Entre o Amor e a Espada

19 Capítulo 19 LIBERTAS (Liberdade)


Notas iniciais
Oi, meus queridos! Este capítulo finaliza a primeira temporada de "Entre o Amor e a Espada". A segunda temporada se chama "A Cólera dos Deuses" e vai revelar as consequências do ato de Saga, a vingança de Hades e o destinos dos casais que se formaram, assim como introduz alguns novos personagens. Espero que tenham gostado e agradeço o carinho e a atenção de todos! Bjs!
*** O trecho do poema que abre o capítulo é de Antero de Quental, in "Sonetos"
****EM TEMPO, UM AGRADECIMENTO SUPER ESPECIAL PARA SUZUKI_YOI que lê, comenta e faz tudo isso no meu horário preferido: a madrugada!!! Gente, eu fico muito honrada com o carinho e com a forma sensível que ela tem de colocar as coisas!!! Su, MUITO OBRIGADA!!!XD

“Firo, mas salvo... Prostro e desbarato,
Mas consolo... Subverto, mas resgato...
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.”

Saga e Kanon estavam exultantes conversando com o Imperador, enquanto Hades permanecia em silêncio, ostentando uma expressão neutra e distanciada mesmo que, por dentro, se corroesse de raiva e desejasse cometer uma loucura.


– Esse homem, Milo, seria uma bela aquisição para a Ludus Maxima, não é Hades? – perguntou o Imperador.


A pergunta obrigou o cônsul a participar da conversa festiva e sorrir frio e calculadamente, enquanto respondia:


– Creio que Milo, agora que foi liberto, poderá escolher. Entretanto, Gemini demonstrou hoje que seus gladiadores são de uma fidelidade quase canina. – respondeu Hades.


– Bem, isso é verdade e fico feliz que tenha notado, cônsul. Os que lutam pela minha Casa me são fiéis, já que não os trato como animais. São homens fortes e leais. A prova disso foi a vitória esmagadora que tiveram no torneio de hoje. Creio que Minos, onde quer que esteja, deve sentir-se honrado com tal homenagem. – disse Saga sentindo um imenso prazer em olhar nos olhos de Hades e ver a derrota ser assimilada com dificuldade.


Nesse momento, Milo entrou na pequena sala acoplada ao palanque. Apesar de ferido e cansado, seu corpo vigoroso exalava uma aura de poder e altivez. Hades não deixou de perceber que era isso que mais o incomodava, naquele homem. Mesmo antes de ganhar a rudis, ele se movia e agia como um homem consciente de si mesmo e, por mais obediente que fosse a Casa de Gemini, nunca se portara como escravo. Agora, depois de brilhar na arena e tornar-se um herói, certamente a arrogância e o ego ficariam ainda mais inflados.


– Ora, aí está o nosso herói! – disse Titus sorrindo.


– Obrigado por me libertar, dominus. – falou Milo saudando o Imperador.


Embora fosse um homem poderoso, Titus agia como um militar de alta posição, acostumado a chefiar homens simples e, portanto, não exigia as reverências que os outros imperadores faziam questão. Sorriu para Milo, verdadeiramente encantado com a energia e a força do gladiador.


Após algumas trocas de palavras, Milo afastou-se e, em seguida, seus olhos recaíram em Hades. Só então ele sorriu e o cônsul também.


Foi um enfrentamento silencioso até o gladiador retirar das costas, um dos gládios com que lutara na arena. Hades franziu o cenho, esperando uma atitude agressiva, porém Milo apenas a estendeu na sua direção e falou:


– Cônsul Hades, é com muito prazer que lhe entrego esta espada. O sangue que ainda permanece no fio é minha mais sincera homenagem ao falecido Minos e... ao senhor por ter oportunizado que eu me tornasse um homem livre.


O corpo de Hades se retesou, mas ainda assim, ele manteve a fleuma e olhou para a espada que lhe era oferecida. Mil pensamentos lhe sobrevieram à mente, todos eles voltados para a vingança. Minha vontade é pegar essa espada e enfiá-la em seu coração e ver seu sangue jorrar até a vida extinguir-se do seu corpo!


Entretanto, como já era esperado, aceitou a oferta.


– Aproveite a glória, gladiador, pois nada é para sempre. – disse o cônsul, afastando-se em seguida.


– É verdade, dominus, por isso lhe sou grato. – disse Milo num tom mais alto.


Saga e Kanon ficaram boquiabertos. Camus, que viera logo atrás, também. Titus ficou sério, mas logo sorriu.


– Seu homem não teme nada, nem ninguém. Uma atitude perigosa, cônsul Saga. – disse o Imperador.


– Milo sempre foi...


– Arrogante? – cortou Titus.


– Não, ele sempre foi senhor de si mesmo. – falou Kanon, participando da conversa. – Quando tinha apenas 16 anos, ele enfrentou um de meus centuriões para salvaguardar a honra de seus amigos e venceu. Milo é um homem de honra e força, mas indomável.


– E como o manteve, se ele é como disse? Até mesmo nos atos mais simples, ele se parece com um corcel puro sangue, do tipo selvagem e impossível de montar.


– Respeito. Em nossa Casa todos são respeitados, sejam escravos ou livres.


– Interessante... Mas creio ser algo perigoso. Nem todos são honrados como o seu gladiador. Alguns são como animais e, se formos generosos em demasia, acabam mordendo a mão que os alimenta.


Kanon ia responder, porém Milo aproximou-se.


– Com sua licença, dominus, quando voltamos para Roma?


– Com pressa de aproveitar sua liberdade? – perguntou Kanon sorrindo e abraçando o gladiador, aproveitando para afastá-lo dos nobres.


– Poucas vezes me senti escravo em sua casa, dominus. Só quero sair desse lugar de merda. – respondeu Milo, baixinho.


Rindo, Kanon caminhou com Milo pela sala para poder falar-lhe às sós.


– Saga pensou que gostariam de comemorar a vitória e partir ao amanhecer.


– Eu venci, mas não há motivos para comemorações. Zelos morreu, Mu, Aldebaran e El Cid estão feridos. Acho que todos gostariam de voltar logo prá casa.


– Deixou-me orgulhoso com sua vitória espetacular. Aliás, sempre o admirei, por isso o trouxe para Gemini. Mas, agora, é um homem livre,Milo, pode ir para onde quiser e quando quiser. Se desejar ficar conosco, saiba que será uma grande felicidade para mim e Saga.


– Eu sempre gostei de Gemini, mesmo quando a domina nos fez passar por certas coisas. – falou Milo vendo que June se aproximava de Saga, sorridente.


– Sem contar que, apesar dos pesares, tem uma certa pessoa, importante para você, esperando para uma comemoração... – disse Kanon sorrindo malicioso e olhando para Camus que se mantinha à distância, mas de vez em quando olhava na direção de Milo.


Milo sorriu e seus olhos brilharam.


– É. Mas, prefiro comemorar quando voltarmos. Não gosto desse lugar.


– Deu prá notar pela sua provocação à Hades.


– Ah, desculpe por isso, mas eu não ia deixar passar a oportunidade de esfregar aquele gládio na cara daquele filho da puta. Eu não estou orgulhoso por mim, estou orgulhoso por todos os meus companheiros. Ele não conseguiu o que queria, porque não somos inferiores como ele imaginou, então que engula a nossa vitória à seco.


– Você não tem jeito, Milo... – disse Kanon sorrindo. — Então... vamos voltar. Vou falar com Saga. Se saírmos agora, chegaremos a Roma pela manhã.


– Obrigado, dominus.


Novamente, Milo sorriu e atravessou a sala, indo falar com Camus.


Hades disfarçava bem e conversava com o Pretor. Por um instante, observou a conversa de Milo e Camus, reconhecendo, nos gestos e olhares que ambos partilhavam, uma intimidade profunda visto que pareciam controlar-se para não se agarrarem ali, na frente de todos.


Lembrou-se de quando Camus lhe dissera ser um servus manus e uma ideia perversa começou a tomar forma em sua mente... Como dizem os sábios, “destrois o que teu inimigo ama e terás o poder de destruí-lo, definitivamente.”


Sorriu, sorvendo o vinho trazido pelo servo do Pretor e continuou a deixar sua mente fervilhar de ideias, todas elas visando destruir tanto Milo, quanto Gemini.


"Quem diz que a vingança é amarga não tem paladar. Ela é doce, gostosa e uma inesgotável fonte de prazer..."


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Os primeiros raios da alvorada se insinuavam na paisagem, quando todos avistaram a domus. Os escravos que haviam permanecido vieram receber seus senhores e os outros escravos; logo, tanto os feridos, quanto os sãos, estavam acomodados e desfrutavam de alimentação e acomodação decentes.


Albafica teve a ajuda de Nailah que mostrava-se prestativa e com visível interesse na arte de curar. Enquanto o escravo cuidava de El Cid, ela cuidava de Mu e Afrodite cuidava de Aldebaran.


El Cid permanecia carrancudo e mal falava, mesmo quando sentia dor. Albafica limpou e cobriu seus ferimentos com cuidado e nada disse. Sabia que o gladiador estava profundamente irritado e, ao mesmo tempo, também se sentia desmerecido, afinal, o homem que amava parecia preferir ter morrido que estar junto a si.


Mesmo se beneficiando com os cuidados de Albafica, o gladiador ainda estava engasgado com a atitude de Milo. Sentia-se um homem sem brio, incapaz, fraco... Mal acreditou quando o companheiro de lutas, agora liberto, entrou e o encarou bem dentro dos olhos.


– Olha Cid, eu vim resolver isso logo. Eu sei que...


Milo não terminou a frase. El Cid levantou-se e, mesmo ferido, desferiu um soco violento com a outra mão no rosto de Milo fazendo-o bater com as costas na parede. O gladiador sentiu um filete de sangue escorrer pelo canto da boca, mas mesmo assim não se defendeu. Recebeu mais um soco e outro e outro, até Albafica gritar:


– Chega! Pare com isso!


El Cid olhou-o com o cenho franzido e o punho no ar, pronto para mais um soco.


Milo não se defendia e Albafica, ignorando El Cid, foi na sua direção. O gladiador continuava sangrando e Albafica usou um pano de linho para limpar-lhe o corte no lábio. Em seguida, sem que Milo esperasse, Albafica beijou-o de leve nos lábios e depois o abraçou com força, sussurrando:


– Obrigado por salvar a vida desse cabeça dura e também... por não reagir.


– Albafica! – gritou El Cid, agora ainda mais possesso e cheio de ciúmes.


– Escute aqui, gladiador, e escute bem! Se preferia ter morrido, naquele chiqueiro onde estava na cara que era uma armadilha, uma forma covarde daquele asqueroso do Hades exercer sua vingança, ao invés de permanecer vivo e junto comigo, pode me esquecer! Fique aí chafurdando em ira e autopiedade que eu tenho mais o que fazer! – gritou Albafica com raiva e deixando a cela, logo em seguida.


El Cid viu-o sair pisando duro e ficou sem ação, por alguns instantes.


– Albafica... – sussurrou ele, mas o jovem já tinha desaparecido.


Milo olhou para a porta e depois para El Cid.


– Olha, se eu estivesse no seu lugar eu ia ficar puto também, mas foi como o Albafica disse, era uma armadilha, uma vingança do Hades contra Gemini e, principalmente contra mim e eu... Eu não queria perder um companheiro de valor por causa da covardia daquele canalha. Eu peço desculpas, não quis manchar sua honra. – disse Milo estendendo a mão para El Cid.


O moreno encarou-o por alguns segundos, depois olhou para a mão estendida e apertou-a.


– Está bem, eu aceito suas desculpas, mas... nunca mais faça isso. Se algum dia eu tiver que morrer, que seja na arena ou em uma batalha qualquer, e não quero ninguém lutando por mim.


– Certo. Mas, enquanto isso, acho melhor você ir atrás do Albafica. Eu acho que ele tá precisando sentir que você o ama mais que a sua espada.


El Cid ficou ainda mais sério.


– Eu amo Albafica. Ele sabe.


– Eu também sei que o Camus me ama, mas ouvi-lo dizer, naquela hora em que eu me sentia exausto e meu corpo todo doía, foi a diferença entre a vida e a morte. E se quer saber, eu sempre adorei lutar, mas se eu tiver de escolher entre a arena e o Camus, eu não penso duas vezes e aposento a espada.


A expressão de El Cid suavizou quando viu, nos olhos de Milo, que ele dizia aquilo do fundo do coração. Suspirou profundamente, constatando que também amava Albafica mais que tudo. Ergueu-se com dificuldade e então, foi atrás do homem que amava...


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June estava quieta, apenas observando Saga que lia e relia vários manuscritos. Desde que chegara, ele não fora dormir. Dispensara Camus e agora fazia anotações e remexia na vasta estante onde guardava obras e documentos.


– Posso saber por que não está descansando? A viagem de volta, depois de toda aquela comoção, foi cansativa. — disse ela, aproximando-se de Saga pelas costas.


– Pergunto o mesmo, por que está aqui e não em seus aposentos? – devolveu Saga se afastando, como se ela pudesse apunhalá-lo.


– Saga... Eu queria que soubesse que eu... Bem, eu fui...


– Traiçoeira e vil. Eu já sei, então não precisamos voltar a esse assunto.


June ruborizou e desviou o olhar.


– Você jamais me dará a chance de me redimir, não é?


– Para você me trair de novo? Não, minha querida, não negligencie minha inteligência, por favor! Já fui tolo, mas aprendi minha lição.


– Então pretende me manter como fachada para o resto da vida?


Nada é para sempre. Mas, por enquanto, estou pensando em coisas mais importantes, portanto, gostaria que me deixasse só.


Engolindo a humilhação, June se retirou, encontrando Kanon no caminho. Os olhares se encontraram, porém ela nada disse e seguiu rumo aos seus aposentos.


Kanon entrou na vasta biblioteca, encontrando Saga afundado entre vários manuscritos. Sorriu ao ver-lhe a expressão séria e compenetrada e abraçou-o por trás, beijando-o na curva do pescoço.


– Precisa descansar. O que tem de tão importante que não pode esperar? Acabamos de chegar de uma viagem cansativa.


– Ah, Kanon... A vitória de Milo e a forma com que todos lutaram naquela arena. Foi... Foi tão forte, tão emocionante que eu... Bem, eu gostaria de colocar uma ideia em prática, mas preciso do seu apoio.


– Meu apoio? Para quê? – perguntou Kanon franzindo o cenho.


– Tornar Gemini a primeira domus e ludus a possuir gladiadores e trabalhadores livres.


A expressão de Kanon mudou da surpresa para a seriedade.


– Você quer libertar todos? Torná-los trabalhadores que recebem *salário?


– Sim, a cada espetáculo, nossa ludus se torna mais próspera e rica. Posso arcar com esse ônus e realizar o que sempre vislumbrei, homens que defendem Gemini por uma escolha consciente e não pelo chicote ou submissão.


Ainda sério, Kanon nada disse. Saga encarou-o, buscando uma resposta naqueles olhos verdes e profundos que eram iguais aos seus. O centurião tocou-lhe o rosto, focando na boca entreaberta do irmão.


– Realize seu sonho... Sempre o admirei por pensar diferente dos demais. Desde pequeno que você é justo e tem ideias revolucionárias. Mas, meu medo é que suas ideias não sejam bem vistas pelo Senado e pelo... Imperador. Sabe que ele é um escravocrata, assim como a maioria dos nobres romanos.


– Não estou defendendo a abolição, pelo menos, por enquanto... Deixarei que pensem que enlouqueci e premiei meus homens com a liberdade em um de meus acessos. – disse Saga sorrindo.


– Eu o apoiarei, mas tome cuidado e não diga nada que possa ser usado contra você. Agora vá descansar um pouco.


– Fique comigo... Sinto saudades do calor e do aconchego do seu corpo. – sussurrou Saga mordiscando o lábio inferior do irmão.


– Não é seguro, deixemos para mais tarde quando sairmos para executar alguma importante tarefa. Será a desculpa perfeita para nos amarmos em nosso... recanto privativo.


Saga sorriu, sentindo o hálito quente de Kanon e também a ereção desperta dele, quando ele o abraçou e aprofundou o beijo. Seu corpo correspondeu e, a muito custo, conseguiram despreender-se um do outro.


Camus entrou na biblioteca, presenciando o momento fugaz dos dois e sorriu, sem jeito. Kanon o viu e sorriu também.


– Aproxime-se, rapaz! Sei que deve estar orgulhoso e também satisfeito com o desfecho do torneio. Creia-me, vai ficar ainda mais! – disse o general.


Franzindo o cenho, Camus obedeceu e Saga foi ao seu encontro, segurando-o pelos ombros e encarando-o.


– Quero que seja o primeiro a tomar conhecimento da minha decisão. Venha, vamos sentar e beber um bom vinho. – disse o cônsul.


Camus sorriu um tanto desconfiado, mas aceitou. Notou, surpreendido, que Saga mandara vir uma ânfora de vinho mediterrâneo, um vinho caro que só era servido em ocasiões especiais e nunca dividido com pessoas consideradas inferiores. Quando encarou seu senhor, ele apenas elevou a taça e falou:


– À liberdade!


– À liberdade... – repetiu Camus, refletindo sobre qual liberdade Saga se referia.


Saga saboreou o vinho, vagarosamente, deixando Camus ansioso, mas ainda assim parecendo calmo.


– Não vai perguntar-me sobre qual liberdade eu falo? – questionou Saga.


– Deve ser um projeto audacioso, já que serviu vinho mediterrâneo a um escravo. – respondeu Camus.


Um sorriso orgulhoso brotou nos lábios de Saga. Admirava a sagacidade de Camus e a forma firme e tranquila com que ele se colocava.


– Devemos brindar à Dohko, onde quer que ele esteja, por me enviar você. Fui, duplamente, abençoado. Tenho a melhor pena e a melhor espada de Roma! Os deuses me sorriram e lhes sou muito grato. – disse Saga.


Camus ficou com o coração acelerado. Saga prometera libertá-lo se o plano desse certo e, de certa forma, as coisas estavam se encaminhando. Ele e Milo livres!


– Bem, meu caro Camus, eu prometi libertá-lo e vou fazê-lo. Entretanto, não só você e Milo gozarão da liberdade, mas todos os escravos desta casa. Gemini será a primeira domus e ludus que será composta por homens livres.


– Vai libertar todos? – perguntou Camus.


– Sim, todos. Os que desejarem permanecer comigo o farão pela vontade e não pela coação. Todos serão pagos para desempenhar as mesmas funções, só que agora, poderão construir uma vida própria. Ainda não serão considerados como cidadãos, mas isso é questão de tempo.


– É... uma ideia surpreendente, dominus. O sonho de dominus Dohko, finalmente, será colocado em prática. – disse Camus sorrindo.


– Quero que comemorem esta noite, sabendo que essa, será a última noite, como escravos.


– Certamente, dominus. Quando irá se pronunciar?


– No jantar. Até lá, guarde segredo, quero fazer uma surpresa. Mandei chamar Afrodite para que prepare uma grande festa e, só então, depois que todos estiverem reunidos eu colocarei minha decisão.


– Sim, dominus.

Camus deixou a biblioteca com uma sensação exultante dentro do peito. Parecia que tudo se encaminhava para um desfecho benéfico e feliz. Pela primeira vez, sentia que a vida tomava um rumo promissor. Afrodite encontrou-o, no meio do caminho, e sorriu.


– Você me parece bem feliz! Também pudera, Milo venceu e agora é um homem livre. Ele pode lutar e receber um bom dinheiro. Quem sabe ele não junta o suficiente para comprá-lo de Saga, heim? – falou Afrodite.


– Quem sabe... – disse Camus. sorrindo por dentro ao imaginar a expressão de Afrodite quando soubesse da novidade.


Afrodite suspirou e retomou o seu caminho, sob o olhar complacente de Camus.


Assim que o loiro adentrou a biblioteca, Camus correu até as celas.


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Quando viu Camus vir ao seu encontro, Milo sorriu, abraçando-o com força e tomando o rosto do ruivo com sua mão forte.


– Ah, Camus... Eu pensei que só o veria à noite. – disse o gladiador.


– Eu também, mas...


Camus não terminou de falar. Seus lábios foram tomados pelos de Milo. A boca áspera, faminta e ardente cobriu a sua e nada mais fez sentido. A mesma sensação estonteante de sempre o tomou por inteiro e ele se deixou seduzir...


Milo puxou-o para mais perto, apertando-o tanto que Camus pode sentir a pressão da ereção contida.


– Milo... eu... quero falar com... – sussurrou Camus ao sentir os dedos grossos deslizando por seus cabelos empurrando-o contra a parede.


– Nada de conversas ruivo... Eu quero matar a saudade. – murmurou Milo contra os lábios de Camus.


Camus suspirou, ergueu o corpo e entreabriu ainda mais os lábios. Também queria... Cada toque ou até mesmo olhar de Milo fazia surgir uma violenta onda de desejo que se apossava de seu corpo e o fazia esquecer-se do resto e somente, ansiar pelas carícias e pela possessão.


Milo gemeu e levou as mãos aos quadris do ruivo, erguendo-o de encontro a si, a língua provocando os lábios e deslizando entre eles, a perna entre as de Camus fazendo-o ofegar ao sentir a pressão entre as coxas...


O gladiador expôs seu membro duro e pulsante com desvario. Colocou a mão entre as coxas de Camus e tocou-o, sentindo o calor e o pulsar do falo que também estava ereto.


– Olhe para mim... – ordenou.


Camus obedeceu, fixando aqueles incríveis olhos azuis no rosto afogueado do gladiador. Milo agarrou-lhe as coxas, colocando-as ao redor de seus quadris, encostando-o na parede. Beijou-o e o fez subir e descer, roçando em seu falo, sentindo-o estremecer cada vez que sua língua se aprofundava e sugava o calor que emanava de sua boca.


O sabor, o calor das peles, era tudo sempre tão intenso, tão amedrontador que fazia Camus perder-se naquele mar de sensações e prazeres...


Logo estavam na cama, com Milo afundando-se dentro do corpo quente de Camus...


Ofegos e gemidos disputavam a primazia entre os beijos longos e profundos que ambos trocavam a cada encontro dos quadris...


Tanto Milo, quanto Camus sentiam o sexo latejar e logo chegavam ao clímax, os músculos se contraindo num orgasmo rápido, ambos explodindo num êxtase quase insuportável.


Estremecendo, Camus deixou-se derramar, enquanto Milo continha seu grunhido com um beijo profundo e sentia a cavidade apertá-lo, fazendo-o gozar também. A força do sêmen inundando o interior do amante o fez esquecer que possuía ferimentos e ele gemeu alto, o prazer estampado nos lábios que sorriram em meio ao gemido rouco...


– Milo... Sua coxa está sangrando. – disse Camus.


– E quem se importa? Eu não podia aguentar até a noite, eu precisava de você... – falou Milo ainda ofegante.


– Você é louco, gladiador. – argumentou Camus sorrindo e vendo puro deleite nas feições fortes de Milo e nenhum desconforto ou dor.


– Louco por você, ruivo... – disse Milo com a voz rouca e tornou a beijá-lo, até sentir que algo endurecia e dava sinais que estava pronto para continuar.


Camus levou as mãos ao rosto de Milo e puxou-o de encontro à boca, mordiscando-o e tocando a língua na dele. Logo, Milo o penetrava, novamente, agora mais fácil com o sêmen que lubrificava o interior da cavidade do ruivo.


Arfando e gemendo, mais uma vez Camus escalou o mundo erótico desvelado por Milo, a sofreguidão, a louca necessidade que ambos tinham do corpo um do outro... Quando o orgasmo chegou, ambos os corpos foram abalados pelos tremores intensos e, mais uma vez, as bocas comungaram calor, saliva e ofegos entrecortados.


– Eu te amo, Milo... – disse Camus e desta vez, Milo entendeu cada palavra e, além delas, pois o olhar intenso e caloroso que Camus lhe deu foi tão explícito que sentiu o coração acelerar.


– Também te amo, Camus... Amo tanto que sou capaz de qualquer coisa por este amor. falou Milo, enquanto beijava o amante, fazendo-o tremer com o toque da língua ávida e cheia de segundas intenções.


Rindo, Camus abraçou-se ao amante.


– A única coisa que eu desejo é tê-lo ao meu lado, sempre... – disse o ruivo.


– E você terá. – falou Milo virando de lado e puxando Camus para cima do seu corpo.


Camus fechou os olhos e se permitiu ser abraçado, as mãos fortes acariciando suas costas, a sensação de estar protegido de tudo...


Ficaram algum tempo rindo e conversando baixinho, até Milo fechar os olhos e adormecer. Camus observou-o com ternura, acariciando os cabelos da cor do sol.

Obrigado, meu amado por ter me libertado da dor e do medo de amar... Pensou o ruivo, enquanto outras visitas ocupavam as celas próximas a de Milo com o mesmo propósito que o seu.


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Afrodite também fora às celas, ansioso e excitado.


Logo que Saga o incumbira de organizar uma festa e ele instruíra os outros servos no que deviam fazer. Havia sentiu que tinha algo no ar, quando Saga recebeu-o disposto e bebendo o vinho mediterrâneo. Entretanto, ao questioná-lo, o dominus sorrira e lhe dissera que seria uma grande surpresa. Paciência. Era curioso, mas sua curiosidade estava perdendo para a vontade de ver Máscara da Morte.


Então, aproveitou para ver Máscara da Morte, já que não tinham se encontrado e ele temia que o gladiador interpretasse a sua ausência como falta de interesse. Não gostaria de ter de se livrar de outra vagabunda disposta a satisfazer o seu homem.


Desceu as escadas um tanto apressado, mas ao chegar perto da cela de Máscara da Morte, tornou a andar devagar e ereto, afinal, mesmo querendo muito, não podia mostrar-se tão disponível assim...


Quando viu a bela figura adentrar sua cela, Máscara ficou sem respirar. Todo o tempo temia que Afrodite o achasse indigno ou já tivesse outro pretendente bem sucedido.


– Então, gladiador... parece que ainda não foi a sua vez, mas achei que lutou muito bem. Quem sabe em outro combate corpo a corpo você leve alguma vantagem? – disse Afrodite encostado à parede com um olhar sugestivo.


Máscara levantou-se da cama e foi até Afrodite e, antes que ele dissesse mais alguma coisa, puxou-o para si e o beijou como já tinha feito outras vezes, porém, desta vez a sede era maior. Afrodite seduzia até piscando os olhos e ele queria ser seduzido pelos olhos e pelo corpo inteiro... Abraçou a cintura de Afrodite, puxando-o para junto do seu corpo, revivendo o intenso prazer que sentia em tê-lo assim, junto a si.


Cheirou aquele pescoço, naturalmente, perfumado, lambendo a pele macia, mordiscando e beijando com luxúria, arrancando um gemido eum risinho baixo do amante. Buscou os lábios do loiro, enroscando a língua ávida na dele, sentindo crescer a excitação a cada movimento.


Afrodite gemeu deliciado e então, apartou o beijo olhando dentro dos olhos de Máscara da Morte. Havia brilho e desejo e o gladiador sorriu rente aos lábios rosados e carnudos, sussurrando baixo:


– Senti a sua falta... Quero você e somente você!- falou o gladiador.


O loiro sorriu e seu coração pareceu se expandir dentro do peito. Adorava ser único e mesmo que nunca tivesse dito, desde que Máscara o possuíra, ele não fora de mais ninguém. Reiniciaram um beijo ainda mais profundo e erótico, as línguas ávidas se enroscando uma a outra com generoso ardor.


Ficaram um tempo explorando, um ao outro, sentindo, fazendo arder o desejo até a necessidade de tocar as peles deixá-los nus e abraçados de forma esmagadora.


Máscara deliciava-se com a sensação de sentir o membro de Afrodite junto ao seu, aquele roçar e a pulsação em conjunto o fazia desejar aprofundar-se dentro do outro.


Afrodite, habilmente, começou a conduzir aquele bailado erótico, beijando e lambendo os mamilos, o tórax musculoso, o vão da virilha e, descendo até o baixo-ventre, envolveu o membro rígido do gladiador em sua boca quente e sensual.


Máscara jogou a cabeça para trás, gemendo e agarrando os cabelos de Afrodite. Ele continuou a sugar e acariciar, até sentir o prazer do amante derramando-se em sua boca. Engoliu o gozo com o olhar fixo em seus olhos febris e depois o beijou com sofreguidão e luxúria. Máscara correspondeu, enlouquecido, sentindo o corpo vibrar e seu sexo endurecer, novamente.


Puxou Afrodite pelos quadris e roçou o membro entre suas nádegas, mordendo e lambendo o suor das costas do outro. Com um gemido, penetrou Afrodite, e começou a masturbá-lo, aprofundando-se dentro dele, gemendo cada vez mais alto e estocando como se quisesse fundir seu corpo ao do amado.


Afrodite tentava conter os gemidos, mas os sons escapavam-lhe da boca cada vez que Máscara estocava e o fazia sentir-se invadido de um jeito tão intenso e tão completo. Começou a empurrar seus quadris para trás, querendo o gladiador mais rápido e mais fundo, penetrando-o com força, inundando-o com o seu gozo.


Num gemido gutural, Máscara da Morte gozou e sentiu Afrodite atingir o orgasmo, desfazendo-se em suas mãos calejadas. Abraçou-o e lambeu a mão molhada, querendo eternizar aquela entrega extrema, o gosto do amante, do amor explícito em cada gota de suor, de saliva e de sêmen.


Aconchegaram-se, de lado, entrelaçando as pernas e olhando- se nos olhos. Havia tanto a dizer e, ao mesmo tempo, tanto a calar. Eram escravos, mas Afrodite era refinado e culto, enquanto ele só sabia matar. Queria dizer que o amava, mas temia mostrar-se, ridiculamente apaixonado por alguém que era superior a si. Era mais fácil enfrentar as feras na arena. Pensava, enquanto tinha aqueles olhos intensos sobre si.


Afrodite olhava para o rosto afogueado de Máscara da Morte, esperando que ele lhe fizesse uma proposta depois de confessar que o desejava. Queria ouvi-lo dizer que o amava e assim que ele o fizesse, ele também confessaria o seu amor.


– Por que está me olhando assim? – perguntou Máscara, incomodado com a sensação que Afrodite parecia penetrar em seus pensamentos com aqueles olhos parecendo joias faiscantes.


– Nada! Só pensei... que queria me dizer alguma coisa. Mas vejo que me enganei. Você me deseja e . Então, esse é o momento em que eu saio de cena, não é mesmo? –falou Afrodite, irritado e fazendo menção de levantar-se da cama.


– Espere. Eu... Não sou bom com palavras e... Porra, Afrodite! Você sabe que é único prá mim, que eu não imagino e nem quero outra pessoa na minha vida, mas... somos escravos! A única esperança que eu tenho é vencer um torneio importante e ser libertado como Milo foi. Só então eu poderei lutar e juntar dinheiro para comprar a sua liberdade também.


Um sorriso genuíno fez Afrodite mostrar os dentes pequenos, alinhados e excessivamente brancos.


Comprar minha liberdade? E para quê? – insistiu o belo escravo.


– Prá ficar comigo, ora. Prá que mais eu desejaria? – respondeu Máscara.


– Pois, não se preocupe com isso. Da minha condição, cuido eu! O que eu quero saber é se me quer como amante eventual ou me quer como companheiro?


– O que te parece? – devolveu Máscara, levando a mão aos cabelos de um jeito nervoso.


– Parece que você está de má vontade e eu estou indo... — falou Afrodite levantando novamente.


Caralho! Mas que homenzinho difícil! Eu te amo, porra! Era isso que queria ouvir? – gritou Máscara da Morte.


– Agora sim! E caso seja do seu interesse, eu também te amo. – disse Afrodite.


Os dois se olharam e riram. Então, Máscara tornou a tomar aquele rosto delicado entre as mãos e beijá-lo. Curvando-se, o gladiador prendeu o lábio inferior dele com os dentes e os puxou gentilmente. Sua língua invadiu a boca de Afrodite, fazendo as pernas do loiro amolecerem e seu baixo ventre voltar a dar sinais...


Como sentia tesão junto àquele homem. Era algo que jamais fora, dessa forma, com outro amante, assim como aquela sensação agradável de saber que após gozar, seu coração ainda sentiria as vibrações do amor que permanecia como uma promessa e uma certeza...


– Te amo, gladiador... – disse Afrodite, enquanto sentia a deliciosa sensação do corpo pesado e musculoso sobre o seu.


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– Vai continuar me ignorando? – perguntou El Cid ao ver Albafica continuar a verificar cada ânfora na despensa.


– Não devia estar aqui. Tem sorte, porque os domini estão descansando. Volte para a sua cela. – disse Albafica, seco.


– Albafica... Eu não queria magoá-lo, mas sou um gladiador! Eu esperava, pelo menos, lutar melhor e...


– Morrer com glória! Não é isso? Para você, ter uma morte gloriosa é mais importante que viver o amor. Não o culpo, então acho que é melhor que cada um siga o seu sonho e creia-me, o meu não é morrer pela espada de um canalha qualquer. Agora se me dá licença, tenho muito que fazer!


El Cid vasculhou o rosto sério e contraído de Albafica. Ele era tão belo quando sorria e gozava em seus braços, mas agora voltara a ter aquele olhar frio e melancólico de antes. Impediu a sua passagem e levou a mão ao rosto, fazendo-o encará-lo.


– Você me trouxe outro olhar sobre a vida, Albafica. Sou guerreiro, mas antes disso, sou apaixonado pelo homem mais belo, sedutor e gentil que existe neste mundo. Por ele, sou capaz de abdicar da glória e deixar a morte para bem mais tarde. Isto é, se ele puder me perdoar.


Os olhos de Albafica se encheram de lágrimas. Enfim, ouvia o que seu coração tanto desejava e temia nunca mais escutar. Sorriu para o homem a sua frente com ternura, o rosto crispado de El Cid, os olhos escuros que sorriam só para ele, fulminando tudo mais ao seu redor, as mãos calejadas e fortes que faziam sua pele arder de desejo...


– Então, pode me perdoar? – perguntou o gladiador.


A resposta veio com um puxão, calculado, da mão de Albafica sobre a mão de El Cid cujo braço não fora ferido. Àquela hora, ninguém descia à despensa e a penumbra seria a única testemunha do que Albafica pretendia. Ele desnudou-se frente ao homem que amava, deixando-o admirá-lo quase sem respirar.


– Eu o perdoo... Sou seu, Cid... – sussurrou ele.


Com a cumplicidade de sempre, El Cid enlaçou sua mão na de Albafica, olhando-o cheio de desejo, enquanto cheirava e chupava o pescoço alvo, deixando marcas roxas, descendo aos mamilos rosados e duros fazendo a volta neles com a língua...


Ouvia os gemidos baixos de Albafica e continuava a trilhar o caminho até a virilha, aproximando-se do membro latejante. Tomou-o com volúpia, em sua boca, enquanto massageava a parte interna da coxa, abrindo-a para receber suas mordidas e seus beijos.


Albafica gemia de forma intensa, os longos cabelos desalinhados pela mão de El Cid que gostava de vê-los soltos, o corpo conhecendo um prazer tão grande que o queimava por dentro.


Agarrava-se a El Cid com força e, apesar de sentir-se invadido pelo prazer que a boca do amante proporcionava, queria tê-lo dentro de si. Sabia que o sexo duro do gladiador ansiava pela invasão, assim como ele queria ser preenchido pela virilidade do amante.


– D-Dentro... quero você dentro de mim... – gemeu Albafica.


Deitaram-se no chão, El Cid esqueceu as dores do corpo e penetrou-o fundo e ambos gritaram com aquela invasão abrupta, para em seguida moverem-se num frenesi de prazer e dor, amor e tesão. Ambos gemiam alto, os corpos chocando-se com força, o orgasmo vindo em ondas avassaladoras, aliado ao suor e ao sêmen que se derramava dentro e fora deles.


El Cid olhou o rosto vermelho e suado de Albafica e sorriu. Era assim que gostava de vê-lo. Pela primeira vez, sentiu-se abençoado por Milo tê-lo salvo e beijou, novamente, aqueles lábios deliciosos e bem feitos, sentindo a língua doce enrolar-se na sua, suspirando, gemendo seu nome...


– Eu te amo, gladiador... E saiba que tive muito orgulho da sua força naquela arena. — disse Albafica com os lábios rentes ao ouvido de El Cid.


O moreno sorriu e puxou-o de encontro a si, ficando com o corpo nu, colado ao dele, sentindo o cheiro da pele alva, um misto de ervas aromáticas com algo desconhecido que sempre o fazia ter uma ereção. Inspirou, queria guardar aquele cheiro na memória, assim como as palavras ditas com sentimento que trocavam naquele lugar inusitado...


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Mu olhava para o rosto sereno de Aldebaran. O amigo passara por maus bocados, mas estava vivo e reagindo aos cuidados de Afrodite. Agora, ele dormia, alheio aos barulhos que vinham das outras celas. Sorrindo, Mu verificou, mais uma vez, que seu amigo não tinha febre e deixou-o, indo até o pátio.


Manigoldo desistira de fiscalizar as celas e resolvera descansar na sua. Mais tarde, conversaria com os rapazes e festejaria. Viu quando Mu dirigiu-se ao pátio e sorriu. Aquele jovem não nascera para ser um gladiador, mas possuía uma fibra de guerreiro.


O sol da tarde prenunciava uma noite amena e aconchegante. O jovem olhou ao redor, sentindo uma espécie de vínculo com aquele lugar. Fora ali que conhecera aquele homem e conversara com ele num dia quente como o que estava fazendo.


Aiolia... Até a sonoridade do nome fazia aquecer o seu coração e despertava nele outras reações nada inocentes...


Como gostaria de vê-lo, novamente, nem que fosse para agradecer a ele por ter salvado a sua vida. Nunca pedira nada aos deuses daquela terra estranha que o tinha escravizado, mas agora, até isso faria para ver Aiolia mais uma vez!


– Pelo que vejo, continua preferindo a solidão. – disse a voz grave às suas costas.


Mu virou-se como se estivesse em um combate. Os olhos se arregalaram ao ver a figura imponente do centurião atrás de si.


– A-Aiolia! – exclamou o gladiador.


– Às suas ordens. – disse Aiolia sorrindo.


Desconcertado, Mu sorriu e levou a mão aos cabelos.


– Eu não esperava que...


– Eu aparecesse? Kanon e Saga convidaram-me para a festa desta noite. Cheguei cedo para que pudéssemos conversar um pouco. Isto é, se você quiser.


– Eu quero. – disse Mu, deixando transparecer o entusiasmo por ver seu desejo se concretizar tão rápido.


Aiolia sorriu e Mu sentiu um calor repentino no peito e um rubor nas faces.


– Tenho que agradecer por ter salvado a minha vida. – disse Mu tentando controlar a excitação.


– Kanon desconfiou de o torneio ser em Cápua, desde o início. Eu me coloquei à disposição para servir de guardião, caso as coisas saíssem do controle. Todos nós sabemos que Hades não é um inimigo com que se possa vacilar.


– Obrigado, se não fosse você, talvez eu não estivesse aqui hoje para comemorar. – falou Mu estendendo a mão para o centurião.


Aiolia aceitou o cumprimento e os olhares se conectaram com uma inteireza e profundidade que fez estancar a respiração de ambos. Mu sentia-se atraído, mas ainda assim, temia estar vendo coisas demais. A beleza e a força de Aiolia enchiam o seu coração, mas, ainda assim era um escravo, enquanto Aiolia era um centurião à serviço de Roma. Não havia possibilidade de algo entre eles...


O centurião percebeu a intensidade do momento e questionou-se sobre o que fazer. Tantas indagações que acabaram por fenecer diante daqueles olhos inquietantes do gladiador... Olhos que pareciam conhecer a sua alma e cujo brilho inocente, parecia despertá-lo para algo muito além do desejo. Sabia que não devia, mas era um sentimento maior que a razão ou o dever.


Aproximou, lentamente, seus lábios dos de Mu, depois o corpo. O beijo que se seguiu foi longo e intenso. O gladiador deixou-se abraçar com força e abandonou-se às emoções que Aiolia lhe despertava.


Quando ambos sentiram a necessidade de respirar, afastaram as bocas, mas ainda permaneceram abraçados, as testas unidas, o hálito quente reverberando nos lábios...


– Como eu desejei este momento... — sussurrou o centurião.


– Eu também, mas não devemos... – disse Mu ainda com os olhos fechados, a respiração ofegante.


A boca de Aiolia cobriu a de Mu impedindo-o de falar que aquilo tudo não era certo. Apertou-o, ainda mais junto ao corpo, fazendo-o sentir o quanto o desejava. Então, ao afastar os lábios dos de Mu, olhou-o bem dentro dos olhos e disse:


– Quero você... E, pelos deuses, nada, nem ninguém, vai se intrometer entre nós.


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O vinho era servido em abundância, assim como as carnes e pães. Todos festejavam, até Aldebaran que, mesmo tendo uma grave ferida nas costas, ria e bebia sem parar. Um bom vinho é o melhor dos remédios! Dizia ele cada vez que enchia a taça.


Milo, Camus, Afrodite, Máscara da Morte, Albafica, El Cid, Mu, Aiolia, os que ainda não tinha adquirido a marca, todos riam e falavam entre si, até Saga elevar a taça e pedir silêncio. Kanon sorria e June permanecia em silêncio, apenas observando.


– Guerreiros de Gemini, esta noite celebramos uma vitória! Uma vitória conquistada com suor e sangue, mas também com força e honra! Perdemos um companheiro que, há essa hora deve estar comemorando nos Campos Elíseos e aqui, juntos, brindamos ao seu valor!


Todos gritaram o nome de Zelos e beberam à sua homenagem.


– Mas, demos uma lição naquele canalha do Hades e ainda ganhamos a atenção do Imperador. – continuou Saga. — Entretanto, eu acredito que esta vitória só será completa, quando eu concretizar um sonho antigo. *Eu digo a vocês hoje, meus guerreiros, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado na certeza que um dia, todos serão livres e considerados cidadãos de Roma! Hoje eu realizo parte deste sonho, todos os homens desta casa serão libertados da sua condição de escravo! Então, elevem as taças e brindem à nova Era, a Era em que Gemini será a primeira domus, cuja ludus será composta por homens livres!


Todos silenciaram, olhando-se um tanto confusos pela notícia dada e pelas consequências trazidas. Mas, logo em seguida, quando Saga explicou como ficaria a situação daqueles homens, todos exultaram e gritaram em uníssono:


Saga! Saga! Saga! Gemini! Gemini! Gemini!


June permaneceu séria, atitude que foi notada por Kanon. Ele se aproximou dela, falando baixo:


– Continue com sua atuação de boa e fiel esposa e sorria.


Ela olhou-o e disse com uma expressão triste:


– Acredite ou não, cunhado, eu temo por Saga. Roma é escravocrata e construiu suas bases políticas e sociais sobre esse sistema. Quando o Imperador souber desse ato tresloucado, colocará o Senado contra esta casa e a vida de seu irmão poderá ficar em risco.


Kanon sorveu mais um gole de vinho e nada disse. Em seu interior, parte das palavras ditas por June encontrou eco e ele temeu por seu amado. Entretanto, ao olhar a felicidade estampada no rosto de Saga, ele sorriu também e deixou os problemas para mais adiante. Ninguém faria mal à Saga, enquanto ele vivesse e tivesse força para protegê-lo!


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O jovem gemia e respirava ofegante tendo seu rosto coberto pela máscara dourada. As feições reproduzidas no objeto eram dele, o único que lhe despertara amor e morrera, tragicamente, em seus braços.


Hades mandara fazer uma máscara mortuária perfeita e quando seu corpo desejava saciar os anseios da carne, ele escolhia um escravo cujo corpo se aproximasse da anatomia do homem que amara e ordenava que colocasse a máscara. Só então fodia com prazer, imaginando que o corpo que adentrava era o de Minos.


A força com que adentrava o corpo esguio do servo fazia escapar gemidos dolorosos do jovem, mas ele não se importava. Continuava em seu enlevo doentio que unia o prazer à dor. Estocava de forma violenta, dilacerando a carne, fazendo balançar o corpo que era obrigado a sufocar as lágrimas e fingir prazer.


Quando Hades, finalmente, gozou, sangue e sêmen escorreram pelas pernas do escravo. Tão abrupto quanto o penetrara, retirou-se de dentro dele e ordenou que o deixasse sozinho. O jovem mal podia andar, mas tratou de sair, pois sabia que se desobedecesse, ainda seria chicoteado.


Com uma expressão de tédio, Hades foi até a sala de banhos e submergiu na água quente, lembrando a última vez que possuíra Minos, ali. Nenhum corpo lhe oferecera tanto prazer quanto o dele e essa lacuna, jamais seria preenchida. Gozava no corpo de outros, mas sentia-se vazio e raivoso, após foder corpos inferiores.


Olhou para a máscara, agora em sua mão. Roçou os lábios nas reentrâncias que reproduziam a expressão de Minos e quando a colocava em si, um escravo adentrou a sala de banhos.


– Perdoe-me por interromper o seu banho, dominus, mas está aí uma escrava que pertence à Casa de Gemini e ela pede urgentemente para falar com o senhor.


Hades ficou sério, mas depois se aconchegou na beira da piscina e ordenou que a deixassem entrar.


Nailah entrou de cabeça baixa, mas logo encarou os olhos frios de Hades com tanta perversidade quanto os do cônsul.


– Então, o que a escrava de Saga faz em minha casa? – perguntou ele.


– Tenho uma notícia que vai agradá-lo, dominus.


– Que tipo de notícia? Por acaso, Saga teve um mal súbito e deixou este mundo? – perguntou ele num tom sarcástico.


– Bem, ainda não, mas... ele acaba de fazer algo que pode levá-lo à ter problemas.


– E o que seria?


– Libertou todos os seus escravos. – disse ela, observando o semblante de Hades mudar do tédio para o prazer.


Fim da primeira temporada...

Notas finais
Meu muito obrigado a todos que leram, comentaram, silenciaram, divulgaram a fic, enfim, o carinho e a atenção foram os combustíveis que me inspiraram a escrever e perseverar mesmo nos momentos em que meu tempo e suas obrigações me deixavam exausta. Obrigada, de coração:
Mel Dark, Shall, Angelique, Channie,Tuany, Hitsujikai Atsuya, ddkcarolina, JaneNegume, Litha_chan, Kao, Mililika, Kemylly, Sion Neblina, Persefone_san, PollyWeasley, Guima, pollymayfair, Vanessa Braga da Silva, Carlos Sama e todos que, de alguma forma ou outra, leram, se emocionaram e colocaram sua energia na fic! Amo todos vocês!!! Bjs, XD
* Uma das formas de pagamento no império romano era o sal, um valioso produto que servia como instrumento de troca. Daí o surgimento da palavra salário.
* No discurso de Saga, eu me inspirei no discurso de Martin
Luther King, um homem que, acima de tudo, sonhou com a igualdade entre os homens e com a não-violência.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!