desta vez! Ainda terá de engolir a superioridade da minha casa. – falou Saga sorrindo.
Minos estreitou os olhos, mas sorriu também.
— Ainda temos dois jogos antes da grande inauguração. – disse ele, com um tom arrogante.
— Então serão mais duas vitórias para a minha casa, já que meu campeão se mostrou superior. Mas, vamos beber o vinho mediterrâneo que, gentilmente, me trouxe. – disse Saga.
Após um brinde à saúde do dono da casa, uma conversa sobre o ocorrido e algumas amenidades, Minos retirou-se e June deu vazão ao seu descontentamento.
— Víbora maldita! Ainda tem a coragem de nos visitar! – disse ela.
— Logo saberemos se ele tem algo a ver com isso. – disse Kanon.
— O que quer dizer com isso? – perguntou June.
— Que vou cuidar pessoalmente deste caso. Vou descobrir quem eram aqueles homens e para quem trabalhavam. – respondeu Kanon bebendo um longo gole de vinho.
Nesse meio tempo, Saga sentiu-se tonto e Kanon o amparou.
— Venha, vou levá-lo de volta para cama. Precisa descansar. – disse o gêmeo mais novo.
— Está bem. Kanon pode ficar comigo mais um pouco? – pediu Saga.
— Claro, irmão. Ficarei o tempo que precisar de mim. – respondeu Kanon.
Mais uma vez, June engoliu o fel do descontentamento e sorriu para os dois. Mesmo que cuidasse dele com zelo, era Kanon quem ele desejava ao seu lado e isso a humilhava profundamente.
— Viu? Eu não disse que precisava descansar? Mandarei que Shina leve vinho e frutas, assim podem conversar e comer um pouco. – disse ela.
— Obrigado, minha esposa. Mande chamar Camus, também. Quero falar com ele.
Com uma breve inclinação de cabeça, June assentiu e deixou a sala.
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A chuva havia parado e o vapor subia da terra molhada. Saga estava dormindo e Kanon se encaminhara até o senado.
A tarde recém iniciara e a chuva havia afastado as pessoas das ruas... Era um bom momento para aqueles que desejavam transitar pelas vielas estreitas sem chamar muito a atenção..
Dispensando a companhia dos escravos, June deixou a domus e dirigiu-se para o centro da cidade.
Pingos grossos de chuva tornaram a cair e June protegeu-se no santuário de Marte, como se ali não fosse o seu destino e sim, apenas um abrigo providencial. Olhou em volta, sendo a única a estar ali. Havia comprado uma cesta de frutas no caminho e agora colocava sua oferenda frente às lanças sagradas que diziam ser do próprio deus da guerra.
Orou em silêncio, após colocar o véu transparente e depositar a pequena cesta de frutas frescas à frente da efígie do deus. Logo, um homem postou-se ao seu lado.
— Está tudo correndo como o planejado, domina.— disse o jovem sorridente.
— Será? Kanon vai apurar os fatos até descobrir quem são os homens que atacaram seu irmão e você sabe que ele é obstinado. – falou June.
— Aqueles pobres diabos morreram sem dizer uma só palavra. Será fácil ligá-los à Minos como é de seu desejo.
— Espero que o faça, ou nosso acordo está desfeito.
— Não se preocupe, logo, logo Minos será mais um adversário fora do páreo.
— Assim espero. Saiba que não sou tolerante com falhas.
— Eu juro que não falharei, domina.
June sorriu e o jovem sentiu um estranho tremor. Aquela mulher possuía uma aura de poder que o fascinava e, ao mesmo tempo, o fazia temer. Ela possuía uma espécie de fogo naqueles olhos, mas não algo ardente e sim frio, tão frio quanto às pedras que compunham as colunas do templo.
O jovem despediu-se com uma mesura forçada e rumou para o seu destino enquanto June permanecia ali, observando a majestade do rosto viril de Marte que parecia viva, entalhada em bronze e colocada acima das lanças. Em silêncio, mais uma vez ela orou para que sua vontade se tornasse real.
Ajude-me, Senhor da guerra! Dai-me a vitória sobre meus inimigos e eu juro que quando os gladiadores da casa de Gemini lutarem na arena encharcarão o solo de sangue, como uma oferenda perfeita para os vossos olhos!
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Camus leu a obra de Homero até que Saga adormecesse, depois deixou os aposentos e foi ter com Afrodite e Albafica.
— Vejo que se recuperou bem dos ferimentos. – falou Afrodite.
— Seu irmão cuidou-me com muito esmero e lhe sou grato. – falou Camus olhando para Albafica que cuidava das flores de um vaso.
Afrodite deu de ombros.
— Albafica é um profundo conhecedor de unguentos e venenos. Até mesmo a domina teme o seu conhecimento e o deixa cuidar, somente dos escravos. Mas... estou notando que você está com uma ótima luminosidade na pele. Andou fodendo com Milo, não é?
Camus desviou o olhar, constrangido, e Albafica revirou os olhos.
— Não se constranja Camus! Para meu irmão, tudo de bom na vida se resume a duas coisas: conforto e sexo!
— E não é? Para gente na nossa condição, ter um pouco que seja de conforto nos traz bem-estar e, naturalmente, o sexo também!— disse Afrodite rindo.
Um meio sorriso formou-se nos lábios de Camus e Albafica fez uma careta continuando a cuidar das flores.
— Camus, domina deixou uma tarefa para você. — falou Shina interrompendo a conversa.
— Sim?
— Disse para você levar essa mensagem para dominus Hades.
O simples pronunciar daquele nome fez Camus sentir-se desconfortável. Ele pegou o pergaminho e teve vontade de ler o conteúdo, porém resignou-se em pegá-lo e obedecer à ordem.
Assim que Shina se retirou, Afrodite chegou bem perto de Camus e perguntou:
— Você não vai ler o que está escrito?
— Não se deve violar a correspondência alheia. – respondeu Camus.
— Ah, me dá isso aqui! Francamente, Camus! Eu não sei como o Milo pode ser tão apaixonado por você! Você chega a ser irritante com essa postura de escravo politicamente correto!— disse Afrodite tomando o pergaminho das mãos de Camus sob o olhar surpreso deste.
— Afrodite! – exclamou Albafica com uma expressão reprovadora.
— Você também é outro! Nem parece meu irmão. Vocês dois tem que entender que devemos estar sempre um passo à frente dos domini ou seremos fodidos no mau sentido. — respondeu o belo escravo já desenrolando o pergaminho.
Quando Afrodite leu a mensagem, seus olhos se arregalaram e ele fez uma expressão surpresa e maliciosa, ao mesmo tempo.
— Meus queridos, acho que teremos outra festa particular daqui a alguns dias...
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Num instante estava dormindo, no seguinte pairava entre a vigília e o sonho. Seu corpo estava molhado, quente e estranhamente pesado...
Kanon aninhava-se contra o seu corpo, com um braço sobre a sua cintura, o torso forte roçando em suas costas. Podia ouvir sua respiração pesada e sentir o calor da pele queimada de sol. O lençol estava emaranhado em volta deles e o cheiro do suor e do sêmen inundava o quarto.
Kanon, meu irmão, meu amado...
O vento continuava seu canto dissonante e, em algum lugar à distância, ele ouvia June gemer e pedir que a penetrasse com força.
Mas não sou eu junto ao corpo dela, é outro!
E de repente eram muitos corpos, todos entrelaçados como serpentes...
Kanon... June... Eu...
Acorde, Saga... Escute, abra seus olhos!
— Meu amor? – falou June tocando a testa de Saga.
— June? O que está acontecendo? – perguntou Saga abrindo os olhos e sentindo os lábios ressequidos.
— Você está com febre. Mandarei vir o médico para vê-lo, novamente.
— Não é preciso. Chame Albafica, ele pode dar-me um chá de ervas ou outra poção.
— Tem certeza, meu amado? – insistiu June beijando Saga de leve nos lábios.
— Sim, por favor, mande chamá-lo.
Assim que June deixou o quarto, Saga levantou-se da cama. Estava nu, cansado e o frio do entardecer fez com que se arrepiasse. Seu corpo ardia de febre e desejo. O sonho com Kanon ainda vívido e a culpa em seu coração também.
Amava o irmão desde sempre. Nunca havia revelado aquele sentimento intenso e proibido que se alojara em seu coração. A única vez em que ambos havia trocado um beijo, tinha sido na despedida de Kanon, quando este embarcara em uma longa campanha militar. No mesmo mês, celebrara seu casamento com June, uma estrangeira que acabara por seduzi-lo e dividia com ele o gosto pelos jogos na arena. Porém, seus mais profundos sentimentos, mesmo que fossem incestuosos e proibidos eram por seu irmão...
Ah, como eram deliciosos aqueles lábios... Como desejou tê-lo nos braços nem que fosse apenas uma vez...
Albafica entrou encontrando o seu senhor nu e baixou os olhos, esperando que ele vestisse algo. Saga ignorou por completo o constrangimento visível do escravo e deitou-se na cama sem cobrir-se.
— Tenho febre, Albafica, e preciso de uma poção poderosa... – disse ele suspirando. Uma poção que tire esse sentimento de dentro de mim!
— A febre pode ser de algum ferimento interno, dominus. Vou preparar uma infusão. Enquanto, isso, é bom banhar-se em água fria.
Uma risada amarga escapou dos lábios de Saga. Sim, ele precisava de um banho frio, tanto para a febre do corpo, quanto para o tesão reprimido que sentia pelo irmão...
Albafica preparou uma infusão de ervas e orientou Afrodite para que preparasse o banho frio. Depois examinou os olhos de seu senhor, constatando uma irritação avermelhada, quase imperceptível no canto inferior. Franziu o cenho e chamou seu irmão de canto.
— Traga-me, sem que ninguém saiba, uma amostra do vinho que o dominus bebeu.
— Por quê? Desconfia de alguma coisa? – perguntou Afrodite.
— Apenas consiga isso para mim. Falarei quando tiver certeza. – respondeu Albafica encerrando o assunto.
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Kanon deixou o senado e foi ter com os homens que preparavam os corpos que ele trouxera. Estava cansado e preocupado. Saga era seu irmão, seu amado.
Em todos os dezesseis anos que permanecera em campanha militar, em nenhum momento conseguira apagar o sentimento que nutria por ele. Em cada boca, em cada corpo que tomava, era Saga que via em seus braços. Precisava ocupar-se, manter-se numa distância segura ou acabaria cedendo aos anseios do seu coração e do seu corpo. Ainda sentia o gosto dos lábios dele nos seus quando se despediram...
— General! Venha ver isso. – falou o homem, tirando Kanon de seus pensamentos. – Esta vendo essa marca?
— Sim, o que tem ela?
— Essa marca pertence a um grupo de salteadores que, durante um tempo, lutaram como gladiadores. Alguns podem ser escravos fugidos ou libertos. Se conseguirmos chegar até o líder, poderemos descobrir mais sobre eles.
— Nenhum líder de bandidos vai querer informar algo, mas se o atrairmos com uma proposta, poderemos pegá-lo. – disse Kanon.
— Certamente. – concordou o homem.
— Consiga alguém que transite entre a escória e mande falar comigo. – disse Kanon atirando um pequeno saco de moedas para o homem.
— Será feito, dominus!
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Hades estava em pé, junto à lareira acesa e lia o pergaminho que Camus acabara de lhe entregar.
— Diga a sua senhora que irei visitar seu marido, pois soube do incidente desagradável. – disse Hades fechando o pergaminho.
— Será dito, dominus. Com a sua licença. – respondeu Camus fazendo menção de se retirar.
— Espere, ainda não o dispensei. Vejo que, apesar de também ter sido agredido, você parece bem recuperado.
Camus sentiu um calafrio, porém manteve a expressão serena.
— Sim, dominus.
Hades se aproximou, silencioso, observando as reações do escravo e sentindo um início de excitação na companhia daquele jovem....
Ainda estava vívida, em sua mente, as imagens do escravo sendo fodido pelo gladiador que também o deixava excitado. O medo, a dor, a excitação e por fim o prazer...
Havia algo no escravo que o desafiava, ele se mostrava sempre altivo, não possuía um semblante humilde, nem submisso. Ao contrário da energia selvagem de Milo, Camus possuía uma frieza contida, uma paixão gélida, pronta para ser levada à ebulição...
Camus permaneceu firme, nem mesmo sua respiração se alterou e ele encarou Hades com altivez. Em segundos, Hades estendeu a mão e segurou-o pelos cabelos presos na trança. E quando o encarou, Camus notou que os olhos de Hades já não estavam frios, mas faiscavam de um desejo perverso...
Sem demonstrar nenhum desconforto, Camus apenas disse:
— Servus manus, dominus!
Com uma mudança de expressão, Hades o soltou. De imediato afastou-se de Camus e deu-lhe as costas, como se ele estivesse com uma doença contagiosa.
— Pode se retirar! – disse, seco.
Com uma mesura e um imenso prazer interno, Camus se retirou. Podia ser um escravo, mas seu conhecimento e seu autocontrole não o fariam perder para um homem como Hades. A inteligência podia ser tão afiada quanto uma espada e atingir o inimigo com a mesma precisão...
Servus manus, ou seja, um escravo cujo senhor tem direito exclusivo sobre seu corpo e que pressupõe ter relações íntimas e exclusivas com ele.
Essa era uma regra que não podia ser quebrada sob o risco de um enfrentamento entre senhores. E, mesmo que não fosse verdade, Hades nunca o saberia. Portanto, para todos os efeitos, ele era intocável, pois Saga era seu senhor e... amante.
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