Entre o Amor e a Espada

18 Capítulo 18 SANGUE E AREIA!


Notas iniciais
***A frase que abre o capítulo é de William Shakespeare. ***Fic se encaminhando para o final dessa temporada. Peço desculpas pela demora na atualização, mas estou com excesso de trabalho e pouco tempo para escrever (que é meu prazer e jamais desistirei!!! *risos), mas aí está e espero que gostem!! *** Alerto que o capítulo está um tanto longo e foca, somente, as lutas na arena, então, alguns fatos que acontecem no decorrer da trama só serão esclarecidos no capítulo posterior. ***Bjs, e boa semana.

“Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez...”

Saga fez menção de levantar-se, porém Kanon segurou-o e fez um leve movimento com a cabeça. Apesar de tudo, o general parecia calmo, como se tivesse se rendido àquela situação bizarra. June permaneceu em silêncio, embora as palavras e o olhar sádico de Hades permanecessem em sua memória.

Hades estava com uma expressão de triunfo e seus olhos pareciam ter adquirido um brilho pérfido, do tipo que se compraz com a expectativa do sangue derramado. Enquanto isso, o Pretor limpava o rosto coberto de suor e sorria, sorvendo um gole de vinho servido pelo seu escravo.

Camus percebeu todos os olhares e gestos, sua mente analisando o que, realmente, Hades pretendia e a conclusão foi que o torneio era nada mais que uma vingança muito bem orquestrada, onde cada ato fora calculado nos mínimos detalhes. Sentiu medo, mas tratou de trancafiá-lo dentro de si. Milo era um homem surpreendente, sua força e inteligência buscavam soluções rápidas e eficazes. Era tão ardente na luta como o era no amor e no sexo. Não era à toa que seu nome ecoava, agora, em todas as bocas daquela gente. Ele saberia o que fazer!

Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis!Scorpionis!

Fechando os olhos por alguns segundos, Camus respirou fundo e retomou a expressão altiva e serena. Nesse exato momento, Afrodite aproximou-se e tocou-o no braço.

— Estou com medo, Camus. – sussurrou o escravo.

— Não tenha. Os gladiadores de Gemini são os melhores e não cairão facilmente.

— Eu sei, mas... algo me diz que Hades tramou tudo muito bem. Olha aquelas feras! Elas são jovens e parecem famintas.

— Se Hades aposta em suas bestas selvagens, eu ouso apostar no campeão. Milo não é um gladiador comum que luta, apenas com a força de seus músculos. Ele pensará em uma estratégia. – disse Camus.

— Tomara que você esteja certo. Os rapazes não tiveram uma boa noite de sono, nem alimentação decente. Temo que estejam cansados e talvez não consigam pensar com clareza. Oh, Júpiter Optimus Maximus! Não me falhe agora. – falou Afrodite roendo as unhas.

— Camus tem razão. Hades planejou tudo, mas uma fera age, somente, por instinto. Ele deve ter ordenado que as deixassem sem comer para que ficassem mais agressivas. E pelo que eu soube, fez o mesmo com os homens. Pensa ele que as feras terão vantagem, mas é uma ilusão. Quando um homem une instinto à inteligência, torna-se a fera mais perigosa da terra. – falou Albafica juntando-se aos dois.

Afrodite deu um meio sorriso, mas continuou a roer as unhas. Camus e Albafica permaneceram observando tudo e todos até uma voz destacar-se no palanque:

— Povo de Cápua, lhes foi trazido um dos melhores espetáculos, diretamente, de Roma! Que as lutas comecem e aquele que pisar ou ultrapassar a linha de fogo será desclassificado e... bem, as feras estão à espreita! O vencedor será quem permanecer, totalmente, dentro do círculo e... invicto! – bradou o Pretor e a massa ávida que até então estava silenciosa, urrou e bateu pés e mãos em uníssono.

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Em meio aos gritos ensandecidos, Milo avaliou a situação em poucos segundos. Era sempre assim, ele nunca tinha nada planejado, mas ao entrar na arena, sua mente focava todos os detalhes com uma impressionante precisão.

Notou que os aspirantes da Ludus Maxima estavam mais sujos e fedorentos que na noite anterior. Quase não se distinguia a pele que estava coberta por uma espécie de pasta negra, mesclando-se aos escudos e proteção de braços e pernas. Estavam tentando encobrir o próprio cheiro. Pensou Milo, enquanto corria os olhos por todos os detalhes da cena que vivenciava.

As feras estavam em quatro, três leoas e um leão. Eram jovens e pareciam famintas. Guardas permaneciam com lanças em riste e, logo atrás do portão por onde haviam entrado, estava um homem negro com o corpo coberto de pinturas tribais, exibindo um colar feito de ossos.

— Máscara, fique próximo de mim e quando eu sinalizar com a cabeça, ataque o adversário que se posicionar à minha frente, enquanto eu cuido do peludo.

— Vai atacar o leão?

— Eu vou atraí-lo para dentro. Vê se corta o cara rápido para não dar tempo de o outro adversário vir com tudo pra cima. Quando eu atacar o leão, o sangue vai atrair as fêmeas e elas virão atrás de nós. Com o leão morto e o cara também, elas terão com o que se divertir...

— E depois?

— Depois? Depois a gente batiza o resto dessa ralé e manda todos para o inferno.

Um sorriso cruel insinuou-se nos lábios de Máscara da Morte.

— Se matarmos todos, teremos que lutar entre nós.

— Não se, depois que a gente despachar todos eles, pularmos para fora do maldito círculo. – disse Milo.

— Ta insinuando que... a gente se desclassifique?— perguntou Máscara franzindo o cenho.

— Hades não disse que era um ritual? Infelizmente, não vamos deixar nenhum aspirante vivo, mas se quiserem que lutemos, que seja com gladiadores de verdade e da famosa Ludus do Imperador. Nós nos desclassificaremos pra lutarmos entre nós, então ele será obrigado a nos oferecer uma luta de verdade e com gladiadores de verdade ou... enfrentar a ira do público.

— Você é esperto, Scorpionis.

Milo sorriu e apertou o cabo de ambas as espadas.

— Sei que tá esperando a oportunidade de me enfrentar, mas não vai ser hoje. Hoje, Gemini vai se unir pra acabar com esses filhos da puta. — disse Milo.

Máscara sorriu também e cuspiu.

— Eu acho que posso esperar. – respondeu girando a espada e batendo-a no escudo.

— Então chega de papo, que tá na hora! – disse Milo e, logo em seguida, gritou em desafio para Niobe de Deep.

Niobe viu Milo vir prá cima de si, enquanto os outros também eram desafiados por seus respectivos adversários. Porém, ao chegar perto, Milo desviou e Máscara o atacou, dando início ao plano.

Milo chegou o mais perto possível da fera que rugiu e encarou-o em desafio. Os olhos do gladiador focaram nos brilhantes e selvagens olhos da fera e ele sorriu, lenta e perigosamente...

— Sinto ter de fazer isso, amigo... – disse Milo, baixinho e entre dentes.

O leão estudou-o, vendo que aquele bicho era diferente dos outros, não exalava medo e olhava-o, direto nos olhos. Milo baixou as espadas como fazia com os adversários humanos e ofereceu o tórax nu e sem nenhuma proteção.

As patas grossas e pesadas do leão marcavam a areia e a vibração dos passos de seu adversário era sentida através dessa conexão com o solo. Quando notou que Milo se mostrava vulnerável, saltou com uma rapidez espantosa, mas não maior que as lâminas das espadas que subiram em total sincronia, descrevendo um x no ar, no exato momento em que o pulo foi dado.

A cabeça do leão separou-se do corpo que continuou sua trajetória encontrando-se com o de Milo e sujando-o com o sangue abundante. A cena pareceu irreal, como se de repente, o gladiador encarnasse o próprio Marte que se mostrava implacável e terrível com seus inimigos. O sangue rubro espirrou manchando os cabelos loiros e longos, tornando-se pequenos enfeites de morte que agora escorriam pelos fios banhados pelo sol.

A plateia vibrou e um murmúrio longo e excitado percorreu toda a arena. No palanque, Saga sorriu e Kanon também. Camus soltou a respiração e Afrodite deu um gritinho extasiado, enquanto Albafica agradecia aos deuses em pensamento. Hades permaneceu impassível, mas quem conhecia a linguagem corporal podia perceber que sua sobrancelha se elevou quando Milo decepou a cabeça do leão tão rápido e mortal que se assemelhou a um deus terrível.

Entretanto, apesar da cena arrancar gritos e suspiros, a luta não cessara. No mesmo instante, Máscara atacava Niobe que defendia o tronco com o escudo, enquanto usava a lança para contra-atacar visando o ombro do gladiador. Desviando do ataque, Máscara saltou para o lado e desceu o gládio cortando a madeira da lança e, num movimento rápido, enfiou a espada na garganta do adversário que arregalou os olhos e caiu em meio a uma poça de sangue.

Como Milo previra, as fêmeas vieram juntas e se banquetearam com o corpo de Niobe. Com um grito, os outros avançaram com mais raça e raiva sobre os gladiadores de Gemini.

Giganto de Ciclope atacou Mu e surpreendeu-se com os movimentos rápidos e até graciosos que lhe custaram um corte profundo na coxa e outro no lado esquerdo da cabeça, deixando-o metade sem cabelo.

Ox de Górgona enfrentava El Cid e mesmo que o murmillo estivesse bem mais protegido, ainda assim o gladiador de Gemini já conseguira quebrar-lhe o escudo e, saltando sobre o corpo, quebrar-lhe a clavícula que deu um estalido seco.

Caronte de Aqueronte percebeu seu engano quando achou que Aldebaran seria lento devido ao seu tamanho. O gigante de Gemini desferiu um golpe rápido e certeiro que amassou-lhe o capacete, fazendo-o cambalear e encontrar o fio da espada no flanco direito.

Markino de Esqueleto perseguia Zelos com o tridente e a rede, mas o gladiador corria e saltava de um lado a outro, tentando cansar o adversário e quase conseguindo.

Flégias de Lycaon voltou-se para Milo com o olhar fervilhando de ódio. Era um Dimachaeri também e, como todo lutador que usava essa técnica, tinha um temperamento raro e fortemente selvagem. Flégias pareceu rosnar e Milo, mais uma vez baixou a guarda para chamá-lo para o combate.

Dos aspirantes a gladiador, Flégias era o único que já participara de uma batalha real e sangrenta e, como perdedor, virara escravo. Era orgulhoso e violento. Seu desejo maior era tornar-se o preferido da Ludus Maxima e, naquele exato instante, arrancar a expressão arrogante do famoso Scorpionis...

Manejando as duas espadas com força, Flégias lançou-se sobre Milo de modo que o encontro das lâminas soltou faíscas avermelhadas e ambos pareceram executar uma dança mortal onde cada movimento buscava a fraqueza um do outro.

Mais alto, Flégias impulsionava o corpo no ar e descia sobre Milo, forçando-o a defender muito próximo do corpo o que poderia ser fatal se o gladiador abrisse uma brecha em sua defesa.

Como acontecia sempre, Milo deixou que seu adversário atacasse sem trégua, até que, em determinado momento, a luta fosse invertida e Flégias sentisse a verdadeira força de Scorpionis. Era um espetáculo que encantava o público, pois cada feixe de músculos e cada golpe de Milo era intenso, certeiro e parecia inesgotável. Os cabelos loiros, ainda sujos de sangue moviam-se sinuosos e a expressão do gladiador era forte e, ao mesmo tempo, zombeteira.

Flégias percebeu que até então Scorpionis o estava testando e olhou, rapidamente, em volta, vendo que seus companheiros estavam em semelhante situação. Gritou como se estivesse em uma batalha e tentou seu último golpe. Milo desviou, bloqueando a ofensiva e desarmou-o, deixando-o somente com uma espada.

No mesmo instante, Flégias ouvia Caronte desabar sob a espada de Aldebaran e Ox de Górgona ter sua garganta atravessada pela lança de El Cid. Giganto jazia com a perna quebrada e sem parte do braço esquerdo, enquanto Markino havia sido enrolado na própria rede e era transpassado pela espada de Zelos.

No palanque, Hades observava a luta, sentindo a alegria de Saga e Kanon. No entanto, seu plano estava dando certo. Aqueles animais que trouxera eram apenas iscas. Quando fossem mortos, só sobrariam os gladiadores de Gemini e então, eles teriam de lutar entre si, até sobrar apenas um...

Milo encarou Flégias, vendo que ele arfava e percebia que somente ele havia restado. Sabia que ele atacaria com toda a sua força, os últimos resquícios do fôlego e da agressividade que aquele tipo de combate provocava. Passou a língua nos lábios e baixou a guarda, deixando as espadas ao lado do corpo de forma provocativa.

Flégias grunhiu, sentindo cada parte de seu corpo doer e, ainda assim, uma energia formar-se em seu ventre insuflando força e energia. Sabia que era o único que sobrara e tinha que honrar o nome da sua casa e adquirir a tão sonhada marca. Baixou a sua espada, assim como Milo tinha feito. Inspirou, encarando-o e Milo jogou uma das espadas fora, arrancando exclamações exaltadas da multidão.

Com um tênue sorriso, Milo fez um sinal do tipo “agora estamos iguais, venha... ataque-me se tem coragem”. Flégias se lançou, impulsionando as pernas num salto quase animalesco, fazendo descer o gládio num arco violento. Milo defendeu e moveu sua espada de forma que ela adentrou a proteção de braço usada por Flégias.

O metal e o couro se quebraram com um som surdo e todos puderam observar que o aspirante a gladiador estava ferido. Entretanto, mesmo sangrando, Flégias gritou ainda mais alto e contra-atacou. As espadas se encontraram e o som do aço pareceu retinir em toda a arena.

— Milo está brincando com ele. – disse Saga com orgulho.

Hades fez de conta que não ouviu, enquanto o Pretor enxugava o rosto suado e sorria meio sem graça. Porém, ambos viam que Flégias estava, cada vez mais lento, e que Milo parecia uma das feras que ainda se banqueteavam no corpo de Niobe, saltando e atacando cada vez mais forte.

Mata ele, Scorpionis! Acaba com ele! — gritava a multidão.

Profundos golpes se faziam ver e ouvir, então Milo atacou uma última vez, descendo a espada de tal forma que Flégias não conseguiu bloquear. Era um som inaudível, mas a carne sendo cortada vibrou na mão de Milo e quando o sangue jorrou rubro e quente, a morte acolheu Flégias em seus braços. O pescoço pendeu para trás e o corte feito com precisão desceu da garganta até o umbigo, expondo as vísceras e inundando a areia de sangue.

O brado excitado do público se fez ouvir, novamente. As arquibancadas de madeira tremiam como se fossem cair. Milo levantava as espadas sangrentas e era ovacionado de uma forma ensurdecedora, enquanto olhava na direção do palanque e sorria, encontrando o olhar admirado de todos e o sério de Hades.

O gladiador tocou sua marca, assim como os outros e, como se tivessem combinado, todos saltaram para fora do círculo.

Hades franziu o cenho e olhou na direção do portão, onde o homem negro permanecia impassível e tocava em seu colar feito de ossos. De repente, o homem levou um dos ossos à boca e soprou. As leoas que ainda comiam a carne de Niobe elevaram as cabeças e se voltaram para o grupo de gladiadores. Milo compreendeu que elas atacariam e os três mais perto das feras eram Mu, Zelos e Aldebaran.

Mu preparou-se, mas antes que esboçasse uma reação, uma flecha certeira atingiu o pescoço de uma das leoas. O gladiador buscou a origem do disparo e viu um homem encapuzado em meio à multidão ensandecida preparar outra flecha e disparar, novamente, enquanto Aldebaran se lançava contra a outra fêmea como um Hércules. Zelos tentou pular, porém a terceira leoa foi mais rápida e abocanhou-lhe o pescoço.

— Merda! – gritou Milo que foi na direção de Zelos, porém outra flecha cortou o ar, trespassando a leoa que soltou o gladiador e rugiu, antes de cair morta.

Aldebaran estava ferido, porém sua força descomunal fizera com que seus braços sufocassem a fêmea, enquanto Máscara da Morte aplicava o golpe de misericórdia estocando a barriga da leoa e arrancando mais aplausos ao expor o ventre aberto e imerso em sangue.

Um casal que estava ao lado do homem encapuzado olhou-o com os olhos arregalados e ouviu um forte e simples:

— Continuem olhando para a arena!

Em seguida, o encapuzado misturou-se à massa e deixou as arquibancadas. No palanque, Saga olhou para Kanon que permanecia sério, enquanto Hades e o Pretor deixavam de buscar o arqueiro misterioso nas arquibancadas e agora observavam a arena, atentamente.

Máscara ajudou Aldebaran que estava com parte das costas dilacerada e sangrando devido às garras da leoa. Mu foi até Zelos que tinha um grande ferimento no pescoço e segurou-o. O gladiador tentou falar, mas o sangue escapava aos borbotões e a única coisa que ele conseguiu dizer foi:

— E-Eu... matei... o f-filho da puta e acabo morto p-por um...gato.

— Você foi superior à ludus do Imperador. – disse Mu.

Os outros se aproximaram no momento em que Zelos arregalou ainda mais os olhos e respirou pela última vez. Mu fechou-lhe os olhos e rezou em silêncio.

Milo olhou na direção do palanque e foi Hades, que o brilho furioso de seus olhos encontrou e fixou, fazendo uma promessa silenciosa. Seu covarde, filho da puta! Vou matar um por um da sua ludus e pouco me importa se é a ludus do Imperador!

Hades elevou os braços e o público calou. Na arena, em meio ao sangue e areia, os gladiadores mortos eram retirados deixando rastros desenhados com pele e sangue, enquanto os de Gemini ficavam próximos uns dos outros.

— A casa de Gemini venceu e livrou a Ludus Maxima de homens indignos de serem chamados gladiadores. Como prêmio, enfrentarão a elite da ludus do Imperador. Que entrem Poseidon, Ares, Kagaho e Krishna! Gladiadores de elite e invictos da Ludus Maxima ! – ditou Hades.

O público tornou a gritar de forma histérica e as arquibancadas quase vieram abaixo. Os gladiadores de Gemini ainda estavam ofegantes, enquanto Hades anunciava a continuação do torneio.

Júpiter me fulmine! Eles nem tiveram tempo de respirar ou descansar! Zelos está morto! Tá certo que ele era um sem noção, mas era um dos nossos. E o Aldebaran, coitado... está seriamente ferido. Se não fosse aquele arqueiro misterioso teríamos mais baixas.– exclamou Afrodite ao ouvir o pronunciamento de Hades.

Camus nada disse. Franziu o cenho e olhou para Saga. Kanon cochichava algo ao ouvido do irmão. Deviam estar discutindo algo, porque Saga parecia, visivelmente, incomodado.

— Cônsul, Pretor! Estou retirando minha casa deste torneio.

Hades estreitou os olhos.

— Como assim?

Saga fixou os olhos verdes nos de Hades. Havia desafio e fúria que foram recebidos com igual ardor.

— Não sacrificarei homens de valor para envaidecê-lo, Hades. Planejou bem este espetáculo, mas não me tome por qualquer um que se sujeita aos seus caprichos, somente porque representa a ludus do Imperador. Meus homens foram mal acomodados e alimentados. Lutaram contra feras e participaram desse...desse ritual que você criou! E agora você quer que eles lutem contra homens descansados? É esse o seu conceito de honra?

— Ora, não foi o seu campeão que derrotou, vendado, um forte oponente ? Não é próprio da sua casa realizar o impossível? O que são feras e oponentes patéticos perto do grande Scorpionis que, inclusive, matou um leão à semelhança de nossos semideuses? Vai deixar o público frustrado por...medo? – provocou Hades.

Os punhos de Saga se retesaram e foi, somente, pelo toque sutil de Kanon que ele não concretizou suas intenções. A massa, ainda ávida continuava gritando de modo que o bater de pés e mãos resultavam em um som semelhante ao do trovão.

Na arena, os gladiadores de Gemini esperavam a entrada de mais desafiantes. Mu olhou na direção do portão e viu que, agora, não era mais o homem negro que o guardava. Havia um outro homem, alguém que ele conhecia e que o observava com um discreto sorriso nos belos lábios...

Aiolia! Era ele o arqueiro misterioso que o salvara das garras da leoa.

Máscara da Morte estava impaciente e Milo também. El Cid estava introspectivo e sério, como sempre e, de vez em quando, olhava para o palanque na esperança de ver Albafica que permanecia com Camus e Afrodite, atrás de seus senhores.

Saga olhou na direção de Milo. Por um instante, pediu aos deuses por um sinal. Amava e respeitava aqueles homens, por mais que a relação estabelecida fosse de senhor e escravo. Seus olhos focaram em Milo e o gladiador pareceu entender a pergunta, mesmo que estivesse longe para perceber detalhes. Um sorriso, acompanhado do punho fechado batendo no peito em uma conhecida saudação, fez Saga decidir.

— Pois bem, cônsul... Meus homens desejam lutar e esta, será minha homenagem a Minos. Que o torneio continue!

Hades quase sorriu se não fosse o tom sarcástico com que Saga dissera minha homenagem a Minos. Havia tanta certeza naquela fala que fez Hades sentir a bile invadir-lhe a boca, deixando um gosto amargo de ira contida.

— Sábia decisão, meu caro Saga. Que a luta comece e que vençam os melhores! Lembrem-se que o círculo permanece. Quem pisar fora, está desclassificado! – disse Hades voltando-se para a arena.

Os gladiadores que adentravam a arena eram bem mais imponentes que os anteriores, mesmo que sua estatura não fosse tão grandiosa. Todos usavam proteção e armas que reluziam sob o sol forte, eram os famosos trácios e possuíam ampla experiência em combate e batalha.

Milo encarou Ares, o mais possante junto com Krishna que, pelo visto, havia escolhido Máscara da Morte. Kagaho fixou-se em Mu, enquanto Poseidon buscou El Cid. Todos se olharam sem nada dizer, apenas demonstrando estar abertos ao desafio que lhes era apresentado.

O gládio dos trácios era curvo e tanto servia para cortar como para desarmar o oponente, assim como um escudo de dimensões exatas para aparar golpes de gládios mais longos.

Ares percebeu que Milo permanecia de guarda baixa, estudando-o. Então, fez um movimento semelhante e baixou seu gládio, afastando, também o escudo do corpo. Milo sabia que estava sendo chamado para o combate e resolveu aceitar. Entretanto, assim que ele bateu sua espada com a de Ares, a forma da espada o fez demorar um segundo, tempo suficiente para Ares puxar o escudo de encontro ao corpo, batendo na coxa de Milo fazendo-o cair.

Merda! Tenho que ficar atento. Estou cansado, mas ele não. Não posso vacilar. Pensava Milo enquanto rolava na areia quente e escapava da espada curva tentando cortar-lhe o pescoço.

Camus olhava a luta e murmurava “frio como o gelo, intocável como a neve...” sua oração pessoal que sempre o mantinha sereno diante das dificuldades.

Na arena, todos lutavam por suas vidas. Os trácios eram, realmente, fortes e possuíam uma técnica e agressividade excepcionais. Mu lutava com Poseidon e várias vezes a lâmina curva quase beijava seu rosto, até o momento em que ele tropeçou e o sangue se fez presente, escorrendo quente na altura do olho direito quando o gládio, finalmente o beijou...

Milo aparava os golpes fortes de Ares, mas também vislumbrava, de vez em quando, a luta de seus companheiros. Seu olhar recaiu em Mu que estava ofegante e cansado. Lembrou-se de uma última conversa que haviam tido sobre a morte. O jovem forte, porém pacífico havia dito: Não me importa morrer, seja na arena ou fora dela. Se eu morrer, esse ciclo de violência e sangue acaba e eu posso reencontrar a harmonia aprendida e vivenciada no Templo.

O adversário de Mu atacava sem piedade e Milo percebeu que seu amigo e companheiro, embora forte, estava no seu limite e tinha o agravante de não gostar de matar. Então, fez algo que arrancou murmúrios de estranhamento do público, desviou do golpe de Ares e foi até Mu, empurrando-o e assumindo a luta com Kagaho.

— Ora veja, seu campeão está lutando contra seu próprio companheiro! – exclamou rindo o Pretor.

Ele o está protegendo. Pensou Camus ao perceber a tática de Milo.

Afrodite estava atento à Máscara da Morte que lutava ferozmente com Krishna, porém também via-se que além de descansado, o adversário possuía uma técnica forte e ousada que estava dando trabalho para o seu amante.

Oh! Júpiter Optimus Maximus, eu acamparei em seu templo com muitas oferendas se proteger meu amado! Sussurrou Afrodite quando a lâmina curva desceu sobre Máscara da Morte e foi aparada com força e perícia.

Albafica concentrava-se na luta de El Cid. Seu amante era maior que seu oponente, mas mesmo assim, Poseidon era rápido e, ao invés do escudo, portava um estranho e curto tridente. Lutava com agilidade com a espada curva e, ao mesmo tempo, movia o tridente com uma habilidade espantosa fazendo-o parecer um borrão cinzento que, em determinado momento, foi direto ao ombro de El Cid, obrigando-o a desviar mas, ainda assim, forte o suficiente para atingir-lhe o escudo, atirando-o ao chão.

El Cid caiu e Poseidon, de forma extraordinária, desceu sobre ele, novamente, e desta vez, parte do tridente cravou-se em seu braço direito arrancando um grunhido de dor. Mesmo ferido, imediatamente o gladiador impulsionou as pernas contra o corpo de Poseidon jogando-o longe, enquanto arrancava o tridente de seu corpo e fazia brotar sangue dos ferimentos.

Levantou-se como se nada tivesse acontecido e pegou o gládio com a mão esquerda. O povo murmurou, excitado com a cena e Mu que havia sido afastado, agora posicionava-se ao lado do companheiro e, ao exemplo de Milo, assumia o ataque a Poseidon. El Cid arfou, mas voltou ao combate, afastando Mu.

— Ele... é meu! – grunhiu entre dentes.

Ares caiu, novamente sobre Milo e Kagaho tornou a buscar Mu. Aproveitando a distração do gladiador com seu companheiro, Kagaho retirou um punhal de dois gumes e atacou-o no flanco esquerdo, perfurando a carne.

Mu , ao invés de recuar, uniu-se ao corpo de Kagaho e desceu o gládio enfiando-o na coxa do adversário. O corte não parecia profundo, mas logo Kagaho percebeu o erro fatal, o local onde a espada perfurara fez jorrar o sangue de modo intenso e nada podia impedir a hemorragia que se seguiu. Com um último grito, ele ainda saltou sobre Mu e então sentiu o aço adentrar seu ventre num último golpe.

Tava demorando. Pensou Milo sorrindo ao ver que Mu fora o primeiro a matar.

Ares grunhiu e atacou Milo com mais força. Parecia que a cada golpe, o gladiador da Ludus Maxima ficava mais agressivo, justificando o nome que carregava. Ares, a versão grega de Marte que agora estocava tão rápido que sua lâmina parecia um risco cortando o ar. Por um momento, os dois ficaram próximos de El Cid e Poseidon que lutavam ferozmente, mesmo que o gladiador de Gemini estivesse sangrando abundantemente.

Milo recuou e viu que Poseidon chutava El Cid e procurava uma brecha para o golpe final. O sangue que escorria do corpo de El Cid era suficiente para fazer qualquer um desmaiar pela perda do líquido vital, mas o gladiador continuava a defender-se com uma força extraordinária, embora cada vez mais lento e dificultoso.

Olhou para Ares que vinha em direção à si com mais força. Então, tomou uma decisão que talvez lhe custasse a amizade de El Cid, mas não queria ver mais um companheiro de valor morrer naquela arena maldita. Atraiu Ares para mais perto dos dois que lutavam e, na primeira oportunidade, desviou dele e atacou Poseidon, interrompendo o ataque possante que ele fazia a El Cid.

El Cid olhou para Milo e quando fez menção de falar algo, o gladiador chutou-o com força para fora do círculo, desclassificando-o. O público levantou e Mu que estava sangrando também, entendeu o gesto do amigo e arrastou-se para fora do círculo e tentou acalmar El Cid que xingava Milo, mas já estava na última reserva de suas forças.

No palanque, Albafica fechou os olhos e agradeceu a Milo em pensamento. Mesmo conhecendo o orgulho do amado, a única coisa que lhe importava era tê-lo vivo e em seus braços.

Máscara continuava a lutar com Krishna que parecia ter vários braços, tanta era sua agilidade em atacar e defender com um escudo pequeno e cravejado de pontas que pareciam tornar cego o fio da lâmina do adversário. O gladiador de Gemini não tinha escudo para aparar os golpes, então atacou com fúria sem dar-se conta da estratégia de Krishna que recuava e avançava perto da linha do círculo.

Aço bateu contra aço quando Máscara, apesar de exausto, desceu sobre Krishna e encontrou o escudo que defendeu e o empurrou, ao mesmo tempo. Máscara absorveu o golpe sem dar-se conta que estava perto do corpo sem vida de Kagaho. Quando percebeu, tentou saltar para não tropeçar nele e foi aí que Krishna projetou seu escudo junto com a espada curva e caiu sobre Máscara que recuou ainda mais e quando absorveu a fúria do golpe, viu, tardiamente, que já estava fora do círculo...

Poseidon sorriu e veio com tudo para cima de Milo, assim como Ares que agora buscava a brecha perfeita. A lâmina do trácio desceu tão forte e rápida que uma mecha dos cabelos de Milo foi arrancada em pleno ar e um corte se abriu em sua testa, enquanto ele sentia o tridente de Poseidon roçar-lhe a coxa, produzindo um intenso ardor.

Sorrindo, Krishna juntou-se aos companheiros, fazendo jus à fama de ser o gladiador que parecia ter mesmo vários e ágeis braços.

Na realidade, a missão dos quatro gladiadores mais importantes da Ludus Maxima era acabar com a hegemonia da casa de Gemini e também com seu campeão, Scorpionis.

Agora, a missão estava próxima de ser completada...

Saga prendeu a respiração, assim como todos no palanque e nas arquibancadas. Milo estava sendo atacado por três homens fortes e experientes de forma arrasadora. Via-se que o gladiador estava exausto, mesmo que ainda mostrasse força e resistência.

Meu pai Júpiter!— exclamou Afrodite segurando o braço de Albafica que também estava tremendo por dentro.

Camus continuava impassível, mas seu coração estava acelerado e sua mente, embora repetisse a frase que sempre o acalmava, agora estava tomada por lembranças e palavras que se amontoavam tentando desviá-lo da dor. Milo estava cansado e lutando contra três gladiadores. Era forte, mas não invulnerável.

Scorpionis é o campeão de Gemini. Ele não cairá! Camus repetia para si mesmo, enquanto na arena, a luta desigual continuava acirrada.

Krishna aproveitou que Ares golpeava forte e, enquanto Milo se defendia, chegou perto dele, aplicando um golpe com as pernas, derrubando-a sobre a areia quente e manchada de sangue.

Aterrissando de costas no solo arenoso, Milo sentiu o pouco ar sair de seus pulmões e a cabeça estalar com um som oco quando bateu no chão.

Merda! Pensou enquanto sentia o corpo tombar e sua cabeça experimentar uma tontura dolorida. Suas mãos estavam bem fechadas sobre suas duas espadas, mas o impacto quase o fez abri-las e deixar cair suas armas.

Ares gritou e desceu a espada bem próximo do seu rosto, entretanto o instinto de Milo foi mais forte e ele deslizou para o lado onde Poseidon já o atacava com o tridente curto. As pontas da arma buscaram-lhe a coxa que já havia sido arranhada, numa tentativa de aprofundar o golpe.

Milo impulsionou as pernas, num esforço hercúleo e moveu as espadas no intuito de afastar Ares e Poseidon, porém Krishna já estava a sua frente e chutou-o novamente, avançando com o gládio de espada curva para desferir o golpe mortal.

Scorpionis cambaleou para trás sob murmúrios da multidão. Cada fibra dos músculos do seu corpo doíam e seus pulmões pareciam estar em chamas. Sentiu o gosto do próprio sangue na boca que estava seca e sua mente devaneou, como se a arena mudasse e ele voltasse a ser um garoto lutando por sua vida contra um centurião mais experiente e mais forte.

Seu rosto estava afogueado e o sangue do corte na testa escorria por entre seus olhos. Ofegou, recusando-se a morrer sob a espada daqueles paus-mandados de Hades, mas seu corpo estava cada vez mais exausto...

Camus via o homem que amava no limite de suas forças e seu coração apertou de modo que já não conseguia ficar impassível. Milo estava, sendo massacrado e era apenas um homem, apesar do talento genuíno que possuía.

O ruivo já perdera o pai e a liberdade, mas perder Milo lhe era dolorosamente pior e insuportável. Então, pela primeira vez em sua vida, ele permitiu-se ser tomado pela emoção intensa e pelos sentimentos profundos que nutria por Milo. Deixou o palanque, correndo desesperado até o portão por onde entravam e saíam os gladiadores.

Ali, agarrado à grade que dava para arena, Camus gritou entre as lágrimas que escorriam de seus olhos:

— Reaja, Milo! Não ouse morrer, ouviu? Eu te amo! Amo mais que tudo nesta vida! Reaja e acabe com esses filhos da puta!

Sem saber se era uma alucinação ou realidade, Milo olhou na direção da grade e o viu. Os cabelos ruivos, os olhos aflitos, a boca que adorava beijar e morder...

Camus!

Sim, o homem que amava estava ali, gritando por ele, dizendo o que ele sempre desejara ouvir:

Eu te amo, Milo!

Um sorriso brotou nos lábios ressequidos do gladiador.

Ele disse! Ele disse que me ama! Milo agarrou-se àquelas palavras como um náufrago se agarra aos destroços de sua nau.

Insuflado de uma força que ninguém soube de onde veio, Milo brandiu suas duas espadas ainda agachado, golpeando Krishna no joelho e, em seguida, elevando-se para chutar Poseidon com as duas pernas. Ao aterrissar no solo, rolou sobre o ombro e levantou girando as espadas antes de estocar com uma e fazer um movimento de corte com a outra, atacando Ares e obrigando-o a recuar.

Poseidon se ergueu e então Milo caiu sobre ele com fúria, ferindo-o no ombro e, em seguida, forçando-o a usar o tridente como defesa. O impacto do ataque de Milo fez Poseidon perder o tridente e parte da orelha que sucumbiu frente à lâmina afiada. Com um grunhido, Poseidon ainda tentou atacar, porém Milo enfiou-lhe metade do gládio no ventre e torceu, fazendo-o arfar e arregalar os olhos antes de cair morto, logo em seguida.

Ares gritou e atacou, mas as espadas de Milo pareciam extensões de seu braço, quase entidades vivas... O gladiador de Gemini rechaçava os golpes e descia com força sobre o escudo do adversário que agora recebia ajuda de Krishna.

Mesmo com o joelho machucado, Krishna atirou-se sobre o corpo de Milo desequilibrando-o e fazendo-o cair.

Quando Milo foi ao chão, ambos os gladiadores direcionaram seus gládios curvos ao corpo do gladiador que caíra ao lado do tridente de Poseidon. Com um movimento rápido, Milo desviou de Ares pegando o tridente e empurrando-o de encontro ao corpo de Krishna que se desequilibrara devido ao joelho em mau estado.

O gladiador gemeu e, enquanto se agarrava ao tridente enfiado em seu ventre, Milo o empurrava e atacava Ares. O gladiador da Ludus Maxima gritou alto e largou fora o escudo, usando ambas as mãos para erguer o gládio e descê-lo com toda a força sobre Milo.

Scorpionis saltou para o lado, ao invés de recuar e desceu uma espada no flanco direito de Ares e logo golpeou com a outra por baixo do braço e por entre as costelas. Ares estremeceu e ficou imóvel, o corpo poderoso desabando aos pés de Milo que arfava e sentia o coração retumbar no peito e nos ouvidos.

A massa delirou, explodindo em gritos e aplausos ensurdecedores.

Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis!

Camus sorriu em meio às lagrimas que escorriam por seu belo rosto. Afrodite abraçou-se a Albafica e também chorou de alegria e alívio. Saga e Kanon levantaram no exato momento em que Milo derrotava Ares e exultaram gritando o nome de seu gladiador. Hades permaneceu sentado e sério, enquanto o Pretor se abanava, ainda sem acreditar no que acabava de presenciar.

— Esse homem... esse homem é... um herói! – disse ele sem dar-se conta da postura fria e seca de Hades.

— Não só é um herói, como merece a rudis!— disse uma voz que se juntava aos demais no palanque.

— Imperador? – murmurou Hades ao ver a figura de Titus adentrando o palanque.

— Sim, desculpem-me não juntar-me a vocês, mas resolvi ficar incógnito e assistir o espetáculo sem ser reconhecido.

— Imperador! Mas que honra! — disse Vespaciano sinalizando para que seu servo viesse até ele.

Kanon e Saga fizeram uma reverência e Titus tocou-os no ombro.

— Vocês têm várias preciosidades em sua casa, mas esse homem, Scorpionis, é um talento raro. Ele merece a rudis e, embora tenha vencido a minha ludus, eu terei a honra de torná-lo livre. – disse o Imperador.

— Ficamos honrados e gratos com sua presença, meu senhor. – disse Saga.

Na arena, Milo esforçava-se para não cambalear e permanecer de pé, enquanto o Imperador discursava e o tornava livre.

Livre! A palavra que sempre sonhara ouvir só era suplantada pela declaração de Camus, instantes atrás. Fora o amor que lhe dera forças para continuar lutando e vencer.

Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis! Os gritos ainda continuavam, apesar do encerramento do torneio.

Milo sorriu e deixou a arena, sentindo o corpo experimentar o torpor e o toque de mãos conhecidas. Em meio ao conforto e felicitação dos amigos, vislumbrou o rosto sorridente de Camus.

Logo estavam abraçados e Milo deixou-se amolecer naqueles braços, sentindo o cheiro da pele do amado. Os demais foram se afastando e os dois permaneceram com os corpos colados, a respiração ainda ofegante.

— Sabia que ia conseguir gladiador. Agora você é um homem livre!— sussurrou Camus apertando Milo com força, junto a si.

— Me tornei livre, desde o dia em que o conheci, ruivo. Foi seu amor que me libertou, não a espada. – respondeu Milo roçando o nariz no pescoço de Camus.

Camus elevou o rosto, encarando o olhar cansado, mas sempre forte de Milo.

Je t'aime, Milo.

Milo sorriu.

— Então, essas palavras que você sempre diz quando goza é...?

— Eu te amo, seu tolo! Tão inteligente para certas coisas e tão tolo para outras! – disse Camus puxando Milo para um beijo.

Beberam do gosto um do outro no profundo encontro das línguas. Mesmo exausto, Milo sentia-se renovar e excitar com Camus em seus braços. Não havia dor, cansaço ou ferimento que se sobrepujasse ao amor e desejo que sentia por aquele homem e Camus retribuía da mesma forma, sentindo-se completo amando e sendo amado com igual ardor.

— Você está exausto, ferido e, ainda sim está duro... – disse Camus sorrindo ao sentir a ereção de Milo contra suas coxas.

— O dia em que eu não ficar duro com o calor do seu corpo, estarei morto. – respondeu Milo segurando Camus pelos quadris, fazendo-o sentir ainda mais a dureza de seu sexo.

Camus sorriu e colou ainda mais seu corpo ao de Milo, fazendo-o sentir que também estava excitado. Os dois riram e quando tornaram a unir as bocas, uma voz melodiosa e conhecida se fez ouvir:

— Sinto atrapalhá-los, mas... dominus Saga e Kanon o chamam, Milo. – disse Afrodite sorrindo.

Notas finais
***Agradeço a todos que lêem, comentam, acompanham, favoritam, indicam, enfim, só posso agradecer a felicidade e a honra de tê-los comigo!!! Bjs, XD ***Significado de algumas palavras da fic: ***Murmillo : era um tipo de gladiador que carregava um grande escudo numa mão e na outra uma espada curta. Seu capacete se assemelhava a um peixe. ***Dimachaeri: era um tipo raro de gladiador que lutava com duas espadas e não usava proteção como os demais. (Por isso escolhi essa categoria para incluir o Milo, pois lutar sem proteção exige técnica, força e muita coragem, algo que meu delicioso escorpião tem de sobra. Além de poder exibir aquele corpaço...*risos) ***Trácios: Os trácios eram os únicos a lutar com a sica, uma espada curva. Como usavam um escudo pequeno, eles tinham também chapas de metal para proteger as pernas. O capacete com plumas era outra marca registrada destes gladiadores.