Entre o Amor e a Espada
8 Capítulo 8 REGINAE FRIGIDUS (Rainha fria)
Notas iniciais
“De tão belo,
está escondido
Sentimento oculto
Amor proibido...”
— Diga! Diga as palavras que lhe ensinei... – gemeu June.
— Mea Reginae... Mea Reginae...
Deslizando os dedos ao longo do corpo voluptuoso, Shina repetia as palavras que a domina lhe ordenara.
Sentindo as carícias da escrava, June sorria e planejava seu próximo passo, convencer Kanon a levar Saga para passar duas semanas fora de Roma, onde o ar das montanhas o faria restabelecer-se da febre intermitente que se recusava a deixá-lo. Isso lhe daria a chance de aproximar-se ainda mais de Hades, de seu poder e de sua influência.
O ardor e a umidade entre as suas coxas inflamavam um desejo quase insuportável. Os lábios macios de Shina se fecharam sobre um de seus mamilos, enquanto a mão descia em direção ao seu sexo...
O toque da boca sensual contra sua carne e os dedos que adentravam seu corpo fez June arquear o corpo e gemer. Shina deslizou as mãos abaixo de seus quadris e mergulhou mais fundo em seu interior fazendo-a se contorcer ainda mais e gozar rápido, estremecendo junto a si.
Ofegante, June deixou-se espalhar na cama, antes de puxar o lençol para cobrir o corpo nu.
— Sirva-me mais uma taça de vinho e deixe-me... – sussurrou June.
Shina obedeceu e deixou o quarto, encontrando Afrodite e Albafica conversando baixo.
— Então, como está a domina agora? – perguntou Afrodite com uma das sobrancelhas levantadas e aquele tom malicioso na voz.
— Está relaxada e bebendo, como sempre. – respondeu Shina com mau humor.
— Muito bem, agora você é a escrava pessoal dela, fique atenta a tudo o que ela fizer. Precisamos saber, exatamente, quando Hades retornará a esta casa. – disse Afrodite.
— A única coisa que me consola é que sei que ela não permitirá que algum animal me tome nos jantares que organiza e um dia, talvez permita que eu me case.
— Servus manus, minha querida... Agradeça por ela não ter desejos estranhos e por gostar de foder do modo convencional. Agora nos diga, o vinho que domina bebe é o mesmo que serve ao marido? — perguntou Afrodite.
— Não, o que sirvo ao dominus não é doce, porque ele não gosta. Domina gosta do vinho mediterrâneo, mas com um pouco de mel e cravo.
— Argh!— exclamou Afrodite. – Só de ouvir isso me dá vontade de vomitar! Coisa de plebeu adocicar as coisas.
— O vinho doce mascara as coisas amargas... – falou Albafica.
— De qual ânfora vem o vinho que é servido ao dominus?— perguntou Afrodite fazendo cara feia para o irmão. Ah, como Albafica gostava de perder tempo com suas filosofias e frases de efeito.
— Vem da adega pessoal do dominus. A senhora nos manda servir sempre da mesma ânfora.
— E nenhum de vocês provou deste vinho? – questionou Albafica.
— Claro que não! Domina mede a quantidade de vinho todos os dias. Se algum de nós bebermos, nem que seja uma gota, ela saberá. Houve um escravo novo que disse ser impossível ela perceber e bebeu um pouco. No outro dia, a domina descobriu.
— E onde está esse escravo?
— N-Não sei! Ele... sumiu. Domina disse que o tinha vendido para as docas e esse era o destino de todo àquele que desobedecesse as suas ordens.
Albafica olhou para Afrodite e os dois se entenderam, silenciosamente.
Na adega escura, Albafica molhou um pedacinho de linho no vinho e o cheirou. Depois, deixou com cuidado o local e expôs a peça à luz do sol. De imediato, o pano adquiriu uma coloração marrom e exalou um cheiro adocicado.
— Extrato de Dedaleira...— murmurou Albafica.
— E? – perguntou Afrodite.
— É uma erva venenosa que causa mal-estar, febre e perturbação da mente. Não é mortal, mas pode deixar a pessoa bem doente.
— Então, a indisposição do dominus é por causa dela e não pelos ferimentos que sofreu... – falou Afrodite com o semblante sério.
— Sim, irmão. E o pior de tudo, é que para fazer efeito, ela tem de ser administrada durante um tempo de, no mínimo, duas semanas.
— Ou seja, o vinho que Minos trouxe não tem nada a ver com isso. Quem está envenenando Saga é sua própria esposa – falou Afrodite.
— Só não entendo o quê ela ganha com isso? – disse Albafica.
— Você é tão ingênuo, meu irmão. Está mais que óbvio que domina pretende ciscar em um terreiro mais vantajoso...
— Dominus Saga é rico! O que ela quer mais?
— Mas Hades é amigo íntimo do Imperador. Percebe a diferença? Talvez ela não queira outro marido e sim, aliar-se com um homem mais poderoso que a torne uma Reginae... O que, na verdade, ela sempre sonhou ser. Você sabe como são esses plebeus, ambicionam sempre mais do que merecem ou podem suportar.
— Você fala como se fosse um patrício e não um escravo. Esqueceu nossa origem?
— Não, não esqueci. E é por ter plena consciência dela é que percebo o que você não consegue. Agora vamos deixar de conversa fiada e decidir o que fazer. Precisamos contar ao dominus Kanon, mas em um momento que não nos denuncie.
— Vai ser difícil. Talvez se contarmos ao Camus, ele possa achar um jeito eficaz de alertamos dominus Kanon.
— Tá animadinho com o ruivo, hein? Mas pode tirar o olho que ele está perdido de amores pelo Milo. – brincou Afrodite.
— Não fale bobagens, Afrodite! Eu jamais pensaria em...
— Foder com o ruivo? Esse é irmão deste, meu caro irmão. – disse Afrodite apontando, alternadamente, para seus dois olhos. — Vocês dois tem muitas semelhanças... Mas, tem razão, jamais daria certo, até porque seria algo monótono e sem graça. Um cego guiando o outro...— completou, suspirando.
— Você fala demais! Vamos voltar ao nosso trabalho. — completou Albafica encerrando o assunto.
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Kanon entrou na domus satisfeito com o andamento das investigações. Logo, o encontro com o líder dos salteadores seria arranjado e ele poderia, enfim, descobrir quem eram os homens que haviam atacado seu irmão.
Mal entrou no salão, June foi ao seu encontro. Havia um aroma de incenso e flores no ar e sua cunhada estava com um semblante grave.
— Cunhado, podemos conversar? – disse ela olhando-o com a testa franzida.
— Sim, em que posso ajudá-la? – respondeu Kanon estranhando a docilidade com que June tocou seu braço.
— Sei que... não gosta muito de mim e creia-me, isso me entristece. – disse ela baixando os olhos.
Franzindo o cenho e um tanto despreparado para aquela cena, Kanon pigarreou.
— Por que entrarmos neste assunto agora? Você é a mulher que meu irmão escolheu e eu a respeito.
— Bem sei que não sou nobre, mas amo Saga mais que minha própria vida e sempre senti ciúmes da relação profunda e afetuosa entre vocês. Ele o ama, Kanon e cada vez que você o cuida, ele parece adquirir mais saúde e viço. Muito mais que quando está sob os meus cuidados. Temo que ele esteja doente e toda essa movimentação o esteja esgotando. Eu sugeri a ele para irmos para nossa casa nos arredores do Monte Mario e passarmos um tempo lá. Umas duas semanas, talvez. Mas ele se recusa! Então, eu peço a você que o convença e... o leve. Pela saúde dele, eu abro mão da presença dele, mesmo que alguns minutos, longe, já sejam insuportáveis para mim.
— Você consultou o médico sobre isso?
— Sim, o médico disse que alguns dias de descanso poderiam acelerar o restabelecimento da saúde dele. Eu assumirei o controle da ludus, Manigoldo me ajudará e vocês dois podem passar um tempo juntos. Por favor, eu imploro! Pela saúde dele, cuide-o por mim!
Kanon sentiu-se encurralado. Por um lado, via que Saga melhorava quando conversavam, por outro, ficar sozinho com ele, era temerário. No entanto, era um legionário, um homem que jurara defender e proteger Roma. Devia começar pela própria família...
— Vou falar com ele. – respondeu Kanon.
— Obrigada. Não sabe o peso que tira dos meus ombros... Saga é a luz da minha vida. – disse ela levando um lenço aos olhos lacrimosos. – Levem Camus com vocês. Saga o estima muito e ele poderá servi-los lá. – completou ela.
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Milo lutava com a pena, e já tinha estragado os pergaminhos que pedira para Afrodite conseguir. Através do belo escravo, soubera que Camus iria viajar com Saga e Kanon e queria fazer uma surpresa para o ruivo, mas a mão tensa de tanto manejar a espada não estava ajudando.
Merda! Vamos lá, Milo... Relaxa... Relaxa... É o que Camus sempre diz.
Minutos depois, o gladiador conseguia escrever o que planejara e agora olhava para a sua obra com orgulho.
Bem, não tá uma maravilha total, mas ele vai entender. Eu acho...
— Milo! Doctore tá chamando. — falou Mu.
— Já vou! Estou só acabando uma coisa aqui. – respondeu Milo levantando da mesa de madeira onde Camus costumava fazer suas anotações sobre as lutas.
Colocando o pedaço de pergaminho entre a subligaria, Milo foi até o pátio.
— Todos vocês! Vão lutar em duplas. Milo e Máscara da Morte, vocês escolherão com quem fazer dupla e depois se enfrentarão! Quem tirar o palito mais curto vai poder escolher seu parceiro primeiro. – disse Manigoldo estendendo a mão fechada com dois palitos no meio dela.
Máscara puxou e... Palito curto!
O gladiador exultou e escolheu um parceiro forte: El Cid que possuía uma ferocidade silenciosa e uma incrível capacidade de abstrair a dor.
Milo não se importou e escolheu Mu causando certo estranhamento entre os companheiros. Como o jovem alvo e quieto tinha uma natureza pacífica e introspectiva, alguns achavam que ele era um tipo de azarão e até mais fraco que Zelos. Entretanto, Milo via além das aparências e tinha em Mu um grande adversário.
— Ao centro! – gritou Manigoldo estalando o chicote.
Lutaram com a mesma fome de sempre. As espadas se encontravam e soltavam faíscas. Máscara buscou Mu, tentando forçá-lo a abandonar a luta. Mas o jovem aparou seus golpes com precisão e Milo sorriu ao vê-lo mostrar o que sabia fazer.
El Cid rodopiou a lâmina por sobre a cabeça e voltou a cair sobre Milo, forçando-o a recuar, enquanto Máscara usava sua experiência para golpear incansavelmente. Estocada lateral, pelo alto, por baixo e um chute certeiro no meio do peito que fez Mu cair sobre Milo e desequilibrá-lo.
Máscara riu e Milo recuperou-se, olhando rapidamente para a grade do portão e vendo Camus que dera uma fugida para observá-lo.
Tocou na subligaria que abrigava o pequeno pedaço de pergaminho que tinha escrito para dar ao ruivo e foi levando a luta para onde Camus se encontrava.
Quando chegou perto, fez um movimento inesperado, saltando e rolando sobre o próprio corpo. Quando o movimento terminou, Milo posicionou-se com uma perna flexionada e a outra estendida. Segurou sua espada na altura do peito e retirou o pedaço de pergaminho atirando-o na direção de Camus.
— Pra você! – disse ele, sorrindo ofegante, e Camus abaixou-se para pegar.
Após entregar o que tinha feito, Milo voltou para o centro e arremeteu contra Máscara da Morte, enquanto El Cid atacava Mu. Mais uma vez as espadas trocaram carícias e, desta vez, eram Milo e Mu quem levava vantagem.
O sol já estava se pondo quando Mu desarmava El Cid e Milo chutava Máscara e golpeava-o com tanta força que as espadas produziam um som ressonante que vibrava nos ossos com um clanc grave e pesado.
O empate mais uma vez se fez presente e os quatro foram exigidos, ainda mais, até haver um vencedor.
Milo se impôs contra Máscara da Morte e Mu acabou vencendo El Cid por pouco. Acabaram suados e cansados, mas o clima de companheirismo os tornava diferentes dos gladiadores das outras ludus. Era comum estimular apenas a rivalidade, pois poderiam acabar tendo de enfrentar-se na arena. Porém, em Gemini os gladiadores acabavam por formar uma irmandade, algo que os fortificava, mesmo que um dia, tivessem de matar um amigo...
Com um último olhar para o portão, Milo viu Camus sorrir quando leu o que ele tinha escrito com muita dificuldade. Fizera aquilo, porque talvez não pudessem se encontrar antes da viagem e o gladiador já sentia falta de estar com o ruivo, beijá-lo, sentir aquele cheiro bom que vinha dos cabelos avermelhados... Quem diria que ele estaria escrevendo palavras adocicadas... Só aquele ruivo mesmo, para arrancar essas coisas de seu coração.
— Milo! Vamos avaliar as lutas! – gritou Manigoldo.
— Sim, Doctore! – respondeu o gladiador sorrindo ao ver a expressão de Camus e com o olhar orgulhoso e apaixonado que ele lhe devolveu.
Camus pegou o pedaço de pergaminho e releu, novamente, sentindo uma emoção genuína ao ver aquelas palavras que, mesmo um tanto erradas em sua grafia, traduziam os sentimentos de Milo e mostrava que ele o tinha em seu coração.
“Quando criansa eu ouvi uma istória que dizia: o amor é como um páçaro de uma só aza que só se completa quando acha sua companhia que possui também uma aza só e, então, juntos os dois podem voar.
Você é a minha outra aza, Camus. Com você eu poço voar tão alto como nunca imaginei ser capaz.
Eu te amo, ruivo.”
Apertando o pequeno bilhete contra o peito, Camus sorriu e seus olhos ficaram úmidos. Olhou novamente na direção de Milo vendo-o rir e cercar-se dos companheiros e então deixou o local com a sensação que, apesar de tudo, estar vivo valia muito a pena.
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Saga estava com o cenho franzido. Ainda se sentia cansado, mas o mal-estar havia diminuído. Só a maldita febre não o abandonava e ele perdia a noção do tempo, de vez em quando.
— Você e eu, sozinhos? – resmungou Saga olhando para o rosto sério do irmão.
— Levaremos Camus e outro escravo para a lida doméstica. Pela primeira vez concordo com June. Você precisa de alguns dias de repouso, longe daqui.
— Pois é isso que me intriga, você concordando com minha mulher. – falou Saga sorrindo.
— Ela está preocupada com a sua saúde e eu também. Você sempre foi saudável, não gosto de vê-lo assim. – disse Kanon.
— O militar aqui é você, eu sempre gostei do conforto e acho que isso tem um preço... – falou Saga tentando levantar do divã.
Falseou o pé quando levantou e Kanon o amparou sentindo a respiração quente e também o calor da pele febril. Olharam-se, em silêncio, até Saga rir e apontar para a ânfora sobre a mesinha.
— Preciso de um pouco de vinho. – disse o cônsul.
— Acho melhor beber água fresca. Tome. – falou Kanon estendendo o copo ao irmão.
— Água! – disse Saga fazendo uma careta. – Tomo tão pouco que é capaz de fazer mais mal que bem.
Kanon suspirou.
— Beba e obedeça ao seu irmão mais novo. – disse rindo.
Saga obedeceu e riu quando sentiu o frescor do líquido nos lábios.
De longe, June observava a tudo e sorria. Dali a algumas horas seu marido e cunhado deixariam a domus. Seu plano funcionava com perfeição...
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As roupas e provisões estavam arrumadas. Camus tinha sido escalado para permanecer na porta do quarto até a hora de deixarem a casa, o que significava que não poderia estar com Milo. Afrodite e Albafica não haviam tido tempo nem oportunidade de falar com ele, mas esperavam a madrugada para fazê-lo.
Quando a noite desceu e todos se recolheram, Afrodite esperou um tempo e foi ter com Camus. Caminhou como um felino pelos corredores e certificou-se que nenhum escravo estaria acordado. Viu Camus sentado e acordado ao lado da porta que possuía apenas uma cortina e fez um sinal de quieto com o dedo indicador sobre os lábios.
— Precisamos conversar. Mas tem de ser rápido.
— Algum recado do Milo? – perguntou Camus.
Afrodite sorriu e revirou os olhos. Ah o amor... como era delicioso estar apaixonado pela primeira vez. Era tudo tão excitante!
— Não, infelizmente, não é sobre isso que quero lhe falar. É algo grave e que tem de ser muito bem pensado para não acabar nos prejudicando.
— O que é?
— Dominus Saga está sendo envenenado. Não para matar e sim para deixá-lo doente e assim permitir que a reginae frigidus faça as suas jogadas com Hades.
— Está falando da domina?
— Não, da minha mãe! Camus, você é tão inteligente, mas também é lerdo. Claro que estou falando dela, mas vamos evitar nomes, está bem? Por isso, já que vai acompanhá-los nesta viagem, veja se descobre um jeito de contar ao dominus Kanon. Ele saberá o que fazer.
Camus levou a mão aos olhos. Sabia que June era ambiciosa, mas envenenar o marido?
— Está bem. – suspirou Camus. – Acho que preciso de um pouco de água. – disse indo até o corredor onde ficavam as ânforas.
— Bem, eu já vou indo. Boa sorte!— sussurrou Afrodite.
No corredor escuro, Camus acendeu uma candeia e foi até as ânforas. Quando já havia se servido de água, a candeia se apagou e uma mão forte e cheia de calos tapou sua boca. Logo em seguida, ele sentiu um corpo forte e quente colar-se ao seu, atraindo-o com força para si.
Ao invés de reagir com medo, ele sentiu uma excitação imediata e uma alegria que quase o fez derrubar o copo.
Milo...
— Não se mexa... e faça tudo o que eu ordenar. – sussurrou o gladiador rente ao ouvido de Camus.
As mãos de Milo escorregaram pelo corpo de Camus e ele fechou os olhos, deliciado, mas também tenso pelo clima proibido de ser tocado assim, no interior da domus. Entretanto, Milo conseguia fazer com que tivesse reações exacerbadas e ele virou o rosto, enquanto levava a mão ao rosto do amante para beijar-lhe os lábios com ânsia.
Os dois sorriram e se beijaram, agora lenta e profundamente. O gladiador roçava os lábios nos de Camus e gemia baixo, enquanto o apertava cada vez mais forte junto ao corpo.
— Milo... não podemos... – gemeu Camus entre um beijo e outro.
— Eu sei... só queria me despedir, sentir a sua boca na minha... – sussurrou Milo movendo a língua sobre os lábios de Camus.
Camus sorriu e tocou o rosto forte que agora o encarava com uma expressão de ternura e paixão.
— Aquilo que escreveu para mim... – falou Camus.
— Tá cheio de erros, eu sei. Mas... – disse Milo coçando a cabeça.
— Não importa. É lindo e eu queria dizer que eu também te...
Antes que Camus terminasse a sua frase, um barulho se fez presente e os dois olharam na direção do corredor. Rapidamente, Milo escondeu-se atrás de uma coluna e se despedindo, retornou ao corredor que dava para a passagem das celas.
— Quem está aí? – perguntou a voz feminina.
— Sou eu, Shina. – disse Camus.
— Ah! É você. – disse ele elevando a vela que carregava.
— Sim, sou eu. Vim beber um pouco de água.
Shina sorriu.
— Mandaram que dormisse na porta do quarto, não é?
— Sim, vamos viajar daqui a pouco. – respondeu Camus. – Quer água também?- ofereceu ele.
— Não, obrigada. Na verdade, senti a presença de outra pessoa dentro da casa. Bobagem minha, vou voltar a dormir. – respondeu ela voltando de onde havia vindo.
Camus viu a escrava sumir nas sombras e tocou nos lábios, sentindo falta da boca de Milo, da energia poderosa do corpo dele tomando o seu. Sorrindo, sentou-se no chão, o corpo sentindo o frio do piso e da parede, mas com o coração tomado pelo calor...
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Nem bem a aurora despontou, brumosa e fresca, Kanon, Saga e Camus embarcaram em sua pequena viagem. Ao deixar a domus Camus foi rapidamente até a sacada e olhou para o pátio ainda vazio. Tocou na pulseira feita de couro que usava desde os tempos de Dohko. Tirou-a e, rapidamente, procurou Afrodite dando a pulseira a ele.
— Por favor, dê essa pulseira a Milo.
Foi só o que deu a Camus, tempo de dizer. Porém, Afrodite entendeu a intenção e sorriu, cúmplice. Pegou o objeto e desejou boa viagem.
June despediu-se chorosa e comovida. Saga beijou-a levemente nos lábios e, em seguida, todos tomaram seu rumo em direção a Villa no Monte Mario.
Nem bem os três homens sumiram da vista da domina, ela chamou os escravos e ordenou que limpassem tudo, trouxessem flores e abastecessem a adega e o depósito de alimentos. Sorridente, ordenou que Shina mandasse trazer os comerciantes de tecidos e depois mandasse chamar Manigoldo.
A casa rescendia a perfume de rosas e lírios, o sol banhava as obras de arte e os tecidos finos, ali estavam, prontos para transformar-se em vestes suntuosas e sensuais. Os escravos trabalhavam incessantemente, colocando em ordem, tornando a domus um lugar requintado e esplendoroso para receber um convidado em especial...
Quando tudo estava a seu contento, June ordenou que lhe trouxessem vinho e começou a escrever a mensagem:
“Meu caro dominus,”
Sua presença em minha casa só faz honrar-me e encher meu coração de alegria. Sei que desejava ver meu marido antes que ele partisse para nossa Villa, mas a saúde dele exigiu que ele viajasse antes de ser honrado com a vossa presença.
Entretanto, é o desejo dele, que eu o receba e faça, da nossa casa, a vossa e o satisfaça em todos os seus desejos.
Confirmo nosso jantar amanhã à noite e desde já conto com a vossa agradável presença.
Atenciosamente,
June
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A confusão e o barulho enchiam o ambiente da domus de Minos e ele caminhava de um lado a outro com a fúria estampada no olhar.
— Então a vadia convidou Hades para mais um dos seus jantares! Posso imaginar o que ela vai oferecer a ele agora que seu marido está fora.
— Por que não vai até Hades e arranja que ele o leve também? – perguntou Julian.
— Eu e Hades? Na casa da rameira? Você só pode estar brincando. – gritou Minos.
— Diga a ele que ela o convidou, mas que não deseja aparecer sozinho...
— Esse não é o meu estilo, Julian. Sou cínico até certo ponto. Não vou implorar nada à Hades!
—Pois já é hora de mudar o estilo se pretende competir com a rameira. Se existe alguém que pode convencer o grande Hades de alguma coisa, esse alguém é você.
— O que está querendo dizer com isso?
— Que está na hora de ser mais... agressivo e de aproveitar sua intimidade com Hades. E não me olhe deste modo, eu sei muito bem que vocês já foram para a cama em muitas ocasiões.
— Isso é passado. Agora, somos apenas amigos. – disse Minos, contrariado.
— Pense bem, esse jantar pode ser a chance de nos livrarmos de dois obstáculos, a casa de Gemini e seu adorado campeão. A questão é: você tem coragem de ir até o fim para ganhar este jogo? – falou Julian mostrando um pequeno frasco que trazia na mão.
— Você está insinuando que eu...
— Vá ao jantar com Hades e convença-o a pedir um espetáculo diferente à domina. Peça para desafiar um dos gladiadores e escolha o campeão da casa de Gemini. Pela lei, nenhum escravo pode lutar com um patrício, mas você abdicará deste pressuposto legal e lutará de igual para igual. June não ousará deixar que Milo lute de verdade, já que seu marido não estará presente. Ela optará por uma encenação e até deixará que você tire sangue do campeão para parecer real... É o que eu faria no lugar dela. Uma gota desse veneno, colocada na lâmina, é o suficiente para tirar o campeão do páreo e melhor ainda, ninguém saberá, porque este veneno é lento e imperceptível. O grande Scorpionis ficará mais lento, sentirá algumas dores e acabará sendo ferido ou até morto por um dos seus próprios companheiros num treino qualquer. Nada que o incrimine, meu caro Minos.
Minos franziu o cenho e serviu-se de vinho mediterrâneo. O brilho no olhar de Julian dizia tudo e, ele teve de concordar com o sócio. Já era hora de reverter àquela situação, nem que para isso, tivesse de... jogar sujo!
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Saga acordou com o sol banhando o quarto e fechou os olhos de novo por não suportar a claridade. Sua cabeça estava menos pesada e ele sentia sede. Olhou para o lado e viu Kanon adormecido numa cadeira. Os cabelos soltos e uma expressão relaxada de quem havia bebido bastante. Fitou-o e sorriu, lembrando que haviam conversado a noite toda e só Kanon bebera. E, mesmo se sentindo melhor e dizendo isso ao irmão, ele fizera questão de velar-lhe o sono.
Seus pensamentos foram interrompidos quando Kanon abriu os olhos ainda pesados e sonolentos.
— Sonhei com você e nosso pai. Foi um sonho estranho... Ai, minha cabeça! – exclamou Kanon colocando a mão na testa e fechando os olhos.
— Não me deixou beber nenhum gole de vinho e agora está com ressaca. Vou pedir a Camus que nos traga o desjejum e então me contará que sonho foi esse. – disse Saga sorrindo.
— Vejo que parece bem melhor do que quando chegamos aqui. Fiz bem em trazê-lo para cá. — falou Kanon e sorriu também.
— Você me faz bem... – completou Saga e num rompante, beijou os lábios do irmão.
Kanon sentiu-se estremecer por dentro, mas, ao mesmo tempo a proximidade e o fato de estarem ali, sozinhos, mesmo que Camus permanecesse nos arredores para servi-los, ainda assim desfrutava de uma intimidade quase total com Saga e isso só acendia seus sentimentos e seus instintos... Sem hesitação, inclinou-se para frente e correspondeu ao beijo, levando a mão à nuca de Saga e acariciando-o ali.
Saga sentiu a boca escaldante de Kanon na sua e quando ele enlaçou-lhe a cintura, puxando-o de encontro ao peito forte, um gemido baixo escapou de seus lábios.
— Saga... – sussurrou Kanon roçando os lábios na boca do irmão e depois descendo ao pescoço que se entregava às carícias.
Os sentidos de Saga estavam cada vez mais anestesiados pela voz profunda e rouca do irmão e uma espécie de torpor dominou-lhe os membros. As mãos fortes e ágeis despertavam sensações que o deixavam tonto de desejo ou seria ainda a doença misteriosa que o deixara fraco?
Kanon se entregava àquela voragem e Saga exultava em deixar-se tomar pelo sentimento que guardara durante tanto tempo.
— Pelos deuses Kanon... como ansiei por isso. – murmurou Saga em meio aos beijos.
— Saga... sou apenas um homem... Não posso resistir pra sempre... Mas, não devemos, somos ir...
Os lábios de Saga voltaram a fazê-lo se calar e Kanon correspondeu ao beijo desistindo de resistir. E quando afastou a boca para respirar, Saga disse olhando-o nos olhos:
— Eu quero você... sempre quis. Faça amor comigo...
Em resposta, Kanon o abraçou com mais força, murmurando seu nome e deitando-o na cama, desnudando-o e, a si próprio, com urgência. Os beijos voltaram apaixonados, longos e molhados de saliva e paixão.
Kanon recostou Saga nos travesseiros e deitou-se ao lado, apoiando-se no cotovelo e deslizando os dedos pelo corpo desnudo do irmão. Saga por sua vez acariciou os músculos potentes do tórax de Kanon e olhou-o com admiração e desejo... O gêmeo mais novo inclinou-se e pressionou os mamilos túmidos com a ponta da língua, fazendo círculos morosos que arrancaram mais gemidos de Saga.
Cada movimento dos lábios de Kanon parecia saborear uma iguaria fina, sem pressa e Saga começou a murmurar e mexer os quadris de uma maneira instintiva e sensual. Os corpos, agora estavam colados, unidos num redemoinho louco e erótico que levou Kanon a posicionar-se entre as pernas do irmão e buscar-lhe a entrada em meio aos beijos apaixonados e famintos.
Saga ofegou quando sentiu a invasão em seu corpo, mas apesar da dor, a sensação inebriante de prazer ao ser penetrado por quem amava o fez sorrir e abrir-se ainda mais, buscando a boca de Kanon para beijar, sorrindo e murmurando palavras que nunca dissera a ninguém...
Kanon beijou-lhe o pescoço enquanto arremetia com força e se aprofundava no interior quente e estreito, grunhindo e arfando ao sentir-se dentro de Saga, o sonho e o desejo, finalmente, realizados...
O ritmo era lento, mas forte e Saga empurrava o corpo na direção do corpo do irmão ouvindo a respiração áspera vinda de sua garganta, o som da excitação que sabia estar provocando e sentindo uma espécie de delicioso poder com isso.
Por um momento, Kanon estancou os movimentos e olhou dentro dos olhos febris de Saga comungando um amor antigo, denso que agora ardia em seus corpos. Saga sorriu, sem pensar no amanhã e puxou Kanon para si, passando as pernas por ele, prendendo-o e aprofundando o falo do irmão dentro de si. Beijou-o com ânsia e, em seguida, atingiu o clímax quando as estocados recomeçaram...
Kanon fechou os olhos e deixou-se afundar, derramando dentro dele, perdido no sentimento de amá-lo como jamais amara ou amaria outra pessoa.
Com o coração na garganta e as emoções desencadeadas pelo forte orgasmo repercutindo em todo o corpo, os dois se abraçaram e beijaram com ternura e intensidade. Nenhum dos dois ousou falar, apenas encostaram as testas e fecharam os olhos, imersos no prazer proibido que ousavam vivenciar...
Quando Camus retornou a casa, após ter saído para fazer sua higiene, encontrou seus senhores dormindo e, mesmo que fosse uma situação inusitada, manteve a discrição e retornou ao pátio da casa para não constranger ninguém.
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